{"id":4513,"date":"2014-04-18T03:00:00","date_gmt":"2014-04-18T06:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/a-renuncia-e-a-cruz-na-vida-do-cristao\/"},"modified":"2017-04-05T11:07:40","modified_gmt":"2017-04-05T14:07:40","slug":"a-renuncia-e-a-cruz-na-vida-do-cristao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/a-renuncia-e-a-cruz-na-vida-do-cristao\/","title":{"rendered":"A ren\u00fancia e a cruz na vida do crist\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">A cruz \u00e9 o sinal do crist\u00e3o! Esta afirma\u00e7\u00e3o pode parecer simples, mas tem profundidade teol\u00f3gica, pois quem busca um Cristo sem a cruz corre o risco de encontrar uma cruz (sofrimento) sem Cristo. Enquanto seguidor de Cristo, o crist\u00e3o sabe que o Senhor \u00e9 o Deus da vida a reinar glorioso, mas entende tamb\u00e9m que o sofrimento, em suas diversas naturezas, \u00e9 inerente \u00e0 vida humana e, por isso, o pr\u00f3prio Deus, embora n\u00e3o cause nem queira a dor, permite-a para fazer dela via de santifica\u00e7\u00e3o e salva\u00e7\u00e3o.<br \/>Isso ensina o Papa em\u00e9rito Bento XVI em sua catequese de 29 de outubro de 2008, ao tratar do mist\u00e9rio da cruz nos escritos do Ap\u00f3stolo Paulo: \u201cAs primeiras comunidades crist\u00e3s, \u00e0s quais S\u00e3o Paulo se dirige, sabem muito bem que Jesus j\u00e1 ressuscitou e est\u00e1 vivo; o Ap\u00f3stolo quer recordar n\u00e3o apenas aos Cor\u00edntios ou aos G\u00e1latas, mas a todos n\u00f3s, que o Ressuscitado \u00e9 sempre Aquele que foi crucificado. O \u2018esc\u00e2ndalo\u2019 e a \u2018loucura\u2019 da Cruz encontram-se precisamente no fato de que onde parece existir somente fal\u00eancia, dor e derrota, exatamente ali est\u00e1 todo o poder do Amor ilimitado de Deus, porque a cruz \u00e9 express\u00e3o de amor, e o amor \u00e9 o verdadeiro poder que se revela precisamente nesta aparente debilidade\u201d. <br \/> D. Estev\u00e3o Bettencourt, OSB, escreve no editorial da revista Pergunte e Responderemos, n\u00ba 471, agosto de 2001, p. 1: \u201cAo considerar a sorte final do crist\u00e3o, o Ap\u00f3stolo o tem como co-herdeiro do Pai com Cristo, \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de passar pela via r\u00e9gia por que passou o Senhor Jesus: a via da cruz \u201c&#8230; contanto que compade\u00e7amos para que sejamos tamb\u00e9m glorificados\u201d (Rm 8,17). \u201cO Senhor Jesus quis fazer do padecimento e da morte (consequ\u00eancias do pecado) a estrada real que leva \u00e0 gl\u00f3ria. Sofrer com Cristo \u00e9 configurar-se ao Filho e tornar-se co-herdeiro do Pai\u201d.<br \/> O crist\u00e3o \u00e9 \u201cco-herdeiro do Pai com Cristo\u201d, ou seja, todos n\u00f3s que recebemos, no Batismo, o dom da f\u00e9 crist\u00e3 e a professamos no dia a dia somos crist\u00e3os. Deus quis, pelas \u00e1guas batismais, tornar-nos filhos no Filho (Gl 4,5-7). Sim, o Filho por excel\u00eancia \u00e9 Jesus Cristo e \u00e9 n\u2019Ele, por Ele e para Ele que tudo foi criado, a fim de que em tudo fosse d\u2019Ele a primazia (cf. Cl 1,15-20), mas o Senhor, de modo livre e gratuito, nos chamou a tomar parte nessa heran\u00e7a divina. Tornamo-nos, ent\u00e3o, co-herdeiros: o Senhor Jesus, Filho de Deus, reparte conosco tudo o que o Pai lhe deu.<br \/> Isso, todavia, tem apenas uma condi\u00e7\u00e3o: \u201cpassar pela via r\u00e9gia por que passou o Senhor Jesus: a via da cruz\u201d. A cruz j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais um instrumento de vergonha, loucura ou esc\u00e2ndalo como foi para os povos antigos, mas \u00e9, depois da paix\u00e3o de Cristo, a via r\u00e9gia ou a estrada real que o Rei dos Reis e Senhor dos Senhores quis, voluntariamente, como novo homem, passar a fim de abrir-nos, com seu sacrif\u00edcio redentor, as portas da salva\u00e7\u00e3o que o pecado do velho homem fechara.<br \/> Querer estar com o Senhor nos bons momentos \u00e9 muito f\u00e1cil, os pr\u00f3prios ap\u00f3stolos e disc\u00edpulos n\u00e3o ficaram imunes a essa terr\u00edvel tenta\u00e7\u00e3o. Tomemos apenas dois exemplos: a Transfigura\u00e7\u00e3o no Tabor (cf. Mc 9,2-8), cujo relato mostra Pedro, Tiago e Jo\u00e3o entusiasmados com o que viam: o Senhor Jesus envolto em gl\u00f3ria acompanhado de Mois\u00e9s e Elias, s\u00edmbolos da Lei e dos Profetas do Antigo Testamento. Querem ficar ali, fazer tendas para os ilustres personagens. A eles nem um ref\u00fagio era necess\u00e1rio, j\u00e1 estavam felizes s\u00f3 de poderem contemplar tamanha maravilha.<br \/> Contudo, o Senhor, sem priv\u00e1-los desse importante momento de gozo espiritual, chama-os \u00e0 realidade convidando-os a descerem da montanha, voltarem para as atividades di\u00e1rias, retomarem a cruz de cada dia e segui-Lo (cf. Lc 9,23). Tamb\u00e9m n\u00f3s sofremos dessa tenta\u00e7\u00e3o de querermos apenas o Senhor glorificado e desprezarmos o Cristo chagado, cuspido, desprezado&#8230; \u00c9 nada mais nem menos do que a recusa da cruz e a busca apenas da gl\u00f3ria. Tenta\u00e7\u00e3o dos Ap\u00f3stolos, tenta\u00e7\u00e3o nossa!<br \/>Outro fato portentoso \u00e9 a multiplica\u00e7\u00e3o de p\u00e3es e peixes (cf. Jo 6,26s), depois da qual imensa multid\u00e3o passou a seguir Jesus. O divino Mestre, no entanto, logo percebeu que seus muitos seguidores n\u00e3o estavam interessados na ren\u00fancia e no sacrif\u00edcio corredentor que a vida crist\u00e3 exige, mas, ao contr\u00e1rio, queriam apenas prosperidade material. Buscavam n\u00e3o o verdadeiro Senhor, que \u00e9, sim, poderoso e ressuscitado, mas t\u00e3o-somente o Jesus taumaturgo ou milagreiro, capaz de satisfazer \u2013 \u00e0s nossas ordens \u2013 todos os nossos desejos e caprichos.<br \/>Buscavam n\u00e3o o verdadeiro Deus, revelado plenamente em Jesus Cristo, que ensina a pedir confiante o p\u00e3o de cada dia (cf. Mt 6,11), mas admoesta tamb\u00e9m a submetermo-nos ao projeto divino, cuja vontade deve ser feita (cf. Mt 26,39), mas procuravam o deus da magia, submisso aos seus desejos mais mesquinhos. \u00a0\u00a0\u00a0 Quem tem um deus assim, foge na hora do apuro, da cruz. Alguns disc\u00edpulos que, confusamente, esperavam um Messias glorioso e dominador pol\u00edtico que lhes daria tronos neste mundo, de modo que pudessem ficar um \u00e0 sua direita e outro \u00e0 sua esquerda podem, simbolicamente, representar cada crist\u00e3o que n\u00e3o entende o mist\u00e9rio da cruz. Que \u00e9 incapaz de compreender como Deus se fez homem e, sendo o governante de tudo, o Pantokrator, se submete \u00e0s for\u00e7as deste mundo e \u00e0 morte de cruz. Esse Deus n\u00e3o pode ser seguido, mas, ao contr\u00e1rio, deve \u2013 na mentalidade dos que buscam apenas um Rei glorioso \u2013 ser abandonado (cf. Mc 14,37s) e a renegado (Lc 22,54-62).<br \/>No entanto, a a\u00e7\u00e3o do verdadeiro Deus n\u00e3o \u00e9 assim, segundo relembra o Papa Bento XVI na catequese que j\u00e1 citamos, ao dizer que: \u201ca Cruz revela \u2018o poder de Deus\u2019 (cf. 1 Cor 1, 24), que \u00e9 diferente do poder humano; com efeito, revela o seu amor: \u2018O que \u00e9 considerado como loucura de Deus \u00e9 mais s\u00e1bio que os homens, e o que \u00e9 tido como debilidade de Deus \u00e9 mais forte que os homens\u2019 (Ibid., v. 25). H\u00e1 s\u00e9culos de dist\u00e2ncia de Paulo, n\u00f3s vemos que na hist\u00f3ria venceu a Cruz e n\u00e3o a sabedoria que se op\u00f5e \u00e0 Cruz. O Crucifixo \u00e9 sabedoria, porque manifesta verdadeiramente quem \u00e9 Deus, ou seja, poder de amor que chega at\u00e9 \u00e0 Cruz para salvar o homem. Deus serve-se de modos e de instrumentos que para n\u00f3s, \u00e0 primeira vista, parecem debilidade. O Crucifixo releva, por um lado, a debilidade do homem e, por outro, o verdadeiro poder de Deus, ou seja, a gratuidade do amor: precisamente esta total gratuidade do amor \u00e9 a verdadeira sabedoria. S\u00e3o Paulo fez esta experi\u00eancia at\u00e9 na sua carne, e disto d\u00e1-nos testemunho em v\u00e1rias fases do seu percurso espiritual, que se tornaram pontos de refer\u00eancia espec\u00edficos para cada disc\u00edpulo de Jesus: \u2018Ele disse-me: basta-te a minha gra\u00e7a, porque \u00e9 na fraqueza que a minha for\u00e7a se revela plenamente\u2019 (2 Cor 12, 9); e ainda. \u2018Deus escolheu o que \u00e9 fraco, segundo o mundo, para confundir o que \u00e9 forte\u2019 (1 Cor 1, 27). O Ap\u00f3stolo identifica-se a tal ponto com Cristo que tamb\u00e9m ele, embora se encontre no meio de muitas prova\u00e7\u00f5es, vive na f\u00e9 do Filho de Deus que o amou e se entregou pelos pecados dele e de todos (cf. Gl 1, 4; 2, 20). Este dado autobiogr\u00e1fico do Ap\u00f3stolo torna-se paradigm\u00e1tico para todos n\u00f3s\u201d.<br \/> \u201cContanto que compade\u00e7amos para que sejamos tamb\u00e9m glorificados\u201d. Duas express\u00f5es a\u00ed t\u00eam seu peso teol\u00f3gico e pr\u00e1tico, uma delas \u00e9 \u201ccompadecer-se\u201d. Ora, o termo padecer se prende \u00e0 raiz grega de pathos, que passou para o latim como passio, passionis, em portugu\u00eas, paix\u00e3o ou sofrimento. Logo, compadecer-se \u2013 cum + passio, nis \u2013 quer dizer padecer ou sofrer com&#8230; Da\u00ed uma importante quest\u00e3o: sofrer com quem? \u2013 Sofrer com Cristo, especialmente presente na pessoa do irm\u00e3o necessitado a clamar por ajuda. Ali\u00e1s, \u00e9 o pr\u00f3prio S\u00e3o Paulo quem vai dizer: \u201ccompleto em minha carne o que falta \u00e0 paix\u00e3o de Cristo\u201d (Cl 1,24).<br \/>Isso, \u00e0 primeira vista, pode parecer contradit\u00f3rio, pois a paix\u00e3o do Senhor foi completa por si mesma, mas o que o Ap\u00f3stolo quer nos dizer \u00e9 que mesmo sendo completa, Jesus quis a nossa participa\u00e7\u00e3o nela, dando-lhe uma moldura nova em nosso tempo. Eu aceito sofrer com Cristo ao assumir a minha cruz e ajudar, qual Cirineu, o meu irm\u00e3o a carregar a cruz dele. Isso \u00e9 reviver a Paix\u00e3o do Senhor no compadecimento ou no sofrer junto aos que sofrem para melhor entender o sentido real da cruz.<br \/>Escreveu o Papa Jo\u00e3o Paulo II: \u201cDo paradoxo da Cruz surge a resposta \u00e0s nossas interroga\u00e7\u00f5es mais inquietantes. Cristo sofre por n\u00f3s: Ele assume sobre si os sofrimentos de todos e redime-os. Cristo sofre conosco, dando-nos a possibilidade de partilhar com Ele os nossos sofrimentos. Juntamente com o de Cristo, o sofrimento humano torna-se meio de salva\u00e7\u00e3o. Eis por que o crente pode dizer com S\u00e3o Paulo: \u2018Agora alegro-me nos sofrimentos que suporto por v\u00f3s e completo na minha carne o que falta \u00e0s tribula\u00e7\u00f5es de Cristo, pelo seu Corpo, que \u00e9 a Igreja\u2019 (Cl 1,24). O sofrimento, aceito com f\u00e9, torna-se a porta para entrar no mist\u00e9rio do sofrimento redentor do Senhor. Um sofrimento que j\u00e1 n\u00e3o priva da paz e da felicidade, porque \u00e9 iluminado pelo esplendor da ressurrei\u00e7\u00e3o\u201d (Mensagem Dia Mundial do Doente, 11\/2\/2004). <br \/>Outra reflex\u00e3o \u00e9 sobre \u201cser glorificado\u201d: \u201cO Senhor Jesus quis fazer do padecimento e da morte (consequ\u00eancias do pecado) a estrada real que leva \u00e0 gl\u00f3ria\u201d, ou seja, quem n\u00e3o passa pela cruz n\u00e3o chega \u00e0 gl\u00f3ria&#8230; Cristo abriu-nos as portas do Para\u00edso, mas quis (e quer) que nos esforcemos, com a sua gra\u00e7a, para chegar l\u00e1. Por isso a cruz \u00e9 importante. N\u00e3o uma cruz distante para todos, mas uma cruz pr\u00f3xima conforme entendeu S\u00e3o Paulo, segundo escreve Bento XVI na catequese j\u00e1 citada: \u201cNa experi\u00eancia pessoal de S\u00e3o Paulo h\u00e1 um dado incontest\u00e1vel: enquanto no in\u00edcio fora um perseguidor e recorrera \u00e0 viol\u00eancia contra os crist\u00e3os, a partir do momento da sua convers\u00e3o no caminho de Damasco passara do lado de Cristo crucificado, fazendo dele a sua raz\u00e3o de vida e o motivo da sua prega\u00e7\u00e3o. No encontro com Jesus, tornou-se-lhe claro o significado central da Cruz: compreendera que Jesus tinha morrido e ressuscitado por todos e por ele mesmo. Ambas as realidades eram importantes; a universalidade: Jesus morreu realmente por todos; e a subjetividade: Ele morreu tamb\u00e9m por mim. Portanto, na Cruz manifestou-se o amor gratuito e misericordioso de Deus. Paulo experimentou este amor em si mesmo (cf. Gl 2, 20) e, de pecador, tornou-se crente; de perseguidor, Ap\u00f3stolo\u201d.<br \/> Assumamos com Cristo a Cruz e encontraremos a verdadeira vida, caminhando com certeza para a P\u00e1scoa da Ressurrei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A cruz \u00e9 o sinal do crist\u00e3o! Esta afirma\u00e7\u00e3o pode parecer simples, mas tem profundidade teol\u00f3gica, pois quem busca um Cristo sem a cruz corre o risco de encontrar uma cruz (sofrimento) sem Cristo. 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