{"id":45417,"date":"2018-11-19T10:04:38","date_gmt":"2018-11-19T12:04:38","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=45417"},"modified":"2018-11-19T10:04:38","modified_gmt":"2018-11-19T12:04:38","slug":"eros-e-agape-na-enciclica-deus-caritas-est","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/eros-e-agape-na-enciclica-deus-caritas-est\/","title":{"rendered":"Eros e \u00c1gape na Enc\u00edclica Deus caritas est"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/www.osaopaulo.org.br\/colunista\/daniela-jorge-milani\">Daniela Jorge Milani<\/a><\/p>\n<p class=\"rtejustify\">Segundo Nietzsche, o Cristianismo teria dado veneno a beber ao eros, enfraquecendo aquela que seria a verdadeira for\u00e7a impulsionadora de vida para o homem. Mas Bento XVI, em sua enc\u00edclica <em>Deus caritas est<\/em> (DCE), responde a essa cr\u00edtica dizendo que essa ideia \u00e9 equivocada e n\u00e3o atende ao apelo do verdadeiro humanismo.<\/p>\n<p class=\"rtejustify\">Eros \u00e9 uma for\u00e7a instintiva em dire\u00e7\u00e3o ao outro, \u00e9 amor que n\u00e3o depende da intelig\u00eancia ou da vontade, mas, de certa maneira, se imp\u00f5e ao homem. O pr\u00f3prio amor de Deus por seu povo foi retratado na B\u00edblia como er\u00f3tico: \u201cSobretudo os profetas Os\u00e9ias e Ezequiel descreveram esta paix\u00e3o de Deus por seu povo, com arrojadas imagens er\u00f3ticas. A rela\u00e7\u00e3o de Deus com Israel \u00e9 ilustrada por meio das met\u00e1foras do noivado e do Matrim\u00f4nio, consequentemente, a idolatria \u00e9 adult\u00e9rio e prostitui\u00e7\u00e3o\u201d (DCE, 9). O livro b\u00edblico do C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos, que relata o desejo entre esposos, foi bem cedo entendido como a descri\u00e7\u00e3o do amor de Deus pelo homem e que exprime a uni\u00e3o a que o homem \u00e9 chamado a estar com seu Deus, pois sendo Ele a fonte de todo ser, \u00e9, ao mesmo tempo, \u201cum amante, com toda a paix\u00e3o de um verdadeiro amor\u201d.<\/p>\n<p class=\"rtejustify\">Mas o amor de Deus pelo povo \u00e9 tamb\u00e9m descrito como \u00e1gape, ou seja, pleno de gratuidade, sem limites e condi\u00e7\u00f5es. Novamente Bento XVI menciona o livro de Oseias, no qual Deus mostra que \u00e9 capaz de perdoar a trai\u00e7\u00e3o de seu povo com outros deuses, assim como em sua vida real Oseias perdoa sua esposa infiel. A rea\u00e7\u00e3o de Deus mostra seu grande amor: \u201cComo poderia eu abandonar-te, \u00f3 Efraim, entregar-te, \u00f3 Israel? [&#8230;] Meu cora\u00e7\u00e3o se contorce dentro de mim, minhas entranhas comovem-se. N\u00e3o executarei o ardor de minha ira, n\u00e3o tornarei a destruir Efraim, porque eu sou Deus e n\u00e3o homem\u201d (DCE, 10).<\/p>\n<p class=\"rtejustify\">A gratuidade do amor se mostra precisamente no perd\u00e3o. Deus poderia fazer justi\u00e7a, punindo o povo que lhe foi infiel. Contudo, n\u00e3o consegue faz\u00ea-lo. Demonstra a compaix\u00e3o decorrente de seu grande amor: \u201cE \u00e9 t\u00e3o grande, que chega a virar Deus contra Si pr\u00f3prio, o seu amor contra a sua justi\u00e7a. Nisto, o crist\u00e3o v\u00ea j\u00e1 esbo\u00e7ar-se veladamente o mist\u00e9rio da Cruz: Deus ama tanto o homem que, tendo-Se feito Ele pr\u00f3prio homem, segue-o at\u00e9 \u00e0 morte e, deste modo, reconcilia justi\u00e7a e amor\u201d (DCE, 10).<\/p>\n<p class=\"rtejustify\">Deus, portanto, eleva o eros, mas o coloca totalmente fundido ao \u00e1gape. Assim, a realiza\u00e7\u00e3o humana n\u00e3o \u00e9 viver o eros at\u00e9 seu esgotamento, deixando-o subjugado ao instinto, o que traduzir-se-ia necessariamente na viv\u00eancia ego\u00edsta da rela\u00e7\u00e3o a dois, fazendo do outro um meio para obten\u00e7\u00e3o de prazer e descartando-o quando j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais capaz de dar felicidade. \u00c9 necess\u00e1rio viv\u00ea-lo juntamente com o \u00e1gape. O eros vem de Deus, mas tem necessidade de amadurecimento por meio de constantes purifica\u00e7\u00f5es e sacrif\u00edcios. Isso n\u00e3o \u00e9 sua destrui\u00e7\u00e3o e sim sua cura (DCE, 5).<\/p>\n<p class=\"rtejustify\">Desse modo, embora o eros seja inicialmente ambicioso, fascina\u00e7\u00e3o pela grande promessa de felicidade, depois, \u00e0 medida que se aproxima do outro, far-se-\u00e1 cada vez menos perguntas sobre si pr\u00f3prio, procurar\u00e1 sempre mais a felicidade do outro, preocupar-se-\u00e1 cada vez mais com ele, doar-se-\u00e1 e desejar\u00e1 existir para o outro. E, assim, insere-se nele o momento do \u00e1gape. Se isso n\u00e3o acontecer, o eros decai e perde mesmo sua pr\u00f3pria natureza (DCE, 7).<\/p>\n<p class=\"rtejustify\">Enfim, \u00e9 na supera\u00e7\u00e3o do ego\u00edsmo, no dom de si, na gratuidade, que ir\u00e1 se desenvolver o amor humano para ser vivido segundo o mandamento de Cristo: \u201cAmai-vos como eu vos amei\u201d<\/p>\n<p class=\"rtejustify\">\n<address><sub><strong>Daniela Jorge Milani<\/strong>, mestre e doutoranda em Filosofia do Direito na PUC-SP, \u00e9 advogada em S\u00e3o Paulo.<\/sub><\/address>\n<address>\u00a0<\/address>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Daniela Jorge Milani Segundo Nietzsche, o Cristianismo teria dado veneno a beber ao eros, enfraquecendo aquela que seria a verdadeira for\u00e7a impulsionadora de vida para o homem. Mas Bento XVI, em sua enc\u00edclica Deus caritas est (DCE), responde a essa cr\u00edtica dizendo que essa ideia \u00e9 equivocada e n\u00e3o atende ao apelo do verdadeiro humanismo. 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