{"id":43116,"date":"2018-08-17T11:14:56","date_gmt":"2018-08-17T14:14:56","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=43116"},"modified":"2018-08-17T11:14:56","modified_gmt":"2018-08-17T14:14:56","slug":"colombia-uma-historia-de-perdao-sem-limites","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/colombia-uma-historia-de-perdao-sem-limites\/","title":{"rendered":"Col\u00f4mbia: uma hist\u00f3ria de perd\u00e3o sem limites"},"content":{"rendered":"<div class=\"post-content\">\n<p>Pastora Mira Garc\u00eda se tornou uma das mulheres de f\u00e9 mais conhecidas da <a href=\"https:\/\/www.acn.org.br\/images\/stories\/RLRM2016\/pDFs\/RLRM-2016-Colombia.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Col\u00f4mbia<\/a>, gra\u00e7as a seu exemplo de amor crist\u00e3o e perd\u00e3o mesmo diante do \u00f3dio e da viol\u00eancia; em uma na\u00e7\u00e3o que ainda luta contra as consequ\u00eancias de d\u00e9cadas de viol\u00eancia implac\u00e1vel.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos 60 anos, a Col\u00f4mbia tem sofrido com lutas armadas entre guerrilheiros marxistas, tropas governamentais e mil\u00edcias de extrema direita. Em 2016, por\u00e9m, se estabeleceu um questionado acordo de paz com o principal grupo de guerrilha do pa\u00eds; desde ent\u00e3o, estima-se que houve 900 mil assassinatos e que 7 milh\u00f5es de colombianos se refugiaram em raz\u00e3o dos conflitos. A viol\u00eancia e a inimizade ainda est\u00e3o presentes em muitos cora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Em setembro de 2017, quando o Papa Francisco visitou a Col\u00f4mbia, Pastora foi escolhida para dar seu testemunho de comprometimento com o mandamento de Jesus \u201cAmai-vos uns aos outros\u201d. Ela conta sua hist\u00f3ria para a Funda\u00e7\u00e3o Pontif\u00edcia ACN; uma organiza\u00e7\u00e3o que desde a sua origem promove a reconcilia\u00e7\u00e3o e o perd\u00e3o:<\/p>\n<h2 data-fontsize=\"30\" data-lineheight=\"39\">Hist\u00f3ria marcada pela dor<\/h2>\n<p>\u201cNo dia 4 de abril de 1960, meu pai, Francisco Mira, foi morto por advers\u00e1rios pol\u00edticos. Eu tinha apenas 9 anos, quando eu e meus 8 irm\u00e3os fomos obrigados a presenciar seu assassinato. Eles empurraram minha m\u00e3e para o lado e ent\u00e3o atiraram nele; em seguida o decapitaram na nossa frente\u201d.<\/p>\n<p>\u201cEm 1999, enquanto militantes de uma das fac\u00e7\u00f5es do conflito derrubavam a porta dos vizinhos, minha m\u00e3e teve um ataque card\u00edaco e morreu\u201d.<\/p>\n<p>\u201cEm 2001, minha filha Paola com minha neta de 5 anos estavam a caminho de uma escola rural quando foram raptadas por um grupo armado. Dois dias depois, devolveram a menina. Toda a fam\u00edlia, ent\u00e3o, entrou como em uma noite escura, se perguntando onde estaria minha filha Paola. Somente 7 anos depois, conseguimos encontrar seu corpo. Durante todo esse tempo, vasculh\u00e1vamos os campos, sub\u00edamos e desc\u00edamos montanhas. Insisti, inclusive, que trouxessem equipes para detectar minas, de modo que consegu\u00edssemos realizar a busca em seguran\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p>\u201cMeu irm\u00e3o mais novo tamb\u00e9m foi sequestrado em uma rodovia. Tanto ele como as pessoas que o acompanhavam na viajem n\u00e3o foram encontradas\u201d.<\/p>\n<p>\u201cEm maio de 2005, um grupo armado ilegal sequestrou meu filho de 18 anos durante 15 dias. Em seguida, o mataram e atiram seu corpo pela rua. Nesse momento, ent\u00e3o, eu disse: \u2018Senhor, eu o devolvo a ti\u201d. Embora nem todos consigam ter ensino superior, todos n\u00f3s cursamos a \u2018Universidade da Vida\u2019 \u201c.<\/p>\n<h2 data-fontsize=\"30\" data-lineheight=\"39\">Troca da vingan\u00e7a pelo perd\u00e3o<\/h2>\n<p>\u201cAntes da morte na minha m\u00e3e, eu trabalhava em um bairro onde escutei o nome do assassino do meu pai. Eu ent\u00e3o perguntei \u00e0 minha m\u00e3e se esse era mesmo o homem que havia matado o papai, e ela me respondeu: \u2018Sim, minha filha, mas n\u00f3s n\u00e3o temos o direito de fazer mal a ele\u2019. Levei bastante tempo investigando. Quando, por fim, cheguei na casa dele, em um local muito distante, n\u00e3o encontrei um homem, mas um resto de gente, um ser humano desfigurado\u201d.<\/p>\n<p>\u201cTeria sido muito f\u00e1cil, dadas as circunst\u00e2ncias em que ele vivia, lhe dar um peda\u00e7o de p\u00e3o envenenado ou usar outro mecanismo para acabar com a sua vida; pela gra\u00e7a de Deus, por\u00e9m, minha m\u00e3e tinha dito aquilo para mim. Me derramei em l\u00e1grimas no caminho de volta e me decidi a visit\u00e1-lo com frequ\u00eancia, junto a algumas pessoas que j\u00e1 realizavam visitas a doentes, para ajudar na sua recupera\u00e7\u00e3o, levando comida e roupas. Fizemos isso durante muito tempo\u201d.<\/p>\n<p>\u201cEu aprendi uma li\u00e7\u00e3o muito importante. A m\u00e3e do assassino do meu pai perguntou a ele um certo dia: \u2018Sabe quem \u00e9 essa mo\u00e7a que tem cuidado de voc\u00ea? Ela \u00e9 uma das muitas crian\u00e7as que voc\u00ea tornou \u00f3rf\u00e3s. Ela \u00e9 a filha de Pacho Mira\u201d. Nunca pude olhar de novo nos seus olhos. Entendi, ent\u00e3o, que a culpa \u00e9 pior que a dor\u201d.<\/p>\n<h2 data-fontsize=\"30\" data-lineheight=\"39\">Diante de mais uma grande dor<\/h2>\n<p>\u201cNo dia 19 de maio de 2005, diante da sepultura no meu filho, senti vontade de olhar para cima e vi uma escultura que representava a \u2018Piet\u00e1\u2019 de Michelangelo. Disse, assim, para a imagem: \u2018M\u00e3ezinha, me perdoa por chorar por meu filho, enquanto eu deveria manter a calma por ter tido a gra\u00e7a de ser m\u00e3e\u2019 \u201c.<\/p>\n<p>\u201cTr\u00eas dias depois, no caminho para casa, vi um jovem que fazia parte de um dos grupos armados ilegais. Ele estava ferido e chorava de dor; o levamos, ent\u00e3o, para casa. Ele estava faminto; lhe dei algo para comer e caf\u00e9, uma bermuda e uma camisa que havia sido do meu filho. Al\u00e9m disso, veio uma amiga que era enfermeira e limpamos a ferida do menino\u201d.<\/p>\n<p>\u201cO jovem deitou na cama do meu filho e, ao ver as fotografias dele na parede, perguntou: \u2018Por que estas fotos desse cara que matamos faz poucos dias?\u2019. Todas n\u00f3s, minhas filhas e eu, ficamos at\u00f4nitas, enquanto o jovem chorava e falava. Supliquei assim ao meu querido Deus que eu n\u00e3o tivesse sentimentos de uma m\u00e3e e nem o ouvisse com ouvidos de m\u00e3e; pedi que Ele me ajudasse\u201d.<\/p>\n<h2 data-fontsize=\"30\" data-lineheight=\"39\">Outro grande gesto de perd\u00e3o<\/h2>\n<p>\u201cFinalmente, disse ao garoto: \u2018Esta \u00e9 sua cama e este \u00e9 seu quarto\u2019. Ele chorava e falava, como se tiv\u00e9ssemos o espancado. Dei ent\u00e3o o telefone para ele e disse: \u2018Tem uma m\u00e3e preocupada contigo em algum lugar, por favor, ligue para ela\u201d.<\/p>\n<p>\u201cEm seguida, fui falar com as minhas filhas, que me disseram: \u2018M\u00e3e, ele \u00e9 um assassino! N\u00e3o pode sair vivo daqui!\u2019 Eu respondi, \u2018Digam o que querem que eu fa\u00e7a, a \u00fanica coisa que pe\u00e7o em troca \u00e9 que me garantam que, depois que eu for uma assassina como ele, meu filho estar\u00e1 sentado aqui com a gente de volta\u201d. Elas ent\u00e3o entenderam que n\u00e3o poderia ser \u2018olho por olho, dente por dente\u2019 \u201c.<\/p>\n<p>\u201cEu voltei para onde estava o jovem e lhe disse: \u2018Olha, voc\u00ea n\u00e3o pode mais ficar aqui, \u00e9 melhor que procure um hospital\u2019. Ele assim se foi e no mesmo ano voltou, desarmado e desprotegido. Quando ele vinha me ver, costumava me chamar de \u2018mam\u00e3e\u2019. No \u00faltimo dezembro ele morreu em um incidente relacionado \u00e0s drogas\u201d.<\/p>\n<p>\u201cSua m\u00e3e veio buscar o corpo e eu pude ajud\u00e1-la a lev\u00e1-lo para o seu munic\u00edpio. H\u00e1 um mandamento fundamental: \u2018Amai-vos uns aos outros\u2019. Senhor, perdoa a quem que tenha me ferido; cura-me de modo que, por meio do seu perd\u00e3o, eu possa olh\u00e1-lo nos olhos como um ser humano com direito a cometer erros, e saber que nos seus erros foi ele mesmo que caiu\u201d.<\/p>\n<h2 data-fontsize=\"30\" data-lineheight=\"39\">Semeando a reconcilia\u00e7\u00e3o na Col\u00f4mbia<\/h2>\n<p>Hoje em dia, Pastora est\u00e1 dedicada a CARE, que significa \u201cCentro de Proximidade para a Reconcilia\u00e7\u00e3o\u201d. Ela o fundou faz 13 anos para descobrir diferentes formas de promover a reconcilia\u00e7\u00e3o entre v\u00edtimas e assassinos. De fato, Pastora est\u00e1 convencida de que a melhor forma de se chegar \u00e0 reintegra\u00e7\u00e3o social \u00e9 buscando que todos os colombianos saibam o que tenha acontecido com os seus; isso \u00e9 fundamental para uma cura emocional e espiritual genu\u00edna.<\/p>\n<h2 data-fontsize=\"30\" data-lineheight=\"39\">Apoio da ACN<\/h2>\n<p>A ACN apoia projetos de reconcilia\u00e7\u00e3o em v\u00e1rios locais do mundo. Desse modo, acaba de ser aprovado um projeto na Col\u00f4mbia para a reconstru\u00e7\u00e3o de uma igreja em Aquitania; uma aldeia rural onde tanto a igreja quanto a casa paroquial foram destru\u00eddos pela guerrilha.<\/p>\n<p>Por conta da localiza\u00e7\u00e3o da Igreja, e a exist\u00eancia de bosques nos arredores, casos de viol\u00eancia extrema aconteceram por l\u00e1. Al\u00e9m disso, muitas pessoas morreram em raz\u00e3o de enfrentamentos entre os grupos de guerrilha ou mesmo por minas deixadas no solo. Por fim, as pessoas foram abandonando o lugar. \u00c0 medida que as minas foram retiradas da regi\u00e3o e o governo foi retomando o controle, aos poucos os moradores retornaram. Entretanto, a popula\u00e7\u00e3o encontrou somente ru\u00ednas; a igreja, inclusive, estava em p\u00e9ssimo estado.<\/p>\n<p>Para que Aquitania volte a ter vida, o p\u00e1roco local pediu o apoio da ACN para reformar o templo dedicado \u00e0 Nossa Senhora de F\u00e1tima. Certa da contribui\u00e7\u00e3o de seus benfeitores, a Funda\u00e7\u00e3o Pontif\u00edcia prontamente se comprometeu a ajudar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<p>Fonte: ACN<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pastora Mira Garc\u00eda se tornou uma das mulheres de f\u00e9 mais conhecidas da Col\u00f4mbia, gra\u00e7as a seu exemplo de amor crist\u00e3o e perd\u00e3o mesmo diante do \u00f3dio e da viol\u00eancia; em uma na\u00e7\u00e3o que ainda luta contra as consequ\u00eancias de d\u00e9cadas de viol\u00eancia implac\u00e1vel. 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