{"id":29533,"date":"2017-04-18T19:51:03","date_gmt":"2017-04-18T22:51:03","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/2017\/04\/18\/os-males-do-brasil-vem-de-longa-data\/"},"modified":"2017-06-09T10:09:39","modified_gmt":"2017-06-09T13:09:39","slug":"os-males-do-brasil-vem-de-longa-data","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/os-males-do-brasil-vem-de-longa-data\/","title":{"rendered":"Os males do Brasil v\u00eam de longa data"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.catolicanet.com.br\/images\/stories\/noticias2017\/122_ilustracao opiniao brasilvelhadata.jpg\" border=\"0\" align=\"left\" \/>Marina Massismi \u00e9 professora titular de Hist\u00f3ria da Psicologia da USP &#8211; campus RIbeir\u00e3o Preto e Ana Lydia Sawaya \u00e9 professora titular de Fisiologia da UNIFESP &#8211; campus S\u00e3o Paulo e \u00e9 conselheira do N\u00facleo F\u00e9 e Cultura da PUC-SP.<\/p>\n<p>\u201cPerde-se o Brasil, Senhor, porque alguns ministros de Sua Majestade n\u00e3o v\u00eam c\u00e1 buscar nosso bem, v\u00eam buscar nossos bens\u201d<br \/>As palavras de Pe. Antonio Vieira, ditas ao Vice-Rei Marques de Montalv\u00e3o, possuem uma impressionante atualidade. Na continuidade, Vieira define a origem do mal que assombra o Brasil: a atitude de \u201ctomar o alheio\u201d. O alheio \u00e9 o bem comum que n\u00e3o pode ser instrumentalizado em benef\u00edcio de um \u00fanico indiv\u00edduo. E usa a analogia da medicina do corpo para definir este mal como uma doen\u00e7a que acomete o cora\u00e7\u00e3o da rep\u00fablica e cria aquela desordem do corpo social e pol\u00edtico que por um lado leva \u00e0 impunidade (faltando a justi\u00e7a punitiva) e por outro \u00e0 injusti\u00e7a (faltando a justi\u00e7a distributiva).<br \/>\u201cEl-rei manda-os tomar Pernambuco e eles contentam-se com o tomar. Este tomar o alheio \u00e9 a origem da doen\u00e7a. Toma nesta terra o ministro da justi\u00e7a? Sim, toma. Toma o ministro da rep\u00fablica? Sim, toma. Toma o ministro da fazenda? Sim toma. Toma o ministro do Estado? Sim, toma. E como tantos sintomas lhe sobrev\u00e9m ao pobre enfermo, e todos acometem \u00e0 cabe\u00e7a e ao cora\u00e7\u00e3o, que s\u00e3o as partes mais vitais, e todos os atrativos e contrativos do dinheiro, que \u00e9 o nervo dos ex\u00e9rcitos e das rep\u00fablicas, fica tomado todo o corpo, e tolhido de p\u00e9s e m\u00e3os, sem haver m\u00e3o esquerda que castigue, nem m\u00e3o direita que premeie; e faltando a justi\u00e7a punitiva para expelir os humores nocivos, e a distributiva para alentar e alimentar o sujeito, sangrando-o por outra parte os tributos em todas as veias, milagre \u00e9 que n\u00e3o tenha expirado. (Bahia, 1641)<br \/>Aqui est\u00e1 um diagn\u00f3stico de como os males atuais do Brasil remetem a uma raiz long\u00ednqua em que as rela\u00e7\u00f5es de poder e os v\u00ednculos sociais e econ\u00f4micos entre os homens se configuraram numa forma \u201cdoentia\u201d. Vieira retrata o estabelecer-se de uma rela\u00e7\u00e3o predat\u00f3ria entre os homens, e entre os homens e as coisas, rela\u00e7\u00e3o que se limita a \u201ctomar o alheio\u201d fora de qualquer viv\u00eancia de intera\u00e7\u00e3o, conhecimento, afei\u00e7\u00e3o. Em s\u00edntese: sem labor, sem a\u00e7\u00e3o verdadeiramente humana. Diante desta alteridade (significada pelo \u201calheio\u201d), \u201celes contentam-se com o tomar\u201d. E, com efeito, num sistema econ\u00f4mico baseado na m\u00e3o de obra escrava, n\u00e3o poderia surgir uma cultura de amor ao trabalho.<br \/>Como bem explica Vieira, a doen\u00e7a n\u00e3o est\u00e1 curada e continua agindo e se espalhando no corpo&#8230;. E ent\u00e3o, por que maravilhar-se de todo o sistema de corrup\u00e7\u00e3o end\u00eamico que a Lava Jato est\u00e1 evidenciando? Pela falta de uma cultura do trabalho, consolidada ao longo de s\u00e9culos, o Brasil carrega ainda hoje uma ferida profunda que continua sangrando: os fen\u00f4menos atuais de corrup\u00e7\u00e3o e a pilhagem pol\u00edtica (em todos os n\u00edveis do funcionalismo), s\u00e3o o sinal grave de sua perman\u00eancia.<br \/>O trabalho \u00e9 inerente ao ser humano e n\u00e3o uma op\u00e7\u00e3o. Quem dispensa o trabalho, perde em humanidade; quem usa o trabalho do outro, omite-se do pr\u00f3prio empenho com o real, da possibilidade de deixar seus tra\u00e7os na hist\u00f3ria e de criar. O trabalho n\u00e3o \u00e9 tomar o alheio, mas \u00e9 cuidar do alheio, ou seja, de uma parte da realidade ao nosso alcance, como quem trabalha em casa cuida para que todos possam ali viver com dignidade.<br \/>Por isso, o amor ao pr\u00f3prio trabalho e a posse do significado e do valor daquilo que se realiza com o pr\u00f3prio trabalho, est\u00e1 na base da mudan\u00e7a que o Brasil necessita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: N\u00facleo F\u00e9 e Cultura<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Marina Massismi \u00e9 professora titular de Hist\u00f3ria da Psicologia da USP &#8211; campus RIbeir\u00e3o Preto e Ana Lydia Sawaya \u00e9 professora titular de Fisiologia da UNIFESP &#8211; campus S\u00e3o Paulo e \u00e9 conselheira do N\u00facleo F\u00e9 e Cultura da PUC-SP. \u201cPerde-se o Brasil, Senhor, porque alguns ministros de Sua Majestade n\u00e3o v\u00eam c\u00e1 buscar nosso [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":29532,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-29533","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cotidiano"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29533","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=29533"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29533\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":30988,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29533\/revisions\/30988"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/media\/29532"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=29533"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=29533"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=29533"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}