{"id":4408,"date":"2014-03-24T13:09:24","date_gmt":"2014-03-24T16:09:24","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/ano-da-caridade\/"},"modified":"2017-04-05T09:37:10","modified_gmt":"2017-04-05T12:37:10","slug":"ano-da-caridade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/ano-da-caridade\/","title":{"rendered":"Ano da Caridade"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">\n<p> O tempo da Quaresma \u00e9 uma \u00f3tima oportunidade para, dentro do clima da Campanha da Fraternidade, refletirmos sobre a import\u00e2ncia da caridade, tema deste ano em nossa Arquidiocese.<br \/>A caridade tem um significado muito rico para quem a estuda em sua origem etimol\u00f3gica, pois \u00e9, especialmente na linguagem crist\u00e3, sin\u00f4nimo de amor. Os evangelistas, que escreveram em grego, valorizam de modo grandioso o termo \u00e1gape, que passou para o latim como caritas, caritatis, em portugu\u00eas, caridade.<br \/> Aqui, por\u00e9m, uma quest\u00e3o j\u00e1 se imp\u00f5e, seja ao estudioso, seja ao leitor comum: se caridade e amor se mesclam, de que tipo de amor estamos falando? Sim, pois h\u00e1 na l\u00edngua grega os termos \u00e9ros e philia tamb\u00e9m usados para designar amor. Por esta raz\u00e3o \u00e9 bom distingui-los bem um do outro, a fim de melhor entendermos o valor do \u00e1gape.<br \/> Com efeito, \u00e9ros designa um tipo de amor ps\u00edquico capaz de levar o ser humano a uma \u00e1vida busca de um bem concreto disposto a, ao menos aparentemente, satisfazer seus desejos n\u00e3o raras vezes mesquinhos. Associa-se, ent\u00e3o, a partir da\u00ed, esse tipo de amor \u00e0 concupisc\u00eancia ou ao desejo meramente sentimental e carnal de algu\u00e9m. \u00c9 o erotismo, pr\u00e1tica comum numa sociedade pansexualista ou erotizada como a nossa. Tal tipo de amor n\u00e3o pode ser modelo para o homem e a mulher, pois aprisiona o ser humano em vez de libert\u00e1-lo. <br \/> Philia, por sua vez, recorda o amor de amigo, de benevol\u00eancia, de bem-querer, capaz de despertar a simpatia no outro. Amo para ser amado ou, pior, amo porque sou amado. Nesse conceito, h\u00e1 uma consider\u00e1vel supera\u00e7\u00e3o do \u00e9ros, mas ainda n\u00e3o se chega \u00e0 compreens\u00e3o plena do diferencial trazido pela mensagem crist\u00e3. Da\u00ed a pergunta de Jesus: Se amais os que vos amam, que recompensa tereis? Afinal, todos os outros povos j\u00e1 agiam segundo essa filosofia.<br \/> Arist\u00f3teles, por exemplo, ensina, cerca de 300 anos antes de Cristo, em sua famosa obra intitulada \u00c9tica a Nic\u00f4maco, que o legislador deve se preocupar muito mais em despertar a compreens\u00e3o m\u00fatua entre os cidad\u00e3os do que fazer com que estes observem a justi\u00e7a, uma vez que esta ordena apenas os atos exteriores, ao passo que a natureza une os cora\u00e7\u00f5es. E vai al\u00e9m: a justi\u00e7a nem seria necess\u00e1ria se entre os seres humanos reinasse a verdadeira amizade, ou philia. <br \/> Isso \u00e9 belo, mas a grande novidade do Evangelho, no entanto, \u00e9 muito maior, pois nos traz o \u00e1gape, amor fraterno, servi\u00e7al, desinteressado, que se dirige diretamente ao ser amado ou \u00e0quele que amamos sem esperar nada em troca. Pode-se dizer que aqui encontramos o verdadeiro sentido do amor. Com esses pressupostos, vai a B\u00edblia nos afirmar que Deus \u00e9 amor. E mais: Ele \u00e9 o Amor que nos amou primeiro a ponto de enviar, conforme refletimos de um modo especial no tempo da Quaresma, o seu pr\u00f3prio Filho para morrer por n\u00f3s e com isso ensinar, na pr\u00e1tica, que ningu\u00e9m tem maior prova de amor do que aquele que d\u00e1 a vida por seus amigos.<br \/> Que doloroso, mas tamb\u00e9m que inef\u00e1vel esse ato de amor de Cristo no Calv\u00e1rio, lugar onde, por assim dizer, Ele coroa ou fecha com chave de ouro sua entrega total a Deus e ao pr\u00f3ximo em sua caminhada terrena! Cumpre-se, literalmente, n\u2019Ele o que, mais tarde, Jo\u00e3o ensinar\u00e1 de modo brilhante: quem diz que ama a Deus, mas n\u00e3o ama seu irm\u00e3o \u00e9 mentiroso. E aqui cabe, certamente, a brilhante defini\u00e7\u00e3o de Santo Agostinho de Hipona, Padre da Igreja no s\u00e9culo IV, ao escrever que \u201camar \u00e9 querer o bem do outro\u201d.<br \/> Ora, quem s\u00f3 deseja o bem do pr\u00f3ximo jamais lhe causar\u00e1 algum mal ou dano, por isso o santo de Hipona diz, de modo simples e lapidar: \u201cAma e faze o que quiseres\u201d. Quem ama de verdade \u00e9 realmente livre e, embora, por sua natureza deca\u00edda pelo pecado, possa fazer o mal que nem sempre quer, procurar\u00e1 o bem, a justi\u00e7a, a fraternidade, a partilha, o acolhimento etc. Nunca a injusti\u00e7a, a divis\u00e3o, muitas vezes fratricida, o apego mesquinho, a rejei\u00e7\u00e3o ao irm\u00e3o ou \u00e0 irm\u00e3 que busca apoio nos momentos dif\u00edceis de sua vida material ou espiritual.<br \/> Afinal, como gosta de frisar o nosso Papa Francisco, al\u00e9m das segregadoras periferias geogr\u00e1ficas, tamb\u00e9m existem as \u201cperiferias existenciais\u201d, que precisam ser atingidas por todos n\u00f3s que nos propomos a ser disc\u00edpulos e mission\u00e1rios de Jesus Cristo no s\u00e9culo XXI, sabendo que algumas vezes as periferias geogr\u00e1ficas se confundem com as existenciais e outras vezes n\u00e3o.<br \/> H\u00e1 quem viva os seus diversos conflitos n\u00e3o s\u00f3 nos sub\u00farbios, nas comunidades pacificadas ou n\u00e3o, nas zonas rurais ou ribeirinhas, por exemplo, mas tamb\u00e9m nos condom\u00ednios de luxo, nos grandes centros financeiros, nos arranha-c\u00e9us de nossas metr\u00f3poles e somos chamados a, de algum modo, estar com eles a fim de lhes mostrar esse diferencial da caridade que Cristo viveu e nos ensinou a viver h\u00e1 mais dois mil anos.<br \/> Alguns poderiam, no entanto, objetar neste momento da reflex\u00e3o: tudo isso que est\u00e1 escrito aqui n\u00e3o me surpreende tanto, afinal, nunca \u00e9 demasiado falar do amor enquanto caridade, mas, no dia a dia, o que eu posso fazer para tornar pr\u00e1tico tudo isso? Ora, a Arquidiocese do Rio de Janeiro oferece e continuar\u00e1 a oferecer, especialmente neste Ano da Caridade, iniciado em 20 de janeiro, v\u00e1rias oportunidades que o ajudem na realiza\u00e7\u00e3o de seus gestos concretos em favor dos mais necessitados, material ou espiritualmente.<br \/> Como regra geral, por\u00e9m, fica uma grande li\u00e7\u00e3o dos primeiros crist\u00e3os. Est\u00e1 nos Atos dos Ap\u00f3stolos, ao relatar que todos os fi\u00e9is se reuniam e colocavam tudo o que possu\u00edam em comum, vendiam as propriedades e bens e dividiam-nos conforme as necessidades de cada um. Consequ\u00eancia: n\u00e3o havia necessitado algum entre eles.\u00a0 Da\u00ed, Tertuliano, escritor crist\u00e3o do s\u00e9culo II, poder registrar que os pag\u00e3os olhavam para os seguidores de Cristo e diziam: \u201cVede como eles se amam\u201d.<br \/> Amam com o amor fraterno, servi\u00e7al, desinteressado e que, por isso, \u00e9 capaz de chamar a aten\u00e7\u00e3o dos que observam de fora. Sim, longe de fazerem meros discursos vazios assemelhados a uma politicagem barata, mas que pode ter consequ\u00eancias caras, os crist\u00e3os dos primeiros s\u00e9culos agiram com verdadeiro hero\u00edsmo, a fim de n\u00e3o deixarem seus semelhantes perecerem na mis\u00e9ria devido \u00e0 gan\u00e2ncia de uns poucos.<br \/> A miss\u00e3o dos verdadeiros seguidores do Evangelho, todavia, n\u00e3o parou l\u00e1. Ao longo da hist\u00f3ria, homens e mulheres imbu\u00eddos do amor crist\u00e3o demonstraram ao mundo, com palavras e exemplos, que para seguir a Cristo \u00e9 necess\u00e1rio pensar e agir em favor do irm\u00e3o necessitado. Sua car\u00eancia nos provoca, desinstala, desafia a nos colocarmos a servi\u00e7o de acordo com as necessidades do tempo e do lugar em que estamos inseridos. Se olhamos para um Francisco de Assis a repartir o pouco que lhe davam com os mais pobres entre os pobres, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que nos calemos. Muito pelo contr\u00e1rio, \u00e9 necess\u00e1rio olhar ao nosso redor e perguntar: hoje tamb\u00e9m n\u00e3o temos quem necessite da nossa caridade? O que posso fazer pelos que mendigam o m\u00ednimo necess\u00e1rio para sobreviverem? Qual \u00e9 a minha atitude ante o flagelo das drogas l\u00edcitas e il\u00edcitas que corroem nossos jovens, adolescentes e at\u00e9, infelizmente, crian\u00e7as?<br \/> S\u00e3o perguntas que podem parecer simples, mas que exigem urgentes respostas dentro do conceito do verdadeiro amor que hoje refletimos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O tempo da Quaresma \u00e9 uma \u00f3tima oportunidade para, dentro do clima da Campanha da Fraternidade, refletirmos sobre a import\u00e2ncia da caridade, tema deste ano em nossa Arquidiocese.A caridade tem um significado muito rico para quem a estuda em sua origem etimol\u00f3gica, pois \u00e9, especialmente na linguagem crist\u00e3, sin\u00f4nimo de amor. 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