{"id":30364,"date":"2017-05-31T18:22:57","date_gmt":"2017-05-31T21:22:57","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/2017\/05\/31\/nas-asas-de-tolkien\/"},"modified":"2017-06-07T15:13:17","modified_gmt":"2017-06-07T18:13:17","slug":"nas-asas-de-tolkien","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/nas-asas-de-tolkien\/","title":{"rendered":"Nas asas de Tolkien"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.catolicanet.com.br\/images\/stories\/noticias2017\/128 ilustracao opiniao tolkien.jpg\" border=\"0\" align=\"left\" \/>Cristina Casagrande \u00e9 jornalista e mestre em Estudos Comparados de Literaturas na USP, com a disserta\u00e7\u00e3o &#8220;Em Boa Companhia &#8211; a amizade em O Senhor dos An\u00e9is&#8221;.\u00a0 <\/p>\n<p>\u201cO Senhor dos An\u00e9is obviamente \u00e9 uma obra fundamentalmente religiosa e cat\u00f3lica; inconscientemente no in\u00edcio, mas conscientemente na revis\u00e3o\u201d, afirmou o autor J. R. R. Tolkien ao padre Robert Murray, amigo da fam\u00edlia. Tal declara\u00e7\u00e3o constantemente anima os te\u00f3logos e fil\u00f3sofos crist\u00e3os. Mas, muitas vezes, a cr\u00edtica coloca em xeque a qualidade liter\u00e1ria do autor, apesar de ele ter, categoricamente, rejeitado qualquer alus\u00e3o aleg\u00f3rica de sua obra.<br \/>Apesar de haver diversos tolkienistas famosos que fazem primorosos estudos sobre a qualidade est\u00e9tica do autor, como Tom Shippey, Verlyn Flieger e Dimitra Fimi e outros, muitos cr\u00edticos ainda torcem o nariz para o grande autor de literatura de fantasia. Uma das quest\u00f5es que suscitam esse problema, certamente, \u00e9 a popularidade de suas obras. Sabemos que O Senhor dos An\u00e9is e O Hobbit s\u00e3o obras extremamente populares, mesmo antes das produ\u00e7\u00f5es cinematogr\u00e1ficas de Peter Jackson. Para essa discuss\u00e3o, no livro Mercado Editorial Brasileiro, Sandra Reim\u00e3o traz uma interessante distin\u00e7\u00e3o entre best-seller do ponto de vista quantitativo e do qualitativo.<br \/>Os dois grandes romances publicados por Tolkien s\u00e3o, sem d\u00favidas, literaturas de massa do ponto de vista quantitativo, mas do qualitativo, divide opini\u00f5es. Reim\u00e3o traz crit\u00e9rios propostos por pensadores como Umberto Ecco e Muniz Sodr\u00e9 para a caracteriza\u00e7\u00e3o de uma literatura tida como baixa: por exemplo, apresentar um her\u00f3i super-homem ou ter um final feliz imut\u00e1vel, em que tudo permanece onde estava. Os crit\u00e9rios s\u00e3o diversos, mas o fato \u00e9 que o romance tolkieniano n\u00e3o se encaixa em nenhum deles.<br \/>O que a cr\u00edtica daqueles que rejeitam a literatura de Tolkien me leva a pensar \u00e9 que, talvez, o autor sofra \u2013 com o perd\u00e3o da analogia \u2013 o preconceito da garota bonita. A obra dele tem beleza, aquela que atrai um grande p\u00fablico, n\u00e3o necessariamente a massa cr\u00edtica intelectual de humanas.<br \/>Para alguns, uma garota bonita n\u00e3o pode ser inteligente. Talvez at\u00e9 possa, mas ent\u00e3o que seja moralmente vazia. Tudo bem: que seja bonita, inteligente e tenha uma moral impec\u00e1vel, mas nada de ser simp\u00e1tica com muita gente. Assim, a obra tolkieniana desafia as leis da cr\u00edtica mais sisuda: a verdade \u00e9 que a sua obra \u00e9 extremamente sedutora para muitas pessoas e at\u00e9 mesmo viciante para os mais apaixonados. Para agravar a contradi\u00e7\u00e3o, \u00e9 escrita por algu\u00e9m t\u00e3o literariamente educado como Joyce ou Eliot \u2013 conforme diz Gustavo Racy, em seu artigo \u201cTolkien e os cr\u00edticos\u201d.\u00a0 <br \/>Sua obra, al\u00e9m de atraente e escrita por uma mente extremamente inventiva e culta, pode levar o leitor j\u00e1 iniciado \u2013 ou mais interessando \u2013 a outras quest\u00f5es mais profundas, sobre o sentido de sua vida. Para Tolkien, os contos de fadas trazem como caracter\u00edstica a fantasia (o ato de subcriar um mundo, \u00e0 semelhan\u00e7a de um Criador), a recupera\u00e7\u00e3o (a retomada da vis\u00e3o de mundo a despeito do racionalismo exacerbado), o escape (a possibilidade de desprender-se das amarras do materialismo) e o consolo (o final feliz da condi\u00e7\u00e3o humana, com base na Ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo).\u00a0 <br \/>Essas quatro caracter\u00edsticas descritas pelo autor trazem ares de novidade no desafio do autoconhecimento: n\u00e3o nega a imagina\u00e7\u00e3o para se chegar \u00e0 Verdade, ao contr\u00e1rio, percebe-se dependente dela nessa dif\u00edcil tarefa. Os textos tolkienianos trazem, enfim, o que S\u00f3crates chama de reminisc\u00eancia da alma: nos leva a encontrar a nossa raz\u00e3o de ser primordial, despidos de nossos v\u00e3os apegos, para assim, ganharmos asas em nossas almas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: N\u00facleo F\u00e9 e Cultura<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cristina Casagrande \u00e9 jornalista e mestre em Estudos Comparados de Literaturas na USP, com a disserta\u00e7\u00e3o &#8220;Em Boa Companhia &#8211; a amizade em O Senhor dos An\u00e9is&#8221;.\u00a0 \u201cO Senhor dos An\u00e9is obviamente \u00e9 uma obra fundamentalmente religiosa e cat\u00f3lica; inconscientemente no in\u00edcio, mas conscientemente na revis\u00e3o\u201d, afirmou o autor J. R. R. 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