{"id":37277,"date":"2018-01-05T00:00:50","date_gmt":"2018-01-05T02:00:50","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=37277"},"modified":"2018-01-30T13:57:22","modified_gmt":"2018-01-30T15:57:22","slug":"editorial-dom-helder-camara-a-coerencia-do-profeta-e-a-incoerencia-do-governo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/editorial-dom-helder-camara-a-coerencia-do-profeta-e-a-incoerencia-do-governo\/","title":{"rendered":"EDITORIAL: DOM HELDER CAMARA: A COER\u00caNCIA DO PROFETA E A INCOER\u00caNCIA DO GOVERNO"},"content":{"rendered":"<p>\u00c9 preciso que se consagrem os direitos inalien\u00e1veis, inerentes \u00e0 pr\u00f3pria dignidade da pessoa humana: o direito \u00e0 moradia e ao trabalho, o direito \u00e0 educa\u00e7\u00e3o e \u00e0 sa\u00fade. S\u00f3 a garantia desses direitos sociais evitar\u00e1, nesse Pa\u00eds, a exist\u00eancia de subcidad\u00e3os e de sub-homens brasileiros, de segunda classe&#8221;. Dom Helder Camara<\/p>\n<p>Falar em Direitos Humanos no Brasil \u00e9 desafiador e, por incont\u00e1veis vezes, causa indigna\u00e7\u00e3o e frustra\u00e7\u00e3o. Em um pa\u00eds onde a pobreza voltou a crescer, onde milhares de pessoas n\u00e3o conseguem, sequer, ter direito a um peda\u00e7o de p\u00e3o todos os dias; onde milhares de homens, mulheres, jovens e crian\u00e7as dormem nas ruas; onde educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, emprego e moradia, direitos de todos, que ainda s\u00e3o inacess\u00edveis para tantos, t\u00eam seus recursos congelados por vinte anos, em que n\u00edvel de prioridade est\u00e3o os direitos humanos?<\/p>\n<p>Dom Helder Camara sempre esteve \u00e0 frente na defesa dos direitos humanos. Perseguido pela ditadura militar teve sua morte civil decretada atrav\u00e9s da proibi\u00e7\u00e3o de que seu nome fosse citado em qualquer ve\u00edculo de imprensa no Brasil. Entretanto encontrou nas universidades e na imprensa de todas as partes do mundo o espa\u00e7o para denunciar as viola\u00e7\u00f5es aos direitos humanos no Brasil, tanto os decorrentes da ditadura, quanto os decorrentes da marginaliza\u00e7\u00e3o imposta pelo modelo econ\u00f4mico concentracionista.<\/p>\n<p>Tendo como t\u00edtulo uma cita\u00e7\u00e3o b\u00edblica, &#8220;OUVI OS CLAMORES DO MEU POVO&#8221;, realizou um profundo diagn\u00f3stico da situa\u00e7\u00e3o do povo na d\u00e9cada de 1970 no nordeste do Brasil, cuja publica\u00e7\u00e3o foi logo confiscada e proibida pela ditadura.<\/p>\n<p>Usando os audit\u00f3rios e teatros de universidades, igrejas e movimentos sociais que no mundo inteiro lhe queriam ouvir, alertou para os esc\u00e2ndalos da fome no mundo, de uma minoria de ricos cada vez mais ricos a custa de milh\u00f5es de pobres cada vez mais pobres, da corrida armamentista e sua ind\u00fastria de armas.<\/p>\n<p>Acolhendo a todos dentro da Igreja a quem tanto amou e sempre foi fiel, abra\u00e7ou com todas as for\u00e7as a op\u00e7\u00e3o evang\u00e9lica pelos pobres. Coordenador e signat\u00e1rio do Pacto das Catacumbas assinado durante o Conc\u00edlio Vaticano II, onde se propunha que os bispos vivessem como o povo, mudou-se para um uma casinha nos fundos da Igreja das Fronteiras e ali viveu e acolheu todos que o procuravam. Coerente com a op\u00e7\u00e3o evang\u00e9lica pelos pobres, foi um entusiasta da Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o, logo acusada de inspira\u00e7\u00e3o comunista pelos donos do poder fora e dentro da Igreja.<\/p>\n<p>&#8220;Quando dou comida aos pobres me chamam de santo. Quando pergunto por que eles s\u00e3o pobres me chamam de comunista&#8221;. (Conf. DOM HELDER O PROFETA DOS DIREITOS HUMANOS)<\/p>\n<p>Tudo o que recebia era utilizado em benef\u00edcio dos empobrecidos. A cria\u00e7\u00e3o do Banco da Providencia, a experi\u00eancia de reforma agr\u00e1ria com os camponeses no Cabo, nos engenhos Ipiranga, Taquari e Guaretama, a distribui\u00e7\u00e3o de lotes residenciais em Turur\u00fa, em Paulista, a constru\u00e7\u00e3o da Casa de Frei Francisco nos Coelhos, no Recife, s\u00e3o exemplos da a\u00e7\u00e3o social sempre presente e sempre indutora de liberta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tudo isso trouxe consequ\u00eancias. O trucidamento de seu auxiliar, o Padre Henrique, a expuls\u00e3o de padres estrangeiros, o metralhamento e picha\u00e7\u00f5es do muro de sua casa, a decreta\u00e7\u00e3o de sua morte civil,\u00a0 a &#8220;a\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica&#8221; exercida por mais de uma vez pela ditadura para impedir a outorga do Pr\u00eamio Nobel da Paz, a virul\u00eancia dos ataques pela imprensa, nunca o intimidaram nem arrefeceram o seu entusiasmo e a sua esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Bispo da Igreja e cidad\u00e3o do mundo, ele viveu intensamente a indivisibilidade dos dois mandamentos nos quais se resume toda a lei de Deus: &#8220;Amar a Deus sobre todas as coisas e ao pr\u00f3ximo como a si mesmo&#8221;. Tudo isso ele viveu em Olinda e Recife, para onde foi nomeado arcebispo em 12 de mar\u00e7o de 1964.<\/p>\n<p>Exatamente 50 anos depois, em 12 de mar\u00e7o de 2014, por iniciativa do deputado Arnaldo Jordy do PPS do Par\u00e1,\u00a0 \u00e9 apresentado na C\u00e2mara Federal um projeto de lei, indicando Dom Helder como Patrono Brasileiro dos Direitos Humanos. Nada mais justo e ningu\u00e9m melhor que Dom Helder para simbolizar e ser exemplo dessa luta, da\u00ed o agradecimento do IDHEC, em nome de todos os seguidores e admiradores de Dom Helder pela significativa indica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Acontece que, apesar de tratar-se de um projeto de lei de uma \u00fanica frase, sem artigos, par\u00e1grafos e incisos e de n\u00e3o precisar sequer vota\u00e7\u00e3o em plen\u00e1rio, a sua aprova\u00e7\u00e3o nas comiss\u00f5es das duas casas, C\u00e2mara e Senado, arrastou-se por longos tr\u00eas anos, seis meses e seis dias at\u00e9 ser levada, em 18 de dezembro de 2017 \u00e0 san\u00e7\u00e3o do Presidente da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>Nada parecido com a celeridade que as mesmas casas legislativas deram nesse per\u00edodo \u00e0 criminaliza\u00e7\u00e3o das j\u00e1 ent\u00e3o tradicionais &#8220;pedaladas fiscais&#8221;, \u00e0 destitui\u00e7\u00e3o da Presidenta da Rep\u00fablica e sua substitui\u00e7\u00e3o por algu\u00e9m comprometido com um conjunto de reformas que agride os direitos humanos da maioria da popula\u00e7\u00e3o, e \u00e0 aprova\u00e7\u00e3o dessas reformas, utilizando para isso todos os expedientes ditos legais, mas seguramente il\u00edcitos e algumas vezes, como acusado por membros das pr\u00f3prias casas, imorais e fraudulentos.<\/p>\n<p>Assim, se a iniciativa \u00e9 merit\u00f3ria e digna de aplausos, o contexto dentro do qual ela foi aprovada merece a manifesta\u00e7\u00e3o da profunda indigna\u00e7\u00e3o daqueles que sempre tiveram em Dom Helder um exemplo de firmeza, de coer\u00eancia e de esperan\u00e7a agostiniana.<\/p>\n<p>Por isso ao finalizar este editorial, queremos nos solidarizar com o arcebispo Dom Fernando Saburido, que tem abra\u00e7ado a seu modo e no tempo atual a causa da defesa dos direitos humanos, quando, em carta aberta questiona de forma direta a falta de coer\u00eancia dos poderes da Rep\u00fablica ao promulgarem essa lei que homenageia dom Helder como Patrono dos Direitos Humanos, ao mesmo tempo em que\u00a0 diariamente utilizam todos os expedientes para cortar esses mesmos direitos da parte mais pobre da popula\u00e7\u00e3o, deixando inalterados e por vezes at\u00e9 ampliando seus pr\u00f3prios e inaceit\u00e1veis privil\u00e9gios.<\/p>\n<p>Por tudo isso, convocamos a todos e todas que sempre consideraram Dom Helder, o Dom da Paz, da Justi\u00e7a, da Esperan\u00e7a e dos Direitos Humanos a fortalecer a uni\u00e3o e a interlocu\u00e7\u00e3o com os movimentos populares, sociais, de trabalhadores e com todas as pessoas de boa vontade, para, em 2018, intensificar a luta pela preserva\u00e7\u00e3o e\/ou restaura\u00e7\u00e3o dos direitos que t\u00eam sido tirados da popula\u00e7\u00e3o brasileira, honrando dessa forma Dom Helder como Patrono Brasileiro dos Direitos Humanos. A nossa for\u00e7a \u00e9 a esperan\u00e7a!<\/p>\n<p>&#8220;A esperan\u00e7a tem duas filhas lindas: a indigna\u00e7\u00e3o e a coragem.<br \/>\nA indigna\u00e7\u00e3o nos ensina a n\u00e3o aceitar as coisas como elas est\u00e3o.<br \/>\nA coragem, nos ensina a mud\u00e1-las&#8221;.\u00a0\u00a0\u00a0 Santo Agostinho<\/p>\n<p>Recife 4 de janeiro de 2018<br \/>\nDiretoria do Instituto Dom Helder Camara- IDHEC<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Fonte: Instituto Dom Helder Camara<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 preciso que se consagrem os direitos inalien\u00e1veis, inerentes \u00e0 pr\u00f3pria dignidade da pessoa humana: o direito \u00e0 moradia e ao trabalho, o direito \u00e0 educa\u00e7\u00e3o e \u00e0 sa\u00fade. S\u00f3 a garantia desses direitos sociais evitar\u00e1, nesse Pa\u00eds, a exist\u00eancia de subcidad\u00e3os e de sub-homens brasileiros, de segunda classe&#8221;. 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