{"id":4598,"date":"2014-05-16T18:41:08","date_gmt":"2014-05-16T21:41:08","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/o-mal\/"},"modified":"2017-04-05T13:50:19","modified_gmt":"2017-04-05T16:50:19","slug":"o-mal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/o-mal\/","title":{"rendered":"O Mal"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"> <strong> \u201cos homens melhores n\u00e3o tem convic\u00e7\u00e3o; e os piores est\u00e3o tomados pela intensa paix\u00e3o do mal\u201d.<br \/> <\/strong> William B. Yeats (1865 \u2013 1939)<br \/> Poeta e Intelectual Irland\u00eas<\/p>\n<p> Boa parte dos 80 anos do psic\u00f3logo americano Philip Zimbardo foi dedicada a buscar resposta a uma quest\u00e3o ao mesmo tempo fascinante e assustadora: o que leva as pessoas a praticar o mal? Seu ponto de partida foi uma revolucion\u00e1ria pesquisa realizada nos anos 70, na Universidade Stanford: ao isolar e dividir um grupo de jovens entre guardas e prisioneiros no ambiente imagin\u00e1rio de uma pris\u00e3o, ele constatou que os maus tratos de uns e a submiss\u00e3o de outros extrapolaram todos os limites. Hoje, o psic\u00f3logo tem cr\u00edticas ao pr\u00f3prio experimento. \u201cFoi anti\u00e9tico porque causou sofrimento aos participantes\u201d, diz. No livro O Efeito L\u00facifer (Ed. Record).<br \/> Diz Dr. Zimbardo: \u201cNossa mente possui uma capacidade infinita de racionalizar e justificar nossas a\u00e7\u00f5es. Para os nazistas, essa justificativa era a cren\u00e7a de que aqueles atos se faziam necess\u00e1rios em prol de uma causa, um \u201cbem maior\u201d. Outros, menos idealistas, diziam apenas estar realizando seu trabalho, e isso, para eles, tornava qualquer a\u00e7\u00e3o razo\u00e1vel. O fato \u00e9 que havia milh\u00f5es de pessoas em cumplicidade, prontas para exercer o mal em sua pior forma dentro de um sistema muito bem engendrado. O ditador Adolf Hitler corrompeu todas as esferas da sociedade \u2013 da educa\u00e7\u00e3o ao judici\u00e1rio \u2013 criando mecanismos de controle e domina\u00e7\u00e3o que o tornaram a si pr\u00f3prio dispens\u00e1vel. A meu ver, a hist\u00f3ria n\u00e3o mudaria seu curso se um dos planos para assassinar Hitler tivesse prosperado. A m\u00e1quina para fazer o mal j\u00e1 estava montada, e a maioria se juntaria a ela, como sempre faz. Repare que um ingrediente essencial dessa engrenagem foi \u00e0 desumaniza\u00e7\u00e3o das v\u00edtimas \u2013 no caso, os judeus. Quando isso acontece, a dissemina\u00e7\u00e3o do mal se trivializa\u201d. \u201cAs pessoas s\u00e3o, sim, respons\u00e1veis por suas a\u00e7\u00f5es e devem responder por elas perante as institui\u00e7\u00f5es de direito, mesmo que o sistema as tenha empurrado para a dire\u00e7\u00e3o errada\u201d.\u00a0 O julgamento de Nuremberg trouxe essa quest\u00e3o \u00e0 tona ao tratar da carnificina nazista. Os oficiais de Hitler alegavam no tribunal: \u201cEu estava apenas seguindo ordens, n\u00e3o tinha como fazer diferente\u201d. Queriam banalizar o mal, como a fil\u00f3sofa alem\u00e3 Hannah Arendt bem pontuou. Mas a justi\u00e7a condenou a todos, enfatizando uma ideia essencial: se voc\u00ea prejudicou o pr\u00f3ximo, ceifou vidas, disseminou o mal, as raz\u00f5es s\u00e3o absolutamente irrelevantes. \u201cVoc\u00ea \u00e9 culpado da mesma forma\u201d, afirma Dr. Zimbardo (1).<br \/> \u201cAdolf Hitler n\u00e3o iludiu os alem\u00e3es: seus seguidores compartilhavam de suas convic\u00e7\u00f5es\u201d, esclarece o remorado historiador, documentarista e escritor especialista em nazismo Laurence Reis (2).<br \/> Faz parte da natureza humana convic\u00e7\u00f5es mal\u00e9ficas, desordem e manipula\u00e7\u00e3o das massas a carnificina. <\/p>\n<p> O Mal e o Perd\u00e3o<\/p>\n<p> \u201cHoje s\u00e3o muito evidentes as armadilhas do mal, que s\u00f3 perde sua for\u00e7a quando se bate com testemunhos de f\u00e9 e santidade. Est\u00e1 provado, em toda a vig\u00eancia da hist\u00f3ria, que o ser humano n\u00e3o consegue derrotar, a viol\u00eancia com a agressividade nem vencer a maldade com o cora\u00e7\u00e3o fechado \u00e0 compaix\u00e3o e ao perd\u00e3o\u201d.<br \/> Dom Geraldo Majella Agnelo<br \/> Cardeal Arcebispo Em\u00e9rito de Salvador (3)<\/p>\n<p> Flagelado, humilhado, pregado \u00e1 cruz, Jesus Cristo ainda encontra for\u00e7as, segundo conta o Evangelho de Lucas, para interceder por seus algozes: \u201cPai, perdoai-os, porque n\u00e3o sabem o que fazem\u201d. A beleza liter\u00e1ria do perd\u00e3o in extremis arrebata at\u00e9 os n\u00e3os crist\u00e3os. Mas considere-se, ao lado do Cristo de S\u00e3o Lucas, o Pr\u00f3spero de William Shakespeare. Anci\u00e3o, mais ainda l\u00facido e vigoroso, e do alto dos poderes que tem sobre as for\u00e7as da natureza, o monarca desposto de Mil\u00e3o encontra oportunidade de vingar-se daqueles que o tra\u00edram e exilou acompanhado da filha pequena, Miranda, em uma ilha perdida do Mediterr\u00e2neo \u2013 e que, mais grave, assim agiram sabendo muito bem o que faziam. No entanto, Pr\u00f3spero perdoa at\u00e9 o irm\u00e3o conspirador, Ant\u00f4nio, e o usurpador Alonso, rei de N\u00e1poles.<br \/> \u201cPr\u00f3spero n\u00e3o \u00e9 Shakespeare, mas a possibilidade de identifica\u00e7\u00e3o \u00e9 mais forte que com outros personagens\u201d, diz o cr\u00edtico A. D. Nuttall, em Shakespeare the Thinker (Shakespeare, O Pensador). Nuttall descobre uma nota de desilus\u00e3o nessa pe\u00e7a outonal: as motiva\u00e7\u00f5es de Pr\u00f3spero s\u00e3o obscuras, seu perd\u00e3o \u00e9 reticente, e a vis\u00e3o do mundo como um teatro de ilus\u00f5es \u00e9, no limite, niilista. Esta seria, diz Nuttall, a pe\u00e7a de um autor que se aposenta com certa vergonha de ter dedicado a vida ao palco. Pode ser ao mesmo tempo \u2013 tal \u00e9 a multiplicidade de Shakespeare \u2013 a pe\u00e7a tamb\u00e9m \u00e9 uma celebra\u00e7\u00e3o da humanidade. (N\u00e3o do ser humano redimido pela religi\u00e3o, nem da criatura quase angelical que povoa os sonhos de utopistas (como Gonzalo), o nobre amigo de Pr\u00f3spero que, ao chegar \u00e1 ilha, projeta no ar uma comunidade selvagem e id\u00edlica), mas do ser humano tal como \u00e9 contingente, mesquinho \u2013 at\u00e9 monstruoso, como o deformado Caliban, capaz de uma poesia encantadora em suas falas.<\/p>\n<p> Mal e Priva\u00e7\u00e3o<br \/> Santo Agostinho constata que o mal n\u00e3o \u00e9 um ser, n\u00e3o tem car\u00e1ter ontol\u00f3gico, n\u00e3o tem nada de positivo, enfim ele \u00e9 um n\u00e3o-ser. \u201cO mal n\u00e3o tem natureza alguma; pois a perda do ser \u00e9 que tomou o nome de mal\u201d. Se todo o bem fosse retirado das coisas, nada sobraria, pois o mal n\u00e3o \u00e9 uma subst\u00e2ncia como queria os manique\u00edstas \u00e9 priva\u00e7\u00e3o ou imperfei\u00e7\u00e3o. Portanto \u00e9 imposs\u00edvel que o mal tenha se originado de Deus, pois Deus \u00e9 aquele que d\u00e1 o ser as coisas. (Cidade de Deus, IX, p. 29) (4).<br \/> Segundo Santo Tom\u00e1s de Aquino, n\u00e3o existe maior mal, para a natureza humana, do que se privar, volunt\u00e1ria e conscientemente, da companhia de Deus. Este \u00e9 o mal moral que se d\u00e1 no contexto da liberdade e da responsabilidade humanas, como consequ\u00eancia de a\u00e7\u00f5es assentadas nos ju\u00edzos da raz\u00e3o e na anu\u00eancia da vontade. Para Santo Tom\u00e1s, \u201cmal e priva\u00e7\u00e3o\u201d s\u00e3o sin\u00f4nimos. (Suma Teol\u00f3gica, primeira parte, quest\u00e3o 48, artigo 1, \u201cad primum\u201d. <br \/> Conclus\u00e3o<\/p>\n<p> S\u00f3crates via Plat\u00e3o (A Rep\u00fablica, Livro IX), defende que o homem que pratica o mal \u00e9 o mais infeliz e escravizado de todos, pois est\u00e1 em conflito interno, em desarmonia consigo mesmo, perenemente acossado e paralisado por medos, remorsos e apetites incontrol\u00e1veis, tendo uma exist\u00eancia desprez\u00edvel, para sempre amarrado a algu\u00e9m (sua pr\u00f3pria consci\u00eancia!) onisciente que o condena.<br \/> Jean Pierre Dupuy, fil\u00f3sofo da Escola Polit\u00e9cnica de Paris e da Universidade de Stanford que escreveu em seu livro Por um Catastrofismo Esclarecido: \u201cSempre o Mal esteve relacionado com as inten\u00e7\u00f5es de quem o comete. Os horrores do s\u00e9culo XX deviam nos ter ensinado que isso \u00e9 uma ilus\u00e3o. O absurdo \u00e9 que um mal imenso possa ser causado por uma completa aus\u00eancia de malignidade, que uma responsabilidade monstruosa possa caminhar junto com uma total aus\u00eancia de m\u00e1s inten\u00e7\u00f5es. (&#8230;) a cat\u00e1strofe ecol\u00f3gica maior com que nos deparamos e que p\u00f5e em perigo toda a humanidade ser\u00e1 menos o resultado de um mal dos homens ou mesmo de sua estupidez. Ter\u00e1 sido mais por uma aus\u00eancia de pensamento (\u2018thougthlessness\u2019) (&#8230;)\u201d.<br \/> O mal toma muito espa\u00e7o na sociedade devido o esquema projetado pela crise e sofrimento. A maldade \u00e9 efetuada via a perturba\u00e7\u00e3o e componentes que desvirtuam os seres humanos do bem comum.<br \/> O mal tem t\u00e1ticas incompreens\u00edveis e seu abismo \u00e9 silencioso. O mal \u00e9 praticado sem culpados vis\u00edveis. A ind\u00fastria do mal \u00e9 bastante lucrativa, sua discuss\u00e3o filos\u00f3fica \u00e9 intermin\u00e1vel, sua parte na teologia \u00e9 complexa e diab\u00f3lica, nas ci\u00eancias pol\u00edticas prop\u00f5em solu\u00e7\u00f5es ditatoriais, liberais e democr\u00e1ticas, na psicologia e psiquiatria lan\u00e7am m\u00e3o da etiologia e epistemologia para estudos do autoentendimento.<br \/> No alto teor da racionalidade humana, atingir a fortaleza do bem \u00e9 a nossa meta. Radicalizar a bondade e extrair o mal pela raiz.<br \/> J\u00e1 houve \u00e9poca em que a solu\u00e7\u00e3o para os problemas sociais e afins, era a religi\u00e3o, assim pensava a casta sacerdotal; para os imp\u00e9rios, era a domina\u00e7\u00e3o dos vencidos; na idade medieval, as cruzadas; no per\u00edodo moderno e contempor\u00e2neo, a monarquia, o protestantismo, a oligarquia, capitalismo, comunismo, democracia, fascismo, nazismo, e hoje, a ci\u00eancia e a tecnologia. No entanto, no cerne de tudo isso, a maldade continua!<br \/> O mal silencioso n\u00e3o faz m\u00e1rtires, her\u00f3is e nem vil\u00f5es. No passado como no presente, tantas religi\u00f5es, igrejas, seitas, s\u00e1bios e generais, e quantos escravos, persegui\u00e7\u00f5es, crueldades, fome e crimes. <\/p>\n<p>Pe. In\u00e1cio Jos\u00e9 do Vale<br \/>Pesquisador de Seitas<br \/>Professor de Hist\u00f3ria da Igreja<br \/>Instituto de Teologia Bento XVI<br \/>Soci\u00f3logo em Ci\u00eancia da Religi\u00e3o<br \/>E-mail: pe.inacio.jose.@gmail.com<\/p>\n<p>Notas: <\/p>\n<p>(1)\u00a0\u00a0\u00a0 Veja, 21\/08\/2014, pp. 15 e 18.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cos homens melhores n\u00e3o tem convic\u00e7\u00e3o; e os piores est\u00e3o tomados pela intensa paix\u00e3o do mal\u201d. William B. Yeats (1865 \u2013 1939) Poeta e Intelectual Irland\u00eas Boa parte dos 80 anos do psic\u00f3logo americano Philip Zimbardo foi dedicada a buscar resposta a uma quest\u00e3o ao mesmo tempo fascinante e assustadora: o que leva as pessoas [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":16,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[],"class_list":["post-4598","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4598","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/users\/16"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4598"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4598\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9486,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4598\/revisions\/9486"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4598"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4598"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4598"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}