{"id":29221,"date":"2017-03-31T12:15:55","date_gmt":"2017-03-31T15:15:55","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/2017\/03\/31\/iv-pregacao-da-quaresma-texto-integral\/"},"modified":"2017-06-09T16:01:39","modified_gmt":"2017-06-09T19:01:39","slug":"iv-pregacao-da-quaresma-texto-integral","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/iv-pregacao-da-quaresma-texto-integral\/","title":{"rendered":"IV Prega\u00e7\u00e3o da Quaresma &#8211; Texto integral"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.catolicanet.com.br\/images\/stories\/noticias2017\/1874357_articolo.jpg\" border=\"0\" align=\"left\" \/>Cidade do Vaticano (RV) &#8211; &#8220;O Esp\u00edrito Santo nos introduz no mist\u00e9rio&#8221; foi o tema da IV Prega\u00e7\u00e3o da Quaresma do Pe. Raniero Cantalamessa, ofmcap ao Papa Francisco e \u00e0 C\u00f9ria, na Capela Redemptoris Mater, no Vaticano. Eis o texto na \u00ecntegra:<\/p>\n<p>&#8220;Refletimos nas duas primeiras medita\u00e7\u00f5es quaresmais sobre o Esp\u00edrito Santo, que nos insere, nos introduz, na plena verdade sobre a pessoa de Cristo, fazendo-nos proclam\u00e1-lo Senhor e verdadeiro Deus. Na \u00faltima medita\u00e7\u00e3o passamos do ser para o agir de Cristo, da sua pessoa para as suas obras, e, especialmente, para o mist\u00e9rio da sua morte redentora. Hoje nos propomos meditar sobre o mist\u00e9rio da sua e da nossa ressurrei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>S\u00e3o Paulo atribui abertamente a ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus da morte, \u00e0 obra do Esp\u00edrito Santo. Ele diz que Cristo &#8220;foi constitu\u00eddo Filho de Deus com poder, segundo o Esp\u00edrito de santidade, em virtude da ressurrei\u00e7\u00e3o dos mortos\u201d (Rm 1,4). Em Cristo, tornou-se realidade a grande profecia de Ezequiel sobre o Esp\u00edrito que entra nos ossos secos, ressuscita-os dos seus t\u00famulos e faz de um grande n\u00famero de mortos &#8220;um grande ex\u00e9rcito&#8221; de ressuscitados \u00e0 vida e \u00e0 esperan\u00e7a (cf. Ez 37, 1-14).<\/p>\n<p>Mas, n\u00e3o gostaria de continuar a minha medita\u00e7\u00e3o seguindo essa linha de racioc\u00ednio.\u00a0 Fazer do Esp\u00edrito Santo o princ\u00edpio inspirador de toda a teologia (inten\u00e7\u00e3o da assim chamada Teologia do terceiro artigo!) n\u00e3o significa colocar o Esp\u00edrito Santo, \u00e0 for\u00e7a, em toda afirma\u00e7\u00e3o, nomeando-o a cada passo. N\u00e3o estaria na natureza do Par\u00e1clito que, como aquela da luz, ilumina todas as coisas permanecendo, ele pr\u00f3prio, por assim dizer, na sombra, como nos bastidores. Mais que falar \u201cdo\u201d Esp\u00edrito Santo, a Teologia do terceiro artigo consiste em falar \u201cno\u201d Esp\u00edrito Santo, com tudo o que esta simples mudan\u00e7a de preposi\u00e7\u00e3o comporta.<\/p>\n<p>1. A ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo: abordagem hist\u00f3rica<\/p>\n<p>Antes de mais nada, digamos algo sobre a ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo como fato \u201chist\u00f3rico\u201d. Podemos definir a ressurrei\u00e7\u00e3o como um evento hist\u00f3rico, no sentido usual deste termo, que \u00e9 de realmente acontecido, no sentido, isto \u00e9, onde hist\u00f3rico se op\u00f5e a m\u00edtico e a lend\u00e1rio? Para expressar-nos em termos do debate recente: Jesus ressuscitou apenas no kerygma, ou seja, no an\u00fancio da Igreja (como algu\u00e9m afirmou na linha de Rudolf Bultmann), ou, pelo contr\u00e1rio, ressuscitou tamb\u00e9m na realidade e na hist\u00f3ria? E mais: ele ressuscitou, a pessoa de Jesus, ou ressuscitou somente a sua causa, no sentido metaf\u00f3rico no qual ressuscitar significa sobreviver, ou a vit\u00f3ria de uma ideia, ap\u00f3s a morte da pessoa que a prop\u00f4s?<\/p>\n<p>Vemos, portanto, em que sentido se d\u00e1 uma abordagem tamb\u00e9m hist\u00f3rica \u00e0 ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo. N\u00e3o porque qualquer um de n\u00f3s aqui tenha a necessidade de ser persuadido a respeito disso, mas, como disse Lucas no come\u00e7o do seu evangelho, \u201cpara que verifiques a solidez dos ensinamentos que recebeste\u201d (cf. Lc 1, 4) e que transmitimos aos demais.<\/p>\n<p>A f\u00e9 dos disc\u00edpulos, salvo algumas excep\u00e7\u00f5es (Jo\u00e3o, as piedosas mulheres), n\u00e3o resiste ao teste do seu tr\u00e1gico fim. Com a paix\u00e3o e a morte, a escurid\u00e3o cobre tudo. Seu estado de esp\u00edrito emerge das palavras dos dois disc\u00edpulos de Ema\u00fas: &#8220;Esper\u00e1vamos que fosse ele\u2026 mas j\u00e1 faz tr\u00eas dias&#8221; (Lc 24, 21). Estamos em um beco sem sa\u00edda da f\u00e9. O caso Jesus \u00e9 considerado encerrado.<\/p>\n<p>Agora \u2013 continuando nosso trabalho de historiadores \u2013 vamos para alguns anos, ou melhor, algumas semanas, depois. O que encontramos? Um grupo de homens, o mesmo que esteve ao lado de Jesus, que vai repetindo, em voz alta, que Jesus de Nazar\u00e9 \u00e9 o Messias, o Senhor, o Filho de Deus; que est\u00e1 vivo e que vir\u00e1 para julgar o mundo. O caso de Jesus n\u00e3o s\u00f3 foi reaberto, mas, em pouco tempo foi levado a uma dimens\u00e3o absoluta e universal. Aquele homem afeta n\u00e3o s\u00f3 o povo de Israel, mas todos os homens de todos os tempos. \u201cA pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular\u201d (1Pd 2, 4), ou seja, come\u00e7o de uma nova humanidade. A partir de agora, sabendo ou n\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 nenhum outro nome debaixo do c\u00e9u dado aos homens, no qual \u00e9 poss\u00edvel salvar-se, a n\u00e3o ser aquele de Jesus de Nazar\u00e9 (cf. At 4, 12).<\/p>\n<p>O que provocou tal mudan\u00e7a que fez com que os mesmos homens que antes haviam negado Jesus ou tinham fugido, agora dizem em p\u00fablico estas coisas, fundam Igrejas e se deixam, inclusive, prender, flagelar, matar por ele? Em coro, eles nos d\u00e3o esta resposta: \u201cRessuscitou! N\u00f3s vimos!\u201d. O ultimo ato que pode fazer o historiador, antes de ceder a palavra \u00e0 f\u00e9, \u00e9 verificar aquela resposta.<\/p>\n<p>A ressurrei\u00e7\u00e3o \u00e9 um acontecimento hist\u00f3rico, em um sentido muito particular. Ela est\u00e1 no limite da hist\u00f3ria, como aquele fio que separa o mar da terra firme. Est\u00e1 dentro e fora ao mesmo tempo. Com ela, a hist\u00f3ria se abre ao que est\u00e1 al\u00e9m da hist\u00f3ria, \u00e0 escatologia. \u00c9, portanto, em certo sentido, a ruptura da hist\u00f3ria e a sua supera\u00e7\u00e3o, assim como a cria\u00e7\u00e3o \u00e9 o seu come\u00e7o. Isto significa que a ressurrei\u00e7\u00e3o \u00e9 um evento em si mesmo n\u00e3o testemunh\u00e1vel e ating\u00edvel com as nossas categorias mentais que s\u00e3o todas ligadas \u00e0 experi\u00eancia do tempo e do espa\u00e7o. E, de fato, ningu\u00e9m v\u00ea o momento em que Jesus ressuscita. Ningu\u00e9m pode dizer que viu Jesus ressuscitar, mas s\u00f3 de t\u00ea-lo visto ressuscitado.<\/p>\n<p>A ressurrei\u00e7\u00e3o, portanto, \u00e9 conhecida a posteriori, em seguida. Como \u00e9 a presen\u00e7a f\u00edsica do Verbo em Maria que demonstra o fato que se encarnou; assim a presen\u00e7a espiritual de Cristo na comunidade, evidenciada pelas apari\u00e7\u00f5es, demonstra que ressuscitou. Isso explica o fato de que nenhum historiador profano diga uma palavra sobre a ressurrei\u00e7\u00e3o. T\u00e1cito, que tamb\u00e9m lembra da morte de um \u201cum certo Cristo\u201d nos dias de P\u00f4ncio Pilatos[1], cala sobre a ressurrei\u00e7\u00e3o. Aquele evento n\u00e3o tinha relev\u00e2ncia e sentido a n\u00e3o ser para quem experimentava as suas consequ\u00eancias, no seio da comunidade.<\/p>\n<p>Em que sentido, ent\u00e3o, falamos de uma abordagem hist\u00f3rica para a ressurrei\u00e7\u00e3o? Aquilo que se apresenta para a considera\u00e7\u00e3o do historiador e o permite falar da ressurrei\u00e7\u00e3o, s\u00e3o dois fatos: primeiro, a s\u00fabita e inexplic\u00e1vel f\u00e9 dos disc\u00edpulos, uma f\u00e9 t\u00e3o tenaz a ponto de resistir at\u00e9 mesmo \u00e0 prova do mart\u00edrio; segundo, a explica\u00e7\u00e3o de tal f\u00e9 que os interessados nos deixaram. Escreveu um exegeta eminente: &#8220;No momento decisivo, quando Jesus foi capturado e executado, os disc\u00edpulos n\u00e3o cultivavam nenhum pensamento sobre a ressurrei\u00e7\u00e3o. Eles fugiram e deram por encerrado o caso de Jesus. Algo teve de intervir que, em um curto espa\u00e7o de tempo, n\u00e3o s\u00f3 provocou a mudan\u00e7a radical de seu estado de esp\u00edrito, mas os levou tamb\u00e9m a uma atividade totalmente diferente e \u00e0 funda\u00e7\u00e3o da Igreja. Esse &#8220;algo&#8221; \u00e9 o n\u00facleo hist\u00f3rico da f\u00e9 pascal[2]&#8221;.<\/p>\n<p>Foi justamente notado que, se se nega o car\u00e1ter hist\u00f3rico e objetivo da ressurrei\u00e7\u00e3o, o nascimento da f\u00e9 e da Igreja se tornaria um mist\u00e9rio ainda mais inexplic\u00e1vel do que a pr\u00f3pria ressurrei\u00e7\u00e3o: &#8220;A ideia de que o imponente edif\u00edcio da hist\u00f3ria do cristianismo seja como uma enorme pir\u00e2mide pendurada sobre um fato insignificante \u00e9, certamente, menos cred\u00edvel do que a afirma\u00e7\u00e3o de que todo o evento \u2013 ou seja, o dado de fato mais o significado inerente a ele \u2013 tenha realmente ocupado um lugar na hist\u00f3ria compar\u00e1vel ao que lhe atribui o Novo Testamento[3]\u201d.<\/p>\n<p>Qual \u00e9, ent\u00e3o, o ponto de chegada da pesquisa hist\u00f3rica com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ressurrei\u00e7\u00e3o? Podemos apreend\u00ea-lo nas palavras dos disc\u00edpulos de Ema\u00fas. Alguns disc\u00edpulos, na manh\u00e3 da P\u00e1scoa, foram ao t\u00famulo de Jesus e descobriram que as coisas estavam como haviam relatado as mulheres, que foram antes deles, \u201cmas a ele, n\u00e3o o viram\u201d (cf. Lc 24, 24). At\u00e9 a hist\u00f3ria vai a sepulcro de Jesus e deve constatar que as coisas est\u00e3o da forma como disseram os testemunhos. Mas ele, o Ressuscitado, n\u00e3o o v\u00ea. N\u00e3o basta constatar historicamente os fatos, \u00e9 necess\u00e1rio \u201cver\u201d o Ressuscitado, e isso a hist\u00f3ria n\u00e3o pode dar, mas s\u00f3 a f\u00e9[4].\u00a0 Quem chega correndo da terra firme rumo a costa do mar deve parar de repente; pode ir al\u00e9m com o olhar, mas n\u00e3o com os p\u00e9s.<\/p>\n<p>2. Significado apolog\u00e9tico da ressurrei\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Passando da hist\u00f3ria para a f\u00e9, muda tamb\u00e9m o modo de falar da ressurrei\u00e7\u00e3o. O do Novo Testamento e da liturgia da Igreja \u00e9 uma linguagem assertiva, apod\u00edctica, que n\u00e3o se baseia em demonstra\u00e7\u00f5es dial\u00e9ticas. &#8220;Mas agora Cristo ressuscitou dos mortos&#8221; (1 Cor 15, 20), diz Paulo. Aqui se est\u00e1 no n\u00edvel da f\u00e9, n\u00e3o mais no da demonstra\u00e7\u00e3o. \u00c9 o que chamamos de kerygma. &#8220;Scimus Christum surrexisse a mortuis vere&#8221;, canta a liturgia do Domingo de P\u00e1scoa: &#8220;N\u00f3s sabemos que Cristo verdadeiramente ressuscitou&#8221;. N\u00e3o s\u00f3 acreditamos, mas tendo acreditado, sabemos que \u00e9 assim, disso temos certeza. A prova mais segura da ressurrei\u00e7\u00e3o se tem depois, n\u00e3o antes, que se acreditou, porque ent\u00e3o se experimenta que Jesus est\u00e1 vivo.<\/p>\n<p>Mas o que \u00e9 a ressurrei\u00e7\u00e3o considerada do ponto de vista da f\u00e9? \u00c9 o testemunho de Deus sobre Jesus Cristo. Deus Pai, que, em vida, j\u00e1 havia corroborado Jesus de Nazar\u00e9 com prod\u00edgios e sinais, agora colocou um selo definitivo no seu reconhecimento, ressuscitando-o da morte. Em seu discurso de Atenas, S\u00e3o Paulo formula assim a coisa: \u201cDeus o ressuscitou dos mortos dando, assim, a todos os homens uma prova certa sobre ele\u201d (At 17, 31). A ressurrei\u00e7\u00e3o \u00e9 o poderoso \u201cSim\u201d de Deus, o seu \u201cAm\u00e9m\u201d pronunciado sobre a vida do seu Filho Jesus.<\/p>\n<p>A morte de Cristo n\u00e3o era, em si, suficiente para dar testemunho da verdade de sua causa. Muitos homens &#8211; temos uma prova tr\u00e1gica disso em nossos dias &#8211; morrem por raz\u00f5es erradas, at\u00e9 mesmo por raz\u00f5es in\u00edquas; A sua morte n\u00e3o torna verdadeira a sua causa; somente testemunha que eles acreditavam na verdade dela. A morte de Cristo n\u00e3o \u00e9 a garantia da sua verdade, mas do seu amor, pois &#8220;ningu\u00e9m tem maior amor do que aquele que d\u00e1 a vida pela pessoa amada\u201d (Jo 15, 13).<\/p>\n<p>Somente a ressurrei\u00e7\u00e3o \u00e9 o selo de autenticidade divina de Cristo. \u00c9 por isso que, a quem lhe pedia um sinal, Jesus respondeu: &#8220;Destru\u00ed este santu\u00e1rio, e em tr\u00eas dias eu o levantarei&#8221; (Jo 2, 18s) e em outro lugar diz: &#8220;N\u00e3o vai ser dada a esta gera\u00e7\u00e3o nenhum sinal, a n\u00e3o ser o sinal de Jonas\u201d que depois de tr\u00eas dias no ventre do peixe viu novamente a luz (Mt 16,4). Paulo tem raz\u00e3o de edificar sobre a ressurrei\u00e7\u00e3o, como seu fundamento, todo o edif\u00edcio da f\u00e9: \u201cSe Cristo n\u00e3o tivesse ressuscitado, v\u00e3 seria nossa f\u00e9. N\u00f3s ser\u00edamos falsas testemunhas de Deus&#8230; ser\u00edamos os mais dignos de compaix\u00e3o de todos os homens&#8221;(1 Cor 15, 14-15,19). \u00c9 poss\u00edvel compreender por que Santo Agostinho pode dizer que &#8220;a f\u00e9 dos crist\u00e3os \u00e9 a ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo&#8221;. Que Cristo tenha morrido todo mundo acredita, tamb\u00e9m os pag\u00e3os, mas que tenha ressuscitado, s\u00f3 os crist\u00e3os acreditam, e n\u00e3o \u00e9 crist\u00e3o quem n\u00e3o acredita[5].<\/p>\n<p>3. Significado mist\u00e9rico da ressurrei\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>At\u00e9 aqui o significado apolog\u00e9tico da ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo, que \u00e9 destinado a estabelecer a autenticidade da miss\u00e3o de Cristo e a legitimidade da sua pretens\u00e3o divina. A esse se deve acrescentar outro significado que poderemos chamar mist\u00e9rico ou salv\u00edfico, em quanto que diz respeito tamb\u00e9m a n\u00f3s que cremos. A ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo nos diz respeito e \u00e9 um mist\u00e9rio \u201cpara n\u00f3s\u201d, porque fundamenta a esperan\u00e7a da nossa pr\u00f3pria ressurrei\u00e7\u00e3o da morte:<\/p>\n<p>\u201cE se o Esp\u00edrito daquele que ressuscitou Jesus\u00a0 dentre os mortos dar\u00e1 vida tamb\u00e9m a vossos corpos mortais, mediante o seu Esp\u00edrito que habita em v\u00f3s\u201d (Rm 8, 11).<\/p>\n<p>A f\u00e9 em uma vida ap\u00f3s a morte aparece, de forma clara e expl\u00edcita, apenas no final do Antigo Testamento. O segundo livro dos Macabeus \u00e9 o testemunho mais avan\u00e7ado: &#8220;Depois de morrermos \u2013 exclama um dos sete irm\u00e3os mortos por Ant\u00edoco \u2013 (Deus) nos ressuscitar\u00e1 \u00e0 vida nova e eternal\u201d (cf. 2 Mac 7,1-14). Mas essa f\u00e9 n\u00e3o nasce de repente, do nada; est\u00e1 enraizada vitalmente em toda a precedente revela\u00e7\u00e3o b\u00edblica, da qual representa a conclus\u00e3o esperada e, por assim dizer, o fruto mais maduro.<\/p>\n<p>Especialmente duas certezas levaram a esta conclus\u00e3o: a certeza da onipot\u00eancia de Deus e a certeza da insufici\u00eancia e da injusti\u00e7a da retribui\u00e7\u00e3o terrena. Aparecia sempre mais evidente \u2013 especialmente depois da experi\u00eancia do ex\u00edlio \u2013 que a sorte dos bons neste mundo \u00e9 tal que, sem a esperan\u00e7a de uma retribui\u00e7\u00e3o diferente dos justos ap\u00f3s a morte, seria imposs\u00edvel n\u00e3o cair no desespero. Nesta vida, de fato, tudo acontece da mesma forma ao justo e ao \u00edmpio, tanto na felicidade quanto na desgra\u00e7a. O livro do Co\u00e9let representa a express\u00e3o mais l\u00facida desta amarga conclus\u00e3o (cf. Ecl 7, 15).<\/p>\n<p>O pensamento de Jesus sobre o assunto \u00e9 expresso na discuss\u00e3o com os Saduceus sobre o caso da mulher que teve sete maridos (Lc 20, 27-38). De acordo com a revela\u00e7\u00e3o b\u00edblica mais antiga, a mosaica, eles n\u00e3o aceitaram a doutrina da ressurrei\u00e7\u00e3o dos mortos que consideravam uma novidade. Referindo-se \u00e0 lei do levirato (Dt 25: a mulher que ficou vi\u00fava, sem filhos homens, deve casar-se com o cunhado), eles especulam o caso limite de uma mulher que, dessa forma, passou por sete maridos. No final, com a certeza de ter demonstrado o absurdo da ressurrei\u00e7\u00e3o, perguntam: &#8220;Esta mulher, na ressurrei\u00e7\u00e3o, de quem ser\u00e1 esposa&#8221;?<\/p>\n<p>Sem se afastar do terreno escolhido pelos seus advers\u00e1rios, com poucas palavras, Jesus primeiro revela onde est\u00e1 o erro dos saduceus e o corrige, depois, d\u00e1 \u00e0 f\u00e9 na ressurrei\u00e7\u00e3o a sua fundamenta\u00e7\u00e3o mais profunda e mais convincente. Jesus se pronuncia sobre duas coisas: sobre o modo e sobre o fato da ressurrei\u00e7\u00e3o. Quanto ao fato de que haver\u00e1 uma ressurrei\u00e7\u00e3o dos mortos, Jesus recorda o epis\u00f3dio da sar\u00e7a ardente, onde Deus se proclama &#8220;Deus de Abra\u00e3o, Deus de Isaac e Deus de Jac\u00f3&#8221;. Se Deus se proclama &#8220;Deus de Abra\u00e3o, de Isaac e de Jac\u00f3, quando Abra\u00e3o, Isaac e Jac\u00f3 morreram h\u00e1 gera\u00e7\u00f5es, e se, por outro lado, \u201cDeus \u00e9 Deus dos vivos e n\u00e3o dos mortos\u201d, ent\u00e3o quer dizer que Abra\u00e3o, Isaac e Jac\u00f3 est\u00e3o vivos em algum lugar!<\/p>\n<p>Mais do que sobre a resposta de Jesus aos Saduceus, a f\u00e9 na ressurrei\u00e7\u00e3o se fundamenta no fato da sua ressurrei\u00e7\u00e3o da morte. \u201cSe se prega que Cristo ressuscitou dos mortos, exclama Paulo, como podem dizer alguns de voc\u00eas que n\u00e3o existe ressurrei\u00e7\u00e3o dos mortos? Se n\u00e3o existe ressurrei\u00e7\u00e3o dos mortos, nem sequer Cristo ressuscitou!\u201d (1 Cor 15,12-13). \u00c9 absurdo pensar em um corpo, cuja cabe\u00e7a reina gloriosa no c\u00e9u e cujo corpo se decomp\u00f5e eternamente na terra ou acabe no nada.<\/p>\n<p>A f\u00e9 crist\u00e3 na ressurrei\u00e7\u00e3o dos mortos responde, al\u00e9m disso, ao desejo mais instintivo do cora\u00e7\u00e3o humano. N\u00f3s \u2013 diz Paulo \u2013 n\u00e3o queremos ser despojados do nosso corpo, mas revestidos, ou seja, n\u00e3o queremos sobreviver com uma parte somente do nosso ser \u2013 a alma \u2013 , mas com todo o nosso eu, alma e corpo; por isso, n\u00e3o desejamos que o nosso corpo mortal seja destru\u00eddo, mas que \u201cseja absorvido pela vida\u201d e se vista, ele pr\u00f3prio, de imortalidade (cf. 2 Cor 5, 1-5; 1 Cor 15, 51-53).<\/p>\n<p>Da vida eterna, n\u00f3s n\u00e3o s\u00f3 temos nesta vida uma promessa: n\u00f3s tamb\u00e9m temos &#8220;as prim\u00edcias&#8221; e o &#8220;sinal&#8221; (ou arras, ndt). Jamais se deveria traduzir o termo grego arrab\u00f4n usado por S\u00e3o Paulo a respeito do Esp\u00edrito (2 Cor 1, 22; 5,5; Ef 1, 14) com \u201cpenhor\u201d (pignus), mas s\u00f3 com sinal. Santo Agostinho explicou muito bem a diferen\u00e7a. O penhor, diz, n\u00e3o \u00e9 o come\u00e7o do pagamento, mas algo que se d\u00e1 enquanto se espera o pagamento; assim que o pagamento \u00e9 feito, o penhor \u00e9 devolvido. N\u00e3o acontece isso com o sinal. Ele n\u00e3o \u00e9 devolvido no momento do pagamento, mas completado. J\u00e1 faz parte do pagamento. \u201cSe Deus, por meio do seu Esp\u00edrito, nos deu como sinal o amor, quando nos for dada toda a realidade, nos ser\u00e1 tirado o sinal? Certamente que n\u00e3o, mas o que j\u00e1 foi dado ser\u00e1 completado[6]&#8221;.<\/p>\n<p>Como \u201cas prim\u00edcias\u201d anunciam a safra cheia e s\u00e3o parte dela, assim o sinal \u00e9 parte da posse plena do Esp\u00edrito. \u00c9 o \u201cEsp\u00edrito que habita em n\u00f3s\u201d (Rm 8,11), mais que a imortalidade da alma, que garante, como se v\u00ea, a continuidade entre a nossa vida presente e aquela futura.<\/p>\n<p>Sobre o modo da ressurrei\u00e7\u00e3o, naquela mesma ocasi\u00e3o Jesus afirma a condi\u00e7\u00e3o espiritual dos ressuscitados: &#8220;Aqueles que s\u00e3o considerados dignos do outro mundo e da ressurrei\u00e7\u00e3o dos mortos, n\u00e3o tomam mulher nem marido; e nem podem mais morrer, porque s\u00e3o iguais aos anjos e, sendo filhos da ressurrei\u00e7\u00e3o, s\u00e3o filhos de Deus\u201d.<\/p>\n<p>Foi feita uma tentativa de ilustrar a transi\u00e7\u00e3o da condi\u00e7\u00e3o terrestre para aquela de ressuscitados com exemplos tirados da natureza: a semente da qual brota a \u00e1rvore, a natureza morta no inverno que ressurge na primavera, a lagarta que se transforma em uma borboleta. Paulo simplesmente diz: &#8220;semeado corrupt\u00edvel, o corpo ressuscita incorrupt\u00edvel; semeado desprez\u00edvel, ressuscita reluzente de gl\u00f3ria; semeado na fraqueza, ressuscita cheio de for\u00e7a; semeado corpo ps\u00edquico ressuscita corpo espiritual&#8221;(1 Cor 15, 42- 44).<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que tudo o que diz respeito \u00e0 nossa condi\u00e7\u00e3o no p\u00f3s-vida permanece um mist\u00e9rio impenetr\u00e1vel; n\u00e3o porque Deus quis mant\u00ea-lo escondido, mas porque, como somos for\u00e7ados a pensar em tudo nas categorias de tempo e espa\u00e7o, n\u00e3o temos as ferramentas para represent\u00e1-lo. A eternidade n\u00e3o \u00e9 uma entidade que existe a parte e que pode ser definida em si mesma, como se fosse um tempo esticado infinitamente. \u00c9 o modo de ser de Deus. A eternidade \u00e9 Deus! Entrar na vida eterna significa simplesmente ser admitidos, por gra\u00e7a, a compartilhar o modo de ser de Deus.<\/p>\n<p>Tudo isso n\u00e3o teria sido poss\u00edvel se a eternidade n\u00e3o tivesse antes entrado no tempo. \u00c9 em Cristo ressuscitado e gra\u00e7as a ele que n\u00f3s podemos revestir o modo de ser de Deus. S\u00e3o Paulo se representa aquilo que o espera depois da morte como um \u201cir para estar com Cristo\u201d (Fl 1,23). A mesma coisa pode ser deduzida a partir da palavra de Jesus ao bom ladr\u00e3o: &#8220;Hoje estar\u00e1s comigo no para\u00edso&#8221; (Lc 23, 43). O para\u00edso \u00e9 um ser \u201ccom Cristo\u201d, como seus &#8220;herdeiros&#8221;. A vida eterna \u00e9 um reunir-se dos membros com a cabe\u00e7a, um \u201capinhar-se\u201d com ele na gl\u00f3ria, depois de ter estado unido com ele no sofrimento (Rm 8,17).<\/p>\n<p>Uma boa hist\u00f3ria contada por um escritor alem\u00e3o moderno nos ajuda a nos dar um sentido de vida eterna mais do que todas as tentativas racionais de explica\u00e7\u00e3o. Em um mosteiro medieval moravam dois monges ligados entre si por profunda amizade espiritual. Um se chamava Rufus e o outro Rufinus. Em todo o seu tempo livre a \u00fanica coisa que faziam era tentar imaginar e descrever como seria a vida eterna na Jerusal\u00e9m celeste. Rufus que era um mestre-de-obras imaginava-a como uma cidade com portas de ouro, cravejada de pedras preciosas; Rufinus que era organista, como toda ressoante de celestes melodias.<\/p>\n<p>No final, fizeram um pacto: qualquer um deles que tivesse morrido primeiro deveria voltar na noite seguinte, para garantir ao amigo que as coisas eram assim como eles haviam imaginado. Teria sido suficiente uma palavra. Se fosse como eles tinham pensado, se deveria dizer simplesmente: taliter!, ou seja, isso mesmo;! se \u2013 mas era completamente imposs\u00edvel \u2013 fosse de outra forma, deveria dizer: aliter, diferente!<\/p>\n<p>Uma noite, enquanto estava no \u00f3rg\u00e3o, o cora\u00e7\u00e3o de Rufino parou. O amigo velou ansiosamente toda a noite, mas nada; esperou em vig\u00edlias e jejuns por semanas e meses, e nada. Finalmente, no anivers\u00e1rio da sua morte, eis que, \u00e0 noite, em um halo de luz, entra na sua cela o amigo. Vendo que silencia, \u00e9 ele que lhe pergunta, confiante na resposta afirmativa: taliter? \u00c9 t\u00e3o verdade? Mas o amigo balan\u00e7a a cabe\u00e7a em sinal negativo. Em desespero, grita: aliter? \u00c9 diferente? Mais uma vez um sinal negativo da cabe\u00e7a. E, finalmente, dos l\u00e1bios fechados do amigo, em um instante, duas palavras: totaliter aliter: Totalmente diferente! Rufus entende em um flash que o c\u00e9u \u00e9 infinitamente mais do que eles tinham imaginado, que n\u00e3o pode ser descrito, e logo depois morre tamb\u00e9m ele, pelo desejo de alcan\u00e7\u00e1-lo[7].<\/p>\n<p>O fato, \u00e9 claro, \u00e9 uma lenda, mas o seu conte\u00fado \u00e9 bastante b\u00edblico. &#8220;O que os olhos n\u00e3o viram, os ouvidos n\u00e3o ouviram e o cor\u00e7a\u00e3o do homem n\u00e3o percebeu, tudo o que Deus preparou para os que o amam\u201d (1 Cor 2, 9). S\u00e3o Sime\u00e3o, o Novo Te\u00f3logo, um dos santos mais amados na Igreja Ortodoxa, teve uma vis\u00e3o um dia; estava certo de ter contemplado Deus em pessoa e, com a certeza de que n\u00e3o poderia haver nada maior e mais radioso do que tinha visto, disse: \u201cSe o c\u00e9u \u00e9 isso, me basta!\u201d O Senhor lhe respondeu: &#8220;Es realmente bem mesquinho, se te contentas com estes bens, porque, com rela\u00e7\u00e3o aos bens futuros, esses s\u00e3o como um c\u00e9u pintado no papel, em compara\u00e7\u00e3o ao c\u00e9u real[8]\u201d.<\/p>\n<p>Quando se quer atravessar um bra\u00e7o de mar, dizia Santo Agostinho, a coisa mais importante n\u00e3o \u00e9 sentar-se na costa e agu\u00e7ar a vis\u00e3o para ver o que est\u00e1 do outro lado, mas \u00e9 subir no barco que leva \u00e0quela margem. E tamb\u00e9m para n\u00f3s a coisa mais importante n\u00e3o \u00e9 especular sobre como ser\u00e1 a nossa vida eterna, mas fazer as coisas que sabemos que nos levam a ela[9]. Que o nosso dia de hoje seja um pequeno passo em dire\u00e7\u00e3o a ela.<\/p>\n<p>Tradu\u00e7ao de Th\u00e1cio Siqueira<\/p>\n<p>_____________________________________________<\/p>\n<p>[1] Tacito, Anais 25.<\/p>\n<p>[2] Martin Dibelius, Iesus,\u00a0 Berlim 1966, p. 117.<\/p>\n<p>[3] Charles H. Dodd, History and the Gospel, London 1964, p.76 (ed. Italiana Storia ed Evangelo, Brescia 1976, p. 87).<\/p>\n<p>[4] Cf. S\u00f8ren Kierkegaard, Diario, X, 4, A, 523.<\/p>\n<p>[5] Cf. S. Agostinho, Enarr. in Psalmos, 120, 6 (CCL, 40, p 1791).<\/p>\n<p>[6] S. Agostinho, Discursos, 23, 9 (CC 41, p. 314).<\/p>\n<p>[7] H. Franck, Der Regenbogen. Siebenmalsieben Geschichten, Leipzig 1927.<\/p>\n<p>[8] S. Sime\u00e3o Novo Te\u00f3logo, Segunda ora\u00e7\u00e3o de agradecimento (SCh 113, p. 350).<\/p>\n<p>[9] Agostinho, A Trindade IV,15,30; Confiss\u00f5es, VII, 21.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: R\u00e1dio Vaticano<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cidade do Vaticano (RV) &#8211; &#8220;O Esp\u00edrito Santo nos introduz no mist\u00e9rio&#8221; foi o tema da IV Prega\u00e7\u00e3o da Quaresma do Pe. Raniero Cantalamessa, ofmcap ao Papa Francisco e \u00e0 C\u00f9ria, na Capela Redemptoris Mater, no Vaticano. 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