{"id":28968,"date":"2017-03-21T16:53:07","date_gmt":"2017-03-21T19:53:07","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/2017\/03\/21\/agradecimento-ao-pai-pelo-dia-em-que-nao-bebeu\/"},"modified":"2017-06-12T10:36:58","modified_gmt":"2017-06-12T13:36:58","slug":"agradecimento-ao-pai-pelo-dia-em-que-nao-bebeu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/agradecimento-ao-pai-pelo-dia-em-que-nao-bebeu\/","title":{"rendered":"Agradecimento ao pai pelo dia em que n\u00e3o bebeu"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.catolicanet.com.br\/images\/stories\/noticias2017\/118 ilustracao opiniao pai bebado.jpg\" border=\"0\" align=\"left\" \/>Alexandre Ribeiro \u00e9 doutor em Comunica\u00e7\u00e3o e Semi\u00f3tica pela PUC-SP e editor de Aleteia.org<\/p>\n<p>Meu pai, Afonso, mudou-se para S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos em meados de 1970. O quarto onde ele se hospedou nas primeiras semanas, de onde sa\u00eda todas as manh\u00e3s para ir a p\u00e9 de f\u00e1brica em f\u00e1brica procurar trabalho, era nos fundos de uma casa velha e pobre. Naquele mesmo lugar, alguns anos antes, havia morado seu irm\u00e3o mais velho, Geraldo, tamb\u00e9m vindo do sul de Minas.<br \/>Geraldo tinha aspira\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias, escrevia poemas metrificados. E bebia. Aos 25 anos, era um esp\u00edrito solit\u00e1rio e alco\u00f3latra. Fora seminarista na inf\u00e2ncia e juventude, mas abdicou da profiss\u00e3o religiosa para tomar as armas. Do Semin\u00e1rio ao Ex\u00e9rcito, os cadernos e a letra memor\u00e1vel sempre o acompanharam. Foram seu prazer e sua fuga. Quando vi seus poemas pela primeira vez, sua caligrafia impec\u00e1vel, fiquei abalado e fui conversar com minha av\u00f3 materna sobre aquele velho tio. Minha av\u00f3, quando questionada, pensou alto, deixando escapar: &#8220;Ah, aquele irm\u00e3o do seu pai que se matou&#8230;&#8221;<br \/>Busquei informa\u00e7\u00f5es, confrontei fontes, mas aquele assunto estava enterrado, e ningu\u00e9m nunca mais tocaria nele. Geraldo fora encontrado morto, em circunst\u00e2ncias misteriosas, naquele mesmo quarto que meu pai viria a habitar tempos depois.<br \/>O dormit\u00f3rio era a imagem da pobreza e do horror que o seguiam na cidade grande, assombrado pelo vulto do irm\u00e3o b\u00eabado. Naquele momento da vida do meu pai, em que encontrar um trabalho possibilitaria a realiza\u00e7\u00e3o do sonho de se casar com minha m\u00e3e e come\u00e7ar sua pr\u00f3pria fam\u00edlia num lugar novo, ele teve a atitude que definiria sua vida: n\u00e3o bebeu.<br \/>O destino tra\u00e7ado por Geraldo, seguido por Isaac, o outro irm\u00e3o mais velho, tamb\u00e9m estilha\u00e7ado pelo alcoolismo, n\u00e3o se confirmaria. Afonso conviveria com a depress\u00e3o a vida toda, sem tr\u00e9gua, com os olhos petrificados, o olhar cabisbaixo, o jeito doce, por\u00e9m sem confian\u00e7a ao qual eu me aconchegava na inf\u00e2ncia, enquanto chamava de papai.<br \/>Lembro-me, quando crian\u00e7a, do cheiro do caf\u00e9 a inundar nossa casa todas as tardes. Eu, voltando da rua, sento-me \u00e0 mesa ao lado do pai, que reclina para acariciar meus cabelos suados. Minha m\u00e3e estende-me a caneca. Papai pega um p\u00e3o, rasga-o com a faca de cabo azul, passa manteiga e me entrega sobre um pires branco. Mam\u00e3e senta-se ao nosso lado. Mergulho o p\u00e3o no caf\u00e9 com leite e come\u00e7o a comer calmamente, apesar das pernas agitadas debaixo da cadeira.<br \/>Papai se levanta, vai at\u00e9 a mesa da sala e pega seu caderno. Em letra de forma, anota os gastos di\u00e1rios numa planilha azul. Ele n\u00e3o sabia escrever em letra cursiva. N\u00e3o me recordo t\u00ea-lo visto redigindo frases completas, apenas anota\u00e7\u00f5es soltas, em que cada linha formava um t\u00f3pico. Sua letra em nada exibia a sofistica\u00e7\u00e3o da escrita de Geraldo. Seu carisma era quase um pedido de desculpas, e ainda assim ele era cercado de amigos fi\u00e9is, algo que para mim era incompreens\u00edvel, pois imaginava que as amizades se avolumavam ao redor de esp\u00edritos expansivos e alegres, e papai, em sua melancolia cabisbaixa, n\u00e3o se encaixava nesse perfil.<br \/>Afonso destaca do caderno a folha tracejada e me entrega. O desenho simpl\u00f3rio de um boizinho, que tanto me alegrava, era-me dedicado como um beijo de boa noite, antes que ele fechasse o caderno e fosse ver o notici\u00e1rio na TV.<br \/>Hoje, na gaveta \u00e0 minha esquerda, eu guardo os poemas de Geraldo. Eles est\u00e3o logo abaixo de alguns desenhos de boizinhos que ainda me acompanham, entre os quais se encontram fotografias da inf\u00e2ncia.<br \/>Ali, em meados dos anos 1970, sozinho na cidade grande, no mesmo quarto onde o irm\u00e3o desistira de tudo, meu pai tomou a atitude que definiria sua vida e a de todos n\u00f3s: ele n\u00e3o bebeu. E assim encontrou trabalho, se casou, teve dois filhos e levou uma vida honrada at\u00e9 o fim. Toda ternura e paz da minha inf\u00e2ncia, de certa forma, eu devo \u00e0quela firme e nobre decis\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: Nucleo F\u00e9 e Cultura<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alexandre Ribeiro \u00e9 doutor em Comunica\u00e7\u00e3o e Semi\u00f3tica pela PUC-SP e editor de Aleteia.org Meu pai, Afonso, mudou-se para S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos em meados de 1970. 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