{"id":4732,"date":"2014-06-24T18:24:29","date_gmt":"2014-06-24T21:24:29","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/mineracao-e-hidreletricas-em-terras-indigenas-leia-na-integra\/"},"modified":"2017-04-05T16:37:09","modified_gmt":"2017-04-05T19:37:09","slug":"mineracao-e-hidreletricas-em-terras-indigenas-leia-na-integra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/mineracao-e-hidreletricas-em-terras-indigenas-leia-na-integra\/","title":{"rendered":"Minera\u00e7\u00e3o e Hidrel\u00e9tricas em Terras Ind\u00edgenas"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/catolicanet.com.br\/images\/stories\/mineracao.jpg\" border=\"0\" align=\"left\" \/>Publicamos abaixo a \u00edntegra do documento &#8216;Minera\u00e7\u00e3o e Hidrel\u00e9tricas em Terras Ind\u00edgenas&#8217;, preparado por uma comiss\u00e3o institu\u00edda pelo bispo de Roraima, Dom Roque Paloschi, que o assina. Est\u00e1 publicado tamb\u00e9m no site da Confer\u00eancia Nacional dos Bispos do Brasil.<\/p>\n<p>\u201cA Igreja est\u00e1 na Amaz\u00f4nia n\u00e3o como aqueles que t\u00eam as malas na m\u00e3o, para partir depois de terem explorado tudo o que puderam\u201d. (Papa Francisco aos Bispos do Brasil, Rio de Janeiro, 27 de julho de 2013.)<\/p>\n<p>O nosso pa\u00eds intensificou, nos \u00faltimos anos, uma pol\u00edtica de crescimento econ\u00f4mico que passa pela explora\u00e7\u00e3o dos recursos naturais para a exporta\u00e7\u00e3o. Este modelo econ\u00f4mico n\u00e3o \u00e9 novo e j\u00e1 nos legou marcas de desigualdade social e de injusti\u00e7a ambiental: os benef\u00edcios ficam na m\u00e3o de poucos, enquanto os impactos e preju\u00edzos, muitos deles irrevers\u00edveis, pesam sobre as costas de comunidades ind\u00edgenas, camponesas, ribeirinhas e quilombolas; repercutem ainda no incha\u00e7o de muitas de nossas cidades. Mesmo n\u00e3o sendo um modelo novo, estamos assistindo a sua intensifica\u00e7\u00e3o, fazendo lembrar as pol\u00edticas do mal chamado \u201cdesenvolvimento\u201d, que o Regime Militar impulsionou na d\u00e9cada de 1970.<\/p>\n<p>Tal realidade \u00e9 mais gritante na regi\u00e3o amaz\u00f4nica. Dezenas de projetos de m\u00e9dias e grandes hidrel\u00e9tricas est\u00e3o barrando o curso dos rios que formam a bacia amaz\u00f4nica. Do Teles Pires ao rio Branco, do Madeira ao Tapaj\u00f3s e o Xingu, passando por outras barragens projetadas sobre rios amaz\u00f4nicos de pa\u00edses vizinhos, como Peru e Bol\u00edvia. Os impactos ambientais desses grandes projetos s\u00e3o incalcul\u00e1veis e irrevers\u00edveis, j\u00e1 suficientemente demonstrados por estudos cient\u00edficos e pela pr\u00f3pria experi\u00eancia de projetos passados. E os impactos sobre os territ\u00f3rios e a vida de tantas comunidades ribeirinhas e ind\u00edgenas, considerando particularmente os povos ind\u00edgenas isolados, ser\u00e3o grav\u00edssimos.<\/p>\n<p>Os grandes projetos hidrel\u00e9tricos n\u00e3o s\u00e3o pensados para as comunidades e regi\u00f5es locais. Respondem a interesses maiores, de grandes empresas nacionais e transnacionais e ao \u00eddolo do crescimento macroecon\u00f4mico que a miopia pol\u00edtica insiste em perseguir. Hidrel\u00e9tricas e Minera\u00e7\u00e3o sempre andaram juntas: todo projeto hidrel\u00e9trico abre a porta, favorece e alimenta os grandes projetos de minera\u00e7\u00e3o para exporta\u00e7\u00e3o que rondam a Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>O Governo Federal prop\u00f5e-se a multiplicar por quatro a explora\u00e7\u00e3o mineral em nosso pa\u00eds at\u00e9 2030. No decorrer dos pr\u00f3ximos anos, incrementar\u00e1 grandes projetos extrativos, raz\u00e3o pela qual se empenha, junto com o Congresso Nacional, pela aprova\u00e7\u00e3o do Novo C\u00f3digo de Minera\u00e7\u00e3o. Circula ainda na C\u00e2mara dos Deputados o Projeto de Lei 1610\/99. Este Projeto de Lei visa regulamentar a minera\u00e7\u00e3o em terras ind\u00edgenas, sem garantir salvaguardas sobre lugares sagrados nem medidas para proteger a vida das comunidades.<\/p>\n<p>A Amaz\u00f4nia, como se sabe, \u00e9 regi\u00e3o cobi\u00e7ada pelos interesses miner\u00e1rios que re\u00fanem grandes empresas transnacionais a setores pol\u00edticos e econ\u00f4micos de nosso pa\u00eds. Recordamos os 30 anos da explora\u00e7\u00e3o no Caraj\u00e1s como prova de que a minera\u00e7\u00e3o em grande escala traz consequ\u00eancias funestas: \u00e9 um tipo de economia que absorve a maior parte dos empreendimentos econ\u00f4micos sem conseguir diversific\u00e1-los nem construir uma perspectiva de sustentabilidade na regi\u00e3o. Provoca a chegada de milhares de trabalhadores, a cria\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea de vilas e cidades e o ac\u00famulo de toneladas de rejeitos. N\u00e3o existem experi\u00eancias bem sucedidas de pol\u00edticas preventivas ao fim do min\u00e9rio. Quando a explora\u00e7\u00e3o mineira se esgota (muitas vezes antes do previsto), os impactos deixados se tornam irrevers\u00edveis e a recupera\u00e7\u00e3o social, econ\u00f4mica e ambiental fica comprometida.<\/p>\n<p>A quem pode interessar um crescimento econ\u00f4mico assim? \u00c9 este o desenvolvimento em que acreditamos, aquele que gera vida para todos e vida em abund\u00e2ncia?<\/p>\n<p>No m\u00eas de maio, povos ind\u00edgenas de Roraima, Guiana e Venezuela, junto com o CIMI, o ISA e outros, reuniram-se na comunidade de Tabalascada no I Semin\u00e1rio sobre Minera\u00e7\u00e3o e Hidrel\u00e9tricas em Terras Ind\u00edgenas. Nesse encontro, os povos ind\u00edgenas levantaram sua voz firme e clara contra esses grandes projetos em seus territ\u00f3rios. \u201cPara n\u00f3s, o que tem import\u00e2ncia \u00e9 a terra, a vida, as florestas, os animais, a cultura, a tranquilidade e essa forma de vida garantida para nossas futuras gera\u00e7\u00f5es\u201d, afirma o documento final do encontro. Do territ\u00f3rio guianense, 68%podem ser afetados por projetos de minera\u00e7\u00e3o e hidrel\u00e9tricas. Na Venezuela, avan\u00e7am as concess\u00f5es de vastas \u00e1reas amaz\u00f4nicas do pa\u00eds para empresas chinesas, enquanto 90% das terras ind\u00edgenas ainda n\u00e3o foram demarcadas. O Brasil, al\u00e9m de encaminhar propostas legislativas visando permitir e facilitar esses empreendimentos nos territ\u00f3rios ind\u00edgenas, j\u00e1 vem comprometendo recursos p\u00fablicos (de todos n\u00f3s!) no financiamento de grandes projetos em pa\u00edses vizinhos, como Peru, Bol\u00edvia e Guiana.<\/p>\n<p>Os povos ind\u00edgenas t\u00eam o direito de serem consultados e definirem livremente o caminho que querem seguir. Em uma Nota da Hutukara Associa\u00e7\u00e3o Yanomami \u2013 HAY, Davi Kopenawa Yanomami afirma sabiamente: \u201cN\u00f3s n\u00e3o somos contra o desenvolvimento: n\u00f3s somos contra apenas o desenvolvimento que voc\u00eas, brancos, querem empurrar para cima de n\u00f3s [..].N\u00f3s, Yanomami, temos outras riquezas deixadas pelos nossos antigos que voc\u00eas, brancos, n\u00e3o conseguem enxergar: a terra que nos d\u00e1 vida, a \u00e1gua limpa que tomamos, nossas crian\u00e7as satisfeitas\u201d. Os Estados, por sua vez, t\u00eam o dever legal e moral de consultar os povos ind\u00edgenas sobre quaisquer empreendimentos ou iniciativas legislativas que os afetem, e, em decorr\u00eancia, respeitar assuas decis\u00f5es.<\/p>\n<p>Os povos amaz\u00f4nicos s\u00e3o portadores de uma enorme contribui\u00e7\u00e3o para a vida e o nosso futuro. Sua profunda espiritualidade, sua rela\u00e7\u00e3o com a M\u00e3e-Terra, com as florestas, os rios e todas as formas de vida com que convivem; seu impressionante acervo de conhecimentos aponta caminhos diferentes e humanizadores para todos n\u00f3s.<\/p>\n<p>Minera\u00e7\u00e3o e Hidrel\u00e9tricas s\u00e3o faces de um projeto econ\u00f4mico que \u00e9 lesivo n\u00e3o apenas para os povos ind\u00edgenas, mas para toda a sociedade e o planeta. Agride a Vida e compromete as gera\u00e7\u00f5es que vir\u00e3o depois de n\u00f3s. Como diz o Documento de Aparecida, conclusivo da V Confer\u00eancia Episcopal da Am\u00e9rica Latina e do Caribe: \u201cNossa irm\u00e3 a m\u00e3e terra \u00e9 nossa casa comum e o lugar da alian\u00e7a de Deus com os seres humanos e com toda a cria\u00e7\u00e3o. Desatender as m\u00fatuas rela\u00e7\u00f5es e o equil\u00edbrio que o pr\u00f3prio Deus estabeleceu entre as realidades criadas, \u00e9 uma ofensa ao Criador, um atentado contra a biodiversidade e, definitivamente, contra a vida\u201d. (DAp.125).<\/p>\n<p>Boa Vista (RR), 06 de junho de 2014<\/p>\n<p>Roque Paloschi, bispo da Diocese de Roraima<\/p>\n<p><strong>Fonte:<\/strong> R\u00e1dio Vaticano<br \/><strong>Local:<\/strong> Boa Vista<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Publicamos abaixo a \u00edntegra do documento &#8216;Minera\u00e7\u00e3o e Hidrel\u00e9tricas em Terras Ind\u00edgenas&#8217;, preparado por uma comiss\u00e3o institu\u00edda pelo bispo de Roraima, Dom Roque Paloschi, que o assina. Est\u00e1 publicado tamb\u00e9m no site da Confer\u00eancia Nacional dos Bispos do Brasil. \u201cA Igreja est\u00e1 na Amaz\u00f4nia n\u00e3o como aqueles que t\u00eam as malas na m\u00e3o, para partir [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-4732","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cotidiano"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4732","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4732"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4732\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9614,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4732\/revisions\/9614"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4732"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4732"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4732"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}