{"id":3871,"date":"2014-01-08T18:27:19","date_gmt":"2014-01-08T20:27:19","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/20-anos-do-genocicio-em-ruanda\/"},"modified":"2017-03-24T15:55:04","modified_gmt":"2017-03-24T18:55:04","slug":"20-anos-do-genocicio-em-ruanda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/20-anos-do-genocicio-em-ruanda\/","title":{"rendered":"20 anos do genoc\u00edcio em Ruanda"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.catolicanet.com.br\/images\/stories\/kigali.jpg\" border=\"0\" align=\"left\" \/>H\u00e1 20 anos do genoc\u00eddio em Ruanda uma intensa programa\u00e7\u00e3o desenvolvida em todo o pa\u00eds recorda as cerca de 800 mil v\u00edtimas, a maioria pertencente \u00e0 etnia tutsi, assassinadas barbaramente. Com a derrubada do avi\u00e3o que transportava o ent\u00e3o Presidente Juvenal Habvarimana, extremistas da etnia hutu deram in\u00edcio, em 7 de abril, a um massacre sem precedentes que se estendeu at\u00e9 metade de julho de 1994. A comunidade internacional manteve um longo sil\u00eancio, fechando os olhos para o genoc\u00eddio que ocorria no cora\u00e7\u00e3o do continente africano.<\/p>\n<p>Na ter\u00e7a-feira (7) foi acesa em Kigali uma tocha em mem\u00f3ria \u00e0s v\u00edtimas dos massacres. Ap\u00f3s, come\u00e7ou em todo o pa\u00eds um per\u00edodo de luto. A R\u00e1dio Vaticano entrevistou a escritora Daniele Scaglione, autora do livro \u201cRuanda. Educa\u00e7\u00e3o para um genoc\u00eddio\u201d, e que prepara uma nova obra sobre o tema:<br \/><strong><br \/>R:<\/strong> <em>\u201cQuando pensamos ao genoc\u00eddio de 1994, talvez fiquemos cansados em imaginar o que tenha sido feito. N\u00e3o foi somente a morte de muit\u00edssimas pessoas e de muitas outras feridas. Foi um pa\u00eds que foi colocado por terra. Ver que hoje Ruanda atinge, por exemplo, os Objetivos do Mil\u00eanio, e est\u00e1 muito mais desenvolvida que outros pa\u00edses em via de desenvolvimento, \u00e9 realmente algo impressionante. Em 20 anos, fez progressos estrondosos no plano social e econ\u00f4mico. Isto n\u00e3o que dizer que n\u00e3o existam problemas de divis\u00f5es, problemas de desconfian\u00e7as dentro da pr\u00f3pria popula\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m problemas pol\u00edticos, no sentido de que nos questiona sobre qual ser\u00e1 o futuro, qual ser\u00e1 o p\u00f3s-Kagame, o atual Presidente\u201d.<br \/><\/em><br \/><strong>RV: Porque se chegou ao genoc\u00eddio?<\/p>\n<p>R: <\/strong><em>\u201cHouve uma divis\u00e3o entre hutu e tutsi, criada artificialmente, antes de tudo pelos colonizadores \u2013 os alem\u00e3es em primeiro lugar e os belgas successivamente \u2013 como modo de governar o pa\u00eds. A id\u00e9ia foi a de colocar os tutsi no governo. Posteriormente, na virada dos anos 50 e 60, a situa\u00e7\u00e3o se inverteu. Os hutu, que s\u00e3o a maioria e que se sentiam v\u00edtimas por dec\u00eanios de explora\u00e7\u00e3o, se organizaram contra os tutsi e determinaram a sua expuls\u00e3o ao exterior, de dezenas de milhares de pessoas. Toda esta comunidade tutsi no exterior se organiza para voltar, inicialmente pela via diplom\u00e1tica, ap\u00f3s com a luta armada, a guerra, iniciada em outubro de 1990. Este foi o ponto da reviravolta em dire\u00e7\u00e3o ao genoc\u00eddio. Todos os anos, de fato, que v\u00e3o de 90 a 94, foram anos de \u00f3dio e de incitamento \u00e0 viol\u00eancia contra os tutsi e isto teve como foco justamente esta guerra que os tutsi mesmo do exterior, tinham desejado como forma de voltar ao seu pa\u00eds\u201d.<\/em><\/p>\n<p><strong>RV: O que toca ainda hoje \u00e9 a viol\u00eancia generalizada que existiu na \u00e9poca\u2026<\/p>\n<p>R: <\/strong><em>\u201c Sim, toca. Mas toca sobretudo o fato de que esta viol\u00eancia n\u00e3o tenha sido espont\u00e2nea, porque existiu verdadeiramente uma organiza\u00e7\u00e3o muito precisa, meticulosa, feita da propaganda dos jornais \u00e0 distribui\u00e7\u00e3o das armas, ao treinamento. Uma coisa sobre a qual n\u00e3o devemos nos deixar enganar \u00e9 a id\u00e9ia de que esta viol\u00eancia tenha sido feita com armas tradicionais, tipo machete. Certo, haviam tamb\u00e9m machetes, mas n\u00e3o \u00e9 o s\u00edmbolo daquele genoc\u00eddio. O s\u00edmbolo \u00e9 representado pelos enormes carregamentos de armas que tornaram Ruanda, grande como a Lombardia, o terceiro pa\u00eds importador, em termos absolutos, de armas na \u00c1frica. E algu\u00e9m vendeu estas armas, algu\u00e9m emprestou dinheiro para que Ruanda pudesse tornar-se um arsenal assutador, pronto ao massacre. E este \u2018algu\u00e9m\u2019 somos \u2018n\u00f3s\u2019, pa\u00edses ocidentais fundamentalmente, n\u00e3o outros\u201d.<\/em><br \/><strong><br \/>RV: Jo\u00e3o Paulo II pediu o fim do massacre. Em maio de 1994 disse no Regina Caeli: \u201cBasta com sangue\u201d, afirmando que infelizmente tamb\u00e9m cat\u00f3licos eram resopons\u00e1veis pelo genoc\u00eddio. O Papa Wojtyla disse: Deus espera de todos os ruandenses \u201cum despertar moral, a coragem do perd\u00e3o e da fraternidade\u201d. Vinte anos ap\u00f3s, que sinais existe em rela\u00e7\u00e3o a isto?<\/p>\n<p>RV:<\/strong> <em>\u201cJo\u00e3o Paulo II foi o primeiro Chefe de Estado a usar a palavra \u201cgenoc\u00eddo\u201d publicamente. Em rela\u00e7\u00e3o ao perd\u00e3o, \u00e0 fraternidade e \u00e0 reconcilia\u00e7\u00e3o, \u00e9 necess\u00e1rio ainda reconstruir as responsabilidades em profundiddade. Existem expoentes do clero, n\u00e3o somente cat\u00f3licos, que foram c\u00famplices do genoc\u00eddio. Existiram outros, ao contr\u00e1rio, que se deixaram matar por defender as pessoas em risco. E n\u00e3o s\u00e3o poucos: foram 103 os sacerdotes mortos, justamente porque, durante os massacres de 94, procuraram esconder e defender v\u00edtmas potenciais. Mas o perd\u00e3o tamb\u00e9m foi a espinha dorsal dos tribunais tradicionais, os assim chamados \u2018gachacha\u2019, que em l\u00edngua original que dizer substancialmente \u201cgramado\u201d, um local onde milhares de ruandenses foram participar de processos a n\u00edvel popular. \u00c0s v\u00edtimas era pedido para perdoar os respons\u00e1veis pela viol\u00eancia e isto foi muito dif\u00edcil para os sobreviventes. Falando com muitos ruandenses, se entende por\u00e9m que estes processos, que alguns chamavam \u201cconsulta psicanal\u00edtica de massa\u201d, foram indispens\u00e1veis para se dizer: \u201creconstruamos tudo aquilo que aconteceu e depois tentemos seguir em frente\u201d.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Local: Kigali <br \/>Fonte: R\u00e1dio Vaticano<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 20 anos do genoc\u00eddio em Ruanda uma intensa programa\u00e7\u00e3o desenvolvida em todo o pa\u00eds recorda as cerca de 800 mil v\u00edtimas, a maioria pertencente \u00e0 etnia tutsi, assassinadas barbaramente. 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