{"id":29497,"date":"2017-04-13T03:00:00","date_gmt":"2017-04-13T06:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/2017\/04\/13\/eu-sou-o-pao-da-vida-jo-648\/"},"modified":"2017-06-09T11:19:31","modified_gmt":"2017-06-09T14:19:31","slug":"eu-sou-o-pao-da-vida-jo-648","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/eu-sou-o-pao-da-vida-jo-648\/","title":{"rendered":"\u201cEu sou o P\u00e3o da vida!\u201d (Jo 6,48)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Celebramos na Quinta-feira Santa a Institui\u00e7\u00e3o do Sacerd\u00f3cio e da Eucaristia. Com as duas celebra\u00e7\u00f5es desse dia, arquidiocesana e paroquial, celebramos o memorial desse grande dom da presen\u00e7a do Senhor na Eucaristia.<br \/>Muitas vezes pessoas intolerantes invadem nossas igrejas e nossas Capelas do Sant\u00edssimo para violar o Sant\u00edssimo Sacramento. Existe tamb\u00e9m um grupo religioso que, n\u00e3o tendo como ter o P\u00e3o da Vida, Cristo na Eucaristia, manipula o povo depreciando maldosamente o sinal eucar\u00edstico. Al\u00e9m dos interesses econ\u00f4micos, desrespeitam a f\u00e9 dos cat\u00f3licos.<br \/>Podem at\u00e9 negar que tal ato n\u00e3o se refira \u00e0 Eucaristia, embora os sinais, formato, cor, espessura sejam claros. Alguns podem achar tamb\u00e9m que outros momentos seria mais um assalto roubo que profana\u00e7\u00e3o ou\u00a0 sacril\u00e9gio com as esp\u00e9cies sagradas. Mas, em qualquer situa\u00e7\u00e3o, objetivamente o atingido \u00e9 o povo de Deus, em sua f\u00e9 e em seu direito de culto e de vida.<br \/> S\u00e3o quest\u00f5es que tocam a fundo a reflex\u00e3o de uma pessoa de f\u00e9 e de bom-senso e merece, no m\u00ednimo, um pedido de desculpas pela confus\u00e3o despertada. Ou ainda, como podem roubar as igrejas e n\u00e3o respeitar os nossos sacr\u00e1rios e, muitas vezes, nada levam, a n\u00e3o ser a Eucaristia?<br \/>O povo tem, por seguran\u00e7a constitucional, direito \u00e0 liberdade de express\u00e3o, mas deve assumir a responsabilidade por tudo quanto expressa, bem como pensar que jamais ser\u00e1 poss\u00edvel conviver (= viver com) se h\u00e1 afronta ao outro ou a s\u00edmbolos que lhe s\u00e3o preciosos. Da\u00ed o fil\u00f3sofo e te\u00f3logo brasileiro Dom Estev\u00e3o Bettencourt, OSB, escrever o seguinte: \u201cNa verdade, a liberdade de express\u00e3o n\u00e3o implica desrespeito aos valores alheios. A sadia conviv\u00eancia numa sociedade requer polidez de uns para com os outros, ficando exclu\u00eddas todas as express\u00f5es que firam a consci\u00eancia do pr\u00f3ximo. Caso n\u00e3o se observe esta norma, a vida em sociedade assemelha-se \u00e0 de um campo de batalha\u201d. (Pergunte e Responderemos n. 530, agosto de 2006, p. 371).<br \/>Tamb\u00e9m o promotor de Justi\u00e7a e Mestre em Direito pela UNESP, Ronaldo Batista Pinto, ao tratar da liberdade de express\u00e3o, deixa claro, de modo sint\u00e9tico e magistral, que \u201cnenhum direito, ainda que assegurado constitucionalmente, \u00e9 absoluto e mesmo a express\u00e3o do pensamento, embora livre nos termos do inc. IV do art. 5\u00ba da Carta, pode se sujeitar a restri\u00e7\u00f5es, desde que seu exerc\u00edcio implique na viola\u00e7\u00e3o do direito alheio\u201d. (Estatuto do Torcedor comentado. S\u00e3o Paulo: Revista dos Tribunais, 2011, p. 39).<br \/>Vem, ainda, a parte teol\u00f3gica, que \u00e9 de suma import\u00e2ncia, visto tratar-se de um tema de f\u00e9. Vamos, pois, \u00e0 B\u00edblia e \u00e0 Tradi\u00e7\u00e3o sadiamente interpretadas pelo Magist\u00e9rio da Igreja. Encontramos nos Evangelhos sin\u00f3ticos e em S\u00e3o Paulo a narrativa da Institui\u00e7\u00e3o da Eucaristia (cf. Mt 26,26-29; Mc 14,22-25; Lc 22,19-20; 1Cor 11,23-26). J\u00e1 o evangelista Jo\u00e3o n\u00e3o narra a \u00faltima Ceia, mas lhe d\u00e1 o fundamento teol\u00f3gico-doutrin\u00e1rio, de modo especial no cap\u00edtulo 6 do seu Evangelho. Nesses dias da Semana Santa celebramos justamente este grande mist\u00e9rio institu\u00eddo pelo Cristo.<br \/>O cap\u00edtulo 6\u00ba de S\u00e3o Jo\u00e3o apresenta tr\u00eas grandes pontos interligados que se referem \u00e0 Eucaristia: do vers\u00edculo 1 ao 15, a multiplica\u00e7\u00e3o de p\u00e3es a prefigurar a Eucaristia, com pouco p\u00e3o muitos s\u00e3o saciados e o alimento n\u00e3o acaba, mas, ao contr\u00e1rio, sobra em abund\u00e2ncia; do 16 ao 21, Jesus caminha sobre as \u00e1guas, o que bem demonstra o poder que Ele, enquanto Deus e Homem, tem sobre Si mesmo e sobre a natureza inteira, e, por fim, o longo serm\u00e3o a respeito do P\u00e3o da Vida, que \u00e9 o pr\u00f3prio Cristo, nos vers\u00edculos 22-71, em cujo corpo est\u00e1 a sec\u00e7\u00e3o dos vers\u00edculos 51-56.<br \/>As afirma\u00e7\u00f5es a\u00ed contidas s\u00e3o de um realismo \u00edmpar. No vers\u00edculo 52, os judeus alarmados perguntam como Jesus daria de comer (phagein, no grego) a Sua carne e Ele, longe de tentar esclarecer com alegoria ou interpreta\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, \u00e9 muito enf\u00e1tico ao afirmar que quem come a Sua carne e bebe o Seu sangue tem a vida eterna (v. 54). Ora, aqui o comer \u00e9 tido, no original grego, como o verbo trog\u00f4, que significa \u201cmastigar, dilacerar com os dentes\u201d, e isso \u00e9 algo novo para todos, dado que, em linguagem b\u00edblica, comer a carne ou beber o sangue de algu\u00e9m significava \u00f3dio, ofensa grave \u00e0 pessoa dilacerada, conforme o Salmo 26,2&#8230; O Senhor Jesus, pr\u00edncipe da paz, n\u00e3o convidaria \u2013 \u00e9 \u00f3bvio \u2013 ningu\u00e9m a odi\u00e1-Lo em troca da vida eterna, mas insiste, ante o espanto de alguns (v. 52), em ser alimento e sustento de todos, n\u00e3o obstante o abandono de seguidores (v. 66-67). A fala do Senhor \u00e9, portanto, realista e n\u00e3o simb\u00f3lica!<br \/>Certo \u00e9 que o vers\u00edculo 63 causa embara\u00e7o a certos leitores ao afirmar que \u201c\u00e9 o Esp\u00edrito que vivifica; a carne para nada serve. As palavras que eu vos disse s\u00e3o esp\u00edrito e vida\u201d. Que isso quer dizer, pois primeiro Jesus manda comer a Sua carne, depois afirma que Ela, em si, para nada serve? \u2013 Responde-nos Dom Est\u00eav\u00e3o Bettencourt: \u201cJesus apenas visava remover um entendimento grosseiro de suas afirma\u00e7\u00f5es: n\u00e3o se tratava de comer carne enquanto tal (est\u00e1 claro que esta por si s\u00f3 n\u00e3o santifica o homem) nem de comer a carne do Senhor em suas condi\u00e7\u00f5es terrestres, mas, sim, de receber a carne de Cristo glorificada e elevada aos c\u00e9us, emancipada das leis do espa\u00e7o e do tempo. \u00c9 a carne nessas circunst\u00e2ncias novas que Jesus chama \u2018esp\u00edrito\u2019; \u00e9 esp\u00edrito, porque est\u00e1 toda penetrada pela Divindade (na verdade, \u00e9 a Divindade de Cristo que, mediante a carne, vivifica os fi\u00e9is na Eucaristia)\u201d.<br \/>\u201cAcrescentou o Senhor que as suas palavras s\u00e3o esp\u00edrito, n\u00e3o como se tivessem de ser entendidas em sentido figurado, mas pelo fato de terem um alcance espiritual e de exigirem um entendimento sobrenatural (na f\u00e9); s\u00e3o vida tamb\u00e9m, porque nos revelam o meio de termos a vida em n\u00f3s\u201d.<br \/>\u201cSto. Agostinho (\u2020 430), t\u00e3o explorado pelos simbolistas, prop\u00f5e de maneira admir\u00e1vel a exegese de Jo 6,63: \u2018A carne para nada serve, se ela est\u00e1 s\u00f3. Que o Esp\u00edrito (= a Divindade) se junte a ela, como a caridade se pode juntar \u00e0 ci\u00eancia, e ent\u00e3o ela servir\u00e1 muito. Pois, se a carne para nada servisse, o Verbo n\u00e3o se teria feito carne para habitar entre n\u00f3s. Se Cristo muito nos valeu encarnando-se, como \u00e9 que a carne para nada serve? Eis contudo que o Esp\u00edrito se empenhou em nossa salva\u00e7\u00e3o mediante a carne. A carne foi o recept\u00e1culo: considera o que ela continha, n\u00e3o o que ela era&#8230; O Esp\u00edrito \u00e9 que vivifica, a carne para nada serve: minha carne, que dou a comer, n\u00e3o \u00e9 a carne tal como eles a concebiam (= como carne de a\u00e7ougue)\u2019 (In Io tr. 27,5)\u201d.<br \/>\u201cS\u00e3o Jo\u00e3o Cris\u00f3stomo (\u2020 407) diz o mesmo, sob nova forma: \u2018Se aquele que n\u00e3o come a carne de Jesus e n\u00e3o bebe o seu sangue, n\u00e3o tem a vida em si, como seria verdade que essa carne, sem a qual ningu\u00e9m possui a vida, para nada serve? V\u00eas, por conseguinte, que a frase \u2018A carne para nada serve\u2019 significa n\u00e3o a carne de Jesus, mas o modo carnal como eles escutavam\u2019. (In Io 6,30)\u201d (Curso sobre os Sacramentos. Rio de Janeiro: Mater Ecclesiae, 2002, p. 90).<br \/>Cabe ainda uma breve, mas esclarecedora palavra a respeito da transubstancia\u00e7\u00e3o, que a Igreja sempre professou como verdade de f\u00e9, de modo que Sto. Agostinho de Hipona (\u2020 430) ensinava: \u201cO que vedes, car\u00edssimos, na mesa do Senhor, \u00e9 p\u00e3o e vinho; mas esse p\u00e3o e esse vinho, acrescentando-se-lhes a Palavra, tornam-se corpo e sangue de Cristo\u2026 Tira a Palavra, e tens p\u00e3o e vinho; acrescenta a Palavra, e j\u00e1 tens outra coisa. E essa outra coisa que \u00e9? Corpo e Sangue de Cristo. Tira a Palavra, e tens p\u00e3o e vinho; acrescenta a Palavra, e tens um sacramento. A isso tudo v\u00f3s dizeis: \u2018Amem\u2019. Dizer \u2018Amem\u2019 \u00e9 subscrever. \u2018Amem\u2019 em latim significa: \u2018\u00c9 verdade\u2019\u201d (Serm\u00e3o 6,3).<br \/>Note-se, portanto, que a convers\u00e3o ou mudan\u00e7a da subst\u00e2ncia do p\u00e3o e do vinho no corpo e no sangue de Cristo sempre existiu, a partir da institui\u00e7\u00e3o da Eucaristia pelo pr\u00f3prio Senhor Jesus ao cear com seus Ap\u00f3stolos, conforme as passagens b\u00edblicas citadas. Faltava, por\u00e9m, uma palavra capaz de expressar, \u00e0 luz da Filosofia e da Teologia, essa realidade. Esse termo apareceu entre os s\u00e9culos XI e XII e se tornou comum a partir de ent\u00e3o: \u00e9 o voc\u00e1bulo transubstancia\u00e7\u00e3o.<br \/>Com efeito, em 1079, um Conc\u00edlio Regional em Roma, recolhendo os dados da Tradi\u00e7\u00e3o, elaborou a seguinte profiss\u00e3o de f\u00e9: \u201cIntimamente creio e abertamente confesso que o p\u00e3o e o vinho colocados sobre o altar, mediante o mist\u00e9rio da ora\u00e7\u00e3o sagrada e as palavras do nosso Redentor, se convertem substancialmente (substantialiter converti) na verdadeira, pr\u00f3pria e viv\u00edfica carne e no sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo; e\u2026 que depois da consagra\u00e7\u00e3o h\u00e1 o verdadeiro corpo de Cristo, o qual nasceu da Virgem, foi oferecido para a salva\u00e7\u00e3o do mundo, pendurado \u00e0 cruz e ora est\u00e1 assentado \u00e0 direita do Pai;\u00a0 h\u00e1 tamb\u00e9m o verdadeiro sangue de Cristo, que jorrou do seu lado\u2026 na propriedade da sua natureza e na realidade da sua subst\u00e2ncia\u201d. (DS 700)<br \/>No s\u00e9culo XIII, o Conc\u00edlio de Latr\u00e3o IV (1215) consagrou, em seus documentos, a palavra transubstancia\u00e7\u00e3o, que foi usada pelos Conc\u00edlios de Latr\u00e3o IV (1415-1417), de Floren\u00e7a (1438-1444) e de Trento. Este, em 1551, afirmou que a convers\u00e3o do p\u00e3o e do vinho em corpo e sangue de Cristo \u201cfoi com muito acerto e propriedade chamada pela Igreja Cat\u00f3lica transubstancia\u00e7\u00e3o\u201d. (DS 1642; cf. DS 1652)<br \/>Proposta, portanto, a doutrina da Igreja, resta-nos entender o que, realmente, deseja expressar o termo transubstancia\u00e7\u00e3o em linguagem filos\u00f3fico-teol\u00f3gica (tamb\u00e9m entendida pelo bom-senso), pois seu significado difere dos conceitos que as palavras subst\u00e2ncia, mat\u00e9ria e acidente, alicerces da transubstancia\u00e7\u00e3o, t\u00eam na F\u00edsica moderna. \u00c9 o seguinte: em todo ser h\u00e1 um conjunto de notas acidentais (tamanho, peso, cor, sabor etc.), mas tamb\u00e9m existe, necessariamente, um substrato permanente e inalter\u00e1vel que d\u00e1 unidade e coes\u00e3o a esse ser. Mais: sempre vemos os acidentes, mas n\u00e3o a subst\u00e2ncia (o que sub est\u00e1 ou o que suporta) de um ser.<br \/>Na Consagra\u00e7\u00e3o, ocorre, pois, a transubstancia\u00e7\u00e3o: o p\u00e3o e o vinho conservam todos os seus acidentes (cor, quantidade, sabor\u2026), mas se transformam, em suas subst\u00e2ncias de p\u00e3o e de vinho, na subst\u00e2ncia do corpo humano e no sangue de Jesus Cristo, Nosso Senhor. Como explicar isso? \u2013 \u00c9 um mist\u00e9rio de f\u00e9 que, embora n\u00e3o seja absurdo, conforme ficou demonstrado, exige uma interven\u00e7\u00e3o de Deus, que tudo pode, a fim de ser realizado esse grande ato de amor. Antes de Sua morte e ressurrei\u00e7\u00e3o, o Senhor Jesus quis dar-Se em comida e bebida para nos salvar.<br \/>Eis porque a Eucaristia, ou mesmo as esp\u00e9cies dela, deve ser sempre respeitada. Quando h\u00e1 desrespeito, \u00e9 preciso que haja tamb\u00e9m repara\u00e7\u00e3o com ora\u00e7\u00e3o e esclarecimento ao Povo de Deus, buscador da paz, da conc\u00f3rdia e do respeito \u00e0 f\u00e9 alheia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Celebramos na Quinta-feira Santa a Institui\u00e7\u00e3o do Sacerd\u00f3cio e da Eucaristia. Com as duas celebra\u00e7\u00f5es desse dia, arquidiocesana e paroquial, celebramos o memorial desse grande dom da presen\u00e7a do Senhor na Eucaristia.Muitas vezes pessoas intolerantes invadem nossas igrejas e nossas Capelas do Sant\u00edssimo para violar o Sant\u00edssimo Sacramento. 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