{"id":45687,"date":"2018-12-02T15:27:37","date_gmt":"2018-12-02T17:27:37","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=45687"},"modified":"2018-12-03T08:46:49","modified_gmt":"2018-12-03T10:46:49","slug":"menino-da-cacamba","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/menino-da-cacamba\/","title":{"rendered":"Menino da ca\u00e7amba"},"content":{"rendered":"<p>O que seria de nossas cidades sem o servi\u00e7o do recolhedor de entulhos, com suas ca\u00e7ambas milagrosas que fazem desaparecer de nossas vistas tudo de imprest\u00e1vel produzido em nossas constru\u00e7\u00f5es? Constru\u00edmos muito, mas descartamos bem mais. Muito daquilo que classificamos como imprest\u00e1vel faz falta na edifica\u00e7\u00e3o de outros lares, aqueles que seriam a vida sonhada por muitos. A sobra de uns \u00e9 migalha essencial a outros.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 de desigualdade social nosso assunto. Digamos ser este um ing\u00eanuo conto de Natal. Perambulando por nossas avenidas, ruas e vielas \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o notar essas ca\u00e7ambas modernas que a civiliza\u00e7\u00e3o inventou para despejar seus descartes. Ironicamente, muitas destas ocupando vagas de idosos, carga e descarga ou mesmo de cadeirantes, deficientes. Outras na contram\u00e3o do fluxo normal ou simplesmente impedindo acesso \u00e0 garagem do pobre contribuinte. T\u00e3o ou mais irregular que o ve\u00edculo de placas clonadas, a carro\u00e7a a tra\u00e7\u00e3o animal ou humana que nunca respeita leis de tr\u00e2nsito e por a\u00ed vai. O pobre catador \u00e9 quem faz a festa em meio a tanto caos e dejetos.<\/p>\n<p>Um deles, no entanto, num dezembro de entulhos ricos, recicl\u00e1veis valiosos e descartes preciosos, encontrou um dia uma caixa de papel\u00e3o atraente e volumosa, com um selo de loja de luxo, mas conte\u00fado misterioso envolto em fina seda. Que fazia ali aquela caixa? Levou-a cuidadosamente para seu barraco, pensando fazer presente \u00e0 companheira de infort\u00fanios, a m\u00e3e de seus filhos. Depositou a caixa numa mesa de centro, cambeta, por\u00e9m ainda \u00fatil. Reuniu mulher e filhos e, num ritual quase religioso, come\u00e7ou a desembrulhar as pe\u00e7as. Primeiro encontrou uma ovelha, depois outra, mais outra. Logo veio um boi, um cavalo, outro boi, uma vaca leiteira. Ah, que bom se esta fosse realmente leiteira, pensou, olhando para a tristeza desnutrida do ca\u00e7ula no barraco.<\/p>\n<p>Continuou a desvendar os mist\u00e9rios daquela caixa. J\u00e1 n\u00e3o atinava para o sentido daquele zool\u00f3gico de pe\u00e7as, quando encontrou o que seria a imagem de um rei, um rico e portentoso rei da antiguidade, que trazia consigo um precioso ba\u00fa repleto de moedas de ouro. Logo encontrou outro rei, com tra\u00e7os asi\u00e1ticos, depois outro, de pele negra. Quem seriam t\u00e3o estranhas figuras? Mas ao mist\u00e9rio do tr\u00edplice reinado, recordando uma trindade quase santa de poder e gl\u00f3ria, seguiram-se enigm\u00e1ticas figuras de pastores e alde\u00f5es, gente simples, gente do povo como eles, catadores e sobreviventes das mesas ricas que lhes davam suas sobras, seus entulhos. Gente como a gente, pensou!<\/p>\n<p>Depois descobriu a imagem da simplicidade em pessoa, representando um vener\u00e1vel senhor de tez serena, cajado de apoio a longas caminhadas que certamente j\u00e1 fizera. Seu olhar era de contempla\u00e7\u00e3o a algo reluzente. Tinha os tra\u00e7os de um anci\u00e3o feliz, um z\u00e9 ningu\u00e9m sem muitas realiza\u00e7\u00f5es sen\u00e3o aquelas que evidenciavam a consci\u00eancia de um homem justo. A esposa do catador foi quem desembrulhou a pe\u00e7a seguinte: bela imagem de uma jovem mulher! A imagem perfeita de u\u2019a m\u00e3e amorosa, exclamou em alta voz, enquanto a depositava com extremada devo\u00e7\u00e3o e encantamento bem ao centro da mesinha cambeta, cal\u00e7ada agora com a responsabilidade de n\u00e3o destruir aquelas pe\u00e7as dum quase quebra-cabe\u00e7as que encantava a todos. \u00a0A jovem Maria, como tantas marias de lutas e infort\u00fanios que bem conhecia, aquela Maria lhe transmitia for\u00e7a e serenidade nunca sentidas antes. Depositou-a carinhosamente ao lado da imagem apaixonada do seu bom Jos\u00e9.<\/p>\n<p>Por fim, restou um \u00faltimo e misterioso embrulho. Em partes descobriram o que poderia ser um comedouro de animais, um cesto de ra\u00e7\u00e3o ou coisa assim, pois era uma pe\u00e7a totalmente descaracterizada, lembrando vagamente um ber\u00e7o de crian\u00e7a. A surpresa maior veio a seguir: a imagem radiante de um beb\u00ea, mas com o nariz quebrado. Teriam que lhe providenciar outro ber\u00e7o. Tal qual fizeram para o ca\u00e7ula da fam\u00edlia, adotado sim, mas que num dezembro como este encontraram numa ca\u00e7amba, tirintando de frio e com o nariz tamb\u00e9m quebrado. Emanuel era seu nome, o mesmo nome do juiz que concedera ao casal de catadores a guarda daquele menino da ca\u00e7amba&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que seria de nossas cidades sem o servi\u00e7o do recolhedor de entulhos, com suas ca\u00e7ambas milagrosas que fazem desaparecer de nossas vistas tudo de imprest\u00e1vel produzido em nossas constru\u00e7\u00f5es? Constru\u00edmos muito, mas descartamos bem mais. 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