{"id":37247,"date":"2017-12-22T07:52:48","date_gmt":"2017-12-22T09:52:48","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=37247"},"modified":"2018-01-30T11:45:09","modified_gmt":"2018-01-30T13:45:09","slug":"natal-festa-da-grande-acolhida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/natal-festa-da-grande-acolhida\/","title":{"rendered":"Natal, festa da grande acolhida"},"content":{"rendered":"<p>As narrativas iniciais dos Evangelhos, que tratam da origem, concep\u00e7\u00e3o e nascimento de Cristo (particularmente Mt 1-2, Lc 1-2 e Jo 1), apresentam uma enorme riqueza n\u00e3o s\u00f3 teol\u00f3gica, mas tamb\u00e9m humana. Nosso cora\u00e7\u00e3o se comove diante de Deus que, num gesto inimagin\u00e1vel para n\u00f3s, se faz carne; da maternidade que nasce do sim de uma adolescente; do pai dedicado e cheio de amor gratuito por sua fam\u00edlia; do rec\u00e9m-nascido pobre e indefeso aclamado por pastores, magos e anjos. O Natal \u00e9 a festa do grande dom pelo qual todos anseiam, quer reconhe\u00e7am, quer n\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas visto sob outro \u00e2ngulo, o Natal tamb\u00e9m \u00e9 a festa da grande acolhida. Maria que acolhe o mist\u00e9rio de Deus, Jos\u00e9 que acolhe Maria e seu filho, a crian\u00e7a para a qual n\u00e3o h\u00e1 lugar nas estalagens dos homens, mas que ser\u00e1 acolhida e glorificada pela cria\u00e7\u00e3o e pelo mundo, representados pelos pastores, pelos magos e pelos anjos. De modo ainda mais extraordin\u00e1rio, \u00e9 o pr\u00f3prio Deus que, nascendo de uma mulher, acolhe radicalmente a condi\u00e7\u00e3o humana, Cristo que se faz filho para que sejamos filhos adotivos do Pai.<\/p>\n<p>Doa\u00e7\u00e3o e acolhida permanecem, como rastro natalino, a marcar a identidade dos crist\u00e3os ao longo dos s\u00e9culos. Em sua Regra mon\u00e1stica, S\u00e3o Bento (480-547), ecoando o Evangelho de Mateus (25, 3145), diz que todo h\u00f3spede deve ser recebido como o pr\u00f3prio Cristo (cf. Cap\u00edtulo 53). Aquele que chega, particularmente quando est\u00e1 fr\u00e1gil e vulner\u00e1vel, representa mais que uma responsabilidade a nos tirar de nossa zona de conforto: \u00e9 um convite que Jesus nos faz para ficarmos mais perto d\u2019Ele. Se o acolhido deve ser agradecido \u00e0quele que o acolhe, este deve ser grato a Deus que se dignou a visit\u00e1-lo na pessoa daquele que foi acolhido. Toda a din\u00e2mica dos relacionamentos interpessoais, das rela\u00e7\u00f5es entre grupos sociais, povos e na\u00e7\u00f5es se transfigura \u00e0 luz desse mist\u00e9rio da acolhida.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, doa\u00e7\u00e3o e acolhida est\u00e3o entre aquelas \u201csementes do Verbo\u201d, citadas na Enc\u00edclica Redemptoris Missio (N\u00ba 28), de S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II, potencialmente presentes no cora\u00e7\u00e3o de todos e que germinam de modo maravilhoso e comovente onde quer que as pessoas levem a s\u00e9rio sua pr\u00f3pria humanidade.<\/p>\n<p>Diante do atual drama dos migrantes e refugiados em todo o mundo, tema da mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial da Paz de 2018, vale a pena conhecer o caso de Jacques Derrida (1930-2004), fil\u00f3sofo franc\u00eas criador do desconstrucionismo, frequentemente apontado como um dos grandes autores ligados ao relativismo p\u00f3s-moderno. Na d\u00e9cada de 1990, Derrida, movido pela quest\u00e3o dos refugiados e exilados pol\u00edticos, pensou a hospitalidade incondicional como algo que n\u00e3o pode ser plenamente constru\u00edda no mundo humano, mas deve ser pensada e desejada mesmo assim (cf. \u201cDa hospitalidade\u201d, S\u00e3o Paulo: Escuta ). Na mesma \u00e9poca, junto com o fil\u00f3sofo italiano Gianni Vattimo, organizou um semin\u00e1rio e um livro sobre o tema da religi\u00e3o (\u201cA religi\u00e3o\u201d, S\u00e3o Paulo: Editora Esta\u00e7\u00e3o Liberdade ).<\/p>\n<p>Esse exemplo mostra como a acolhida e o dom de si correspondem ao cora\u00e7\u00e3o humano. Ao mesmo tempo, o quanto parecem distantes e pouco fact\u00edveis se cortados de sua raiz mais profunda, que \u00e9 o encontro com o Deus que se fez homem. Por isso, aquele que se dedica com sinceridade a essa experi\u00eancia acaba tendo \u2013 de um modo ou de outro \u2013 que debru\u00e7ar-se tamb\u00e9m sobre a experi\u00eancia religiosa. O mundo, e cada um de n\u00f3s, precisa dramaticamente da doa\u00e7\u00e3o e da acolhida incondicional, mas a gratuidade que as torna poss\u00edveis n\u00e3o pode acontecer plenamente sem o gesto primeiro do Pai.<\/p>\n<p>Para reconhecermos integralmente essa gratuidade, n\u00e3o basta o conhecimento intelectual, \u00e9 preciso praticar a doa\u00e7\u00e3o e a acolhida. Uma fam\u00edlia que vive com essa abertura ao outro, educa a um modo de ser que se contrap\u00f5e ao individualismo e ao consumismo de nossa sociedade. Por isso, experi\u00eancias como as de ado\u00e7\u00e3o e de apadrinhamento afetivo s\u00e3o t\u00e3o importantes para os crist\u00e3os. N\u00e3o se trata apenas de um bem para as crian\u00e7as acolhidas e para a sociedade, mas para todos que vivem na fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Quando os filhos s\u00e3o vistos como um projeto e um direito dos pais \u2013 e n\u00e3o como um gesto de doa\u00e7\u00e3o no qual o amor conjugal se entrega a um outro -, a fam\u00edlia deixa de ser uma escola de doa\u00e7\u00e3o e acolhida, sucumbindo \u00e0 mentalidade individualista e ao desamor de nossos tempos. A insemina\u00e7\u00e3o artificial, eufemisticamente chamada, no caso das mulheres, de reprodu\u00e7\u00e3o assistida, por exemplo, padece muito dessa \u201cdeseduca\u00e7\u00e3o\u201d de nossas fam\u00edlias, que imaginam que seus filhos s\u00f3 ser\u00e3o seus, se gerados com seu material gen\u00e9tico. Mostra nossa dificuldade em lidar com o poder das novas tecnologias, usando-as indiscriminadamente e sem sabedoria, como observa o Papa Francisco na Laudato Si \u2019 (N\u00ba 103-105). Com isso, as mulheres se submetem a grandes sofrimentos f\u00edsicos e ps\u00edquicos, a fam\u00edlia gasta muito dinheiro e, pior que tudo, tem de enfrentar o problema dos embri\u00f5es \u201cexcedentes\u201d, que n\u00e3o se desenvolvem e ter\u00e3o que ser mortos ou mantidos indefinidamente em vida suspensa nos laborat\u00f3rios.<\/p>\n<p>Mais s\u00e1bio e mais humano \u00e9 compreender que a paternidade e a maternidade s\u00e3o muito mais que uma quest\u00e3o biol\u00f3gica. Um conhecido militante sindical cat\u00f3lico latino-americano, quando perguntado por qual raz\u00e3o ele e sua esposa haviam decidido adotar um filho, j\u00e1 tendo v\u00e1rios, respondia: \u201cporque quer\u00edamos saber se os filhos do amor podem ser t\u00e3o nossos filhos quanto aqueles do sangue&#8230; e descobrimos que podem ser\u201d. Uma bela express\u00e3o, \u201cfilhos do amor\u201d, que na verdade deveria valer para todos \u2013 tanto em nossa rela\u00e7\u00e3o com nossos pais biol\u00f3gicos quanto na rela\u00e7\u00e3o com o Pai que deu a todos n\u00f3s o direito de nos considerarmos seus filhos adotivos em Jesus Cristo (cf. Jo 1, 12-13).<\/p>\n<p>Sem o reconhecimento de um amor primeiro, gratuito e constitutivo de nossa identidade, todas as demais manifesta\u00e7\u00f5es de afeto se dissolvem, v\u00edtimas de nossas contradi\u00e7\u00f5es e de nossa volubilidade. Por isso, o mundo precisa do Natal, dessa celebra\u00e7\u00e3o do grande dom e da grande acolhida. Mesmo em nossa sociedade secularizada e individualista, o Natal permanece como a festa maior. N\u00e3o \u00e9 porque pode ser reduzida a uma celebra\u00e7\u00e3o do consumo, como muitos pensam, mas sim porque o cora\u00e7\u00e3o do ser humano anseia por esse dom gratuito, por essa acolhida incondicional que n\u00e3o pode ser celebrada em nenhum outro momento.<\/p>\n<p>Que cada um de n\u00f3s possa viver todos os dias de nossa vida como um permanente Natal, que cada um seja uma testemunha que colabora para manter esse rastro natalino presente em cada gesto sincero de doa\u00e7\u00e3o e acolhida.<\/p>\n<p>Arte: Sergio Ricciuto Conte<\/p>\n<p>Fonte: Jornal O S\u00e3o Paulo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As narrativas iniciais dos Evangelhos, que tratam da origem, concep\u00e7\u00e3o e nascimento de Cristo (particularmente Mt 1-2, Lc 1-2 e Jo 1), apresentam uma enorme riqueza n\u00e3o s\u00f3 teol\u00f3gica, mas tamb\u00e9m humana. 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