{"id":32554,"date":"2017-07-04T12:00:56","date_gmt":"2017-07-04T15:00:56","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/?p=32554"},"modified":"2017-07-05T11:06:46","modified_gmt":"2017-07-05T14:06:46","slug":"republica-centro-africana-em-crise","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/republica-centro-africana-em-crise\/","title":{"rendered":"Rep\u00fablica Centro Africana em crise"},"content":{"rendered":"<p>J\u00fcrgen Liminski entrevista Dom Cyr-Nestor Yapaupa, bispo da Diocese de Alindao, na Rep\u00fablica Centro-Africana, para a ACN (Funda\u00e7\u00e3o Pontif\u00edcia Ajuda \u00e0 Igreja que Sofre) sobre os novos confrontos entre fac\u00e7\u00f5es da Seleka e anti-Balaka, ainda presentes na regi\u00e3o. A viol\u00eancia teve in\u00edcio do dia 8 de maio, em resposta aos sequestros e assassinatos de v\u00e1rios jovens em Datoko pela Seleka. Ap\u00f3s a interven\u00e7\u00e3o das tropas da ONU, a situa\u00e7\u00e3o se acalmou, por enquanto. Por\u00e9m, ainda existem cerca de 5.000 refugiados, que atualmente est\u00e3o sendo atendidos em v\u00e1rios centros da Igreja Cat\u00f3lica.<br \/>\nACN: \u00c9 poss\u00edvel falar de uma normaliza\u00e7\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o no pa\u00eds, desde os acordos pol\u00edticos?<\/p>\n<p>Bispo D. Cyr-Nestor Yapaupa: A simples verdade \u00e9 que n\u00e3o podemos falar de uma normaliza\u00e7\u00e3o geral da situa\u00e7\u00e3o em nosso pa\u00eds desde o in\u00edcio das crises em 2012 at\u00e9 o presente. Se de vez em quando e de um lugar para outro observamos ocasionalmente umas calmarias tempor\u00e1rias, aqui e ali e em certas regi\u00f5es, elas s\u00e3o de modo geral apenas muito provis\u00f3rias. N\u00e3o h\u00e1 falta de novos surtos de viol\u00eancia, criando novas crises. Mais ou menos, a maior parte do nosso pa\u00eds est\u00e1 infestada com a presen\u00e7a de indiv\u00edduos armados que amea\u00e7am a liberdade de nossos cidad\u00e3os.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"alignright\" src=\"http:\/\/www.catolicanet.com.br\/images\/stories\/noticias2017\/cyr-nestor-dialogo.jpg\" align=\"right\" border=\"0\" \/>Dom Yapaupa tenta di\u00e1logo com grupos armados<\/p>\n<p>Como as pessoas vivem, e do que, em sua diocese? Onde elas recebem comida, \u00e1gua, leite?<\/p>\n<p>As pessoas na minha diocese vivem essencialmente dos produtos agr\u00edcolas locais; os alimentos da ca\u00e7a e da pesca tornaram-se muito raros nos \u00faltimos tempos. Como resultado, existe o risco de uma crise alimentar, que j\u00e1 estamos come\u00e7ando a ver. As pessoas n\u00e3o s\u00e3o mais capazes de cultivar seus campos de forma segura, e as reservas e lojas de alimentos desses pa\u00edses foram saqueadas, roubadas e at\u00e9 queimadas. No que diz respeito \u00e0 \u00e1gua, a maioria das pessoas depende de po\u00e7os artificiais, enquanto outros dependem de fontes naturais de \u00e1gua, como os rios. Os sistemas de abastecimento de \u00e1gua modernos servem apenas uma pequena parte da popula\u00e7\u00e3o. Contudo, posso lhe dizer que, na crise atual, o acesso \u00e0 \u00e1gua pot\u00e1vel \u00e9 extremamente dif\u00edcil, para n\u00e3o dizer que \u00e9 cr\u00edtico, j\u00e1 que o clima de inseguran\u00e7a tornou muito perigoso chegar at\u00e9 as fontes de \u00e1gua. \u00c9 necess\u00e1ria alguma forma de interven\u00e7\u00e3o sanit\u00e1ria para desintoxicar algumas dessas fontes de \u00e1gua naturais ou de po\u00e7os artificiais; isso seria de grande benef\u00edcio para a sa\u00fade das pessoas.<br \/>\nCrise pouco conhecida<br \/>\nVoc\u00ea est\u00e1 recebendo alguma ajuda das organiza\u00e7\u00f5es internacionais? Das ONGs? Da Igreja?<\/p>\n<p>Infelizmente, tenho que lhe dizer, antes de mais nada, que a crise que enfrentamos hoje parece ser muito pouco conhecida, uma vez que recebe menos aten\u00e7\u00e3o da m\u00eddia do que o que est\u00e1 acontecendo em outros lugares (como em Bangui, Bangassou, Bria, Bambari etc.). E como a nossa crise particular recebeu t\u00e3o pouca aten\u00e7\u00e3o da m\u00eddia, como podemos esperar obter ajuda das organiza\u00e7\u00f5es internacionais? A Igreja aqui na minha diocese est\u00e1 lutando sozinha para fornecer o m\u00ednimo para que os refugiados e deslocados possam viver. Fazemos isso atrav\u00e9s da rede Caritas e CORDAID. Mas eu s\u00f3 posso lhe dizer com toda a honestidade que as condi\u00e7\u00f5es ainda s\u00e3o extremamente prec\u00e1rias e que nossos recursos s\u00e3o muito inadequados para efetivamente podermos ajudar a todas essas pessoas miser\u00e1veis.<br \/>\n\u201cChoramos por nossas crian\u00e7as\u201d<br \/>\nAs escolas ainda est\u00e3o aptas para funcionar?<\/p>\n<p>Mesmo em tempos normais, nos preocupamos com as escolas da nossa \u00e1rea. Trabalhamos incessantemente para a educa\u00e7\u00e3o dos jovens. Mas agora enfrentamos a dupla tristeza de termos todos os nossos esfor\u00e7os bloqueados por essa tempestade de viol\u00eancia e de ter nossas crian\u00e7as impossibilitadas de ir \u00e0 escola no momento. Agora, todas as escolas est\u00e3o fechadas. N\u00f3s choramos por nossas crian\u00e7as abandonadas! Mas, no entanto, esperamos uma nova vida para que possamos tentar estabelecer rapidamente algo para eles. Eu ficarei muito grato por qualquer pessoa que possa nos ajudar nesse sentido, para que possamos dar a nossas crian\u00e7as mais uma chance de recuperar o atraso.<br \/>\nACN: Quais s\u00e3o as rela\u00e7\u00f5es entre crist\u00e3os e mu\u00e7ulmanos em sua diocese de Alindao?<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, posso lhe dizer que a minha diocese \u00e9 uma das partes do pa\u00eds que ainda tem cidad\u00e3os centro-africanos de todas as religi\u00f5es, todos misturados, incluindo os mu\u00e7ulmanos. Nesta diocese, os crist\u00e3os, tanto cat\u00f3licos como protestantes, viveram em perfeita harmonia com os mu\u00e7ulmanos. Prova disso \u00e9 o fato de que em quase todas as subprefeituras da regi\u00e3o que coincidem com a minha diocese existem organiza\u00e7\u00f5es conhecidas como plataformas religiosas, que visam manter v\u00ednculos entre as religi\u00f5es e consolidar a paz social entre os diferentes grupos.<\/p>\n<p>A grande surpresa foi descobrir que, durante esses eventos, alguns mu\u00e7ulmanos se comportaram como perseguidores de alguns de seus irm\u00e3os crist\u00e3os. Isso certamente afetou os la\u00e7os de confian\u00e7a m\u00fatua que at\u00e9 agora sempre prevaleceram. Mas temos a inten\u00e7\u00e3o de fazer tudo o que pudermos para trabalhar a fim de reparar esse golpe inesperado e promover o caminho do di\u00e1logo e do respeito m\u00fatuo, para que ent\u00e3o n\u00f3s possamos restabelecer a confian\u00e7a.<br \/>\nQuantas irm\u00e3s e sacerdotes est\u00e3o cuidando dos refugiados?<\/p>\n<p>Na minha diocese, s\u00f3 temos padres no momento. As irm\u00e3s deixaram a diocese depois dos eventos de 2013 e n\u00e3o retornaram. \u00c9 imposs\u00edvel para elas retornarem. Com os sacerdotes e outros funcion\u00e1rios da Igreja, somos dez pessoas, e nos organizamos para gerenciar os trabalhos em andamento na diocese, acrescentando que hoje existe essa crise humanit\u00e1ria que exige nosso apoio, com base no nosso sentimento de compromisso evang\u00e9lico.<br \/>\nIgreja Cat\u00f3lica oferece amparo \u00e0s v\u00edtimas<br \/>\nO que se passa nas mentes das pessoas? Do que elas falam?<\/p>\n<p>De acordo com o que meus sacerdotes ouvem discretamente entre os fi\u00e9is ap\u00f3s as Missas, parece que a crise em Alindao tem sido muito ignorada pelos governos. As opini\u00f5es que as pessoas compartilharam conosco \u00e9 que apenas a Igreja Cat\u00f3lica compreendeu as consequ\u00eancias da situa\u00e7\u00e3o e est\u00e1 lutando para garantir seguran\u00e7a, prote\u00e7\u00e3o, alimenta\u00e7\u00e3o e os cuidados b\u00e1sicos \u00e0s v\u00edtimas. Ouve-se declara\u00e7\u00f5es como esta: \u201cVoc\u00ea fez o que era preciso!\u201d, disse um paroquiano cat\u00f3lico ao sacerdote que tinha celebrado a missa naquele dia. &#8220;Se n\u00e3o h\u00e1 ajuda externa para apoiar seus esfor\u00e7os, sabemos que ningu\u00e9m pode fazer o imposs\u00edvel. Estamos rezando para que esses eventos rapidamente cheguem ao fim para que possamos voltar em breve para casa. O governo est\u00e1 ajudando as pessoas em outros lugares, mas aqui n\u00e3o mostram nenhum interesse em nossa crise particular. Nosso \u00fanico ref\u00fagio \u00e9 Deus; \u00e9 por isso que participamos da missa todos os dias para pedir a ajuda de Deus para a nossa situa\u00e7\u00e3o. Felizmente, a Igreja Cat\u00f3lica est\u00e1 l\u00e1 para n\u00f3s. O bispo \u00e9 uma figura central na busca de uma solu\u00e7\u00e3o para esta crise\u201d.<br \/>\nE quanto \u00e0s crian\u00e7as?<\/p>\n<p>Como voc\u00ea sabe, nossas crian\u00e7as geralmente t\u00eam v\u00e1rias atividades para preencher o dia. Nos tempos normais, seu dia \u00e9 dividido entre a escola (para aqueles que a frequentam), trabalhando nos campos (para os filhos dos camponeses) e jogos e brincadeiras para todos eles, ap\u00f3s suas v\u00e1rias outras atividades. Mas nas condi\u00e7\u00f5es que temos de enfrentar hoje, as tens\u00f5es para nossas crian\u00e7as s\u00e3o muito graves, pois enfrentam o problema da viol\u00eancia que est\u00e1 for\u00e7ando seus pais a fugir e a interromper suas pr\u00f3prias atividades di\u00e1rias normais. Pergunta-se o impacto que essa situa\u00e7\u00e3o pode ter sobre a mente dessas crian\u00e7as que se encontram brutalmente transportadas para esses campos improvisados de refugiados onde o som dos tiros nunca deixa de ser ouvido em torno deles. Para resumir, as crian\u00e7as permanecem confinadas sob as asas de seus pais assustados. Juntamente com os meus sacerdotes, muitas vezes viajo para visitar os refugiados para animar os pais e seus filhos e dar-lhes nova esperan\u00e7a, mas a afli\u00e7\u00e3o ainda \u00e9 muito forte. Obviamente, as crian\u00e7as precisam de muito espa\u00e7o e liberdade para correr e brincar, mas, infelizmente, elas n\u00e3o t\u00eam a possibilidade para faz\u00ea-lo neste momento de crise e viol\u00eancia. Da\u00ed a necessidade urgente de criarmos um espa\u00e7o para elas, onde elas possam jogar e, acima de tudo, uma escola improvisada na qual poder\u00edamos transmitir com urg\u00eancia um esp\u00edrito de paz para se expulsar rapidamente de seus esp\u00edritos a tend\u00eancia \u00e0 viol\u00eancia, ao \u00f3dio ou \u00e0 vingan\u00e7a. Pois, como voc\u00ea sabe, as mentes das crian\u00e7as s\u00e3o muito r\u00e1pidas em lembrar os acontecimentos, e o fazem de forma simplista, e reagem a eles em vez de discernir mais profundamente.<\/p>\n<p>A ACN est\u00e1 em contato com D. Cyr-Nestor Yapaupa e pede apoio e doa\u00e7\u00f5es para ajudar a Diocese na situa\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia em que ela agora se encontra.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Fonte: ACN<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00fcrgen Liminski entrevista Dom Cyr-Nestor Yapaupa, bispo da Diocese de Alindao, na Rep\u00fablica Centro-Africana, para a ACN (Funda\u00e7\u00e3o Pontif\u00edcia Ajuda \u00e0 Igreja que Sofre) sobre os novos confrontos entre fac\u00e7\u00f5es da Seleka e anti-Balaka, ainda presentes na regi\u00e3o. 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