{"id":4549,"date":"2014-04-29T16:46:16","date_gmt":"2014-04-29T19:46:16","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/o-encontro-face-a-face-de-dois-mendicantes\/"},"modified":"2017-04-05T11:36:18","modified_gmt":"2017-04-05T14:36:18","slug":"o-encontro-face-a-face-de-dois-mendicantes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/o-encontro-face-a-face-de-dois-mendicantes\/","title":{"rendered":"O encontro face a face de dois mendicantes"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/catolicanet.com.br\/images\/stories\/mendicantes.jpg\" border=\"0\" align=\"left\" \/>Enquanto atravessava o distrito financeiro em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Est\u00e1tua da Liberdade, passei por um morador de rua que lia um livro. Pensei: &#8220;Ele tamb\u00e9m gosta de ler, exatamente como eu&#8221;. Continuei o caminho meio distra\u00eddo, imerso nesse pensamento, e decidi voltar. Deitado sobre um cobertor me falou qual livro estava lendo, dizendo que n\u00e3o era o seu preferido. Ent\u00e3o, me inclinei e perguntei como se chamava. &#8220;Maximus&#8221;, respondeu. Ainda n\u00e3o tinha percebido meu colarinho e ficou at\u00f4nito quando eu disse: &#8220;Sou padre John&#8221;. Aquele homem vinha de uma fam\u00edlia cat\u00f3lica muito devota, inclinou a cabe\u00e7a e me pediu para rezar. Ajoelhei-me na cal\u00e7ada, e algo mudou improvisamente. Ele desatou a chorar convulsivamente e come\u00e7ou a perguntar: &#8220;Porqu\u00ea? Por que me acontece isso?&#8221;. N\u00e3o parecia estar falando comigo ou esperar uma resposta. O que era bom, porque eu me sentia impotente como ele. Cada pensamento moralista que eu tinha me deixava vazio e pobre. Sabia que aquele n\u00e3o era o lugar nem o momento para fazer catequese, para frases religiosas ou respostas simplistas, porque estava diante de uma necessidade muito profunda. Ele me falou de muitas coisas, insistindo sobretudo naquilo que tinha feito de errado na vida. Estava cheio de dor pelos seus pecados. Ele os contava a mim chorando, pedindo miseric\u00f3rdia. No fim, do fundo da sua alma, gritou: &#8220;Pai, me perdoa!&#8221;. N\u00e3o se dirigia a mim, mas eu sentia que o Pai tinha me enviado naquele momento. Por isso, estendi as m\u00e3os e continuei a obra de Cristo. &#8220;Deus, pai de miseric\u00f3rdia&#8230;&#8221;. Ali, entre seus cobertores, suas tralhas e aquele livro, sua alma tinha se unido a Deus. Sua surpresa ao ouvir a f\u00f3rmula &#8220;&#8230;eu lhe absolvo dos seus pecados&#8221; podia ser comparada somente \u00e0 minha, uma hora depois, durante a missa, quando, proclamando o Evangelho, li as palavras de Jesus ao paral\u00edtico; &#8220;Teus pecados te s\u00e3o perdoados&#8221;. Alguns dias depois, padre Carr\u00f3n encerrou o New York Encounter citando o Evangelho do paral\u00edtico, e padre Peter John Cameron perguntou retoricamente: &#8220;Tudo isso aconteceu no passado. Agora n\u00e3o pode acontecer mais, ou pode?&#8217;: Vieram-me l\u00e1grimas aos olhos. Levantei os olhos e disse: &#8220;Sim, pode!&#8221;. Aconteceu em Wall Street. No fim das contas, n\u00e3o consegui ver a Est\u00e1tua da Liberdade, mas fiz experi\u00eancia de uma liberdade maior: um encontro entre dois mendicantes que trouxe liberdade a ambos. Padre John, Yankton (USA) <br \/>de \u00e2nimo era completamente diferente. No final da aula, ele me agradeceu pelo trabalho. E eu pensei comigo: &#8220;A\u00ed est\u00e1, este sou eu. Francisco, em a\u00e7\u00e3o&#8221;. No dia seguinte, tinha tr\u00eas alunos em uma escola, e as aulas come\u00e7avam \u00e0s duas e meia da tarde, hora em que \u00e9 melhor come\u00e7ar a voltar para casa para n\u00e3o correr o risco de se ver envolvido nas manifesta\u00e7\u00f5es. Tinha certeza de que ningu\u00e9m viria. Mas fui do mesmo jeito, porque tenho um contrato com a escola. Quando cheguei, por volta das duas e vinte, o primeiro aluno j\u00e1 estava l\u00e1. Estava sentado e se exercitando. Este fato me desarmou completamente. Fizemos a aula inteira. O aluno seguinte (que vinha da regi\u00e3o que estava mais agitada naquele dia) n\u00e3o podia vir porque tinha sofrido um acidente de carro. Mas sua m\u00e3e ligou para a escola para avisar.. Isso tamb\u00e9m me impressionou muito: nunca teria esperado que, em uma situa\u00e7\u00e3o assim, se preocupariam em avisar. A \u00faltima aluna a quem eu devia dar aula era uma menina (estes alunos t\u00eam todos entre 11 e 16 anos) que vem de uma regi\u00e3o fora de Caracas. Pensava que naturalmente ela n\u00e3o enfrentaria a viagem naquelas circunst\u00e2ncias para fazer uma aula de viol\u00e3o. Quando chegou a hora, de fato, ela n\u00e3o apareceu. Mas, logo depois, ligou para a escola para avisar que estava atrasada por causa do tr\u00e2nsito. Estava <br \/>chegando. Perguntou se eu poderia esper\u00e1-la. Estava de novo desarmado. Eu a esperei. Fizemos a aula inteira. No fim, para mim, foi imposs\u00edvel n\u00e3o me perguntar: o que levou esses jovens a virem \u00e0 aula? Ser\u00e1 que precisaram discutir com os pais para que os deixassem vir, em uma situa\u00e7\u00e3o t\u00e3o incerta e perigosa? Pensei em muitas coisas. Mas, depois dessas aulas, n\u00e3o tive mais d\u00favidas de que, em meio a esse caos que circunda a cidade, valia a pena sair de casa e ser eu mesmo, e dar aquilo que sou. Claro que vale a pena. Porque tenho certeza de quem eu sou e a quem perten\u00e7o. Jos\u00e9 Francisco, Caracas (Venezuela).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Fonte:<\/strong> Revista Passos<br \/><strong>Local:<\/strong> S\u00e3o Paulo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Enquanto atravessava o distrito financeiro em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Est\u00e1tua da Liberdade, passei por um morador de rua que lia um livro. Pensei: &#8220;Ele tamb\u00e9m gosta de ler, exatamente como eu&#8221;. Continuei o caminho meio distra\u00eddo, imerso nesse pensamento, e decidi voltar. Deitado sobre um cobertor me falou qual livro estava lendo, dizendo que n\u00e3o era [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-4549","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cotidiano"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4549","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4549"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4549\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9442,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4549\/revisions\/9442"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4549"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4549"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4549"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}