{"id":46571,"date":"2019-01-24T16:42:58","date_gmt":"2019-01-24T18:42:58","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=46571"},"modified":"2019-01-24T16:42:58","modified_gmt":"2019-01-24T18:42:58","slug":"papa-aos-bispos-centro-americanos-romero-amou-a-igreja-como-mae-que-o-gerou-na-fe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/papa-aos-bispos-centro-americanos-romero-amou-a-igreja-como-mae-que-o-gerou-na-fe\/","title":{"rendered":"Papa aos bispos centro-americanos: Romero amou a Igreja como m\u00e3e que o gerou na f\u00e9"},"content":{"rendered":"<div class=\"article__subTitle\">&#8220;Entre tais frutos prof\u00e9ticos da Igreja na Am\u00e9rica Central, apraz-me destacar a figura de S\u00e3o \u00d3scar Romero, que tive o privil\u00e9gio de canonizar recentemente no contexto do S\u00ednodo dos Bispos sobre os jovens&#8221;, disse Francisco em seu discurso.<\/div>\n<div class=\"title__separator\"><\/div>\n<div class=\"article__text\">\n<p><b>Cidade do Vaticano<\/b><\/p>\n<p>Leia a \u00edntegra do discurso do Papa Francisco no encontro com os Bispos da Am\u00e9rica Central, nesta quinta-feira (24\/01), na Igreja de S\u00e3o Francisco de Assis, em Cidade do Panam\u00e1.<\/p>\n<p><b>VISITA APOST\u00d3LICA DO SANTO PADRE AO PANAM\u00c1<\/b><\/p>\n<p><b>DISCURSO<\/b><\/p>\n<p>Amados irm\u00e3os!<\/p>\n<p>Agrade\u00e7o ao Arcebispo de S\u00e3o Salvador, D. Jos\u00e9 Luis Escobar Alas, as palavras de boas-vindas que me dirigiu em nome de todos. Sinto-me feliz por poder encontrar-vos e partilhar, de forma mais familiar e direta, os vossos anseios, projetos e sonhos de pastores a quem o Senhor confiou o cuidado do seu povo santo. Obrigado pela rece\u00e7\u00e3o fraterna.<\/p>\n<p>Encontrar-me convosco oferece-me tamb\u00e9m a oportunidade de poder abra\u00e7ar e sentir-me mais pr\u00f3ximo dos vossos povos, poder fazer meus os seus anseios e tamb\u00e9m os seus des\u00e2nimos mas sobretudo aquela f\u00e9 corajosa que sabe animar a esperan\u00e7a e provocar a caridade. Obrigado por me permitirdes aproximar desta f\u00e9 provada mas simples do rosto pobre do vosso povo, que sabe que \u00abDeus est\u00e1 presente, n\u00e3o dorme; est\u00e1 ativo, observa e ajuda\u00bb (S\u00e3o \u00d3scar Romero, <i>Homilia<\/i>, 16\/XII\/1979).<\/p>\n<p>Este encontro recorda-nos um acontecimento eclesial de grande relev\u00e2ncia. Os pastores desta regi\u00e3o foram os primeiros a criar na Am\u00e9rica um organismo de comunh\u00e3o e participa\u00e7\u00e3o que deu, e continua a dar, abundantes frutos. Refiro-me ao Secretariado Episcopal da Am\u00e9rica Central (SEDAC): um espa\u00e7o de comunh\u00e3o, discernimento e empenho que nutre, revitaliza e enriquece as vossas Igrejas. Pastores que souberam progredir, dando um sinal que, longe de ser um elemento apenas program\u00e1tico, indicou como o futuro da Am\u00e9rica Central \u2013 e de qualquer outra regi\u00e3o no mundo \u2013 passa necessariamente pela lucidez e capacidade que se possui para ampliar a vis\u00e3o, unir esfor\u00e7os num trabalho paciente e generoso de escuta, compreens\u00e3o, dedica\u00e7\u00e3o e empenho, e poder assim discernir os novos horizontes para onde nos est\u00e1 a conduzir o Esp\u00edrito (cf. Francisco, Exort. ap. <i>Evangelii gaudium<\/i>, 235).[1]<\/p>\n<p>Nestes setenta e cinco anos passados desde a sua funda\u00e7\u00e3o, o SEDAC procurou partilhar as alegrias e tristezas, as lutas e esperan\u00e7as dos povos da Am\u00e9rica Central, cuja hist\u00f3ria se forjou entrela\u00e7ando-se com a hist\u00f3ria do vosso povo. Muitos homens e mulheres, sacerdotes, consagrados, consagradas e leigos ofereceram a vida at\u00e9 ao derramamento do pr\u00f3prio sangue, para manter viva a voz prof\u00e9tica da Igreja contra a injusti\u00e7a, o empobrecimento de tantas pessoas e o abuso do poder. Recordam-nos que \u00abquem deseja verdadeiramente dar gl\u00f3ria a Deus com a sua vida, quem realmente se quer santificar para que a sua exist\u00eancia glorifique o Santo, \u00e9 chamado a obstinar-se, gastar-se e cansar-se procurando viver as obras de miseric\u00f3rdia\u00bb (Francisco, Exort. ap. <i>Gaudete et exsultate<\/i>, 107). E faz\u00ea-lo, n\u00e3o como esmola, mas como voca\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Entre tais frutos prof\u00e9ticos da Igreja na Am\u00e9rica Central, apraz-me destacar a figura de <b>S\u00e3o \u00d3scar Romero,<\/b> que tive o privil\u00e9gio de canonizar recentemente no contexto do S\u00ednodo dos Bispos sobre os jovens. A sua vida e magist\u00e9rio s\u00e3o fonte constante de inspira\u00e7\u00e3o para as nossas Igrejas e particularmente para n\u00f3s, bispos.<\/p>\n<p>O lema que escolheu para o bras\u00e3o episcopal, e campeia na l\u00e1pide da sua sepultura, expressa claramente o seu princ\u00edpio inspirador e a realidade da sua vida de pastor: \u00abSentir com a Igreja\u00bb. Uma b\u00fassola que marcou a sua vida na fidelidade, mesmo nos momentos mais turbulentos.<\/p>\n<p>Este \u00e9 um legado que pode tornar-se testemunho ativo e vivificante para n\u00f3s, chamados por nossa vez ao mart\u00edrio pela entrega di\u00e1ria ao servi\u00e7o dos nossos povos; e, sobre tal legado, gostaria de me basear nesta reflex\u00e3o que desejo partilhar convosco. Sei que, entre n\u00f3s, h\u00e1 pessoas que o conheceram pessoalmente \u2013 como o cardeal Rosa Ch\u00e1vez \u2013 de modo que, se me equivocar em alguma observa\u00e7\u00e3o, Emin\u00eancia, pode-me corrigir. Invocar a figura de Romero significa invocar a santidade e o car\u00e1ter prof\u00e9tico que vive no DNA das vossas Igrejas particulares.<\/p>\n<h2><b>Sentir com a Igreja<\/b><\/h2>\n<p>1. <i>Perce\u00e7\u00e3o e gratid\u00e3o<\/i><\/p>\n<p>Santo In\u00e1cio, ao propor as regras para sentir com a Igreja, procura ajudar o exercitante a superar qualquer tipo de falsas dicotomias ou antagonismos que possam reduzir a vida do Esp\u00edrito, na tenta\u00e7\u00e3o habitual de acomodar a Palavra de Deus ao pr\u00f3prio interesse. Assim, possibilita ao exercitante a gra\u00e7a de se sentir e saber parte dum corpo apost\u00f3lico maior do que ele, mas ao mesmo tempo conservando a consci\u00eancia real das suas for\u00e7as e possibilidades: n\u00e3o dar parte de fraco, nem fazer-se esquisito ou imprudente, mas sentir-se parte de um todo, que ser\u00e1 sempre mais do que a soma das partes (cf. Francisco, Exort. ap. <i>Evangelii gaudium<\/i>, 235) e que est\u00e1 acompanhado por uma Presen\u00e7a que sempre o superar\u00e1 (cf. Francisco, Exort. ap. <i>Gaudete et exsultate<\/i>, 8).<\/p>\n<p>Por isso, na esteira de S\u00e3o \u00d3scar, gostaria de colocar, no centro deste primeiro ponto do <i>sentir com a Igreja<\/i>, a perce\u00e7\u00e3o e a gratid\u00e3o por tanto bem recebido, sem o merecer. Romero foi capaz de sintonizar e aprender a viver a Igreja, porque amava intimamente quem o gerara na f\u00e9. Sem este amor \u00edntimo, ser\u00e1 muito dif\u00edcil entender a sua hist\u00f3ria e convers\u00e3o, dado que foi precisamente esse amor que o guiou at\u00e8 \u00e0 entrega no mart\u00edrio; um amor, que brota da perce\u00e7\u00e3o de receber um dom totalmente gratuito, que n\u00e3o nos pertence, libertando-nos de toda a pretens\u00e3o e tenta\u00e7\u00e3o de nos considerarmos seus propiet\u00e1rios ou os \u00fanicos int\u00e9rpretes. N\u00e3o inventamos a Igreja: esta n\u00e3o nasceu connosco e continuar\u00e1 sem n\u00f3s. Tal atitude, longe de nos abandonar \u00e0 apatia, desperta uma insond\u00e1vel e extraordin\u00e1ria gratid\u00e3o que tudo alimenta. O mart\u00edrio n\u00e3o \u00e9 sin\u00f3nimo de pusilanimidade nem a atitude de algu\u00e9m que n\u00e3o ama a vida nem sabe reconhecer o seu valor. Pelo contr\u00e1rio, o m\u00e1rtir \u00e9 aquele que \u00e9 capaz de encarnar e traduzir na vida esta a\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as.<\/p>\n<p>Romero sentiu com a Igreja, porque, antes de mais nada, amou a Igreja como m\u00e3e que o gerou na f\u00e9, considerando-se membro e parte dela.<\/p>\n<p>2. <i>Um amor, com sabor a povo<\/i><\/p>\n<p>Este amor, feito de ades\u00e3o e gratid\u00e3o, levou-o a abra\u00e7ar, com paix\u00e3o mas tamb\u00e9m com dedica\u00e7\u00e3o e estudo, toda a contribui\u00e7\u00e3o e renova\u00e7\u00e3o propostas pelo magist\u00e9rio do Conc\u00edlio Vaticano II. Nele encontrava a m\u00e3o segura para seguir Cristo. N\u00e3o foi ide\u00f3logo nem ideol\u00f3gico; a sua a\u00e7\u00e3o nasceu duma compenetra\u00e7\u00e3o sobre os documentos conciliares. Iluminado por este horizonte eclesial, sentir com a Igreja significa para Romero contempl\u00e1-la como Povo de Deus. Com efeito, o Senhor n\u00e3o quis salvar-nos permanecendo cada um isolado e separado, mas quis constituir um povo que O confessasse na verdade e O servisse na santidade (cf. Const. dogm. <i>Lumen gentium<\/i>, 9). Um povo que, na sua totalidade, possui, guarda e celebra a \u00abun\u00e7\u00e3o do Santo\u00bb (<i>Ibid.<\/i>, 12), e perante o qual Romero se colocava \u00e0 escuta para n\u00e3o recusar a inspira\u00e7\u00e3o d\u2019Ele (cf. S\u00e3o \u00d3scar Romero, <i>Homilia<\/i>, 16\/VII\/1978). Mostra-nos assim que o pastor, para procurar e encontrar o Senhor, deve aprender e escutar as pulsa\u00e7\u00f5es do cora\u00e7\u00e3o do seu povo, sentir \u00abo odor\u00bb dos homens e mulheres de hoje at\u00e9 ficar impregnado das suas alegrias e esperan\u00e7as, tristezas e ang\u00fastias (cf. Const. past. <i>Gaudium et spes<\/i>, 1) e, deste modo, compreender em profundidade a Palavra de Deus (cf. Const. dogm. <i>Dei Verbum<\/i>, 13). Deve escutar o povo que lhe foi confiado at\u00e9 respirar e descobrir, atrav\u00e9s dele, a vontade de Deus que nos chama (cf. Francisco, <i>Discurso na Vig\u00edlia de Ora\u00e7\u00e3o pelo S\u00ednodo sobre a Fam\u00edlia<\/i>, 4\/X\/2014). Deve escutar sem dicotomias nem falsos antagonismos, porque s\u00f3 o amor de Deus \u00e9 capaz de harmonizar todos os nossos amores num mesmo sentir e olhar.<\/p>\n<p>Em suma, para ele, sentir com a Igreja \u00e9 tomar parte na gl\u00f3ria da Igreja, que consiste em trazer no pr\u00f3prio \u00edntimo toda a <i>kenosis<\/i> de Cristo. Na Igreja, Cristo vive no meio de n\u00f3s e, por isso, ela deve ser humilde e pobre, pois uma Igreja arrogante, uma Igreja cheia de orgulho, uma Igreja autossuficiente n\u00e3o \u00e9 a Igreja da <i>kenosis<\/i> (cf. S\u00e3o \u00d3scar Romero, <i>Homilia<\/i>, 1\/X\/1978).<\/p>\n<p>3. <i>Trazer dentro de si mesmo a <\/i>kenosis<i> de Cristo<\/i><\/p>\n<p>Esta n\u00e3o \u00e9 apenas a gl\u00f3ria da Igreja, mas tamb\u00e9m uma voca\u00e7\u00e3o, um convite para fazermos dela a nossa gl\u00f3ria pessoal e caminho de santidade. A <i>kenosis<\/i> de Cristo n\u00e3o \u00e9 algo do passado, mas garantia atual para sentir e descobrir a sua presen\u00e7a operante na hist\u00f3ria; uma presen\u00e7a que n\u00e3o podemos nem queremos silenciar, porque sabemos e experimentamos que s\u00f3 Ele \u00e9 \u00abCaminho, Verdade e Vida\u00bb. A <i>kenosis<\/i> de Cristo lembra-nos que Deus salva na hist\u00f3ria, na vida de cada ser humano, j\u00e1 que a mesma \u00e9 tamb\u00e9m a sua hist\u00f3ria e, nela, vem ao nosso encontro (cf. S\u00e3o \u00d3scar Romero, <i>Homilia<\/i>, 7\/XII\/1978). Irm\u00e3os, \u00e9 importante n\u00e3o ter medo de nos aproximarmos e tocarmos as feridas do nosso povo, que s\u00e3o tamb\u00e9m as nossas feridas, e faz\u00ea-lo segundo o estilo do Senhor. O pastor n\u00e3o pode estar longe do sofrimento do seu povo; mais ainda, poder\u00edamos dizer que o cora\u00e7\u00e3o do pastor mede-se pela sua capacidade de deixar-se comover \u00e0 vista de tantas vidas feridas e amea\u00e7adas. Faz\u00ea-lo segundo o estilo do Senhor significa deixar que este sofrimento toque e marque as nossas prioridades e gostos, o uso do tempo e do dinheiro e inclusive a forma de rezar, para podermos ungir tudo e todos com a consola\u00e7\u00e3o da amizade de Jesus numa comunidade de f\u00e9 que possua e abra um horizonte sempre novo que d\u00ea sentido e esperan\u00e7a \u00e0 vida (cf. Francisco, Exort. ap. <i>Evangelii gaudium<\/i>, 49). A <i>kenosis<\/i> de Cristo exige que se abandone a virtualidade da exist\u00eancia e dos discursos para escutar o rumor e o apelo constante de pessoas reais que nos desafiam a criar la\u00e7os. E \u2013 permiti que vos diga \u2013 as redes servem para criar v\u00ednculos, mas n\u00e3o ra\u00edzes; s\u00e3o incapazes de nos conferir perten\u00e7a, de nos fazer sentir parte de um mesmo povo. E, sem este sentir, todas as nossas palavras, reuni\u00f5es, encontros, escritos ser\u00e3o sinal duma f\u00e9 que n\u00e3o soube acompanhar a <i>kenosis<\/i> do Senhor, uma f\u00e9 que ficou a meio do caminho.<\/p>\n<h2><b>&#8211; <i>A <\/i>kenosis<i> de Cristo \u00e9 jovem<\/i><\/b><\/h2>\n<p>Esta Jornada Mundial da Juventude \u00e9 uma oportunidade \u00fanica para sair ao encontro e aproximar-se ainda mais da realidade dos nossos jovens, cheia de esperan\u00e7as e sonhos, mas tamb\u00e9m profundamente marcada por tantas feridas. Com eles, poderemos ler de forma renovada a nossa \u00e9poca e reconhecer os sinais dos tempos, pois, como afirmaram os Padres Sinodais, os jovens s\u00e3o um dos \u00ablugares teol\u00f3gicos\u00bb onde o Senhor nos d\u00e1 a conhecer algumas das suas expetativas e desafios para construir o futuro (cf. S\u00ednodo sobre os Jovens, <i>Documento final<\/i>, 64). Com eles, poderemos ver melhor como tornar o Evangelho mais acess\u00edvel e cred\u00edvel no mundo em que vivemos; s\u00e3o uma esp\u00e9cie de term\u00f3metro para saber a que ponto estamos como comunidade e como sociedade.<\/p>\n<p>Os jovens trazem dentro uma inquietude que devemos apreciar, respeitar, acompanhar e que faz muito bem a todos n\u00f3s, porque nos provoca lembrando-nos que o pastor nunca deixa de ser disc\u00edpulo e est\u00e1 a caminho. Esta s\u00e3 inquietude coloca-nos em movimento, antecipando-nos. Assim no-lo recordaram os Padres Sinodais ao dizer que, \u00abem certos aspetos, os jovens podem estar mais adiantados do que os pastores\u00bb (<i>Ibid.<\/i>, 66). Deve-nos encher de alegria constatar que a sementeira n\u00e3o foi em v\u00e3o. Muitas das aspira\u00e7\u00f5es e intui\u00e7\u00f5es, que formam tal inquietude, desenvolveram-se dentro da fam\u00edlia, alimentadas por uma av\u00f3 ou uma catequista, ou na par\u00f3quia, na pastoral educativa ou juvenil; desejos, que cresceram na escuta do Evangelho e em comunidades de f\u00e9 viva e fervorosa onde este encontra terra onde germinar. Quanto devemos agradecer pelo facto de haver jovens desejosos de Evangelho! Esta realidade estimula-nos a um esfor\u00e7o maior para ajud\u00e1-los a crescer, oferecendo-lhes espa\u00e7os maiores e melhores que os possam gerar segundo o sonho de Deus. A Igreja, por sua natureza, \u00e9 M\u00e3e e, como tal, gera e resguarda a vida protegendo-a de tudo o que possa amea\u00e7ar o seu desenvolvimento: uma gesta\u00e7\u00e3o na liberdade e para a liberdade. Por isso, exorto-vos a promover programas e centros educativos que saibam acompanhar, apoiar e responsabilizar os vossos jovens; \u00abroubai-os\u00bb \u00e0 rua, antes que a cultura de morte, \u00abvendendo-lhes fumo\u00bb e solu\u00e7\u00f5es m\u00e1gicas, se apodere e aproveite da sua imagina\u00e7\u00e3o. Fazei-o, n\u00e3o com paternalismo como quem olha de cima para baixo, pois n\u00e3o \u00e9 isso o que o Senhor nos pede, mas como pais, como de irm\u00e3o para irm\u00e3o. S\u00e3o rosto de Cristo para n\u00f3s e, a Cristo, n\u00e3o O podemos olhar de cima para baixo, mas de baixo para cima (cf. S\u00e3o \u00d3scar Romero, <i>Homilia<\/i>, 2\/IX\/1979).<\/p>\n<p>Infelizmente, h\u00e1 muitos jovens que foram seduzidos por respostas imediatas que hipotecam a vida. Diziam-nos os Padres Sinodais que aqueles, por constri\u00e7\u00e3o ou falta de alternativas, se encontram mergulhados em situa\u00e7\u00f5es altamente conflituosas e sem solu\u00e7\u00e3o \u00e0 vista: viol\u00eancia dom\u00e9stica, feminic\u00eddio \u2013 uma chaga, que aflige o nosso continente \u2013, bandas armadas e criminosas, tr\u00e1fico de droga, explora\u00e7\u00e3o sexual de menores e de tantos que j\u00e1 n\u00e3o o s\u00e3o, etc. Custa constatar que, na raiz de muitas destas situa\u00e7\u00f5es, est\u00e1 uma experi\u00eancia de orfandade, fruto de uma cultura e uma sociedade transviada. Lares desfeitos devido tantas vezes a um sistema econ\u00f3mico que deixou de ter como prioridade as pessoas e o bem comum, fazendo da especula\u00e7\u00e3o o \u00abseu para\u00edso\u00bb onde continuar a \u00abengordar\u00bb sem se importar \u00e0 custa de quem. Assim, os nossos jovens sem o calor duma casa, nem fam\u00edlia, nem comunidade, nem perten\u00e7a s\u00e3o deixados \u00e0 merc\u00ea do primeiro vigarista que lhes apare\u00e7a.<\/p>\n<p>N\u00e3o nos esque\u00e7amos que \u00abuma verdadeira dor que sai do homem pertence, antes de tudo, a Deus\u00bb (Georges Bernanos, <i>Diario de un cura rural<\/i>, 74). N\u00e3o separemos o que Ele quis unir no seu Filho.<\/p>\n<p>O futuro exige que se respeite o presente, reconhecendo a dignidade das culturas dos vossos povos e esfor\u00e7ando-se por valoriz\u00e1-las. Tamb\u00e9m nisto se joga a dignidade: na auto-estima cultural. Os vossos povos n\u00e3o s\u00e3o o \u00abhorto\u00bb da sociedade nem de ningu\u00e9m; t\u00eam uma hist\u00f3ria rica que deve ser aceite, valorizada e incentivada. Nestas terras, foram plantadas as sementes do Reino; temos obriga\u00e7\u00e3o de as identificar, cuidar e proteger para que nenhum bem plantado por Deus definhe devido a interesses esp\u00farios que, por todo o lado, semeiam corrup\u00e7\u00e3o e crescem despojando os mais pobres. Cuidar das ra\u00edzes \u00e9 tutelar o rico patrim\u00f3nio hist\u00f3rico, cultural e espiritual que esta terra soube amalgamar ao longo dos s\u00e9culos. Comprometei-vos e erguei a voz contra a desertifica\u00e7\u00e3o cultural e espiritual dos vossos povos, que provoca uma indig\u00eancia radical, pois deixa-os sem a indispens\u00e1vel imunidade vital que sustenta a dignidade nos momentos de maior dificuldade.<\/p>\n<p>Na \u00faltima carta pastoral, afirm\u00e1veis: \u00abUltimamente a nossa regi\u00e3o tem sofrido o impacto da migra\u00e7\u00e3o realizada de forma nova, por ser maci\u00e7a e organizada, e que evidenciou os motivos que levam a uma migra\u00e7\u00e3o for\u00e7ada e os perigos que cria para a dignidade da pessoa humana\u00bb (SEDAC, <i>Mensagem ao Povo de Deus e a todas as pessoas de boa vontade<\/i>, 30\/XI\/2018).<\/p>\n<p>Muitos dos migrantes t\u00eam rosto jovem; procuram um bem maior para a pr\u00f3pria fam\u00edlia, n\u00e3o temendo arriscar e deixar tudo para lhe oferecer o m\u00ednimo de condi\u00e7\u00f5es que garantam um futuro melhor. Aqui n\u00e3o basta a den\u00fancia, mas devemos anunciar concretamente uma \u00abboa nova\u00bb. Gra\u00e7as \u00e0 sua universalidade, a Igreja pode oferecer uma hospitalidade fraterna e acolhedora, de modo que as comunidades de origem e destino dialoguem e contribuam para superar medos e difid\u00eancias e fortalecer os la\u00e7os que as migra\u00e7\u00f5es, no imagin\u00e1rio coletivo, amea\u00e7am romper. \u00abAcolher, proteger, promover e integrar\u00bb podem ser os quatro verbos com que a Igreja, nesta situa\u00e7\u00e3o migrat\u00f3ria, conjugue a sua maternidade no momento atual da hist\u00f3ria (cf. S\u00ednodo sobre os Jovens, <i>Documento final<\/i>, 147).<\/p>\n<p>Todos os esfor\u00e7os que puderdes realizar para lan\u00e7ar pontes entre as comunidades eclesiais, paroquiais, diocesanas, bem como atrav\u00e9s das Confer\u00eancias Episcopais, constituem um gesto prof\u00e9tico da Igreja, que, em Cristo, \u00e9 \u00abo sacramento, ou sinal, e o instrumento da \u00edntima uni\u00e3o com Deus e da unidade de todo o g\u00e9nero humano\u00bb (Const. dogm. <i>Lumen gentium<\/i>, 1). Assim dissipa-se a tenta\u00e7\u00e3o de ficar apenas pela den\u00fancia e reliza-se o an\u00fancio da Vida nova que o Senhor nos d\u00e1.<\/p>\n<p>Lembremo-nos da exorta\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Jo\u00e3o: \u00abSe algu\u00e9m possuir bens deste mundo e, vendo o seu irm\u00e3o com necessidade, lhe fechar o seu cora\u00e7\u00e3o, como \u00e9 que o amor de Deus pode permanecer nele? Meus filhinhos, n\u00e3o amemos com palavras nem com a boca, mas com obras e com verdade\u00bb (<i>1 Jo<\/i> 3, 17-18).<\/p>\n<p>Todas estas situa\u00e7\u00f5es nos interpelam; s\u00e3o situa\u00e7\u00f5es que nos chamam \u00e0 convers\u00e3o, \u00e0 solidariedade e a uma a\u00e7\u00e3o educativa incisiva nas nossas comunidades. N\u00e3o podemos ficar indiferentes (cf. S\u00ednodo sobre os Jovens, <i>Documento final<\/i>, 41-44). O mundo descarta: sabemo-lo e lamentamo-lo. A <i>kenosis<\/i> de Cristo, n\u00e3o: j\u00e1 o experimentamos e continuamos a experimentar na pr\u00f3pria carne com o perd\u00e3o e a convers\u00e3o. Esta tens\u00e3o constringe-nos a questionar-nos sem cessar: De que parte queremos estar?<\/p>\n<h2><b>&#8211; <i>A <\/i>kenosis<i> de Cristo \u00e9 sacerdotal<\/i><\/b><\/h2>\n<p>S\u00e3o bem conhecidos a amizade do Arcebispo Romero com o Padre Rutilio Grande e o impacto que o assass\u00ednio deste teve na sua vida; foi um acontecimento que marcou profundamente o seu cora\u00e7\u00e3o de homem, sacerdote e pastor. Romero n\u00e3o era um administrador de recursos humanos, n\u00e3o geria pessoas nem organiza\u00e7\u00f5es; sentia com amor de pai, amigo e irm\u00e3o. Uma medida um pouco alta, mas \u00fatil para avaliar o nosso cora\u00e7\u00e3o episcopal, uma medida \u00e0 vista da qual podemos interrogar-nos: Quanto me afeta a vida dos meus sacerdotes? Que impacto deixo ter em mim aquilo que vivem, chorando com as suas dores, congratulando-me e regozijando-me com as suas alegrias? Comecemos a medir o funcionarismo e clericalismo eclesiais \u2013 infelizmente t\u00e3o difusos, constituindo uma caricatura e uma pervers\u00e3o do minist\u00e9rio \u2013 por estes interrogativos. N\u00e3o \u00e9 quest\u00e3o de mudar estilos, h\u00e1bitos ou linguagem (certamente importantes); \u00e9 quest\u00e3o sobretudo de impacto e capacidade de espa\u00e7o, nos nossos programas episcopais, para receber, acompanhar e sustentar os nossos sacerdotes: um \u00abespa\u00e7o real\u00bb para nos ocuparmos deles. Isto faz de n\u00f3s pais fecundos.<\/p>\n<p>Normalmente recai sobre eles, duma maneira especial, a responsabilidade de fazer com que este povo seja o povo de Deus. Encontram-se na primeira linha: carregam sobre si o cansa\u00e7o do dia e o seu calor (cf. <i>Mt<\/i> 20, 12), est\u00e3o sujeitos a inumer\u00e1veis situa\u00e7\u00f5es di\u00e1rias que podem deix\u00e1-los mais vulner\u00e1veis e, por isso, precisam tamb\u00e9m da nossa proximidade, da nossa compreens\u00e3o e encorajamento, da nossa paternidade. O resultado do trabalho pastoral, da evangeliza\u00e7\u00e3o na Igreja e da miss\u00e3o n\u00e3o se baseiam na riqueza dos meios e recursos materiais, nem na quantidade de eventos ou atividades que realizamos, mas na <i>centralidade da compaix\u00e3o<\/i>: um dos grandes distintivos que podemos, como Igreja, oferecer aos nossos irm\u00e3os. A <i>kenosis<\/i> de Cristo \u00e9 a express\u00e3o m\u00e1xima da compaix\u00e3o do Pai. A Igreja de Cristo \u00e9 a Igreja da compaix\u00e3o; e isto come\u00e7a em casa. \u00c9 sempre bom perguntar-nos como pastores: Que impacto tem em mim a vida dos meus sacerdotes? Sou capaz de ser um pai ou consolo-me com ser um mero executor? Deixo que me incomodem? Lembro-me das palavras de Bento XVI quando falava aos seus compatriotas no in\u00edcio do pontificado: \u00abCristo n\u00e3o nos prometeu uma vida confort\u00e1vel. Quem deseja comodidades, com Ele errou dire\u00e7\u00e3o. Mas Ele mostra-nos o caminho rumo \u00e0s coisas grandes, o bem, rumo \u00e0 vida humana aut\u00eantica\u00bb (<i>Discurso \u00e0s Delega\u00e7\u00f5es e peregrinos alem\u00e3es<\/i>, 25\/IV\/2005).<\/p>\n<p>Sabemos que o nosso trabalho, nas visitas e encontros que realizamos, sobretudo nas par\u00f3quias, tem uma dimens\u00e3o e uma componente administrativas, a que \u00e9 necess\u00e1rio atender. \u00c9 preciso certificar-se que seja feito, mas isto n\u00e3o significa que caiba a n\u00f3s mesmos utilizar em tarefas administrativas o pouco tempo que temos. O fundamental nas visitas e que n\u00e3o podemos delegar, \u00e9 a escuta. H\u00e1 muitas coisas que fazemos todos os dias e que dever\u00edamos confiar a outrem. Aquilo que, ao contr\u00e1rio, n\u00e3o podemos delegar \u00e9 a capacidade de ouvir, a capacidade de acompanhar a sa\u00fade e a vida dos nossos sacerdotes. N\u00e3o podemos delegar noutros a porta aberta para eles; uma porta aberta para criar as condi\u00e7\u00f5es que tornem poss\u00edvel a confian\u00e7a mais do que o medo, a sinceridade mais do que a hipocrisia, o interc\u00e2mbio franco e respeitoso mais do que o mon\u00f3logo disciplinar.<\/p>\n<p>V\u00eam-me \u00e0 mem\u00f3ria estas palavras de Rosmini: \u00abN\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que apenas os grandes homens podem formar outros grandes homens (\u2026). Nos primeiros s\u00e9culos, a casa do bispo era o semin\u00e1rio dos sacerdotes e di\u00e1conos. A presen\u00e7a e a santa conversa\u00e7\u00e3o do seu prelado revelavam-se uma li\u00e7\u00e3o candente, cont\u00ednua, sublime, na qual se aprendia conjuntamente a teoria nas suas doutas palavras e a pr\u00e1tica nas ass\u00edduas ocupa\u00e7\u00f5es pastorais. E foi assim que os jovens Atan\u00e1sios cresceram junto dos Alexandres\u00bb (Ant\u00f3nio Rosmini, <i>Las cinco llagas de la santa Iglesia<\/i>, 63).<\/p>\n<p>\u00c9 importante que o p\u00e1roco encontre o pai, o pastor no qual \u00abse v\u00ea espelhado\u00bb e n\u00e3o o administrador que quer \u00abpassar revista \u00e0s tropas\u00bb. Com todas as coisas em que nos diferenciamos e at\u00e9 mesmo aquelas em que n\u00e3o estamos de acordo e as discuss\u00f5es que possam haver \u2013 sendo normal e desej\u00e1vel que existam \u2013, \u00e9 \u00a0fundamental que os padres sintam o bispo como um homem capaz de gastar-se e expor-se por eles, faz\u00ea-los caminhar para diante e estender-lhes a m\u00e3o quando est\u00e3o empantanados; como <i>um homem de discernimento que saiba orientar<\/i> e encontrar caminhos concretos e pratic\u00e1veis nas v\u00e1rias encruzilhadas de cada hist\u00f3ria pessoal.<\/p>\n<p>Etimologicamente, o termo \u00abautoridade\u00bb deriva da raiz latina <i>augere<\/i> que significa aumentar, promover, fazer progredir. No pastor, a autoridade consiste de modo particular em ajudar a crescer, em promover os seus presb\u00edteros, em vez de se promover a si mesmo (isto faz dele um solteir\u00e3o). A alegria do pai\/pastor \u00e9 ver que os seus filhos cresceram e tornaram-se fecundos. Irm\u00e3os, seja esta a nossa autoridade e o sinal da nossa fecundidade.<\/p>\n<h2><b>&#8211; <i>A <\/i>kenosis<i> de Cristo \u00e9 pobre<\/i><\/b><\/h2>\n<p>Irm\u00e3os, sentir com a Igreja \u00e9 sentir com o povo fiel, o povo de Deus que sofre e espera; \u00e9 saber que a nossa identidade ministerial nasce e compreende-se \u00e0 luz desta perten\u00e7a \u00fanica e constitutiva do nosso ser. Neste sentido, gostaria de recordar convocco o que Santo In\u00e1cio nos escrevia a n\u00f3s, jesu\u00edtas: \u00abA pobreza \u00e9 m\u00e3e e muro\u00bb, gera e preserva. M\u00e3e, porque nos chama \u00e0 fecundidade, \u00e0 gera\u00e7\u00e3o, \u00e0 capacidade de doa\u00e7\u00e3o que seria imposs\u00edvel num cora\u00e7\u00e3o avarento ou empenhado a acumular. E muro, porque nos protege duma das mais subtis tenta\u00e7\u00f5es que n\u00f3s, consagrados, temos de enfrentar: a mundanidade espiritual, o revestir de valores religiosos e \u00abpiedosos\u00bb a ambi\u00e7\u00e3o de poder e protagonismo, a vaidade e, inclusivamente, o orgulho e a soberba. Muro e m\u00e3e, que nos ajudam a ser uma Igreja cada vez mais livre, porque est\u00e1 centrada na <i>kenosis<\/i> do seu Senhor. Uma Igreja, que n\u00e3o deseja que a sua for\u00e7a esteja \u2013 como dizia D. Romero \u2013 no apoio dos poderosos ou da pol\u00edtica, mas que disso se despreende com nobreza para caminhar sustentada unicamente pelos bra\u00e7os do Crucificado, que \u00e9 a sua verdadeira for\u00e7a. E isto traduz-se em sinais concretos e evidentes; isto interpela-nos e impele-nos a um exame de consci\u00eancia a prop\u00f3sito das nossas op\u00e7\u00f5es e prioridades no uso dos recursos, influ\u00eancias e posi\u00e7\u00f5es. A pobreza \u00e9 m\u00e3e e muro, porque guarda o nosso cora\u00e7\u00e3o para que n\u00e3o escorregue em concess\u00f5es e comprometimentos que enfraquecem a liberdade e <i>parresia<\/i> a que nos chama o Senhor.<\/p>\n<p>Irm\u00e3os, antes de terminar, coloquemo-nos sob o manto da Virgem, rezemos juntos para que Ela guarde o nosso cora\u00e7\u00e3o de pastores e nos ajude a servir melhor o Corpo de seu Filho, o santo Povo fiel de Deus que caminha, vive e reza aqui na Am\u00e9rica Central.<\/p>\n<p>Que Jesus vos aben\u00e7oe e a Virgem Maria vos proteja! E, por favor, n\u00e3o vos esque\u00e7ais de rezar por mim. Muito obrigado!<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Entre tais frutos prof\u00e9ticos da Igreja na Am\u00e9rica Central, apraz-me destacar a figura de S\u00e3o \u00d3scar Romero, que tive o privil\u00e9gio de canonizar recentemente no contexto do S\u00ednodo dos Bispos sobre os jovens&#8221;, disse Francisco em seu discurso. 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