{"id":40365,"date":"2018-04-27T09:27:41","date_gmt":"2018-04-27T12:27:41","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=40365"},"modified":"2018-04-27T09:30:02","modified_gmt":"2018-04-27T12:30:02","slug":"dignidade-do-trabalho-no-magisterio-de-sao-joao-paulo-ii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/dignidade-do-trabalho-no-magisterio-de-sao-joao-paulo-ii\/","title":{"rendered":"Dignidade do Trabalho no Magist\u00e9rio de S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II"},"content":{"rendered":"<p>Na Festa da Exalta\u00e7\u00e3o da Santa Cruz, em 14 de setembro de 1981, o terceiro do seu pontificado, Jo\u00e3o Paulo II deu a conhecer ao mundo a Enc\u00edclica <em>Laborem Exercens\u00a0<\/em>para celebrar o 90\u00ba anivers\u00e1rio da publica\u00e7\u00e3o de outra Enc\u00edclica, a <em>Rerum Novarum<\/em>, do Papa Le\u00e3o XIII. Este documento marcou o tempo do papa polon\u00eas por trazer uma s\u00edntese do pensamento da Igreja sobre a dignidade do trabalho humano.<\/p>\n<p>\u201c<em>\u00c9 mediante o trabalho que o homem deve procurar-se o p\u00e3o quotidiano\u00a0e contribuir para o progresso cont\u00ednuo das ci\u00eancias e da t\u00e9cnica, e sobretudo para a incessante eleva\u00e7\u00e3o cultural e moral da sociedade, na qual vive em comunidade com os pr\u00f3prios irm\u00e3os. E com a palavra trabalho \u00e9 indicada toda a atividade realizada pelo mesmo homem, tanto manual como intelectual, independentemente das suas caracter\u00edsticas e das circunst\u00e2ncias, quer dizer toda a atividade humana que se pode e deve reconhecer como trabalho, no meio de toda aquela riqueza de atividades para as quais o homem tem capacidade e est\u00e1 predisposto pela pr\u00f3pria natureza, em virtude da sua humanidade<\/em>\u201d inicia o discurso magisterial do Papa.<\/p>\n<p><strong>Aten\u00e7\u00e3o ao trabalho<\/strong><\/p>\n<p>Depois de recordar a import\u00e2ncia da Enc\u00edclica de Le\u00e3o XIII, publicada em 15 de maio de 1891, Jo\u00e3o Paulo II continua: \u201c<em>O trabalho \u00e9 um desses aspectos, perene e fundamental e sempre com actualidade, de tal sorte que exige constantemente renovada aten\u00e7\u00e3o e decidido testemunho. Com efeito, surgem sempre novas\u00a0interroga\u00e7\u00f5es\u00a0e novos\u00a0problemas,\u00a0nascem novas esperan\u00e7as, como tamb\u00e9m motivos de temor e amea\u00e7as, ligados com esta dimens\u00e3o fundamental da exist\u00eancia humana, pela qual \u00e9 constru\u00edda cada dia a vida do homem, da qual esta recebe a pr\u00f3pria dignidade espec\u00edfica, mas na qual est\u00e1 contido, ao mesmo tempo, o par\u00e2metro constante dos esfor\u00e7os humanos, do sofrimento, bem como dos danos e das injusti\u00e7as que podem impregnar profundamente a vida social no interior de cada uma das na\u00e7\u00f5es e no plano internacional. Se \u00e9 verdade que o homem se sustenta com o p\u00e3o granjeado pelo trabalho das suas m\u00e3os\u00a0\u2014 e isto equivale a dizer, n\u00e3o apenas com aquele p\u00e3o quotidiano mediante o qual se mant\u00e9m vivo o seu corpo, mas tamb\u00e9m com o p\u00e3o da ci\u00eancia e do progresso, da civiliza\u00e7\u00e3o e da cultura \u2014 ent\u00e3o \u00e9 igualmente verdade que ele se alimenta deste p\u00e3o com\u00a0o suor do rosto;\u00a0isto \u00e9, n\u00e3o s\u00f3 com os esfor\u00e7os e canseiras pessoais, mas tamb\u00e9m no meio de muitas tens\u00f5es, conflitos e crises que, em rela\u00e7\u00e3o com a realidade do trabalho, perturbam a vida de cada uma das sociedades e mesmo da inteira humanidade<\/em>\u201c.<\/p>\n<blockquote><p><em>\u201cSe \u00e9 verdade que o homem se sustenta com o p\u00e3o granjeado pelo trabalho das suas m\u00e3os ent\u00e3o \u00e9 igualmente verdade que ele se alimenta deste p\u00e3o com\u00a0o suor do rosto\u201d<\/em><\/p>\n<p><strong>Jo\u00e3o Paulo II<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>O Papa, no entanto, adverte: \u201c<em>N\u00e3o compete \u00e0 Igreja analisar cientificamente as poss\u00edveis consequ\u00eancias de tais muta\u00e7\u00f5es para a conviv\u00eancia humana. A Igreja, por\u00e9m, considera sua tarefa fazer com que sejam sempre tidos presentes a dignidade e os direitos dos homens do trabalho, estigmatizar as situa\u00e7\u00f5es em que s\u00e3o violados e contribuir para orientar as aludidas muta\u00e7\u00f5es, para que se torne realidade um progresso aut\u00eantico do homem e da sociedade<\/em>\u201c.<\/p>\n<p><strong>A Enc\u00edclica<\/strong><\/p>\n<p>Vinte e sete blocos de par\u00e1grafos de profunda reflex\u00e3o formam o corpo da Carta. Nessa estrutura o Papa percorre, em primeiro lugar, o lugar ocupado pelo tema na Doutrina Social da Igreja; em seguida, faz uma retomada do sentido do trabalho na B\u00edblia, enfatizando o tema no\u00a0 livro do G\u00eanesis e fazendo uma breve defini\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica; depois, volta ao sentido subjetivo do trabalho relacionando-o com a pessoa de cada homem e mulher nesse mundo; Faz, na sequ\u00eancia, uma s\u00e9ria advert\u00eancia: \u201c<em>reconhecer que o erro do primitivo capitalismo pode repetir-se onde quer que o homem seja tratado, de alguma forma, da mesma maneira que todo o conjunto dos meios materiais de produ\u00e7\u00e3o, como um instrumento e n\u00e3o segundo a verdadeira dignidade do seu trabalho \u2014 ou seja, como sujeito e autor e, por isso mesmo, como verdadeira finalidade de todo o processo de produ\u00e7\u00e3o<\/em>\u201c.<\/p>\n<p>A riqueza e a densidade do discurso impedem um resumo breve sem o risco de se cometer falhas graves no que o Papa deixou para a Igreja e o mundo. Em cada uma das sess\u00f5es abre-se um linha de pensamento que remete ao Magist\u00e9rio anterior dos predecessores de Jo\u00e3o Paulo II, sobretudo aqueles que atuaram nos s\u00e9culos 19 e 20. O documento trata, nesse conjunto, de\u00a0 temas relacionados ao trabalho que merecem uma releitura nos tempos atuais: propriedade particular(n.os 14 e 15), empregadores e desemprego(n\u00ba 8.16-18), o\u00a0trabalho da mulher (n\u00ba 19), o\u00a0trabalho agr\u00edcola (n\u00ba 21), o\u00a0trabalho dos emigrantes (n\u00ba 23), os deficientes e o trabalho (n\u00ba 22), sindicatos e greves (n\u00ba 20), espiritualidade do trabalho (n.os 24-27), participa\u00e7\u00e3o na obra do Criador (n\u00ba 25) e participa\u00e7\u00e3o na P\u00e1scoa de Cristo (n\u00ba 26).<\/p>\n<p><strong>Destaque<\/strong><\/p>\n<p>O nono ponto da reflex\u00e3o de Jo\u00e3o Paulo II \u00e9 dedicado exclusivamente ao tema do \u201ct<i>rabalho e dignidade da pessoa\u201d. <\/i>O Papa, ao fazer o enunciado do tema, afirma:<i> \u201c<\/i><em>importa faz\u00ea-lo tendo sempre diante dos olhos a sobredita voca\u00e7\u00e3o b\u00edblica para \u2018submeter a terra\u2019 ,na qual se expressou a vontade do Criador, querendo que o trabalho tornasse poss\u00edvel ao homem alcan\u00e7ar um tal \u2018dom\u00ednio\u2019 que lhe \u00e9 pr\u00f3prio no mundo vis\u00edvel\u201d<\/em>. E continua: \u201c<em>A inten\u00e7\u00e3o fundamental e primordial de Deus quanto ao homem, que Ele \u2018criou \u2026 \u00e0 Sua semelhan\u00e7a, \u00e0 Sua imagem\u2019, n\u00e3o foi retratada nem cancelada, mesmo quando o homem, depois de ter infringido a alian\u00e7a original com Deus, ouviu estas palavras: \u2018Comer\u00e1s o p\u00e3o com o suor da tua fronte\u2019.\u00a0Tais palavras referem-se \u00e0quela\u00a0fadiga, por vezes pesada,\u00a0que a partir de ent\u00e3o passou a acompanhar o trabalho humano; no entanto, elas n\u00e3o mudam o facto de o mesmo trabalho ser a via pela qual o homem chegar\u00e1 a\u00a0realizar o \u2018dom\u00ednio\u2019\u00a0que lhe \u00e9 pr\u00f3prio no mundo vis\u00edvel, \u2018submetendo\u2019 a terra<\/em>\u201c.<\/p>\n<p>\u201c<em>Esta fadiga \u00e9 um facto universalmente conhecido, porque universalmente experimentado. Sabem-no os homens que fazem um trabalho bra\u00e7al, executado por vezes em condi\u00e7\u00f5es excepcionalmente dif\u00edceis; sabem-no os que labutam na agricultura, os quais empregam longas jornadas no cultivar a terra, que por vezes apenas \u2018produz espinhos e abrolhos\u2019; como o sabem tamb\u00e9m aqueles que trabalham nas minas e nas pedreiras, e igualmente os oper\u00e1rios sider\u00fargicos junto dos seus altos-fornos, e os homens que exercem a atividade no setor da constru\u00e7\u00e3o civil e em obras de constru\u00e7\u00e3o em geral, frequentemente em perigo de vida ou de invalidez. Sabem-no bem, ainda, os homens que trabalham agarrados ao \u2018banco\u2019 do trabalho intelectual, sabem-no os cientistas, sabem-no os homens sobre cujos ombros pesa a grave responsabilidade de decis\u00f5es destinadas a ter vasta resson\u00e2ncia no plano social. Sabem-no os m\u00e9dicos e os enfermeiros que velam de dia e de noite junto dos doentes. Sabem-no as mulheres que, por vezes sem um devido reconhecimento por parte da sociedade e at\u00e9 mesmo nalguns casos dos pr\u00f3prios familiares, suportam dia-a-dia as canseiras e a responsabilidade do arranjo da casa e da educa\u00e7\u00e3o dos filhos. Sim,\u00a0sabem-no bem todos os homens do trabalho\u00a0e, uma vez que o trabalho \u00e9 verdadeiramente uma voca\u00e7\u00e3o universal, sabem-no todos os homens sem excep\u00e7\u00e3o<\/em>\u201c, segue refletindo o Papa.<\/p>\n<blockquote><p><em>\u201cO trabalho \u00e9 um bem do homem porque, mediante o trabalho, o homem\u00a0n\u00e3o somente transforma a natureza,\u00a0adaptando-a \u00e0s suas pr\u00f3prias necessidades, mas tamb\u00e9m\u00a0se realiza a si mesmo\u00a0como homem e at\u00e9, num certo sentido, \u2018se torna mais homem<\/em>\u2018\u201d<\/p>\n<p><strong>Papa Jo\u00e3o Paulo II<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>E continua aprofundando: \u201c<em>E no entanto, com toda esta fadiga \u2014 e talvez, num certo sentido, por causa dela \u2014 o trabalho \u00e9 um bem do homem. E se este bem traz em si a marca de um\u00a0bonum arduum \u2014 \u2018\u00a0bem \u00e1rduo\u2019 \u2014 para usar a terminologia de Santo Tom\u00e1s de Aquino,\u00a0isso n\u00e3o impede que, como tal ele seja um bem do homem. E mais, \u00e9 n\u00e3o s\u00f3 um bem \u2018\u00fatil\u2019 ou de que se pode usufruir, mas \u00e9 um bem \u2018digno\u2019, ou seja, que corresponde \u00e0 dignidade do homem, um bem que exprime esta dignidade e que a aumenta. Querendo determinar melhor o sentido \u00e9tico do trabalho, \u00e9 indispens\u00e1vel ter diante dos olhos antes de mais nada esta verdade. O trabalho \u00e9 um bem do homem \u2014 \u00e9 um bem da sua humanidade \u2014 porque, mediante o trabalho, o homem\u00a0n\u00e3o somente transforma a natureza,\u00a0adaptando-a \u00e0s suas pr\u00f3prias necessidades, mas tamb\u00e9m\u00a0se realiza a si mesmo\u00a0como homem e at\u00e9, num certo sentido, \u2018se torna mais homem<\/em>\u2018\u201d.<\/p>\n<p>O Papa conclui esse cap\u00edtulo: \u201c<em>Sem esta considera\u00e7\u00e3o, n\u00e3o se pode compreender o significado da virtude da laboriosidade, mais exatamente n\u00e3o se pode compreender por que \u00e9 que a laboriosidade haveria de ser uma virtude; efetivamente, a virtude, como aptid\u00e3o moral, \u00e9 algo que faculta ao homem tornar-se bom como homem. Este facto n\u00e3o muda em nada a nossa justa preocupa\u00e7\u00e3o por evitar que no trabalho, mediante o qual a\u00a0mat\u00e9ria \u00e9 nobilitada, o pr\u00f3prio homem\u00a0n\u00e3o venha a sofrer uma\u00a0diminui\u00e7\u00e3o\u00a0da sua dignidade.\u00a0\u00c9 sabido, ainda, que \u00e9 poss\u00edvel usar de muitas maneiras do trabalho\u00a0contra o homem,\u00a0que se pode mesmo punir o homem com o recurso ao sistema dos trabalhos for\u00e7ados nos\u00a0lager\u00a0(campos de concentra\u00e7\u00e3o), que se pode fazer do trabalho um meio para a opress\u00e3o do homem e que, enfim, se pode explorar, de diferentes maneiras, o trabalho humano, ou seja o homem do trabalho. Tudo isto dep\u00f5e a favor da obriga\u00e7\u00e3o moral de unir a laboriosidade como virtude com a\u00a0ordem social do trabalho,\u00a0o que h\u00e1-de permitir ao homem \u2018tornar-se mais homem\u2019 no trabalho, e n\u00e3o j\u00e1 degradar-se por causa do trabalho, desgastando n\u00e3o apenas as for\u00e7as f\u00edsicas (o que, pelo menos at\u00e9 certo ponto, \u00e9 inevit\u00e1vel), mas sobretudo menoscabando a dignidade e subjetividade que lhe s\u00e3o pr\u00f3prias<\/em>\u201c.<\/p>\n<p>Para o papa em\u00e9rito Bento XVI a enc\u00edclica sobre o trabalho <em>Laborem exercens<\/em> constitui um dos marcos fundamentais da Doutrina Social da Igreja<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>(Foto: <em>Papa Jo\u00e3o Paulo II, acompanhado pelo Cardeal Paulo Evaristo Arns, no encontro com os trabalhadores,<\/em><em> no est\u00e1dio do Morumbi, em 30 de junho\u00a0<span class=\"card-info\">1980\/<\/span>Memorial da Democracia<\/em>)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Fonte: CNBB<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na Festa da Exalta\u00e7\u00e3o da Santa Cruz, em 14 de setembro de 1981, o terceiro do seu pontificado, Jo\u00e3o Paulo II deu a conhecer ao mundo a Enc\u00edclica Laborem Exercens\u00a0para celebrar o 90\u00ba anivers\u00e1rio da publica\u00e7\u00e3o de outra Enc\u00edclica, a Rerum Novarum, do Papa Le\u00e3o XIII. 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