{"id":4514,"date":"2014-04-22T17:14:20","date_gmt":"2014-04-22T20:14:20","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/sacerdotes-arautos-da-caridade\/"},"modified":"2017-04-05T11:16:06","modified_gmt":"2017-04-05T14:16:06","slug":"sacerdotes-arautos-da-caridade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/sacerdotes-arautos-da-caridade\/","title":{"rendered":"Sacerdotes, arautos da caridade"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">\n<p> Sempre ouvimos o termo sacerdote e seria muito bom, aproveitando o Tr\u00edduo Pascal, refletirmos sobre isso em vista das celebra\u00e7\u00f5es da Quinta-feira Santa, com a Institui\u00e7\u00e3o do Sacerd\u00f3cio Ministerial.<br \/> Nenhum de n\u00f3s \u2013 que recebemos o sacramento da Ordem em seu segundo ou terceiro graus \u2013 tem um sacerd\u00f3cio pr\u00f3prio, mas somos participantes do \u00fanico sacerd\u00f3cio de Cristo, Nosso Senhor (cf. Hb 5,10; 6,20), que \u00e9 o mediador por excel\u00eancia entre Deus e os homens (cf. 1Tm 2,5). Ele santo, inocente e imaculado (cf. Hb 7,16), com sua \u00fanica oferenda, levou \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o, de uma vez por todas, os que Ele santifica (Hb 10,14) pelo sacrif\u00edcio de sua cruz.<br \/> Assim como o sacrif\u00edcio de Cristo \u00e9 \u00fanico \u2013 o da cruz \u2013, mas torna-se presente no sacrif\u00edcio da Igreja pela Santa Missa, o \u00fanico sacerd\u00f3cio de Cristo torna-se tamb\u00e9m presente pelo sacerd\u00f3cio ministerial sem em nada diminuir a unicidade do sacerd\u00f3cio de Cristo. Da\u00ed, ensinar S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino que \u201csomente Cristo \u00e9 o verdadeiro sacerdote; os outros s\u00e3o seus ministros\u201d (Coment\u00e1rio aos Hebreus 7,4, citado pelo Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica n. 1545).<br \/> Se cada crist\u00e3o batizado, por meio de seu sacerd\u00f3cio comum ou batismal, tem a miss\u00e3o de exercitar a diaconia da caridade, muito mais n\u00f3s, ministros ordenados, devemos exercer, de acordo com o nosso estado de vida, o amor fraterno para com os mais necessitados que se encontram \u00e0 nossa volta e clamam por nossa ajuda, pois veem em n\u00f3s, apesar de nossas mis\u00e9rias humanas, homens de Deus e distribuidores de Seu amor.<br \/> Ali\u00e1s, o amor \u00e9 a t\u00f4nica ou o diferencial da vida crist\u00e3. Foi o pr\u00f3prio Senhor Jesus quem nos disse: \u201cAmai-vos uns aos outros como eu vos amei\u201d, pois \u201cningu\u00e9m tem maior prova de amor do que aquele que d\u00e1 a vida por seus amigos\u201d (Jo 15,12-13). Esse amor imperava nas primeiras comunidades crist\u00e3s, de modo que n\u00e3o havia necessitados entre eles (At. 2,42-47) e, assim, eram um s\u00f3 cora\u00e7\u00e3o e uma s\u00f3 alma (cf. At 4,32).<br \/> O Ap\u00f3stolo Jo\u00e3o exalta tanto a pr\u00e1tica do amor que afirma que Deus \u00e9 amor (cf. 1 Jo 4,16) e aquele que diz amar a Deus a quem n\u00e3o v\u00ea, mas n\u00e3o ama seu irm\u00e3o a quem v\u00ea \u00e9 mentiroso (cf. 1Jo 4,20). S\u00e3o Paulo escreve o belo hino da caridade e diz que sem amor somos como o sino que n\u00e3o faz barulho (cf. 1Cor 13), ou seja, n\u00e3o servimos para nada.<br \/> Voltando-nos para os ministros ordenados, dentre os quais eu me incluo, devemos pensar nas palavras do Senhor, em outro contexto, a dizer que a quem mais \u00e9 dado, mais ser\u00e1 pedido (cf. Lc 12,48). Quer dizer: se dos que receberam o sacerd\u00f3cio comum dos fi\u00e9is pelo Batismo ser\u00e3o pedidas contas, quais n\u00e3o ser\u00e3o as cobran\u00e7as exigidas daqueles que receberam, al\u00e9m do Santo Batismo, a ordena\u00e7\u00e3o presbiteral a fim de sermos as m\u00e3os estendidas de Cristo ao mundo?<br \/> Contudo, o que nos motiva a praticarmos o amor-\u00e1gape n\u00e3o \u00e9 o medo da cobran\u00e7a divina, mas, sim, a responsabilidade da fun\u00e7\u00e3o que assumimos, de servir a Deus por meio dos irm\u00e3os, a come\u00e7ar pelos que mais necessitam. Ali\u00e1s, Jesus deixa claro que n\u00e3o s\u00e3o os que se acham de sa\u00fade que carecem de m\u00e9dicos, mas, sim, os doentes (cf. Mc 2,17).<br \/> O Papa Bento XVI recordava, em sua Catequese de 29 de abril de 2010, a vida de S\u00e3o Leonardo Murialdo, enquanto sacerdote exemplar do s\u00e9culo XIX, dizendo que ele viveu \u201cressaltando a grandeza da miss\u00e3o do presb\u00edtero, que deve \u2018continuar a obra da reden\u00e7\u00e3o, a grande obra de Jesus Cristo, a obra do Salvador do mundo\u2019, ou seja, de \u2018salvar as almas\u2019, S\u00e3o Leonardo recordava sempre a si mesmo e aos irm\u00e3os de h\u00e1bito a responsabilidade de uma vida coerente com o sacramento recebido. Amor de Deus e amor a Deus: foi esta a for\u00e7a do seu caminho de santidade, a lei do seu sacerd\u00f3cio, o significado mais profundo do seu apostolado entre os jovens pobres e a fonte da sua ora\u00e7\u00e3o. S\u00e3o Leonardo Murialdo abandonou-se com confian\u00e7a \u00e0 Provid\u00eancia, cumprindo generosamente a vontade divina, no contato com Deus e dedicando-se aos jovens pobres. Deste modo, ele uniu o sil\u00eancio contemplativo com o ardor incans\u00e1vel da a\u00e7\u00e3o, a fidelidade aos deveres de cada dia com a genialidade das iniciativas, a for\u00e7a nas dificuldades com a tranquilidade do esp\u00edrito. Este \u00e9 o seu caminho de santidade para viver o mandamento do amor a Deus e ao pr\u00f3ximo\u201d.<br \/> Outro exemplo de caridade sacerdotal, citado por Bento XVI na mesma Catequese, \u00e9 a de S\u00e3o Jos\u00e9 de Cottolengo, tamb\u00e9m santo do s\u00e9culo XIX. Este homem de Deus teve sua inspira\u00e7\u00e3o para se dedicar mais intensamente \u00e0 caridade na manh\u00e3 de domingo, 2 de setembro de 1827, ao encontrar-se, em Turim, com uma fam\u00edlia francesa cuja esposa, com cinco filhos, estava em estado de gravidez avan\u00e7ada e com febre alta.<br \/>\u201cDepois de ter passado por v\u00e1rios hospitais \u2013 diz Bento XVI \u2013, a fam\u00edlia encontrou alojamento num dormit\u00f3rio p\u00fablico, mas a situa\u00e7\u00e3o para a mulher foi-se agravando e algumas pessoas puseram-se em busca de um sacerdote. Por um misterioso des\u00edgnio, cruzaram-se com Cottolengo e foi precisamente ele, com o cora\u00e7\u00e3o amargurado e oprimido, que acompanhou essa jovem m\u00e3e at\u00e9 \u00e0 morte, entre a ang\u00fastia de toda a fam\u00edlia.\u201d<br \/>\u201cDepois de ter cumprido este doloroso dever, com o sofrimento no cora\u00e7\u00e3o, foi diante do Sant\u00edssimo Sacramento e rezou: \u2018Meu Deus, por qu\u00ea? Por que quiseste que eu fosse uma testemunha? O que queres de mim? \u00c9 necess\u00e1rio fazer algo!\u2019 Levantou-se, mandou badalar todos os sinos, acendeu as velas e, recebendo os curiosos na igreja, disse: \u2018A gra\u00e7a foi concedida! A gra\u00e7a foi concedida!\u2019 A partir daquele momento, Cottolengo foi transformado: todas as suas capacidades, especialmente a sua habilidade econ\u00f4mica e organizativa, foram utilizadas para dar vida a iniciativas em defesa dos mais necessitados.\u201d<br \/>\u201cEle soube \u2013 continua o Papa \u2013 empenhar no seu empreendimento dezenas e dezenas de colaboradores e volunt\u00e1rios. Transferindo-se para a periferia de Turim, a fim de ampliar a sua obra, criou uma esp\u00e9cie de povoado, no qual, a cada edif\u00edcio que conseguiu construir, atribuiu um nome significativo: \u2018casa da f\u00e9\u2019, \u2018casa da esperan\u00e7a\u2019, \u2018casa da caridade\u2019. P\u00f4s em ato o estilo das \u2018fam\u00edlias\u2019, constituindo verdadeiras comunidades de pessoas, volunt\u00e1rios e volunt\u00e1rias, homens e mulheres, religiosos e leigos, unidos para enfrentar e superar em conjunto as dificuldades que se apresentavam.\u201d <br \/>\u201cCada um, naquela Pequena Casa da Provid\u00eancia Divina, tinha uma tarefa espec\u00edfica: alguns trabalhavam, outros rezavam, uns serviam, alguns educavam e outros ainda administravam. Pessoas sadias e doentes compartilhavam todas o mesmo peso da vida cotidiana. Tamb\u00e9m a vida religiosa se definiu no tempo, segundo as necessidades e as exig\u00eancias particulares. Pensou tamb\u00e9m num semin\u00e1rio pr\u00f3prio, para uma forma\u00e7\u00e3o espec\u00edfica dos sacerdotes da Obra. Estava sempre pronto a seguir e a servir a Provid\u00eancia Divina, nunca a interrog\u00e1-la. Dizia: \u2018Sou in\u00fatil e nem sei o que fa\u00e7o.\u00a0 Por\u00e9m, a Provid\u00eancia Divina certamente sabe o que quer. Quando a mim, cabe-me apenas secund\u00e1-la. Para a frente, in Domino [no Senhor]\u2019. Para os seus pobres e mais necessitados, definir-se-\u00e1 sempre \u2018o oper\u00e1rio da Provid\u00eancia Divina\u2019.\u201d<br \/>\u201cAo lado das pequenas cidadelas, quis fundar tamb\u00e9m cinco mosteiros de irm\u00e3s contemplativas e um de eremitas, e ali considerou entre as realiza\u00e7\u00f5es mais importantes: uma esp\u00e9cie de \u2018cora\u00e7\u00e3o\u2019 que devia pulsar por toda a Obra.\u201d <br \/>V\u00ea-se que ambos os santos sacerdotes caridosos tudo fizeram pelos mais necessitados, sem, contudo, descuidarem, por m\u00ednimo que fosse, da vida espiritual alicer\u00e7ada na ora\u00e7\u00e3o. Esta \u00e9 o centro, o cume da caridade, pois por ela falamos com Deus e nos preparamos para, nas prega\u00e7\u00f5es, falar de Deus e, na caridade, agir como Cristo, Deus feito homem por amor de n\u00f3s, agiria se ali estivesse.<br \/>Se olharmos para este nosso imenso Brasil, relembrando as nossas par\u00f3quias ou as cidades pelas quais j\u00e1 passamos, tamb\u00e9m encontraremos exemplos caritativos de velhos p\u00e1rocos que foram, a justo t\u00edtulo, chamados de \u201cpai dos pobres\u201d, t\u00e3o grande era o seu cuidado para com todos os que os procuravam. Ningu\u00e9m sa\u00eda do mesmo modo que chegou.<br \/>Engana-se, no entanto, quem imagina que a caridade \u00e9 s\u00f3 material. Temos as cl\u00e1ssicas obras de miseric\u00f3rdia, sendo que sete delas s\u00e3o materiais (dar de comer a quem tem fome, de beber a quem tem sede, vestir os nus etc.) e sete s\u00e3o espirituais (aconselhar os errantes, corrigir os que erram, consolar os aflitos etc.), de modo que, mesmo sem recursos financeiros, \u00e9 poss\u00edvel praticar o amor para com o pr\u00f3ximo que bate \u00e0 nossa porta.<br \/>Eis um exemplo n\u00e3o muito distante de n\u00f3s: um jovem entregue ao v\u00edcio do \u00e1lcool, em um momento de sobriedade pediu ajuda por e-mail a Dom Estev\u00e3o Bettencourt, beneditino do Mosteiro de S\u00e3o Bento do Rio de Janeiro e que muito fez por esta Arquidiocese, e para o qual celebramos missa no sexto anivers\u00e1rio de seu falecimento na semana passada. O monge lhe respondeu aconselhando-o, caridosamente, a deixar a bebida buscando aux\u00edlio de seus pais, voltando a estudar (atividade que ele deixara), procurando apoio em um grupo de AA (Alco\u00f3licos An\u00f4nimos) e tentando reencontrar o sentido da vida em Deus e nos valores da f\u00e9 por meio do apoio de um sacerdote.<br \/>Ciente das dificuldades em que o rapaz se encontrava, Dom Estev\u00e3o lhe falava em certo trecho da mensagem: \u201cDir\u00e1 voc\u00ea: e como hei de me aproximar de Deus? Como O acharei, a Ele que \u00e9 invis\u00edvel? \u2013 Respondo: procure um sacerdote ou um amigo firme na f\u00e9, algu\u00e9m que tenha experi\u00eancia do conv\u00edvio com Deus e que lhe possa falar do Eterno com conhecimento de causa. A fun\u00e7\u00e3o do padre \u00e9 servir aos irm\u00e3os e fazer tudo para ajud\u00e1-los. Se n\u00e3o encontrar algu\u00e9m nas suas cercanias, disponha do irm\u00e3o que lhe escreve (&#8230;). Use e abuse de quem o passa a ajudar\u201d (Pergunte e Responderemos n. 448, setembro de 1999, p. 430).<br \/>Eis um belo exemplo da caridade sacerdotal que leva ao desprendimento de si para consumir-se, qual chama de uma vela, pelos irm\u00e3os que mais carecem de nosso aux\u00edlio certo, nas horas incertas de suas vidas a fim de poderem sair de suas \u201cperiferias existenciais\u201d, como gosta de lembrar o Papa Francisco, e vir para o centro da vida, da fam\u00edlia, da comunidade&#8230; de onde nunca deveriam ter se afastado.<br \/>Como n\u00e3o lembrarmos aqui daquela can\u00e7\u00e3o religiosa que diz \u201cQuem vive para si empobrece o seu viver, quem doar a pr\u00f3pria vida, vida nova h\u00e1 de colher\u201d. Sim, pois o Pai do c\u00e9u ama quem oferta sem reservas e com alegria (cf. 2Cor 9,7). Este deve ser o caso do sacerdote para quem, a partir do momento de sua entrega vocacional, cujo \u00e1pice \u00e9 a ordena\u00e7\u00e3o, nada mais lhe pertence, mas tudo o que Deus lhe deu deve ser colocado a servi\u00e7o do irm\u00e3o.<br \/>Sem vivermos essa realidade desafiadora, mas, ao mesmo tempo nobre, da nossa miss\u00e3o, corremos o risco de ser como o sino que soa em v\u00e3o, de nos tornarmos meros \u201cfuncion\u00e1rios do sagrado, sem f\u00e9 e nem amor\u201d. N\u00e3o foi para isso que Cristo chamou e escolheu a n\u00f3s, seus ministros, mas, sim, para sermos arautos da caridade, uma vez que Ele mesmo deu-nos o exemplo maior, entregando Sua vida por n\u00f3s quando ainda \u00e9ramos pecadores (cf. Rm 5,6).<br \/>Cientes de tudo isso, pe\u00e7amos confiantes: Senhor Jesus, dai-nos a gra\u00e7a de viver santamente o meu minist\u00e9rio sacerdotal servindo na caridade os meus irm\u00e3os e irm\u00e3s, especialmente aqueles que mais necessitam de minha presen\u00e7a junto deles a fim de levar-Vos comigo. Am\u00e9m!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sempre ouvimos o termo sacerdote e seria muito bom, aproveitando o Tr\u00edduo Pascal, refletirmos sobre isso em vista das celebra\u00e7\u00f5es da Quinta-feira Santa, com a Institui\u00e7\u00e3o do Sacerd\u00f3cio Ministerial. 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