{"id":35810,"date":"2017-11-06T07:41:48","date_gmt":"2017-11-06T09:41:48","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=35810"},"modified":"2017-11-24T15:16:06","modified_gmt":"2017-11-24T17:16:06","slug":"declaracao-dos-bispos-das-dioceses-da-bacia-hidrografica-do-rio-doce","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/declaracao-dos-bispos-das-dioceses-da-bacia-hidrografica-do-rio-doce\/","title":{"rendered":"Declara\u00e7\u00e3o dos Bispos das dioceses da Bacia Hidrogr\u00e1fica do Rio Doce"},"content":{"rendered":"<p>Neste domingo, 5 de novembro, os bispos das dioceses da Bacia do Rio Doce em Minas Gerais e no Esp\u00edrito Santo emitiram declara\u00e7\u00e3o sobre os dois anos do rompimento da barragem de Fund\u00e3o, no distrito de Bento Rodrigues, munic\u00edpio de Mariana (MG).<\/p>\n<p>Leia a Decalra\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>No dia 5 de novembro de 2015, as popula\u00e7\u00f5es da Bacia do Rio Doce foram brutalmente atingidas pelo maior desastre socioambiental do Brasil, com o rompimento da barragem de Fund\u00e3o, das mineradoras Samarco-Vale-BHP Billiton, no distrito de Bento Rodrigues, munic\u00edpio de Mariana-MG. A lama t\u00f3xica destruiu comunidades, ceifou vidas, desalojou popula\u00e7\u00f5es inteiras, devastou o meio ambiente, atingiu o Rio Doce e chegou ao Oceano Atl\u00e2ntico, jogando na incerteza e na inseguran\u00e7a milhares de pessoas.<\/p>\n<p>Como pastores do Povo de Deus, atentos aos \u201csinais dos tempos\u201d e fi\u00e9is \u00e0 nossa miss\u00e3o evangelizadora, queremos dirigir nossa palavra e nos solidarizar com os atingidos pela lama t\u00f3xica que provocou um preju\u00edzo incalcul\u00e1vel, que engloba aspectos ambientais, sociais e econ\u00f4micos,envolve a vida de grande parte dapopula\u00e7\u00e3o estabelecida nesta bacia hidrogr\u00e1fica e ultrapassa as localidades situadas \u00e0s margens do Rio Doce.<\/p>\n<p>Esperar contra toda esperan\u00e7a (Rm 4,18)<\/p>\n<p>Nas localidades atingidas, a lama de rejeitos de min\u00e9rio afetou o sentimento de pertencimento demoradores, povos ind\u00edgenas, ribeirinhos, pescadores, quilombolas, areeiros, artes\u00e3os, comerciantes, agricultores, pois muitos perderam casas, estilo de vida, mem\u00f3ria, postos de trabalho, sa\u00fade, seguran\u00e7a e perspectiva de futuro. Mesmo em meio a tanto sofrimento, n\u00f3s crist\u00e3os somos chamados a alimentar a chama da esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Esse crime socioambiental, cujos efeitos repercutem na vida e nas atividades da popula\u00e7\u00e3o desta regi\u00e3o, incide fortemente na hist\u00f3ria da Bacia do Rio Doce. Lamentamos que, passados dois anos, pouco foi feito, sobretudo por parte dos respons\u00e1veis, diante do muito que h\u00e1 por fazer. A atua\u00e7\u00e3o da Funda\u00e7\u00e3o Renova, criada pela Samarco, Vale e BHP Billiton, com o aval do Governo Federal e dos Estados de Minas Gerais e Esp\u00edrito Santo, tem sido insuficiente diante da magnitude das consequ\u00eancias incalcul\u00e1veis dessa trag\u00e9dia. H\u00e1 promessas n\u00e3o cumpridas, o que gera des\u00e2nimo e descr\u00e9dito em muitas pessoas. Muitos atingidos n\u00e3o foram reconhecidos como tais, ficando sem receber a devida assist\u00eancia da empresa respons\u00e1vel pelo rompimento da barragem. \u00c9 preciso recordar que n\u00e3o se faz justi\u00e7a sem respeito aos direitos e \u00e0 dignidade da pessoa humana. Entretanto, at\u00e9 o presente, n\u00e3o houve puni\u00e7\u00e3o aos culpados, nem pleno ressarcimento \u00e0s popula\u00e7\u00f5es atingidas, nem o devido reparo aos danos causados ao meio ambiente.<\/p>\n<p>S\u00e3o conhecidos tamb\u00e9m outros casos de rompimentos de barragens de conten\u00e7\u00e3o de res\u00edduos de min\u00e9rios ocorridos em Minas Gerais: Itabirito (1986), S\u00e3o Sebasti\u00e3o das \u00c1guas Claras (2001), Mira\u00ed (2007), Itabirito (2014) e Mariana (2015). A d\u00edvida contra\u00edda pelas empresas respons\u00e1veis ainda n\u00e3o foi plenamente saldada e a atua\u00e7\u00e3o dos \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos n\u00e3o \u00e9 satisfat\u00f3ria.<\/p>\n<p>Apesar desse quadro sombrio, h\u00e1 pontos luminosos que brilham nos gestos de solidariedade de muitas pessoas e institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e privadas para minorar o sofrimento causado pelas duras consequ\u00eancias dessa trag\u00e9dia. A solidariedade\u00a0 alimentaa esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>H\u00e1 princ\u00edpios \u00e9ticos que est\u00e3o sendo feridos especialmente pela irresponsabilidade, neglig\u00eancia e omiss\u00e3o por parte de empresas e de institui\u00e7\u00f5es governamentais. Prova disso \u00e9 a assinatura de acordos referentes a repara\u00e7\u00e3o, compensa\u00e7\u00e3o e indeniza\u00e7\u00e3o dos danos; a reduzida participa\u00e7\u00e3o das comunidades atingidas nas decis\u00f5es que lhes dizem respeito;e a falta da devida avalia\u00e7\u00e3o sist\u00eamica e estrat\u00e9gica dos impactos provocados. \u00c9 responsabilidade do Minist\u00e9rio P\u00fablico e do Poder Judici\u00e1rio garantir o efetivo respeito aos direitos dos atingidos, o fiel cumprimento da justi\u00e7a e a devida puni\u00e7\u00e3o dos respons\u00e1veis.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o da minera\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>O rompimento da barragem de Fund\u00e3o tornou inadi\u00e1vel a reflex\u00e3o cr\u00edtica sobre a complexa quest\u00e3o da minera\u00e7\u00e3o. Essa trag\u00e9dia revelou a fragilidade e a grave insufici\u00eancia dos crit\u00e9rios utilizados para a defini\u00e7\u00e3o de novas \u00e1reas de minera\u00e7\u00e3o, dos m\u00e9todos utilizados, das t\u00e9cnicas de produ\u00e7\u00e3o e gest\u00e3o de barragens, das tecnologias da engenharia de minera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a trag\u00e9dia mostrou a vulnerabilidade da atual legisla\u00e7\u00e3o socioambiental; a insuficiente fiscaliza\u00e7\u00e3o dos \u00f3rg\u00e3os competentes; a baixa qualidade e a morosidade das a\u00e7\u00f5es emergenciais; o despreparo da sociedade e dos governos para planejar, discutir, condicionar, negociar e garantir as estrat\u00e9gias de desenvolvimento centradas na busca da sustentabilidade. Ademais, n\u00e3o \u00e9 suficientemente considerada a situa\u00e7\u00e3o em que se encontram as diversas minas de explora\u00e7\u00e3o e os altos riscos socioambientais nelas envolvidos. Os grandes empreendimentos miner\u00e1rios t\u00eam sido concebidos e gerenciados sem a efetiva considera\u00e7\u00e3o sobre a exaust\u00e3o das jazidas, os processos de fechamento de minas e as alternativas para a diversifica\u00e7\u00e3o da economia local.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso estender nosso olhar tamb\u00e9m para o impacto da minera\u00e7\u00e3o sobre a \u00e1gua. Trata-se de um bem que \u00e9 finito e, ao mesmo tempo, essencial para a vida, por isso, de direito universal. A explora\u00e7\u00e3o insustent\u00e1vel das atividades mineradoras amea\u00e7a esse bem indispens\u00e1vel,prejudicando o meio ambiente, destruindo vegeta\u00e7\u00f5es, provocando desequil\u00edbrio no regime de circula\u00e7\u00e3o de \u00e1guas superficiais e subterr\u00e2neas, modificando essencialmente o len\u00e7ol fre\u00e1tico,causando a destrui\u00e7\u00e3o de in\u00fameras nascentes, levando \u00e0 escassez desse bem precioso e gerando impactos prejudiciais \u00e0 sa\u00fade, \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de alimentos e \u00e0 pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p>Economia a servi\u00e7o da vida<\/p>\n<p>Na raiz dessa trag\u00e9dia de dimens\u00f5es incalcul\u00e1veis, encontra-sea sede desenfreada de lucro a ser obtido a qualquer pre\u00e7o, mesmo causando danos \u00e0 natureza e ao ser humano: \u201cIsto acontece porque no centro desse sistema econ\u00f4mico est\u00e1 o deus dinheiro e n\u00e3o a pessoa humana. Sim, no centro de cada sistema social ou econ\u00f4mico deve estar a pessoa, imagem de Deus [\u2026]. Quando a pessoa \u00e9 deslocada e chega o deus dinheiro d\u00e1-se essa invers\u00e3o de valores [\u2026]. Um sistema econ\u00f4mico centrado no deus dinheiro tem tamb\u00e9m necessidade de saquear a natureza\u201d diz o Papa Francisco, no Discurso aos participantes do Encontro Mundial dos Movimentos Populares, em Roma, no dia 28 de outubro de 2014.<\/p>\n<p>O Papa \u00e9 incisivo ao afirmar: \u201cA primeira tarefa \u00e9 p\u00f4r a economia a servi\u00e7o dos povos. Os seres humanos e a natureza n\u00e3o devem estar a servi\u00e7o do dinheiro. Digamos N\u00c3O a uma economia de exclus\u00e3o e desigualdade, onde o dinheiro reina em vez de servir. Esta economia mata. Esta economia exclui. Esta economia destr\u00f3i a M\u00e3e Terra [\u2026]. A casa comum est\u00e1 sendo saqueada, devastada, vexada impunemente. A covardia em defend\u00ea-la \u00e9 um pecado grave [\u2026]. Os povos e os seus movimentos s\u00e3o chamados a clamar, mobilizar-se, exigir \u2013 pac\u00edfica, mas tenazmente \u2013 a ado\u00e7\u00e3o urgente de medidas apropriadas. Pe\u00e7o-vos, em nome de Deus, que defendais a M\u00e3e Terra\u201d (Discurso em Santa Cruz de laSierra, na Bol\u00edvia, no dia 9 de julho de 2015).<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo em que expressamos nossa solidariedade com os atingidos por essa grande trag\u00e9dia, olhamos com preocupa\u00e7\u00e3o para as pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es. O futuro est\u00e1 comprometido! Diante dessa triste e desafiadora realidade, os \u00f3rg\u00e3os governamentais e jur\u00eddicos fa\u00e7am valer a justi\u00e7a social e ambiental; as empresas causadoras da trag\u00e9dia assumam plenamente suas responsabilidades com o ressarcimento pelos preju\u00edzos causados e a reconstru\u00e7\u00e3o da vida humana e do meio ambiente; as popula\u00e7\u00f5es locais sejam vigilantes e solid\u00e1rias, buscando sempre a uni\u00e3o e participando ativamente nos movimentos eclesiais, sociais e populares comprometidos com a defesa dos direitos e a promo\u00e7\u00e3o da vida digna para todos.<\/p>\n<p>Apelo final<\/p>\n<p>Como Bispos das Dioceses da Bacia do Rio Doce, dirigimos este apelo: Apoiem os atingidos pela trag\u00e9dia do rompimento da barragem de Fund\u00e3o para que tenham seus direitos respeitados, sua dignidade reconhecida, seus bens ressarcidos e seu protagonismo considerado na busca de solu\u00e7\u00f5es que atendam a seus leg\u00edtimos interesses. Estimulem os que lutam em defesa da \u201ccasa comum\u201d para que n\u00e3o desanimem diante dos obst\u00e1culos e da prepot\u00eancia dos grandes e poderosos. Ajudem a salvar o Rio Doce, com tudo o que ele significa para tanta gente em Minas Gerais e no Esp\u00edrito Santo. Perseverem na luta a favor da vida e da esperan\u00e7a, na certeza de que \u201ca paz \u00e9 fruto da justi\u00e7a\u201d (Is 32, 17).<\/p>\n<p>Mariana, 05 de novembro de 2017<\/p>\n<p>Dom Geraldo Lyrio Rocha, Arcebispo de Mariana-MG<\/p>\n<p>Dom Luiz Mancilha Vilela, Arcebispo de Vit\u00f3ria-ES<\/p>\n<p>Dom Rubens Sevilha, Bispo Auxiliar de Vit\u00f3ria-ES<\/p>\n<p>Dom Emanuel Messias de Oliveira, Bispo de Caratinga-MG<\/p>\n<p>Dom Ant\u00f4nio Carlos F\u00e9lix, Bispo de Governador Valadares-MG<\/p>\n<p>Dom Joaquim Wladimir Lopes Dias, Bispo de Colatina-ES<\/p>\n<p>Dom Marco Aur\u00e9lio Gubiotti, Bispo de Itabira-MG<\/p>\n<p>Dom Paulo Bosi Dal\u2019B\u00f3, Bispo de S\u00e3o Mateus-ES<\/p>\n<p>Dom Aldo Gerna, MCCJ, Bispo Em\u00e9rito de S\u00e3o Mateus-ES<\/p>\n<p>Dom Werner Siebenbrock, Bispo Em\u00e9rito de Governador Valadares-MG<\/p>\n<p>Dom Odilon Guimar\u00e3es Moreira, Bispo Em\u00e9rito de Itabira-Fabriciano-MG<\/p>\n<p>Dom D\u00e9cio Sossai Zandonade, Bispo Em\u00e9rito de Colatina-ES<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Fonte: CNBB<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste domingo, 5 de novembro, os bispos das dioceses da Bacia do Rio Doce em Minas Gerais e no Esp\u00edrito Santo emitiram declara\u00e7\u00e3o sobre os dois anos do rompimento da barragem de Fund\u00e3o, no distrito de Bento Rodrigues, munic\u00edpio de Mariana (MG). Leia a Decalra\u00e7\u00e3o: No dia 5 de novembro de 2015, as popula\u00e7\u00f5es da [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":35811,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[7],"tags":[],"class_list":["post-35810","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cnbb"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/35810","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=35810"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/35810\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":35812,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/35810\/revisions\/35812"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/media\/35811"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=35810"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=35810"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=35810"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}