{"id":42088,"date":"2018-07-10T08:43:13","date_gmt":"2018-07-10T11:43:13","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=42088"},"modified":"2018-07-10T08:43:13","modified_gmt":"2018-07-10T11:43:13","slug":"um-anjo-de-satanas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/um-anjo-de-satanas\/","title":{"rendered":"Um anjo de satan\u00e1s"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 males que v\u00eam para o bem. Uma trag\u00e9dia sempre nos d\u00e1 a consci\u00eancia de nossa fragilidade. O drama vivido pelo time de futebol dos12 meninos da Tail\u00e2ndia, perdidos e soterrados numa caverna que aparentemente lhes serviria de abrigo moment\u00e2neo, nos d\u00e1 essa dimens\u00e3o de fraqueza e inseguran\u00e7a da humanidade diante da pr\u00f3pria natureza. Ao mesmo tempo, desperta em massa o sentimento de solidariedade e fraternidade entre aqueles que tomam conhecimento do fato ou se sentem impotentes diante da situa\u00e7\u00e3o. Uma corrente positiva, uma enorme torcida pelo resgate e salvamento daquelas crian\u00e7as soterradas pela fatalidade \u00e9 a prova mais cabal do amor que temos pela vida. A solidariedade humana ainda \u00e9 sua melhor virtude.<\/p>\n<p>O sofrimento, seja na pr\u00f3pria carne ou na de algu\u00e9m que sequer conhecemos, mas cuja vida nos parece preciosa tanto quanto a nossa \u00e9 a maior das provas de que a fraternidade ainda campeia entre n\u00f3s, apesar dos pesares. Afasta momentaneamente a soberba, a indiferen\u00e7a, o individualismo, para t\u00e3o somente unirmos for\u00e7as em prol da vida de algu\u00e9m semelhante. N\u00e3o importa o qu\u00e3o distante esse algu\u00e9m esteja, se faz parte ou n\u00e3o do nosso time, se almeja ou n\u00e3o a vit\u00f3ria numa copa, se tem entre eles algum futuro advers\u00e1rio a barrar\u00a0 nosso frustrado sonho do hexa, mas que no momento grita por socorro, clama por seu lugar ao sol, longe das trevas de uma gruta trai\u00e7oeira. Ent\u00e3o nos esquecemos das pr\u00f3prias derrotas para devolver-lhes o direito prim\u00e1rio da sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p>Curiosamente, a liturgia dessa semana traz em suas leituras uma reflex\u00e3o bem apropriada. Paulo, tamb\u00e9m prisioneiro numa das muitas cavernas da prepot\u00eancia humana, sentia-se fraco e pensava que sua vida encontraria ali seu ponto final. Perdia suas for\u00e7as, mas n\u00e3o sua f\u00e9. Tudo lhe era adverso, mas, como aqueles meninos da Tail\u00e2ndia, n\u00e3o pensava em si, mas naqueles que amava e que deixara l\u00e1 fora, livres, mas preocupados com sua pris\u00e3o. Como os meninos, escreveu-lhes cartas, bilhetes de amor, de coragem, de \u00e2nimo. N\u00e3o se exasperem, n\u00e3o se preocupem; orem apenas, perseverem na f\u00e9, dizia em termos. (Um dos meninos escreveu \u00e0 sua professora: quando sair daqui, n\u00e3o me d\u00ea nenhuma prova dif\u00edcil \u2013 bastava-lhe aquela do momento). Ent\u00e3o Paulo produziu uma de suas mais belas mensagens, escrevendo aos Cor\u00edntios: \u201cIrm\u00e3os, para que a extraordin\u00e1ria grandeza das revela\u00e7\u00f5es n\u00e3o me ensoberbecesse, foi espetado na minha carne um espinho, que \u00e9 como um anjo de satan\u00e1s a esbofetear-me, a fim de que eu n\u00e3o me exalte demais\u201d (2Cor 12-7). Uma derrota moment\u00e2nea n\u00e3o nos tira a gra\u00e7a de vit\u00f3rias futuras.<\/p>\n<p>Aos poucos, os meninos da caverna est\u00e3o sendo libertos. Aos poucos, as a\u00e7\u00f5es e embates do homem contra for\u00e7as adversas, v\u00e3o se superando, vencendo batalhas, mas n\u00e3o a guerra final de sua fragilidade contra sua maior for\u00e7a, a f\u00e9 que possui. Mas isso n\u00e3o lhe deve causar maior orgulho do que a consci\u00eancia de seus limites. Achar-se o maior, desdenhar as for\u00e7as oponentes, os advers\u00e1rios f\u00edsicos, naturais ou mesmo espirituais \u00e9 ignorar que muitas vezes nossos anjos tamb\u00e9m nos permitem fracassos moment\u00e2neos, para nos podar a pr\u00f3pria soberba, o orgulho de nos acharmos donos de tudo, da verdade, da compet\u00eancia, de encarar desafios sem ponderar os perigos, de sentir-se vitoriosos antes do apito final, de se achar dono da cocada, da bola&#8230; Um espinho na carne nos alerta, ent\u00e3o. A \u00e1gua no tornozelo d\u00e1 o sinal. A caverna escura e fria afasta a soberba, o orgulho, a vaidade. Antes, precisamos mostrar compet\u00eancia, continuar acreditando n\u00e3o na capacidade pessoal, mas coletiva, que clama aos c\u00e9us pela gra\u00e7a da miseric\u00f3rdia acima de tudo. \u201cEis por que eu me comprazo nas fraquezas, nas inj\u00farias, nas necessidades e nas ang\u00fastias sofridas por amor a Cristo\u201d, diria Paulo. Eis por que acredito na f\u00e9 daqueles meninos, longe de todos, mas bem pertos do cora\u00e7\u00e3o amoroso de Deus. Que isso nos sirva em nossas eventuais derrotas. Um dia seremos hexa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 males que v\u00eam para o bem. Uma trag\u00e9dia sempre nos d\u00e1 a consci\u00eancia de nossa fragilidade. O drama vivido pelo time de futebol dos12 meninos da Tail\u00e2ndia, perdidos e soterrados numa caverna que aparentemente lhes serviria de abrigo moment\u00e2neo, nos d\u00e1 essa dimens\u00e3o de fraqueza e inseguran\u00e7a da humanidade diante da pr\u00f3pria natureza. 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