{"id":4711,"date":"2014-06-17T12:56:51","date_gmt":"2014-06-17T15:56:51","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/copa-do-mundo\/"},"modified":"2017-04-05T16:53:55","modified_gmt":"2017-04-05T19:53:55","slug":"copa-do-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/copa-do-mundo\/","title":{"rendered":"Copa do Mundo"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Com o in\u00edcio da Copa do Mundo algumas mensagens chamam nossa aten\u00e7\u00e3o: o Papa Francisco nos recordou que \u00e9 um tempo de ser solid\u00e1rio e ocasi\u00e3o de di\u00e1logo, de compreens\u00e3o, de enriquecimento humano reciproco. Ele lembra que o futebol deveria ser \u201cuma escola para a constru\u00e7\u00e3o de uma cultura de encontro, que permita a paz e a harmonia entre os povos\u201d.<br \/>A nossa Confer\u00eancia Episcopal, em sua mensagem \u201cjogando pela vida\u201d, recorda que a sociedade brasileira \u00e9 convidada a aderir ao projeto \u201cCopa da Paz\u201d e \u00e0 campanha \u201cjogando a favor da vida \u2013 denuncie o tr\u00e1fico humano\u201d. Recorda que \u201csomos convocados para formar um \u00fanico time, no qual todos seremos titulares para o jogo da vida que n\u00e3o admite espectadores.\u201d<br \/>A nossa Arquidiocese, detentora dos s\u00edmbolos crist\u00e3os das Olimp\u00edadas (recebemos de Londres), iniciou a campanha pelos 100 dias de paz que, embora seja um tema para 2016, j\u00e1 come\u00e7amos a trabalhar neste ano. <br \/>Por isso, diante de tanta intoler\u00e2ncia que assistimos nos est\u00e1dios, tanta viol\u00eancia de uns contra outros, creio que seria bom refletir sobre essa quest\u00e3o ao vivermos este tempo de Copa do Mundo e a nossa miss\u00e3o neste tempo de tantas mudan\u00e7as.<br \/>A Copa do Mundo de Futebol \u00e9 um grande evento que chama a aten\u00e7\u00e3o de muitas pessoas desejosas de acompanharem as partidas desse esporte surgido, em sua atual modalidade, na Inglaterra do s\u00e9culo XIX. <br \/>N\u00e3o obstante \u00e0 festa, existem, de modo ora mais expl\u00edcito ora mais velado, epis\u00f3dios de racismo contra torcedores ou jogadores estrangeiros que acompanham ou participam de algumas pelejas futebol\u00edsticas. Da\u00ed a oportunidade de abordarmos a quest\u00e3o neste artigo \u00e0 luz do documento \u201cA Igreja e o racismo\u201d que, publicado pela Pontif\u00edcia Comiss\u00e3o de Justi\u00e7a e Paz, da Santa S\u00e9, em 3 de novembro de 1988, conserva plena atualidade.<br \/>Entende-se por racismo \u201ca consci\u00eancia de pretensa superioridade biol\u00f3gica de determinada ra\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s outras\u201d, atitude que, sem d\u00favida, gera disputas irracionais entre seres humanos feitos \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a de Deus a fim de serem co-construtores de um mundo de harmonia, fraternidade, justi\u00e7a e paz, em benef\u00edcio de todos, e n\u00e3o fratricidas, como querem as ideologias racistas.<br \/>O Documento da Santa S\u00e9 historia para n\u00f3s a vergonhosa chaga do racismo, demonstrando que a quest\u00e3o tem in\u00edcio, em linguagem b\u00edblica, em G\u00eanesis 11, quando, como fruto do pecado, os homens, desligados de Deus, mas cheios de si, tentam construir uma torre, a de Babel, cujo v\u00e9rtice toque os c\u00e9us. Esse gesto insano, mas fracassado, de uma pretensa superioridade que desafia o Criador se voltar\u00e1, em breve, tamb\u00e9m contra o pr\u00f3ximo, pois pensa o orgulhoso: \u201cn\u00e3o preciso de Deus, nem do meu semelhante. Sou autossuficiente, superior a tudo e a todos. O mundo, por conseguinte, est\u00e1 em minhas m\u00e3os e tudo o que h\u00e1 nele me \u00e9 inferior e est\u00e1 sob o meu poderoso dom\u00ednio\u201d.<br \/>Registra-se, por exemplo, que na antiguidade Greco-romana n\u00e3o pareceu reinar o mito defensor de ra\u00e7as superiores e inferiores, embora existisse por parte dos povos vencedores a escravid\u00e3o de povos vencidos em guerra. A ocorr\u00eancia se dava, no entanto, devido a quest\u00f5es militares e n\u00e3o raciais.<br \/>Entre os hebreus havia a consci\u00eancia de que Deus os amava de modo especial devido \u00e0 escolha gratuita que fizera por eles. Era um povo diferente de grande parte dos seus vizinhos id\u00f3latras, mas mesmo assim a separa\u00e7\u00e3o n\u00e3o podia ser considerada racismo, pois se fundava em motivos religiosos e n\u00e3o biol\u00f3gicos. Ao contr\u00e1rio, os profetas, embora conscientes da elei\u00e7\u00e3o de Israel, entendem a mensagem de Deus como universal e, por isso, apta a chamar todos os homens e mulheres da Terra \u00e0 mesma f\u00e9.<br \/>O Cristianismo confirmou e plenificou essa universalidade, uma vez que a mensagem do Evangelho devia chegar a todos os povos (cf. Mt 28,19). Da\u00ed, a Idade M\u00e9dia n\u00e3o conheceu um racismo propriamente dito, mesmo que os povos se dividissem entre crist\u00e3os, judeus e outros, isso levou os judeus a sofrerem muitos desprezos, mas por crit\u00e9rios mais uma vez religiosos, n\u00e3o biologicistas.<br \/>Nos s\u00e9culos XV e XVI, ocorreram as descobertas de novas terras do chamado \u201cNovo Mundo\u201d, que levou a abusos de alguns comerciantes para com os povos rec\u00e9m-encontrados. Sim, alegando a inferioridade dos ind\u00edgenas e negros, se recorreu \u00e0 escraviza\u00e7\u00e3o dessas pessoas. O tema da escravid\u00e3o ganhou for\u00e7as e mereceu a condena\u00e7\u00e3o de homens da Igreja, como Bartolomeu de Las Casas, bispo dominicano; Francisco de Vit\u00f3ria e Francisco Soarez, renomados te\u00f3logos, que muito insistiram na doutrina da igualdade fundamental entre todos os homens e mulheres do mundo.<br \/>Em nome da Igreja, o Papa Paulo III, na Bula Sublimis Deus, de 2 de junho de 1537, denunciava aqueles que afirmavam serem os habitantes das novas terras considerados como animais irracionais e que, por isso, poderiam ser usados para proveito de terceiros. Textualmente, o mesmo Pont\u00edfice afirmava: \u201cNo desejo de remediar o mal que foi causado, N\u00f3s decidimos e declaramos que os chamados ind\u00edgenas, bem como todas as outras popula\u00e7\u00f5es com que no futuro a cristandade entrar\u00e1 em rela\u00e7\u00e3o, n\u00e3o dever\u00e3o ser privados de sua liberdade e dos seus bens \u2013 n\u00e3o obstante as alega\u00e7\u00f5es contr\u00e1rias \u2013, ainda que eles n\u00e3o sejam crist\u00e3os e que, ao contr\u00e1rio, dever\u00e3o ser deixados em pleno gozo da sua liberdade e dos seus bens\u201d.<br \/>Esse documento foi quase ignorado, pois devido \u00e0 Lei do Padroado, que fazia do poder temporal (O Estado) ser como que um protetor do poder espiritual (A Igreja), o governo civil invadia, por interesses escusos, o campo de a\u00e7\u00e3o eclesi\u00e1stica e sabotava a publica\u00e7\u00e3o e a difus\u00e3o dos pronunciamentos dos Papas ou Bispos.<br \/>No s\u00e9culo XVIII, aparece a ideologia racista contr\u00e1ria aos ensinamentos da Igreja, pois se justificaria na cor da pele e nos caracteres corporais do indiv\u00edduo, devido a heran\u00e7as heredit\u00e1rias, a exist\u00eancia de ra\u00e7as inferiores e superiores. Aqui aparece pela primeira vez o termo \u201cra\u00e7a\u201d, a fim de promover classifica\u00e7\u00f5es de acordo com pressupostos biol\u00f3gicos a dividir os seres humanos entre ra\u00e7as fortes e ra\u00e7as fracas, de cuja mistura resultaram as quedas das grandes civiliza\u00e7\u00f5es, dizia-se.<br \/>Fundamentado nessa tese, pretensamente cient\u00edfica, surgiu a eugenia, que alimentou o nazismo alem\u00e3o do s\u00e9culo XX menosprezador das consideradas ra\u00e7as inferiores, tais como judeus e ciganos, exterminados aos milh\u00f5es em campos de concentra\u00e7\u00f5es junto a pessoas deficientes f\u00edsicas ou mentais. Ora, a Igreja mais uma vez ergueu sua voz pelas palavras do Papa Pio XI, na Enc\u00edclica Mit Brennender Sorge (Com candente preocupa\u00e7\u00e3o), de 1937, ao asseverar que \u201ctodo aquele que toma a ra\u00e7a ou o povo ou o Estado&#8230;, ou qualquer outro valor fundamental da comunidade humana&#8230; para os retirar da sua escala de valores&#8230; e os divinizar com um culto idol\u00e1trico, perverte e falsifica a ordem das coisas por Deus criada e estabelecida\u201d (Acta Apostolica Sedis XXIX, 149).<br \/>Tamb\u00e9m o Papa Pio XII, em sua Radiomensagem de Natal de 1942, afirmou que entre as pretens\u00f5es do positivismo jur\u00eddico, o direito que de o homem seja a inst\u00e2ncia m\u00e1xima de legisla\u00e7\u00e3o, \u201cse deve incluir uma teoria que reivindica para uma determinada na\u00e7\u00e3o, ra\u00e7a ou classe o instituto jur\u00eddico, imperativo supremo e norma sem apelo&#8230; O anseio de uma ordem social nova e melhor, a humanidade o deve a centenas de milhares de pessoas que, sem culpa alguma, mas simplesmente porque pertencem a tal ra\u00e7a ou nacionalidade, est\u00e3o destinadas \u00e0 morte ou a um definhamento progressivo\u201d (Acta Apostolica Sedis XXXV, 1943, 14.23).<br \/>Ainda hoje, essa forma de pensamento n\u00e3o est\u00e1 erradicada e se associa a outras n\u00e3o menos nocivas, dentre as quais o \u201capartheid\u201d, que oprimiu e dizimou muitos negros sob o poder branco na \u00c1frica e gerou fortes desaven\u00e7as tamb\u00e9m nos Estados Unidos; a persegui\u00e7\u00e3o a popula\u00e7\u00f5es nativas de alguns pa\u00edses contra as quais se praticou ou se tenta praticar um verdadeiro genoc\u00eddio; a limita\u00e7\u00e3o dos direitos de minorias \u00e0 pr\u00e1tica religiosa (lembremo-nos das persegui\u00e7\u00f5es aos crist\u00e3os em terras do Oriente); o etnocentrismo, pr\u00e1tica que leva um povo a se autoafirmar, tentando menosprezar ou mesmo aniquilar o outro, ato que, infelizmente, acontece tamb\u00e9m em n\u00e3o poucas torcidas de futebol dentro de um mesmo pa\u00eds ou no confronto de uma na\u00e7\u00e3o para com a outra; popula\u00e7\u00f5es que foram desinstaladas de seus terrenos e vivem, for\u00e7adamente, como n\u00f4mades em outros locais ou, ent\u00e3o, sofrem segrega\u00e7\u00e3o dos antigos habitantes locais ao se mudarem de uma regi\u00e3o para outra dentro do mesmo pa\u00eds ou para o estrangeiro, ou tamb\u00e9m a tentativa, j\u00e1 consumada, de se criarem cidad\u00e3os de primeira e segunda classe por meio de manipula\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas em laborat\u00f3rios, separando os que merecem viver e os que n\u00e3o merecem devido \u00e0s suas caracter\u00edsticas f\u00edsicas e ps\u00edquicas, pr\u00e9-selecionadas, lamentavelmente, \u00e0s vezes, pelos pr\u00f3prios pais.<br \/>Ora, ap\u00f3s a apresenta\u00e7\u00e3o desse quadro sombrio e o perigo, pensamos em atos mais ou menos contundentes e vergonhosos de racismo que possam ocorrer, de algum modo, na Copa do Mundo. Da\u00ed, importa saber que a Igreja defende a dignidade do g\u00eanero humano independentemente do pa\u00eds em que ele viva, da posi\u00e7\u00e3o social, cultural ou de sa\u00fade que tenha. Ensina que todos fomos criados \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a de Deus (Gn 1,27) e, em Deus, h\u00e1 acolhida para com todos, conforme fez o Senhor Jesus (cf. Mt 25,38-40), e n\u00e3o distin\u00e7\u00f5es segregat\u00f3rias (Gl 3,11.28), de modo a n\u00e3o haver mais discrimina\u00e7\u00f5es devido \u00e0 ra\u00e7a, nacionalidade ou sexo, haja vista que a mulher tamb\u00e9m foi marginalizada na hist\u00f3ria (cf. Lumen Gentium n. 1 e n. 32).<br \/>Contudo, a Igreja est\u00e1 ciente de que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 com discursos que se caminha na elimina\u00e7\u00e3o do racismo, mas, sim, com o combate constante da fonte onde ele nasce e cresce, ou seja, no cora\u00e7\u00e3o humano. \u00c9 a\u00ed que devem ser fortalecidas as convic\u00e7\u00f5es de que \u00e9 preciso respeitar as diferen\u00e7as a fim de se viver em fraternidade que leva, necessariamente, \u00e0 pr\u00e1tica da solidariedade ou da ajuda ao outro, independentemente de quem seja ele.<br \/>No dia a dia, a Igreja pede disponibilidade para a ajuda m\u00fatua entre todos, a defesa das v\u00edtimas de racismo e a den\u00fancia dessa pr\u00e1tica desumana, a conscientiza\u00e7\u00e3o de que somos todos iguais em nossa dignidade humana, e isso deve ser ensinado na fam\u00edlia, na escola ou nos meios de comunica\u00e7\u00e3o, defende a cria\u00e7\u00e3o ou a manuten\u00e7\u00e3o de leis que se oponham ao menosprezo do pr\u00f3ximo por raz\u00f5es raciais, al\u00e9m de estimular a elabora\u00e7\u00e3o de grandes documentos em n\u00edvel internacional, nos meios civis e eclesi\u00e1sticos, denunciando a pr\u00e1tica das segrega\u00e7\u00f5es raciais ou prevenindo-as.<br \/>Possam, pois, esses dados hist\u00f3ricos e doutrin\u00e1rios levar-nos a entender que somos, apesar das diferen\u00e7as acidentais, todos irm\u00e3os e devemos encontrar, como tem insistentemente lembrado nosso querido Papa Francisco, muito mais o que nos une para o di\u00e1logo do que aquilo que nos desune e pode levar a graves contendas.<br \/>Nesse contexto, em que pesem todas as manifesta\u00e7\u00f5es leg\u00edtimas contra os gastos com a constru\u00e7\u00e3o de est\u00e1dios para a Copa do Mundo em nosso pa\u00eds e as justas aspira\u00e7\u00f5es do povo brasileiro por maior transpar\u00eancia na administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica, n\u00e3o se deve hostilizar os estrangeiros que aqui v\u00eam, uma vez que n\u00e3o t\u00eam culpa de nossos problemas internos. <br \/>Fa\u00e7amos, pois, jus aos nossos dotes peculiares de sermos bons acolhedores dentro de nossa cordialidade, que faz caber nesta na\u00e7\u00e3o-continente, de modo harmonioso, uma parcela do mundo, e isso muito nos enriquece social e culturalmente.<br \/>Pe\u00e7amos a Deus, por intercess\u00e3o da Senhora Aparecida, Rainha e Padroeira do Brasil que, sem deixarmos de cobrar nossos direitos dos que realmente nos devem explica\u00e7\u00f5es, saibamos n\u00e3o misturar as coisas e acolhermos bem nossos visitantes, tendo presente a obra de miseric\u00f3rdia ensinada pelo Cristo Jesus: \u201cFui peregrino e me hospedastes\u201d (Mt 25).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com o in\u00edcio da Copa do Mundo algumas mensagens chamam nossa aten\u00e7\u00e3o: o Papa Francisco nos recordou que \u00e9 um tempo de ser solid\u00e1rio e ocasi\u00e3o de di\u00e1logo, de compreens\u00e3o, de enriquecimento humano reciproco. 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