{"id":4449,"date":"2014-03-29T03:00:00","date_gmt":"2014-03-29T06:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/a-caridade-e-o-bom-samaritano\/"},"modified":"2017-04-05T10:04:34","modified_gmt":"2017-04-05T13:04:34","slug":"a-caridade-e-o-bom-samaritano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/a-caridade-e-o-bom-samaritano\/","title":{"rendered":"A caridade e o bom samaritano"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">\n<p> Neste ano, ao falarmos de caridade no sentido de amor fraterno, servi\u00e7al e desinteressado nos vem correndo \u00e0 mente outra palavra que tem um significado muito rico nas par\u00e1bolas evang\u00e9licas, especialmente no evangelista Lucas \u2013 a miseric\u00f3rdia.<br \/> Esta \u00e9 definida na L\u00edngua Portuguesa como \u201ca virtude que leva a ter compaix\u00e3o pelas mis\u00e9rias dos outros\u201d. Defini\u00e7\u00e3o precisa em que cada palavra tem seu significado e por isso merece, ainda que de modo sucinto, um aprofundamento.<br \/> Virtude \u00e9 a disposi\u00e7\u00e3o ou a for\u00e7a constante da alma que nos leva a praticar o bem e a evitar o mal. Compaix\u00e3o, por sua vez, \u00e9 sofrer com (cum + passio, passionis, no Latim), ou seja, n\u00e3o basta somente o meu interesse te\u00f3rico pelos problemas do outro. Ao contr\u00e1rio, sou chamado \u2013 a exemplo de Cristo que veio do seio do Pai partilhar conosco todas as vicissitudes desta vida, menos o pecado \u2013 a \u201csentir na pele\u201d o que sente o meu irm\u00e3o, a fim de poder, desse modo, entender o seu drama e buscar, incansavelmente, uma sa\u00edda eficaz para os males que o acometem.<br \/> Dito isso, n\u00e3o h\u00e1 como n\u00e3o pensar, de imediato, na par\u00e1bola do Bom Samaritano (Lc 10,25-37), mergulhar nessa narrativa de Jesus e dela extrair consequ\u00eancias pr\u00e1ticas para a nossa vida di\u00e1ria cercada por tantas belezas naturais, mas tamb\u00e9m por n\u00e3o poucas e nem pequenas mazelas humanas a clamarem por solu\u00e7\u00f5es imediatas.<br \/> Pois bem, Lucas nos conta que Jesus est\u00e1 em uma sinagoga nas proximidades de Jeric\u00f3 e ali um Doutor da Lei (legista) lhe prop\u00f5e uma quest\u00e3o espinhosa: \u201cMestre, que devo fazer para possuir a vida eterna?\u201d Longe de dar uma resposta pronta, que poderia acarretar discuss\u00e3o est\u00e9ril e prolongada, Jesus faz ao legista outra pergunta, levando-o \u00e0 reflex\u00e3o a partir da pr\u00f3pria legisla\u00e7\u00e3o de Mois\u00e9s, na qual o interrogante era especialista: \u201cQue est\u00e1 escrito na Lei?\u201d<br \/> O legista, ent\u00e3o, responde: \u201cAmar\u00e1s o Senhor teu Deus, de todo o teu cora\u00e7\u00e3o, de toda a tua alma, com toda a tua for\u00e7a e de todo o teu entendimento; e a teu pr\u00f3ximo como a ti mesmo\u201d. Aqui j\u00e1 h\u00e1 um problema a ser desvendado no desenrolar da narrativa de Lucas, que \u00e9 o seguinte: para o legista o pr\u00f3ximo n\u00e3o era qualquer pessoa, como era para Jesus, mas apenas o companheiro, o amigo, o compatriota, o vizinho de tribo, enfim, o conceito de pr\u00f3ximo se restringia a um grupo bem restrito de pessoas.<br \/> V\u00ea-se, assim, que a pr\u00e1tica da caridade para o especialista em leis que busca Jesus estava limitada a quem fosse israelita e n\u00e3o aos estrangeiros, por exemplo. Para ele n\u00e3o era v\u00e1lido o ensinamento de S\u00e3o Paulo a dizer que a plenitude da Lei \u00e9 a caridade (Gl 5,14), por isso insiste o legista no questionamento a Cristo: \u201cE quem \u00e9 meu pr\u00f3ximo?\u201d Aqui h\u00e1 outro impasse: se vale a Lei pela Lei, s\u00f3 \u00e9 pr\u00f3ximo quem tem a mesma nacionalidade, mas se vale a mensagem de Jesus, ent\u00e3o todo ser humano deve ser considerado meu semelhante, e tenho o dever \u00e9tico de ajud\u00e1-lo em suas pen\u00farias.<br \/> Certamente, mais uma vez, para evitar uma discuss\u00e3o delongada e infrut\u00edfera, o Senhor Jesus contorna a pergunta contando a par\u00e1bola que ficou conhecida como a do \u201cBom Samaritano\u201d, e inspira at\u00e9 hoje tantos nomes de institui\u00e7\u00f5es de caridade pelo mundo todo. E qual o teor dessa rica par\u00e1bola que evoca solicitude para com a mis\u00e9ria alheia?<br \/>Conta Jesus que um homem descia de Jerusal\u00e9m para Jeric\u00f3 e, na estrada, foi assaltado, espancado e deixado quase morto. Passam pelo ferido um sacerdote e depois um levita, homens de Deus, mas que, talvez para n\u00e3o se atrasarem para o culto, n\u00e3o perdem tempo com o necessitado.<br \/> Eis, por\u00e9m, que, em seguida, atravessa por ali um samaritano, homem que o Doutor da Lei odiava, especialmente por raz\u00f5es pol\u00edtico-religiosas. Sim, eles eram filhos de ass\u00edrios com israelitas e, portanto, considerados impuros. Ademais, constru\u00edram um templo pr\u00f3prio sobre o monte Garizim, afastando-se, desse modo, do verdadeiro Templo de Jerusal\u00e9m, gesto que levava os samaritanos a serem considerados cism\u00e1ticos.<br \/> Contudo, \u00e9 o exclu\u00eddo samaritano quem ajuda o ca\u00eddo, untando suas feridas com vinho e azeite, prestando-lhe, como dir\u00edamos hoje, os primeiros socorros. Depois, leva-o a um albergue, cuida dele durante a noite e, ao sair para seguir viagem, deixa ao dono da hospedaria pagamento antecipado para o cuidado do enfermo, garantindo ainda que se houvesse algum gasto a mais, na volta da viagem, ele \u2013 o samaritano \u2013 pagaria.<br \/> Conclu\u00edda a par\u00e1bola, Jesus se volta para o Doutor da Lei e pergunta: \u201cNa tua opini\u00e3o, qual dos tr\u00eas foi pr\u00f3ximo daquele que caiu nas m\u00e3os dos ladr\u00f5es?\u201d Ora, o legista n\u00e3o queria responder: \u201co samaritano\u201d, nome que ele n\u00e3o ousava pronunciar, mas tamb\u00e9m n\u00e3o poderia cair em contradi\u00e7\u00e3o dizendo que fora o sacerdote ou o levita. Ent\u00e3o se sai com essa: \u201cAquele que usou de miseric\u00f3rdia para com ele\u201d, ou seja, o samaritano. Ao que o Senhor Jesus exorta: \u201cVai tu tamb\u00e9m e faze o mesmo\u201d.<br \/> Dessa par\u00e1bola, poder\u00edamos tirar muitas reflex\u00f5es proveitosas. Atentemo-nos, por\u00e9m, para algumas delas: <br \/>Ela remove a ideia de que pr\u00f3ximo \u00e9 s\u00f3 o meu conterr\u00e2neo ou o meu amigo. \u00c9 meu pr\u00f3ximo todo homem ou mulher que necessite da minha ajuda. N\u00e3o preciso saber seu nome, sua terra, sua religi\u00e3o, seu status social. Devo estender-lhe a m\u00e3o e socorr\u00ea-lo. Afinal, a raz\u00e3o de o Evangelho omitir o nome e a regi\u00e3o de proveni\u00eancia do homem assaltado n\u00e3o \u00e9 para ensinar que todos somos, indistintamente, irm\u00e3os?<br \/> Outro ponto \u00e9 que o problema da caridade n\u00e3o est\u00e1 em quem ser\u00e1 auxiliado, mas em quem auxilia. Temos preconceitos e at\u00e9 tentamos nos justificar: se ele n\u00e3o fosse dependente qu\u00edmico, eu at\u00e9 o ajudaria; se ela n\u00e3o morasse naquela regi\u00e3o da cidade, eu bem que poderia auxiliar; se ele fosse outra pessoa e n\u00e3o um ex-presidi\u00e1rio, at\u00e9 que eu faria algo por ele&#8230; E assim vai nossa cantilena de justificativas sem compaix\u00e3o.<br \/> Um terceiro aspecto a destacar \u00e9 o amor aos inimigos, algo dif\u00edcil e que exige de n\u00f3s uma profunda convers\u00e3o di\u00e1ria. Dif\u00edcil, sim, por\u00e9m n\u00e3o imposs\u00edvel, especialmente se contamos com a gra\u00e7a de Deus, que a ningu\u00e9m falta. \u00c9 por essa gra\u00e7a que ficou marcado o exemplo do Papa Jo\u00e3o Paulo II ao visitar, na cadeia, o homem que tentou mat\u00e1-lo na Pra\u00e7a de S\u00e3o Pedro, a fim de oferecer ao atirador profissional o seu perd\u00e3o.<br \/> Ainda uma quest\u00e3o pode ser aprofundada: como \u00e9 poss\u00edvel viver essa caridade misericordiosa e compassiva? \u2013 Responde-nos Bento XVI: \u201cIsso s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel realizar-se a partir do encontro \u00edntimo com Deus, um encontro que se tornou comunh\u00e3o de vontade, chegando mesmo a tocar o sentimento. Ent\u00e3o, aprendo a ver aquela pessoa j\u00e1 n\u00e3o somente com meus olhos e sentimentos, mas segundo a perspectiva de Jesus Cristo. O Seu amigo \u00e9 meu amigo. (&#8230;) Mas se na minha vida negligencio completamente a aten\u00e7\u00e3o ao outro, importando-me apenas com ser \u2018piedoso\u2019 e cumprir os meus \u2018deveres religiosos\u2019, ent\u00e3o definha tamb\u00e9m a rela\u00e7\u00e3o com Deus. Nesse caso, trata-se de uma rela\u00e7\u00e3o correta, mas sem amor. S\u00f3 a minha disponibilidade para ir ao encontro do pr\u00f3ximo e demonstrar-lhe amor \u00e9 que me torna sens\u00edvel tamb\u00e9m diante de Deus. S\u00f3 o servi\u00e7o ao pr\u00f3ximo \u00e9 que abre os meus olhos para aquilo que Deus faz por mim e para o modo como Ele me ama\u201d (Deus caritas est, n. 18).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste ano, ao falarmos de caridade no sentido de amor fraterno, servi\u00e7al e desinteressado nos vem correndo \u00e0 mente outra palavra que tem um significado muito rico nas par\u00e1bolas evang\u00e9licas, especialmente no evangelista Lucas \u2013 a miseric\u00f3rdia. 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