{"id":42718,"date":"2018-08-06T08:24:31","date_gmt":"2018-08-06T11:24:31","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=42718"},"modified":"2018-08-06T11:35:08","modified_gmt":"2018-08-06T14:35:08","slug":"vou-viciar-seu-filho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/vou-viciar-seu-filho\/","title":{"rendered":"Vou viciar seu filho"},"content":{"rendered":"<p>Caminhando \u00e0 margem de uma ferrovia semiabandonada, deparei-me com uma picha\u00e7\u00e3o num muro caiado: \u201cEscrevo no cora\u00e7\u00e3o uma besteira, que n\u00e3o usa chuteira. O canto vivo de uma na\u00e7\u00e3o com a mente vazia: vou viciar seu filho um dia\u201d. Parei aterrado diante daquela tentativa po\u00e9tica, sem m\u00e9trica, mas de rimas for\u00e7adas com silente, mas fatal amea\u00e7a. At\u00e9 os versos &#8211; cantilena dos cora\u00e7\u00f5es sens\u00edveis &#8211; adquirem o timbre gutural e cavernoso da perdi\u00e7\u00e3o humana! At\u00e9 poetas ostentam insensibilidade!<\/p>\n<p>Fiquei a imaginar como seria o rosto desse poeta dos nossos tempos. Jovem, com certeza. Mas cuja vida n\u00e3o rima com o cora\u00e7\u00e3o, nem com a p\u00e1tria, nem fam\u00edlia, nem sociedade, nem humanidade&#8230; Jovem como tantos que diariamente cruzam nossas estradas, nos espreitam, nos analisam, nos invejam&#8230; Jovens para os quais a estrutura social n\u00e3o faz sentido, a harmonia familiar inexiste, o mundo certinho \u00e9 careta, conven\u00e7\u00e3o armada e alimentada s\u00f3 pelos que se deram bem, nasceram privilegiados, est\u00e3o no topo de uma pir\u00e2mide que eles contestam, seja esta da estrutura social, moral ou mesmo religiosa. Sociedade, para estes \u00e9 o conluio de interesses de poucos. Fam\u00edlia, utopia. Religi\u00e3o, sonho dos tolos.<\/p>\n<p>No sil\u00eancio daquelas palavras \u00e0 minha frente havia uma mensagem ensurdecedora. Mas que muitos n\u00e3o querem ou teimam em n\u00e3o ouvir. Havia uma verdade, n\u00e3o t\u00e3o pura, mas real. Um recado claro e objetivo para aqueles que insistem em ignorar o mundo c\u00e3o que as drogas est\u00e3o deixando como heran\u00e7a para nossos filhos e netos. \u201cAinda vou viciar seu filho\u201d. Nem o rosnar de um animal selvagem, nem o ladrar dos c\u00e3es, nem o sibilar das serpentes causam tamanho espanto e temor. Pior ainda quando muitos desviam o olhar, se fazem de surdos e cegos, passam adiante como se dissessem: isso n\u00e3o \u00e9 comigo!<\/p>\n<p>\u201cO canto vivo de uma na\u00e7\u00e3o com a mente vazia\u201d. \u00c9 isso. Enquanto aqueles que, direta ou indiretamente, teimam em ignorar esse c\u00e2ncer silencioso que corr\u00f3i toda uma na\u00e7\u00e3o; enquanto muitos se isolam, se abst\u00eam das responsabilidades coletivas, o mal avan\u00e7a e contamina at\u00e9 a poesia da exist\u00eancia humana. Mais que guerras, doen\u00e7as, cataclismos ou fome, a amea\u00e7a das drogas age no sil\u00eancio da indol\u00eancia social \u2013 essa que anestesia a realidade dos sepulcros caiados \u2013 que s\u00f3 v\u00ea a superficialidade do problema. Triste ser\u00e1 se um dia encontrarmos nesses sepulcros um filho, uma filha, algu\u00e9m que amamos, mas para quem n\u00e3o devotamos uma aten\u00e7\u00e3o ou orienta\u00e7\u00e3o maior. Na\u00e7\u00e3o com a mente vazia&#8230;<\/p>\n<p>Besteira n\u00e3o usa chuteira. Enquanto o circo das grandes torcidas d\u00e1 vivas ao gol de alguns, ao sucesso das ilus\u00f5es, das apar\u00eancias, o cravo da chuteira dos traficantes faz seus pontos no sil\u00eancio das nossas madrugadas, na apatia de nossa sonol\u00eancia sem a\u00e7\u00e3o, sem sonhos, sem perspectivas. Estamos em guerra. Mas, pelo visto, s\u00f3 os inimigos possuem armas! S\u00f3 o mundo c\u00e3o, daqueles que desejam o circo em chamas, que riem da nossa madorra e indiferen\u00e7a, \u00e9 que canta vit\u00f3rias.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso restaurar os valores, a poesia da vida. N\u00e3o se pode estacionar nessa trilha, nessa estrada que nos conduz para um mundo de insanos, de fam\u00edlias destru\u00eddas, lares arruinados. O trem apita na curva. \u201cRefleti no que fazeis! Subi a montanha, trazei a madeira e reconstru\u00ed a minha Casa\u201d (Ag\u00a0 1,8). A Casa de Deus que somos, o templo sagrado da dignidade humana, dos princ\u00edpios p\u00e9treos da vida, hoje t\u00e3o banalizados e longe da realidade que nos cerca. \u201cPorque minha casa est\u00e1 em ru\u00ednas, enquanto que cada um de v\u00f3s s\u00f3 tem cuidado da sua\u201d (Ag 1,9). Por isso o poeta j\u00e1 n\u00e3o escreve com o cora\u00e7\u00e3o, mas com a raz\u00e3o que domina seu mundo, os caminhos da marginalidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Caminhando \u00e0 margem de uma ferrovia semiabandonada, deparei-me com uma picha\u00e7\u00e3o num muro caiado: \u201cEscrevo no cora\u00e7\u00e3o uma besteira, que n\u00e3o usa chuteira. O canto vivo de uma na\u00e7\u00e3o com a mente vazia: vou viciar seu filho um dia\u201d. 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