{"id":38441,"date":"2018-02-21T16:15:01","date_gmt":"2018-02-21T19:15:01","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=38441"},"modified":"2018-02-21T16:18:32","modified_gmt":"2018-02-21T19:18:32","slug":"memento-mori","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/memento-mori\/","title":{"rendered":"Memento Mori"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/jornalosp.arquisp.org.br\/colunista\/magna-celi-mendes-da-rocha\">Magna Celi Mendes da Rocha<\/a><\/p>\n<p class=\"rtejustify\">A felicidade e a liberdade interior com as quais desejamos viver podem estar muito mais relacionadas com a forma como lidamos com a morte do que imaginamos. Perder um ente querido, vivenciar uma enfermidade grave ou acompanhar algu\u00e9m em seus momentos finais, colocam-nos em contato com uma realidade com a qual comumente vivemos alheios, quase sempre intencionalmente: a finitude humana.<\/p>\n<p class=\"rtejustify\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/jornalosp.arquisp.org.br\/sites\/default\/files\/15_ilustracao_0.jpg\" alt=\"\" \/>A sabedoria mon\u00e1stica ensina que a grande sacada para viver bem a vida \u00e9 manter a morte diante dos olhos. Anselm Gr\u00fcn (1998), em seu mais conhecido livro, \u201cO c\u00e9u come\u00e7a\u00a0em voc\u00ea\u201d, diz que S\u00e3o Bento, em sua regra, aconselha os monges a manterem a morte diariamente diante dos olhos pois, para ele, o pensar na morte liberta-os de todo medo \u201cporque paramos de depender do mundo, de nossa sa\u00fade, de nossa vida. O pensar na morte tamb\u00e9m nos possibilita viver e experimentar, conscientemente, cada momento como d\u00e1diva e sabore\u00e1-la dia a dia\u201d (p. 109). Por ter sempre a morte diante dos olhos, o monge torna-se livre das preocupa\u00e7\u00f5es mundanas, do julgamento e das expectativas dos homens. A grande expectativa para a qual deve voltar-se \u00e9 para a vinda do Senhor, ou sua parusia: \u201cA serenidade jovial, a liberdade, a confian\u00e7a e a sinceridade para o momento presente forjam o monge que anseia pelo Senhor\u201d (p.110).<\/p>\n<p class=\"rtejustify\">Gr\u00fcn prossege dizendo que em muitas senten\u00e7as mon\u00e1sticas recomenda-se que \u00e9 necess\u00e1rio primeiro morrer para o mundo, a fim de estar \u00e0 altura das tarefas que o mundo apresenta, pois quando nos identificamos muito com uma tarefa ou fazemos que nossa autoestima dependa de ser ou n\u00e3o capaz de realiz\u00e1-la, n\u00e3o podermos realiz\u00e1-la livremente, pois a fixa\u00e7\u00e3o em uma tarefa, bloqueia nossa capacidade de execu\u00e7\u00e3o. \u201cMorrer significa abandonar a identifica\u00e7\u00e3o com a tarefa. Somente ent\u00e3o, eu me torno livre para realiz\u00e1-la bem. Pois j\u00e1 n\u00e3o depende tudo do fato de como eu a executo\u201d. (p.111)<\/p>\n<p class=\"rtejustify\">A identifica\u00e7\u00e3o e a lembran\u00e7a da pr\u00f3pria morte querem lembrar tamb\u00e9m que o ser humano torna-se tanto mais livre quanto mais deixar de depender da aprova\u00e7\u00e3o dos outros, uma vez que se constantemente depender do elogio dos outros continuar\u00e1 sempre insatisfeito, pois nesse aspecto, o ser humano \u00e9 insaci\u00e1vel. \u201cO que devemos experimentar \u00e9 que em n\u00f3s h\u00e1 uma dignidade divina, cuja exist\u00eancia independe de as pessoas nos elogiarem ou nos repreenderem. Somente a experi\u00eancia dessa dignidade divina em n\u00f3s nos torna livres diante do elogio e da repreens\u00e3o\u201d (p. 113).<\/p>\n<p class=\"rtejustify\">Da\u00ed, conclu\u00edmos que n\u00e3o \u00e9 suficiente apenas se lembrar da pr\u00f3pria morte, mas estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o filial e confiante com o Autor da Vida. Nessa\u00a0viv\u00eancia \u00edntima e concreta, abrem-se as portas para tocar o infinito e acolher a verdadeira dignidade humana, que consiste em ser filho de Deus.<\/p>\n<p class=\"rtejustify\">\u00a0A simples constata\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria finitude facilmente pode lan\u00e7ar-nos numa experi\u00eancia de desespero ou fuga, pois morrer, quer no sentido literal ou existencial, significa desprender-se, e s\u00f3 aceitamos desprender-nos de algo por um sentido maior. Em uma rela\u00e7\u00e3o com o Ser Infinito, esse movimento de desprendimento vai se aprimorando cada vez mais, em um processo de amadurecimento humano e espiritual. Tal desprendimento vai pouco a pouco tornando-se uma viv\u00eancia consciente e intencional: de pessoas, de coisas, das vis\u00f5es\u00a0de mundo e at\u00e9 mesmo da pr\u00f3pria vida, pois: \u201cSe o gr\u00e3o de trigo, ca\u00eddo na terra, n\u00e3o morrer, fica s\u00f3; se morrer, produz muito fruto. Quem ama a sua vida, perd\u00ea-la-\u00e1; mas quem odeia a sua vida neste mundo, conserv\u00e1-la-\u00e1 para a vida eterna\u201d (Jo, 12, 24-25).<\/p>\n<p class=\"rtejustify\">Na aparente dureza dessas palavras reside o segredo da felicidade e da verdadeira liberdade: perder para ganhar. Estar livre dos medos, das posses, das expectativas humanas. Esse, no fundo, \u00e9 um desejo autenticamente humano. Ajuda-nos a superar a pr\u00f3pria estreiteza e a lan\u00e7ar o olhar para o infinito, pois como afirmava S\u00e3o Paulo: \u201cse \u00e9 s\u00f3 para esta vida que temos colocado a nossa esperan\u00e7a em Cristo, somos, de todos os homens, os mais dignos de l\u00e1stima\u201d (1 Cor 15,19).<\/p>\n<p class=\"rtejustify\">Dessa forma, iniciar o novo ano mantendo a morte diante dos olhos pode ser um bom caminho para quem deseja viv\u00ea-lo autenticamente.<\/p>\n<p><strong><sub>Arte:\u00a0Sergio Ricciuto Conte<\/sub><\/strong><\/p>\n<p class=\"rtecenter\"><sub>As opini\u00f5es expressas na se\u00e7\u00e3o \u201cOpini\u00e3o\u201d s\u00e3o de responsabilidade do autor e n\u00e3o refletem, necessariamente, os posicionamentos editorais do <\/sub><\/p>\n<p class=\"rtecenter\"><sub>Fonte: jornal O S\u00c3O PAULO.\u00a0<\/sub><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Magna Celi Mendes da Rocha A felicidade e a liberdade interior com as quais desejamos viver podem estar muito mais relacionadas com a forma como lidamos com a morte do que imaginamos. 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