{"id":29703,"date":"2017-04-30T03:00:00","date_gmt":"2017-04-30T06:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/2017\/04\/30\/justificando-a-injustica\/"},"modified":"2017-06-08T15:58:46","modified_gmt":"2017-06-08T18:58:46","slug":"justificando-a-injustica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/justificando-a-injustica\/","title":{"rendered":"Justificando a Injusti\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Dizem que ela \u00e9 cega. N\u00e3o sei se por sua imparcialidade ou pela teimosia em n\u00e3o enxergar a verdade em fatos \u00f3bvios. Dizem tamb\u00e9m que \u00e9 lenta, quase sempre chega atrasada. Mas que dia mais, dia menos, h\u00e1 de se manifestar. S\u00f3 que essa n\u00e3o \u00e9 a justi\u00e7a dos homens; pelo menos a que conhe\u00e7o. A Divina, sim, tarda, mas n\u00e3o falha.<br \/> Meu pre\u00e2mbulo tem dois enfoques, um bom, outro ruim. Qual vai primeiro? Para contentar a gregos e troianos, come\u00e7o por uma f\u00e1bula oriental. Pra ser mais preciso, \u00e1rabe e brasileira, j\u00e1 que seu formulador foi o grande contista Malba Tahan, aquele brasileiro com alma oriental, que nos provou ser o homem calculista por natureza. Sim, provou-nos sua tese com a obra prima \u201cO Homem que Calculava\u201d. Do que falo mesmo? Justi\u00e7a, o bem e o mal; c\u00e1lculos humanos? Eta sopa de letrinhas; de assuntos! Ah, \u00e9 isso, uma sopa mesmo.<br \/> Dizia nosso contista que num reino n\u00e3o muito distante, certo criado ainda inexperiente tremia ao tentar servir a primeira colherada de sopa no prato de seu rei e senhor. T\u00e3o desastrado como muitos dos gar\u00e7ons que bem conhe\u00e7o e que trocaram o cabo de uma boa enxada pelo cabo de conchas ricamente ornadas, como se a mesma coisa fosse! O fato \u00e9 que o criado, mudo de medo, acabou por entornar a colher de sopa e manchar o punho de seda de seu soberano.<br \/> Indignado ante tamanha afronta \u00e0 sua dignidade real, o soberano n\u00e3o hesitou em aplicar-lhe a pena m\u00e1xima: \u201cEnforquem-no!\u201d. Tomado de indescrit\u00edvel espanto, o rapaz n\u00e3o se conteve e atirou a sopeira inteira na cara do rei. Foi um corre-corre geral, a maioria preocupada em auxiliar o soberano ferido em sua realeza, enquanto o pobre gar\u00e7om era imobilizado e preso como o mais vil dos bandidos. Refeito da afronta, o rei quis ouvir seu agressor: \u201cHomem! Por que fizeste isto?\u201d. A resposta surpreendeu a todos: \u201cPor fidelidade&#8230; Porque se fosse condenado pelo meu primeiro deslize, Vossa Majestade entraria para a hist\u00f3ria como um rei cruel, injusto. Mas depois que lhe atirei a sopeira, poderei morrer com a consci\u00eancia tranquila, pois de fato cometi um crime insultuoso, que merece castigo\u201d. Assim o soberano compreendeu o tamanho da injusti\u00e7a que estava prestes a praticar e se justificou diante de seu povo perdoando o rapaz.<br \/> H\u00e1 muitos soberanos por a\u00ed precisando de uma sopeira na cara. Nosso conceito de justi\u00e7a \u00e9 muito relativo e \u00e0s vezes suas senten\u00e7as ultrapassam a linha do bom senso. A lei \u00e9 fria, mas acima dela est\u00e1 a consci\u00eancia dos que a interpretam e a p\u00f5e em pr\u00e1tica. Jesus nos dizia que n\u00e3o veio para mudar a lei, mas atrelar sua pr\u00e1tica ao cora\u00e7\u00e3o, ao sentimento humano que sabe discernir seus pesos e medidas, sua capacidade de amar ou odiar, de condenar ou perdoar. \u201cAssim fomos justificados pela f\u00e9 em Cristo e n\u00e3o pela pr\u00e1tica da lei, porque pela pr\u00e1tica da lei ningu\u00e9m ser\u00e1 justificado\u201d, dizia Paulo (Gl 6,16). E nos lembrava que \u201cse a justi\u00e7a vem pela lei, ent\u00e3o Cristo morreu inutilmente\u201d.<br \/> N\u00e3o sei quem vestir\u00e1 essa carapu\u00e7a. A verdade \u00e9 que ela nos serve a todos, com nossos conceitos prim\u00e1rios de justi\u00e7a e bem comum, do que \u00e9 certo ou errado. Fatos recentes est\u00e3o a\u00ed, para comprovar a superficialidade de nossos julgamentos. Quem \u00e9 o culpado, por exemplo, na vida incestuosa daquele pai l\u00e1 do Maranh\u00e3o, que a imprensa diz ser um \u201cmonstro\u201d? A sociedade n\u00e3o teria parcela nessa hist\u00f3ria, face tantas exclus\u00f5es que pratica? Qual a raz\u00e3o do surgimento de esquadr\u00f5es militares, que cometem a\u00e7\u00f5es de exterm\u00ednio como se fizessem um bem \u00e0 sociedade? Por que uma m\u00e3e que rouba um pacote de bolachas num supermercado \u00e9 pass\u00edvel da mesma pena de um ladr\u00e3o de banco? Por que se pode punir um rebelde pol\u00edtico, mas o repressor que excede em sua autoridade n\u00e3o?\u00a0 \u00a0\u00a0\u00a0 <br \/> Mas \u00e9 bom clarear: nada justifica a injusti\u00e7a humana, por\u00e9m toda injusti\u00e7a h\u00e1 de ser justificada diante do Rei maior, que s\u00f3 se excede na Lei do Amor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dizem que ela \u00e9 cega. N\u00e3o sei se por sua imparcialidade ou pela teimosia em n\u00e3o enxergar a verdade em fatos \u00f3bvios. Dizem tamb\u00e9m que \u00e9 lenta, quase sempre chega atrasada. Mas que dia mais, dia menos, h\u00e1 de se manifestar. S\u00f3 que essa n\u00e3o \u00e9 a justi\u00e7a dos homens; pelo menos a que conhe\u00e7o. [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":17,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[],"class_list":["post-29703","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29703","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/users\/17"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=29703"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29703\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":30886,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29703\/revisions\/30886"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=29703"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=29703"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=29703"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}