{"id":35530,"date":"2017-10-24T08:34:13","date_gmt":"2017-10-24T10:34:13","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=35530"},"modified":"2017-11-24T09:42:10","modified_gmt":"2017-11-24T11:42:10","slug":"desarmando-o-coracao-e-a-mente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/desarmando-o-coracao-e-a-mente\/","title":{"rendered":"Desarmando o cora\u00e7\u00e3o e a mente"},"content":{"rendered":"<p>Cardeal Nzapalainga com o povo Cardeal Nzapalainga com o povo<\/p>\n<p>O Cardeal Dieudonn\u00e9 Nzapalainga (o mais novo do mundo, com 50 anos), arcebispo de Bangui, fala sobre o poder da religi\u00e3o em unir as pessoas na luta contra a guerra civil na Rep\u00fablica Centro-Africana.<\/p>\n<p>Durante anos, grupos rebeldes na Rep\u00fablica Centro-Africana t\u00eam lutado por poder e mat\u00e9ria-prima. O &#8220;S\u00e9l\u00e9ka&#8221;, um grupo rebelde formado principalmente por mu\u00e7ulmanos, derrubou o governo corrupto de Francois Boziz\u00e9 em mar\u00e7o de 2013. Em resposta aos frequentes saques e assassinatos, formou-se o &#8220;anti-Balaka&#8221;, um grupo formado principalmente por crist\u00e3os, mas n\u00e3o menos violento em sua abordagem. Diante do conflito instaurado, mais de um milh\u00e3o de centro-africanos fugiram para outros pa\u00edses ou para outras regi\u00f5es do pa\u00eds. Igrejas e mesquitas oferecem prote\u00e7\u00e3o aos civis contra os ataques. A interven\u00e7\u00e3o militar francesa e as miss\u00f5es de paz da ONU conseguiram estabilizar um pouco a situa\u00e7\u00e3o da guerra civil no pa\u00eds para que o presidente Touad\u00e9ra pudesse ser eleito em fevereiro de 2016. No entanto, ao longo dos \u00faltimos meses, a viol\u00eancia foi retomada de forma acentuada. O jornal Tagespost reuniu-se com o cardeal Dieudonn\u00e9 Nzapalainga na sede internacional da ACN \u2013 Funda\u00e7\u00e3o Pontif\u00edcia Ajuda \u00e0 Igreja que Sofre \u2013 na Alemanha.<br \/>\nCardeal Nzapalainga, qual foi a influ\u00eancia da visita papal \u00e0 Rep\u00fablica Centro Africana em 2015 para crist\u00e3os e mu\u00e7ulmanos? Poderia falar sobre isso?<\/p>\n<p>O Papa trouxe paz e esperan\u00e7a visitando crist\u00e3os e mu\u00e7ulmanos e reunindo todos juntos em um est\u00e1dio. Posso dizer que a visita papal foi um evento inesquec\u00edvel. Na noite anterior, n\u00e3o se conseguia chegar a 5 km do chamado gueto mu\u00e7ulmano de Bangui, mas o papa entrou. Quando ele saiu do distrito, foi como a passagem pelo Mar Vermelho: assim como a exemplo do povo hebreu com Moises. Muitos mu\u00e7ulmanos seguiram o Papa a p\u00e9 ou em motocicletas \u2013 sem medo. Era uma liberta\u00e7\u00e3o, foi um verdadeiro milagre.<br \/>\nComo est\u00e3o as coisas em Bangui hoje?<\/p>\n<p>Atualmente, voc\u00ea pode ir e vir como quiser no distrito: o Papa foi aos mu\u00e7ulmanos como que para libert\u00e1-los da pris\u00e3o que este distrito havia se tornado. Hoje, eles podem ir a qualquer lugar da capital, a leste, oeste, norte e sul. O que antigamente n\u00e3o era poss\u00edvel de se fazer. Isso n\u00e3o \u00e9 algo que deve ser desconsiderado. Acreditamos que a visita do Papa tenha despertado o interesse do mundo inteiro para a Rep\u00fablica Centro Africana. Estavam presentes canais de televis\u00e3o de todo o mundo, seguindo o itiner\u00e1rio da visita papal desde o seu in\u00edcio, com o evento em uma mesquita, mostrando que a religi\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o problema. Pelo contr\u00e1rio, o Papa pediu \u00e0s religi\u00f5es que trabalhassem em conjunto para encontrarem solu\u00e7\u00f5es. Partilhamos do mesmo patriarca, cujo nome \u00e9 Abra\u00e3o, nosso pai na f\u00e9. O mesmo pode ser dito sobre o Alcor\u00e3o e a B\u00edblia: temos tudo o que precisamos para unir for\u00e7as e avan\u00e7ar no caminho da paz.<br \/>\nVoc\u00ea \u00e9 um dos tr\u00eas &#8220;santos de Bangui&#8221;&#8230;<\/p>\n<p>Toda essa quest\u00e3o de &#8220;santos&#8221; foi o jornal franc\u00eas Le Monde que escreveu. As pessoas do jornal aparentemente acreditam que somos santos apenas porque atuamos como irm\u00e3os e queremos superar a divis\u00e3o. E ent\u00e3o eles escreveram isso. Os outros dois citados foram Nicolas Guerekoyame-Gbangou, pastor e presidente da Igreja protestante Alian\u00e7a Evang\u00e9lica da Rep\u00fablica Centro Africana, e o im\u00e3 Omar Kobine Layama, presidente do Conselho Isl\u00e2mico. N\u00f3s tr\u00eas trabalhamos juntos para construir um f\u00f3rum em que pud\u00e9ssemos dizer que &#8220;religi\u00e3o&#8221; significa &#8220;unir-se&#8221;. Uma caracter\u00edstica da religi\u00e3o \u00e9 que ela une as pessoas. O Alcor\u00e3o e a B\u00edblia cont\u00eam mensagens inequ\u00edvocas de que as pessoas devem se unir \u2013 como o \u201cbom mel\u201d.<br \/>\n\u00c9 poss\u00edvel, enquanto l\u00edderes religiosos, influenciar os grupos rebeldes, como o S\u00e9l\u00e9ka e o anti-Balaka?<\/p>\n<p>Apelamos para a consci\u00eancia. N\u00e3o temos armas. Nossa arma \u00e9 a Palavra de Deus. N\u00f3s somos homens da Palavra de Deus. N\u00f3s vamos e batemos nas portas dos cora\u00e7\u00f5es de homens e mulheres. As pessoas podem aceitar ou n\u00e3o. \u00c9 nosso trabalho e dever dizer-lhes: n\u00e3o mate. E isso \u00e9 o que fazemos quando vemos pessoas que est\u00e3o matando. Dizemos a eles: n\u00e3o, voc\u00ea n\u00e3o tem o direito de matar. Deus n\u00e3o quer que voc\u00ea mate. E temos que dizer para eles que abandonem suas armas. Tentamos desarmar seus cora\u00e7\u00f5es e mentes. Afinal, voc\u00ea pode desarmar algu\u00e9m pela for\u00e7a tirando suas armas, mas se ele n\u00e3o est\u00e1 convencido em seu cora\u00e7\u00e3o e mente, ent\u00e3o ele vai pegar uma outra arma. \u00c9 por isso que \u00e9 importante primeiro ter certeza de que ele est\u00e1 plenamente convencido em sua raz\u00e3o para depois come\u00e7ar a procurar solu\u00e7\u00f5es para estabelecer o respeito m\u00fatuo.<br \/>\nQual \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica na Rep\u00fablica Centro Africana sob a presid\u00eancia de Touad\u00e9ra?<\/p>\n<p>Nosso pa\u00eds n\u00e3o est\u00e1 sofrendo uma crise religiosa, mas militar e pol\u00edtica. H\u00e1 aqueles que usam a religi\u00e3o como um instrumento para ganhar poder e acesso a recursos naturais, como ouro e diamantes. O Estado tornou-se muito fraco no nosso pa\u00eds: 14 das 16 prefeituras s\u00e3o controladas por rebeldes. O l\u00edder rebelde \u00e9 aquele que det\u00e9m realmente o poder. Ele pode decidir se uma pessoa deve viver ou morrer.<br \/>\nSobre diamantes, o que acredita que precisa ser feito para garantir que haja mais justi\u00e7a e menos corrup\u00e7\u00e3o na Rep\u00fablica Centro Africana?<\/p>\n<p>Acreditamos que, depois de tudo o que aconteceu em nosso pa\u00eds, as v\u00edtimas mere\u00e7am ver que a justi\u00e7a foi feita. H\u00e1 civis que perderam tudo. E h\u00e1 pessoas que mataram e que precisam admitir isso a si mesmas. A cren\u00e7a de que h\u00e1 muito dinheiro a se ganhar com a corrup\u00e7\u00e3o \u00e9 o que precisa ser repudiado. A lei e a ordem precisam ser reintegradas. Gostar\u00edamos de ver todos sob o poder da lei. Gostar\u00edamos que aqueles que mataram pessoas sejam presos. Entretanto, no presente momento, o assassinato est\u00e1 isento de puni\u00e7\u00e3o. Aqueles que matam, n\u00e3o v\u00e3o \u00e0 pris\u00e3o. E nada muda. A justi\u00e7a deve, portanto, ser restaurada. As pessoas s\u00e3o mortas por dinheiro, por diamantes, por toda e qualquer coisa. Os que t\u00eam as armas s\u00e3o aqueles que tomam as decis\u00f5es. Se se quer ter uma sociedade saud\u00e1vel, precisa-se encarar isso de uma maneira diferente.<br \/>\nO que precisa acontecer?<\/p>\n<p>Devemos fornecer objetivos claros para as pessoas. Nossos problemas l\u00e1 tamb\u00e9m s\u00e3o causados por recursos naturais. A Rep\u00fablica Centro Africana \u00e9 um pa\u00eds de vastos recursos prim\u00e1rios. As pessoas v\u00eam de todo o mundo para lucrar com isso e vender os tais recursos para o Sud\u00e3o, Camar\u00f5es ou Chade. Uma vez que o Estado n\u00e3o tem mais controle sobre nada, os rebeldes podem vender os diamantes em pa\u00edses estrangeiros e enriquecerem. O Estado em si continua pobre. \u00c9 por isso que precisamos p\u00f4r fim a esta situa\u00e7\u00e3o. Temos que construir estradas, escolas e centros de sa\u00fade. Essa \u00e9 a dire\u00e7\u00e3o para a qual se deve caminhar.<br \/>\nDesde que os combates come\u00e7aram em maio de 2017, cerca de 2 mil pessoas buscaram ref\u00fagio no semin\u00e1rio cat\u00f3lico da cidade de Bangassou. Qual \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o do abrigo emergencial da Igreja?<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 muito dif\u00edcil, se n\u00e3o for catastr\u00f3fica. As pessoas chegaram repentinamente; n\u00f3s inclusive abrigamos mu\u00e7ulmanos do grupo S\u00e9l\u00e9ka. O bispo teve a coragem de permitir que todos esses mu\u00e7ulmanos entrassem no seu territ\u00f3rio. Mas os jovens com armas querem mat\u00e1-los. O bispo est\u00e1 l\u00e1 para proteg\u00ea-los, mas, inclusive, tamb\u00e9m est\u00e1 sob risco de morte. \u00c9 preciso entender uma coisa: se algu\u00e9m n\u00e3o tem mais nada para comer, essa pessoa come\u00e7a a se comportar como um animal. Foi o que criou esta situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil. A Igreja est\u00e1 l\u00e1, est\u00e1 no local e oferece prote\u00e7\u00e3o, mas ela tamb\u00e9m precisa da ajuda da comunidade internacional.<br \/>\nO que significa ser cat\u00f3lico na \u00c1frica Central?<\/p>\n<p>Muitas vezes, digo \u00e0s pessoas que a Igreja Cat\u00f3lica \u00e9 uma Igreja inclusiva, tamb\u00e9m na diversidade. E se eu sou realmente cat\u00f3lico, ent\u00e3o eu tamb\u00e9m preciso olhar para os mu\u00e7ulmanos e fazer algo de bom para eles, eu tamb\u00e9m preciso fazer algo bom para os protestantes. Todos s\u00e3o filhos de Deus. E foi o que fizemos durante a crise. O im\u00e3 ficou comigo por seis meses. Se a Igreja nos apoia aqui, \u00e9 nosso trabalho construir pontes entre as religi\u00f5es, criar pontes com os protestantes e com os mu\u00e7ulmanos. N\u00f3s nos reunimos para orar, para partilhar dos nossos medos e para agir juntos.<br \/>\nFalam tamb\u00e9m sobre medos?<\/p>\n<p>Sim, absolutamente. H\u00e1 um grande n\u00famero de campos de refugiados no interior do pa\u00eds. As pessoas n\u00e3o podem sair dos campos para trabalhar. Elas n\u00e3o podem ir pescar porque t\u00eam medo, n\u00e3o importa aonde elas v\u00e3o, n\u00e3o existe seguran\u00e7a. Est\u00e3o confinadas em seus acampamentos. \u00c9 por isso que eu disse que a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 t\u00e3o catastr\u00f3fica. A Igreja est\u00e1 l\u00e1, ao lado dessas pessoas para continuar apoiando e as sustentando. Gra\u00e7as \u00e0 ajuda da Igreja internacional e de suas organiza\u00e7\u00f5es de caridade, como a ACN, podemos em conjunto realizar tais projetos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Fonte: ACN<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cardeal Nzapalainga com o povo Cardeal Nzapalainga com o povo O Cardeal Dieudonn\u00e9 Nzapalainga (o mais novo do mundo, com 50 anos), arcebispo de Bangui, fala sobre o poder da religi\u00e3o em unir as pessoas na luta contra a guerra civil na Rep\u00fablica Centro-Africana. 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