{"id":40706,"date":"2018-05-10T10:10:54","date_gmt":"2018-05-10T13:10:54","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=40706"},"modified":"2018-05-10T10:10:54","modified_gmt":"2018-05-10T13:10:54","slug":"na-adocao-e-preciso-ir-alem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/na-adocao-e-preciso-ir-alem\/","title":{"rendered":"Na ado\u00e7\u00e3o \u00e9 preciso ir al\u00e9m"},"content":{"rendered":"<p><em>*Juliana Xavier<\/em><\/p>\n<p>Em uma tarde de fim de ano, ap\u00f3s um dia intenso de trabalho, meu marido e eu fomos surpreendidos por uma liga\u00e7\u00e3o de nosso advogado. Em poucas palavras ele deu a not\u00edcia que h\u00e1 um tempo almej\u00e1vamos: poder\u00edamos a qualquer momento ir ao abrigo buscar os nossos dois filhos, pois o juiz havia liberado a t\u00e3o esperada guarda provis\u00f3ria. Era dia dezessete de dezembro de 2014.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ficamos quase sem rea\u00e7\u00e3o, pelo susto que levamos, pois era remota a possibilidade deles passarem conosco os feriados de Natal e Ano Novo daquele ano. Decidimos ent\u00e3o busc\u00e1-los j\u00e1 no dia seguinte. Respiramos fundo e sa\u00edmos para comprar len\u00e7\u00f3is, colchas de cama e pequenos adere\u00e7os que \u201ccolorissem\u201d nossa casa para receb\u00ea-los.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Avisamos aos nossos familiares e amigos que, prontamente, nos ajudaram a arrumar nossa casa decorando com cartazes, fotos, guloseimas e bal\u00f5es de festa nos quartos das crian\u00e7as. A sensa\u00e7\u00e3o que t\u00ednhamos era a de pais de filhos prematuros, que precisam, como podem, ajeitar rapidamente o b\u00e1sico do enxoval para a chegada antecipada do beb\u00ea.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ap\u00f3s tudo preparado, partimos para o abrigo, que fica em outra cidade. Depois de v\u00e1rias burocracias, necess\u00e1rias no processo de ado\u00e7\u00e3o, por volta das quatro horas da tarde daquele dia, entr\u00e1vamos no carro, n\u00f3s quatro: meu marido, eu e nossos, agora, filhos, rumo ao seu mais novo lar. Ao chegar em casa, a recep\u00e7\u00e3o dos amigos e familiares foi incr\u00edvel: abra\u00e7os, brincadeiras, filmagens, presentes e muitos sorrisos naquela inesquec\u00edvel noite de pizza.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nossa vida se transformou completamente, para melhor, mas n\u00e3o sem um intenso per\u00edodo de adapta\u00e7\u00e3o. Tive direito aos quatro meses de licen\u00e7a maternidade e entrei de cabe\u00e7a no \u201cser m\u00e3e\u201d. Por necessidade, aplicamo-nos, como pudemos, em pesquisar e ler sobre o assunto da ado\u00e7\u00e3o, da fase de adapta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Contamos com a orienta\u00e7\u00e3o profissional de psic\u00f3logos e psicopedagogos. Conversei com muitas m\u00e3es de adolescentes, que deram conselhos preciosos como: n\u00e3o brigar muito por pequenas coisas, ter paci\u00eancia, conversar, orientar e ser bem firme quando a quest\u00e3o for prejudicial ao bem-estar deles.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ajudou-nos muito, particularmente, as seguintes palavras que a assistente social do F\u00f3rum local havia nos dito h\u00e1 tempos: \u201cQuando voc\u00eas adotarem uma crian\u00e7a, lembrem-se que ela ter\u00e1 sempre uma raz\u00e3o por tr\u00e1s de cada rea\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Compreendemos que na ado\u00e7\u00e3o precisar\u00edamos ir al\u00e9m, entendendo a crian\u00e7a em seus traumas, medos e dificuldades vindas de suas lembran\u00e7as. S\u00f3 assim poder\u00edamos ajud\u00e1-la a vencer, experimentando a cada dia o milagre do amor, com paci\u00eancia e perseveran\u00e7a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Encontramos, pouco tempo depois da ado\u00e7\u00e3o, uma outra assistente social e amiga que nos tranquilizou, informando-nos que o tempo de adapta\u00e7\u00e3o \u00e9 de no m\u00ednimo dois anos e que seria preciso muita paci\u00eancia da nossa parte neste tempo inicial, especialmente por serem crian\u00e7as um pouco maiores.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nesse per\u00edodo, eles testaram-nos at\u00e9 terem a seguran\u00e7a de que realmente os am\u00e1vamos, sem limites. Nesse tempo, lembrei muito de como minha m\u00e3e sempre me amou, mesmo quando n\u00e3o mereci. Pude compreender melhor o que \u00e9 um amor puro, amor de verdade, um amor sem medidas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Relato a seguir alguns epis\u00f3dios, especialmente com nossa filha, que chegou j\u00e1 na adolesc\u00eancia. Certo dia, ela saiu brava, revoltada pela garagem de nossa casa, como um \u201couri\u00e7o\u201d, que se eu tocasse, certamente me feriria. Ent\u00e3o, fui at\u00e9 ela, olhei firmemente nos olhos dela, segurei em seus bra\u00e7os e disse: \u201cVoc\u00ea \u00e9 minha filha e eu nunca vou deixar de te amar. Nunca vou te abandonar e nem desistir de voc\u00ea. Aconte\u00e7a o que acontecer, sempre vou estar ao seu lado.\u201d Naquele momento ela se desarmou totalmente e se tranquilizou.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em outra situa\u00e7\u00e3o, quando eu a orientava a estudar, ela me disse com todas as letras que nunca estudou para uma prova e que nunca estudaria. E isolou-se em seu quarto, a portas fechadas, firme em sua decis\u00e3o. Ent\u00e3o, pedi for\u00e7as e sabedoria a Deus (o que sempre fiz especialmente na educa\u00e7\u00e3o dos filhos), respirei fundo e fui at\u00e9 ela, que estava deitada em sua cama. Coloquei calmamente sua cabe\u00e7a em meu colo e comecei a acariciar seus cabelos. Nesse dia, tive uma longa conversa com ela, de muita compreens\u00e3o, paci\u00eancia, amor e carinho. Percebi que era tudo o que ela precisava naquele momento. Em seu primeiro boletim na nova escola, metade das notas foram acima da m\u00e9dia e metade abaixo. Ela tremia e chorava. Foi ent\u00e3o que a chamei em um canto, na escola, e lhe disse que estava de parab\u00e9ns, n\u00e3o deveria chorar, j\u00e1 que, mesmo em meio a tantas coisas novas que estava vivendo naquele ano, ainda tinha conseguido a m\u00e9dia em v\u00e1rias mat\u00e9rias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Percebi que seus olhos brilhavam ao me ouvir dizer que poderia contar comigo. Senti ali suas for\u00e7as se recobrarem, acreditando que iria conseguir vencer. Hoje, alguns anos se passaram e \u00a0vemos grandes vit\u00f3rias em suas notas, seu empenho, maturidade e busca de disciplina nos estudos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>S\u00e3o in\u00fameras as situa\u00e7\u00f5es vividas e superadas com amor, paci\u00eancia e f\u00e9 neste tempo de acolhimento \u00a0e adapta\u00e7\u00e3o. Supera\u00e7\u00f5es vivenciadas n\u00e3o somente com nossa filha adolescente, mas tamb\u00e9m com nosso filho, que hoje est\u00e1 com onze anos e precisa muito do nosso amor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Como pais adotivos, podemos afirmar o que experimentamos em nosso dia a dia: o amor, quando \u00e9 puro, paciente e verdadeiro, transforma as realidades mais dif\u00edceis e cura as feridas mais profundas, trazendo sementes de vida, gerando um novo amanh\u00e3.<\/p>\n<p><strong><em>*Juliana Xavier \u00e9 mission\u00e1ria da Comunidade Can\u00e7\u00e3o Nova<\/em><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>*Juliana Xavier Em uma tarde de fim de ano, ap\u00f3s um dia intenso de trabalho, meu marido e eu fomos surpreendidos por uma liga\u00e7\u00e3o de nosso advogado. 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