{"id":4482,"date":"2014-04-14T13:39:14","date_gmt":"2014-04-14T16:39:14","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/a-caridade-nos-ensinamentos-de-um-padre-da-igreja\/"},"modified":"2017-04-05T10:45:27","modified_gmt":"2017-04-05T13:45:27","slug":"a-caridade-nos-ensinamentos-de-um-padre-da-igreja","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/a-caridade-nos-ensinamentos-de-um-padre-da-igreja\/","title":{"rendered":"A Caridade nos ensinamentos de um Padre da Igreja"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">\n<p> Neste Ano da Caridade que estamos vivendo em nossa Arquidiocese, n\u00e3o podemos deixar de refletir sobre o amor desinteressado ao pr\u00f3ximo, o \u00e1gape, \u00e0 luz dos ensinamentos de alguns Padres da Igreja.<br \/> Tamb\u00e9m vivemos o Domingo de Ramos e da Paix\u00e3o, quando, em nosso pa\u00eds, temos a Coleta da Solidariedade. A Igreja que partilha os frutos da penit\u00eancia quaresmal como ato concreto para os irm\u00e3os e irm\u00e3s necessitados.<br \/> Os Padres da Igreja s\u00e3o muito duros em falar sobre a quest\u00e3o da riqueza e a import\u00e2ncia da partilha. S\u00e3o textos antigos atual\u00edssimos.<br \/> Como o pr\u00f3prio nome diz, Padres (=Pais) da Igreja s\u00e3o os grandes mestres (bispos, sacerdotes, religiosos ou leigos) que, nos primeiros s\u00e9culos da hist\u00f3ria do Cristianismo, muito contribu\u00edram, por meio de seus estudos, para a melhor formula\u00e7\u00e3o e explicita\u00e7\u00e3o das verdades centrais da nossa f\u00e9. <br \/>Classicamente, se entende que o \u00faltimo Padre da Igreja latina foi S\u00e3o Greg\u00f3rio Magno (\u2020604) e da Igreja oriental S\u00e3o Jo\u00e3o Damasceno (\u2020749), embora, de modo mais amplo, sejam inseridos entre eles nomes posteriores, que tamb\u00e9m atuaram em momentos decisivos, como por exemplo, S\u00e3o Cirilo e S\u00e3o Met\u00f3dio, Santo Odon de Cluny, Santo Anselmo de Aosta, S\u00e3o Bernardo de Claraval etc. (cf. Bento XVI. Os Padres da Igreja II. Campinas: Ecclesiae, 2013).<br \/> Pois bem, dentre esses Padres est\u00e1 S\u00e3o Cipriano de Cartago (cerca de 210-258). Ele nos deixou, em meio aos seus escritos, o importante tratado Sobre as boas obras e a esmola, publicado em 252, portanto escrito h\u00e1 1.762 anos, e que se mant\u00e9m plenamente atual como se tivesse sido redigido ontem \u00e0 tarde para n\u00f3s, crist\u00e3os do s\u00e9culo XXI.<br \/> Ao falarmos de miseric\u00f3rdia ou do compadecer-se ante a mis\u00e9ria alheia, seja ela material ou espiritual, devemos nos lembrar de que Deus \u00e9 o grande misericordioso. Mais: Ele \u00e9 a miseric\u00f3rdia por excel\u00eancia, pois, para nos salvar e nos dar a verdadeira vida, enviou o seu pr\u00f3prio Filho, Jesus Cristo, para morrer por n\u00f3s e, assim, nos redimir fazendo-nos tamb\u00e9m filhos de Deus (cf. Gl 4,7). Sim, Cristo Jesus \u201cabaixou-se para erguer o povo que antes jazia na terra, deixou-se ferir para curar as nossas feridas, fez-se escravo para trazer os escravos \u00e0 liberdade, e suportou a morte para elevar os mortais \u00e0 imortalidade\u201d. S\u00e3o, portanto, muitas e grandiosas as d\u00e1divas da Divina Miseric\u00f3rdia para conosco, peregrinos nesta terra em demanda da Jerusal\u00e9m celeste (cf. n. 1).<br \/> Contudo, S\u00e3o Cipriano continua dizendo que n\u00e3o bastava ao Senhor Jesus vir curar-nos das feridas de Ad\u00e3o e extrair de n\u00f3s o veneno da antiga serpente (cf. Gn 3). Era preciso deixar-nos uma Lei que nos ajudasse a permanecer s\u00e3os ou curados, por isso compeliu-nos a evitar o pecado e, consequentemente, guardar a inoc\u00eancia. Sabendo, no entanto, que, em nossa fragilidade e covardia, ser\u00edamos incapazes de cumprir \u00e0 risca t\u00e3o grande ensinamento, Deus nos deu as obras de justi\u00e7a e de miseric\u00f3rdia a fim de que pud\u00e9ssemos consolidar a nossa convers\u00e3o e fortalecer nossa vida mediante a esmola \u2013 entenda-se, em sentido amplo, a caridade em geral.<br \/> Muito did\u00e1tico, Cipriano, que falou do amor do Pai ao enviar-nos seu Filho, lembra, agora, a miss\u00e3o especial do Divino Esp\u00edrito Santo ao nos falar, por meio da Escritura, que pela esmola e pela f\u00e9 apagam-se os pecados (cf. Prov. 16,6; 15,27), pois \u201ctal como a \u00e1gua apaga o fogo, assim a esmola extingue o pecado\u201d (Ecl 3,33), ou seja, assim como a \u00e1gua da salva\u00e7\u00e3o \u2013 derramada sobre n\u00f3s no Batismo \u2013 apaga o fogo do inferno, as esmolas e boas obras apagam as chamas causadas pelos nossos delitos. Da\u00ed, uma vez mais, a s\u00e1bia conclus\u00e3o do santo cartagin\u00eas: \u201cSe no Batismo somente se perdoam uma \u00fanica vez os pecados, a pr\u00e1tica ass\u00eddua e incessante das esmolas torna a reconciliar-nos com Deus \u00e0 imita\u00e7\u00e3o do que acontece no Batismo\u201d (n. 2).<br \/> Sabemos que a celebra\u00e7\u00e3o penitencial ou confiss\u00e3o \u00e9 que perdoa os nossos pecados, mas a penit\u00eancia e arrependimento nos fazem partilhar com os outros os bens deste mundo.<br \/> Afinal, no Evangelho, quando os disc\u00edpulos do Senhor foram censurados por comerem sem ter lavado as m\u00e3os, Ele respondeu: \u201cInsensatos! Quem fez o exterior, n\u00e3o fez tamb\u00e9m o interior? Antes, dai o que tendes em esmola e tudo ficar\u00e1 puro para v\u00f3s\u201d (Lc 11,40-41). Aqui, Jesus mostra, a princ\u00edpio, que muito maior do que a limpeza exterior \u00e9 a pureza interior, e para consegui-la, depois do Batismo, um dos grandes meios \u00e9 dar esmolas ou praticar a miseric\u00f3rdia para com o pr\u00f3ximo mais necessitado.<br \/> Eis um grande ensinamento que se p\u00f5e a cada um de n\u00f3s: se o exerc\u00edcio da caridade misericordiosa ajuda a apagar nossos pecados, e todos n\u00f3s somos pecadores (cf. Prov 20,9; 1Jo 1,8), a consequ\u00eancia \u00e9 \u00f3bvia: todos precisamos, se desejarmos, ap\u00f3s a morte, a vida eterna \u2013 realidade refletida, muito especialmente durante o Tr\u00edduo Pascal \u2013 praticar, sem cessar, atos misericordiosos. A partir daqui, ensina S\u00e3o Cipriano: \u201cPortanto, querid\u00edssimos irm\u00e3os, a Palavra divina nunca se calou nas Sagradas Escrituras, quer no Antigo quer no Novo Testamento, nem deixou de impelir e animar o povo a realizar sempre e em toda parte as obras de Deus, e urge-o pela voz e pelas exorta\u00e7\u00f5es do Esp\u00edrito Santo a praticar a esmola, a fim de que adquirisse a firme esperan\u00e7a de chegar ao reino celestial\u201d (n. 4).<br \/> Isso \u00e9 t\u00e3o real que, depois de ordenar ao profeta Isa\u00edas a censura \u00e0 casa de Jac\u00f3 por seus pecados e a repreens\u00e3o a ela de modo impetuoso, o Senhor deixa claro uma verdade: s\u00f3 pelas boas obras poderiam os israelitas aplacar a ira divina desencadeada por seus atos maus e, por conseguinte, readquirir sobre eles a miseric\u00f3rdia divina. Eis textualmente a Palavra de Iahweh: \u201cPor acaso n\u00e3o consiste nisto o jejum que escolhi: em romper os grilh\u00f5es da iniquidade, em soltar as ataduras do jugo e p\u00f4r em liberdade os oprimidos e despeda\u00e7ar o jugo? N\u00e3o consiste em repartires o teu p\u00e3o com o faminto, em recolheres em tua casa os pobres desabrigados, em vestires aqueles que v\u00eas nus e em n\u00e3o te esconderes daquele que \u00e9 tua carne? Se fizeres isso, a tua luz romper\u00e1 como a aurora, a cura das tuas feridas se operar\u00e1 rapidamente, a tua justi\u00e7a ir\u00e1 \u00e0 tua frente, e a gl\u00f3ria de Iahweh ir\u00e1 \u00e0 tua retaguarda. Ent\u00e3o clamar\u00e1s e Iahweh responder\u00e1, clamar\u00e1s por socorro e ele dir\u00e1: \u2018Eis-me aqui! \u2019\u201d (58,6-9).<br \/> Da\u00ed o coment\u00e1rio de S\u00e3o Cipriano: \u201cOs meios de que dispomos para aplacar a Deus foram-nos dados, portanto, pela pr\u00f3pria Palavra de Deus, pois os ensinamentos divinos mostraram o que devem fazer os pecadores, isto \u00e9, oferecer-lhe satisfa\u00e7\u00e3o mediante as boas obras e purificar-se dos seus pecados com atos merit\u00f3rios de miseric\u00f3rdia\u201d (n. 5). Isso o testemunha fartamente a Escritura: quem \u00e9 caridoso para com o pobre recebe dele as ora\u00e7\u00f5es (cf. Ecl 29,12), enquanto quem n\u00e3o ouve a s\u00faplica do necessitado tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 ouvido por Deus (cf. Prov 21,13), pois s\u00f3 \u00e9 boa a ora\u00e7\u00e3o que vem acompanhada do jejum e da esmola (cf. Tb 12,8).<br \/> Aprendemos, assim, \u201cque as nossas ora\u00e7\u00f5es e o nosso jejum perdem a for\u00e7a se n\u00e3o estiverem unidos \u00e0s esmolas, e que as s\u00faplicas isoladas de pouco valem, quando se trata de impetrar o favor de Deus, se n\u00e3o est\u00e3o saturadas de atos e de obras\u201d (n. 5). Por essa raz\u00e3o, o tempo quaresmal nos exorta ao importante trip\u00e9 composto pelo jejum, a esmola (caridade) e a ora\u00e7\u00e3o.<br \/> Queiramos, pois, ler e reler com grande aten\u00e7\u00e3o os ensinamentos b\u00edblicos comentados por S\u00e3o Cipriano de Cartago, grande Padre e Doutor da Igreja, a respeito das boas obras de caridade, t\u00e3o importantes para n\u00f3s e para nossos irm\u00e3os e irm\u00e3s mais necessitados que temos a oportunidade de encontrar no nosso dia a dia. Eles s\u00e3o (ou deveriam ser) a imagem do Cristo zombado, ferido, chagado a precisar do nosso aux\u00edlio, seja pessoalmente, ou pelo encaminhamento a quem possa mais diretamente ajud\u00e1-los na ameniza\u00e7\u00e3o ou mesmo na extin\u00e7\u00e3o de seus indiz\u00edveis sofrimentos.<br \/> \u00c9 para essa abertura ao outro que a Igreja nos convoca, e o Ano da Caridade de nossa Arquidiocese nos estimula. Deus espera, na pessoa do(a) sofredor(a), o nosso sim generoso e transformador. Assim seja!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste Ano da Caridade que estamos vivendo em nossa Arquidiocese, n\u00e3o podemos deixar de refletir sobre o amor desinteressado ao pr\u00f3ximo, o \u00e1gape, \u00e0 luz dos ensinamentos de alguns Padres da Igreja. Tamb\u00e9m vivemos o Domingo de Ramos e da Paix\u00e3o, quando, em nosso pa\u00eds, temos a Coleta da Solidariedade. 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