{"id":30142,"date":"2017-05-24T03:00:00","date_gmt":"2017-05-24T06:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/2017\/05\/24\/esporte-e-paz\/"},"modified":"2017-06-08T09:03:07","modified_gmt":"2017-06-08T12:03:07","slug":"esporte-e-paz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/esporte-e-paz\/","title":{"rendered":"Esporte e Paz"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Dentro das comemora\u00e7\u00f5es de Nossa Senhora de F\u00e1tima, tive oportunidade de celebrar o anivers\u00e1rio de um est\u00e1dio de futebol aqui em nossa grande cidade do Rio de Janeiro. Foi uma bela ocasi\u00e3o de demonstrar a proximidade da Igreja, assim como de chamar a paz nos esportes e o esporte promovendo a paz. Em tempos de tanta viol\u00eancia, um momento de lazer e disputa, que \u00e9 o futebol, deve nos ajudar a fazer experi\u00eancia de paz e entendimento, mesmo em meio \u00e0 disputa por um campeonato. Todos somos chamados a construir a paz!<br \/>No dia 16 de maio \u00faltimo, o Papa Francisco pronunciou algumas palavras muito importantes para o contexto do futebol, intra campo, e tamb\u00e9m aplic\u00e1vel aos torcedores, ou seja, extra campo, onde ocorrem vergonhosas cenas de viol\u00eancia e morte. \u00c9 um tema que tecnicamente n\u00e3o diz respeito \u00e0 Igreja, mas humanamente sim, por isso vale a pena refletir, como j\u00e1 o fizemos em alguns artigos publicados por ocasi\u00e3o da Copa do Mundo de 2014.<br \/>Afirmou o Papa que o futebol \u00e9 importante para o \u201cnosso tempo\u201d e, por isso, os jogadores dos times italianos que estavam visitando-o foram convidados a ser exemplo de lealdade, honestidade e conc\u00f3rdia. \u201cAqueles que s\u00e3o considerados \u2018campe\u00f5es\u2019 passam facilmente a ser pontos de refer\u00eancia. Por isso, cada partida \u00e9 um teste de equil\u00edbrio, de controle de si e respeito \u00e0s regras\u201d, afirmou o pont\u00edfice.<br \/>O Papa Francisco convidou os atletas a serem \u201ctestemunhas de lealdade, de honestidade, de conc\u00f3rdia e de humanidade\u201d. \u201c\u00c0s vezes \u2013 explicou \u2013, nos est\u00e1dios ocorrem, infelizmente, epis\u00f3dios de viol\u00eancia, que turbam o sereno desenrolar das partidas e o divertimento sadio das pessoas\u201d. Da\u00ed expor seu pensamento: \u201cDesejo que, dentro do que \u00e9 poss\u00edvel, voc\u00eas possam ajudar [para] que a atividade esportiva permane\u00e7a como tal e, gra\u00e7as ao empenho pessoal de todos, seja motivo de coes\u00e3o entre os desportistas e em toda sociedade\u201d.<br \/>A fala do Santo Padre ajuda a levar a uma reflex\u00e3o que trate da paz no futebol e em suas torcidas. Aqui, no entanto, \u00e9 preciso recorrer a estudiosos do assunto, como \u00e9 o caso do Dr. Maur\u00edcio Murad, soci\u00f3logo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e com largos anos de experi\u00eancia nas pesquisas sobre o futebol e seus entornos.<br \/>Esse autor distingue uma coisa que a n\u00f3s, leigos no assunto, pode passar despercebido: h\u00e1 uma viol\u00eancia do futebol e uma viol\u00eancia no futebol. Eis como Murad as distingue: \u201cN\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que existe tamb\u00e9m a viol\u00eancia do futebol, pr\u00f3pria dessa modalidade esportiva. Afinal, trata-se de um esporte coletivo, de alta competitividade, de contato f\u00edsico, o mais apaixonante e massivo de todos, e jogado com os p\u00e9s, bem mais instintivos e \u2018brutais\u2019 do que as m\u00e3os\u201d.<br \/>\u201cA viol\u00eancia em campo reduz a beleza do espet\u00e1culo e o tempo de jogo corrido, devido ao aumento do n\u00famero de faltas e de cart\u00f5es (amarelo e vermelho), \u00e0 interrup\u00e7\u00e3o constante da partida, \u00e0s les\u00f5es (muitas delas graves), ao rod\u00edzio de faltas para fugir de puni\u00e7\u00f5es severas (orienta\u00e7\u00e3o de treinadores e dirigentes), \u00e0 permissividade dos \u00e1rbitros (esporadicamente) e, \u00e0s vezes, \u00e0 impunidade da Justi\u00e7a Desportiva\u201d.<br \/>Dito isso, o autor citado passa ao segundo ponto, ou seja, a viol\u00eancia no futebol, com as seguintes coloca\u00e7\u00f5es: \u201cEnt\u00e3o, quando se diz que existe uma viol\u00eancia pr\u00f3pria desse microcosmo social, o futebol, trata-se de uma afirma\u00e7\u00e3o verdadeira. Por\u00e9m, as pr\u00e1ticas de viol\u00eancia mais s\u00e9rias e que agridem a consci\u00eancia s\u00e3o de car\u00e1ter mais geral, s\u00e3o as que ocorrem entre torcidas organizadas, dentro de est\u00e1dios e mais ainda fora deles\u201d (&#8230;)<br \/>Poderia se perguntar, ent\u00e3o, se todas essas cenas de selvageria que est\u00e3o no futebol, mas n\u00e3o s\u00e3o do futebol nascem no calor da disputa pela bola ou n\u00e3o, quer dizer: \u00e9 apenas o jogo que motiva as confus\u00f5es ou existem outros fatores? \u2013 Murad responde que h\u00e1 outros fatores. Com efeito, diz ele: \u201cA viol\u00eancia que se manifesta no futebol tem sua origem em quest\u00f5es mais profundas de ordem social. N\u00e3o \u00e9 apenas o resultado daquilo que acontece nos est\u00e1dios, embora tamb\u00e9m isso contribua\u201d.<br \/>Mais: \u201cos principais exemplos dessas quest\u00f5es sociais s\u00e3o o desemprego e o subemprego, a falta de consci\u00eancia social, de educa\u00e7\u00e3o e cidadania, o tr\u00e1fico de drogas e o crime organizado, o descaso das autoridades, a desagrega\u00e7\u00e3o dos valores familiares e escolares, a falta de policiamento ostensivo e preventivo (mesmo com todo o esfor\u00e7o das for\u00e7as de seguran\u00e7a), a impunidade, a corrup\u00e7\u00e3o, e tantos outros fatores. S\u00e3o as chamadas macroviol\u00eancias, que aparecem no microcosmo do futebol assim como em outros, por exemplo, no tr\u00e2nsito, na escola, na fam\u00edlia\u201d. (A viol\u00eancia no futebol. S\u00e3o Paulo: Benvir\u00e1, 2012, p. 9-11).<br \/>Logo depois, j\u00e1 no quarto cap\u00edtulo da mesma obra, vem o t\u00edtulo alarmante, mas verdadeiro: \u201cMortes de torcedores: nesse quesito somos campe\u00f5es\u201d (p. 37-38). Mesmo vendo tanta viol\u00eancia nos est\u00e1dios pelo mundo afora, as nossas estat\u00edsticas s\u00e3o alarmantes. A\u00ed se l\u00ea que entre os anos de 1999 e 2008, o Brasil foi campe\u00e3o mundial de mortes de torcedores: 42 mortes em dez anos, ou seja, uma m\u00e9dia de 4,2 por ano. Com esse registro, nosso pa\u00eds ultrapassa a It\u00e1lia e a Argentina, que sempre estiveram \u00e0 frente do Brasil no per\u00edodo investigado.<br \/>O problema, contudo, n\u00e3o para a\u00ed. Chama nossa aten\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m o crescimento das mortes: nos \u00faltimos dez anos (1999-2008) \u201ca m\u00e9dia anual foi de 4,2, mas nos \u00faltimos cinco anos o n\u00famero aumentou para 5,6 e, nos dois \u00faltimos, para 7 \u00f3bitos ao ano\u201d (p. 38). O soci\u00f3logo carioca continua dizendo que, em 2009 e 2010, chegamos a 9 e 12 mortos por ano, respectivamente.<br \/>Eis porque neste setor, em especial, deve haver maior investimento n\u00e3o apenas (embora, quase sempre, importante) no setor repressivo, mas, sim, de intelig\u00eancia das for\u00e7as de ordem, a fim de detectarem e prevenirem a viol\u00eancia que grassa esse esporte t\u00e3o popular no mundo e, por essa raz\u00e3o, deveria estar aberto a todos, como, ali\u00e1s, garante a Lei. (Cf. Constitui\u00e7\u00e3o Federal art. 217). O que se v\u00ea, no entanto, \u00e9 um medo generalizado de ir aos est\u00e1dios ou mesmo de ficar em determinados lugares p\u00fablicos em dias de grandes disputas de futebol.<br \/>\u00c9 certo que a Igreja se interessa pelos esportes e v\u00ea neles um meio de congra\u00e7amento e fraternidade, de modo que deve ser sempre estimulado, assim como as festas das torcidas, com seus mosaicos, coreografias, cantos incentivadores ao time nas arquibancadas, bem como os trabalhos sociais de doa\u00e7\u00f5es de alimentos, roupas, sangue etc. que, especialmente, as torcidas organizadas realizam no seu dia a dia. Esses setores n\u00e3o podem ser marginalizados, mas, ao contr\u00e1rio, acolhidos e chamados ao di\u00e1logo, ao respeito m\u00fatuo e \u00e0 paz. Todos somos irm\u00e3os. <br \/>Estas iniciativas n\u00e3o precisam, nem devem se dar s\u00f3 sob a batuta do Estado, mas das pr\u00f3prias partes interessadas, no caso as torcidas, com ou sem um mediador externo. Nesta media\u00e7\u00e3o h\u00e1 grupos e entidades atuando, nos \u00faltimos anos, que buscam promover reuni\u00f5es, palestras, artigos elucidativos, acordos entre as torcidas organizadas interessadas em manter a paz e apoiar o seu clube, dando tamb\u00e9m direito ao torcedor rival de torcer, sem constrangimentos, pelo clube dele.<br \/>A Igreja, embora louve todas as boas iniciativas, n\u00e3o entra, evidentemente, no campo espec\u00edfico e t\u00e9cnico de como se far\u00e1 esse processo de paz, mas defende o princ\u00edpio da subsidiariedade, que \u00e9 assim definido pelo Papa Pio XI: \u201cAquele importante princ\u00edpio, que n\u00e3o pode ser desprezado ou mudado, permanece fixo e inabal\u00e1vel na filosofia social: Como n\u00e3o se pode subtrair do indiv\u00edduo e transferir para a sociedade aquilo que ele \u00e9 capaz de produzir por iniciativa pr\u00f3pria e com suas for\u00e7as, assim seria injusto passar para a comunidade maior e superior o que grupos menores e inferiores s\u00e3o capazes de empreender e realizar. Isso \u00e9 nocivo e perturbador tamb\u00e9m para toda a ordem social. Qualquer atua\u00e7\u00e3o social \u00e9 subsidi\u00e1ria, de acordo com a sua natureza e seu conceito. Cabe-lhe dar apoio aos membros do corpo social, sem os destruir ou exaurir. [&#8230;] Quanto mais fiel for o respeito dos diversos graus sociais atrav\u00e9s da observ\u00e2ncia do princ\u00edpio de subsidiariedade, tanto mais firmes se tornam a autoridade social e o dinamismo social e tanto melhor e mais feliz ser\u00e1 o Estado\u201d. (Quadragesimo Anno, n. 79; cf. tamb\u00e9m S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II na Centesimus Annus n. 48).<br \/> Aproveito para desejar que aonde chegar esta minha reflex\u00e3o, chegue tamb\u00e9m o amor e a conc\u00f3rdia, t\u00e3o necess\u00e1rias aos seres humanos sedentos de paz e sadia divers\u00e3o. Da\u00ed pedir, com todo empenho, diante do Cristo Redentor do Corcovado, por meio de Sua M\u00e3e Sant\u00edssima: Nossa Senhora, Rainha da Paz, rogai a Seu Filho Jesus por todos n\u00f3s e de um modo muito especial por jogadores e torcedores deste nosso Estado e Na\u00e7\u00e3o, tida, ali\u00e1s, como a \u201cP\u00e1tria de chuteira\u201d ou o \u201cPa\u00eds do Futebol\u201d, a fim de que a paz impere dentro e fora dos gramados, hoje e sempre.<br \/> A Igreja, que no dizer do Beato Papa Paulo VI, \u00e9 \u201cperita em humanidade\u201d, quer de modo reflexivo e pr\u00e1tico, desde que tenha espa\u00e7o para tal, contribuir com a harmonia e a unidade na diversidade do mundo desportivo, especialmente no que toca aos torcedores, pois \u00e9 o povo em busca de divers\u00e3o, mas que pode, por culpa de alguns poucos \u2013 a quem a M\u00e3e Igreja tamb\u00e9m muito ama \u2013, encontrar a\u00ed a morte, levando dor e desventura \u00e0s suas respectivas fam\u00edlias.<br \/> Quero crer, todavia, que todos os envolvidos no futebol \u2013 atletas, dirigentes, patrocinadores, torcedores, popula\u00e7\u00e3o em geral, torcedores etc. \u2013 est\u00e3o interessados na ameniza\u00e7\u00e3o ou erradica\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia que ronda o desporto e, longe de estimul\u00e1-lo, muito o atrapalha. O breve momento de lazer pode tornar-se um tempo cont\u00ednuo de dor e luto para n\u00e3o poucas pessoas. Isso precisa ser repensado urgentemente, dentro e fora de campo, repito.<br \/> A oportuna fala do Papa Francisco, na linha do que j\u00e1 pediam seus predecessores, Jo\u00e3o Paulo II e Bento XVI, nos convida a gestos pr\u00e1ticos, com uma pergunta crucial: Que posso eu, em meu ambiente de vida e de trabalho, fazer pela paz no esporte em geral, de um modo muito especial no futebol, muito comum entre n\u00f3s? \u2013 \u00c9 com a ajuda de todos e de cada um que teremos, irm\u00e3o e irm\u00e3, dias de verdadeira festa nos est\u00e1dios e nas ruas, com sadia \u2013 e n\u00e3o agressiva ou at\u00e9 mortal \u2013 rivalidade.<br \/> Aqui em terras cariocas, como tamb\u00e9m em todo o nosso pa\u00eds, a paix\u00e3o pelo esporte \u00e9 enorme. Abra\u00e7o todo povo desta muito querida e acolhedora Arquidiocese de S\u00e3o Sebasti\u00e3o do Rio de Janeiro, e dou uma b\u00ean\u00e7\u00e3o especial a cada atleta e torcedor que aqui vive. Lembre-se de que, acima das cores e s\u00edmbolos do seu time e da sua torcida, h\u00e1 um Pai cheio de amor a convid\u00e1-lo (la) a vida de filho (a) d\u2019Ele e irm\u00e3o (\u00e3) de seu Filho Jesus Cristo a nos prometer uma coroa imperec\u00edvel (1Cor 9,24-25). <br \/>Quem compreende isso, p\u00f5e-se a trabalhar pela paz, de modo incans\u00e1vel n\u00e3o s\u00f3 no esporte, mas na cidade e no mundo. Am\u00e9m!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dentro das comemora\u00e7\u00f5es de Nossa Senhora de F\u00e1tima, tive oportunidade de celebrar o anivers\u00e1rio de um est\u00e1dio de futebol aqui em nossa grande cidade do Rio de Janeiro. Foi uma bela ocasi\u00e3o de demonstrar a proximidade da Igreja, assim como de chamar a paz nos esportes e o esporte promovendo a paz. Em tempos de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[],"class_list":["post-30142","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30142","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=30142"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30142\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":30621,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/30142\/revisions\/30621"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=30142"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=30142"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=30142"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}