{"id":28800,"date":"2017-03-10T15:51:20","date_gmt":"2017-03-10T18:51:20","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/2017\/03\/10\/os-leigos-e-a-consagracao-da-eucaristia\/"},"modified":"2017-06-12T13:21:43","modified_gmt":"2017-06-12T16:21:43","slug":"os-leigos-e-a-consagracao-da-eucaristia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/os-leigos-e-a-consagracao-da-eucaristia\/","title":{"rendered":"Os leigos e a consagra\u00e7\u00e3o da Eucaristia"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Tem voltado \u00e0 tona alguns debates sobre a quest\u00e3o do sacerd\u00f3cio ministerial. Falou-se sobre a possibilidade de haver a consagra\u00e7\u00e3o do p\u00e3o e do vinho por parte de leigos, especialmente onde faltam sacerdotes v\u00e1lida e licitamente ordenados. Aqui n\u00e3o estaria se tratando dos assim chamados \u201cviri probati\u201d, ou seja, a ordena\u00e7\u00e3o de homens casados, mas sim de crist\u00e3os leigos sem ordena\u00e7\u00e3o sacerdotal. Na \u00faltima Assembleia da CNBB emitimos um documento muito importante sobre os crist\u00e3os leigos e sua miss\u00e3o na Igreja. A presen\u00e7a do laicato na Igreja e, como Igreja, no mundo tem uma grande \u00e1rea de atua\u00e7\u00e3o, mas o sacerd\u00f3cio comum dos fi\u00e9is n\u00e3o se confunde com o sacerd\u00f3cio ministerial.<br \/>Mas, quais s\u00e3o os documentos da Tradi\u00e7\u00e3o da Igreja nessa \u00e1rea? Essa ideia que parece, \u00e0 primeira vista, simp\u00e1tica e solucionadora do problema da falta de voca\u00e7\u00f5es sacerdotais n\u00e3o \u00e9 nova nem t\u00e3o simples. As fontes utilizadas foram, de um modo especial a Carta Sacerdotium Ministeriale (citada aqui como SM), da Congrega\u00e7\u00e3o para a Doutrina da F\u00e9, de 6 de agosto de 1983, e o Curso de Eclesiologia, de D. Est\u00eav\u00e3o Bettencourt, OSB. Rio de Janeiro: Mater Ecclesiae, 1996, p. 181-197.<br \/>Notamos que, embora as opini\u00f5es defensoras da Celebra\u00e7\u00e3o Eucar\u00edstica por leigos apare\u00e7am de formas diversas e matizadas, se mostram deveras perigosas, pois \u201cconvergem todas na mesma conclus\u00e3o: que o poder de realizar o Sacramento da Eucaristia n\u00e3o est\u00e1 necessariamente ligado com a Ordena\u00e7\u00e3o sacramental. E \u00e9 evidente que esta conclus\u00e3o n\u00e3o pode coadunar-se de maneira nenhuma com a f\u00e9 transmitida, dado que n\u00e3o s\u00f3 nega o poder confiado aos Sacerdotes, mas tamb\u00e9m deprecia toda a estrutura apost\u00f3lica da Igreja e deforma a pr\u00f3pria economia sacramental da Salva\u00e7\u00e3o\u201d (SM, n. 1).<br \/>O Conc\u00edlio de Latr\u00e3o IV, realizado em novembro de 1215 \u2013 que teve a participa\u00e7\u00e3o de mais de 400 bispos, o que, sem d\u00favida, lhe deu grande destaque em vista de heresias ocorrentes na \u00e9poca \u2013 reafirmou, por exemplo, a prop\u00f3sito da unidade da Igreja, que n\u2019Ela Jesus Cristo \u00e9, ao mesmo tempo, sacerdote e sacrif\u00edcio. Em Seu corpo e sangue se contem verdadeiramente o sacramento do altar sob as esp\u00e9cies de p\u00e3o e de vinho, depois do que, em virtude do poder divino, o p\u00e3o se transubstancia no corpo e o vinho no sangue [do Senhor]: para que deste modo se complete o mist\u00e9rio da unidade [da Igreja], recebendo n\u00f3s do que \u00e9 seu e Ele do que \u00e9 nosso. Ningu\u00e9m pode realizar este sacramento sen\u00e3o o sacerdote devidamente ordenado com o poder [das chaves] que Jesus Cristo mesmo concedeu aos Ap\u00f3stolos e seus sucessores. (Cf. Justo Collantes. La f\u00e9 de la Iglesia: las ideas y los hombres en los documentos doctrinales del Magisterio. 3\u00aa ed. Madri: BAC, 1986, n. 535).<br \/>Alguns poderiam indagar se esse n\u00e3o \u00e9 um documento muito distante, sem valor para os nossos dias t\u00e3o carentes de sacerdotes e, ademais, depreciador dos leigos como se eles formassem uma classe inferior de fi\u00e9is na Igreja \u2013 A resposta da Igreja \u00e9 negativa, por v\u00e1rias raz\u00f5es depreendidas do Conc\u00edlio Vaticano II e de outros documentos, incluindo a SM, de 1983, que convergem em afirmar alguns pontos b\u00e1sicos, como os que v\u00e3o a seguir propostos em nove t\u00f3picos, a fim de melhor facilitar a compreens\u00e3o.<br \/>1) A Igreja \u00e9 o Corpo de Cristo prolongado na Hist\u00f3ria e nele h\u00e1 muitas fun\u00e7\u00f5es ou minist\u00e9rios como se v\u00ea, por exemplo, em 1Cor 12,27: \u201cv\u00f3s sois o corpo de Cristo e sois os seus membros, cada um por sua parte\u201d, e em Ef 4,11-12: \u201cE ele [Jesus] que concedeu a uns ser ap\u00f3stolos, a outros pastores e doutores para aperfei\u00e7oar os santos em vista do minist\u00e9rio para a edifica\u00e7\u00e3o do Corpo de Cristo\u201d. <br \/>De acordo com a nota \u201cg\u201d da B\u00edblia de Jerusal\u00e9m, os santos aqui mencionados parecem ser os que ensinam, mas tamb\u00e9m pode designar os crist\u00e3os em geral que concorrem para edificar a Igreja de Cristo (cf. At 9,13 e paralelos). Desse modo, a fun\u00e7\u00e3o de presb\u00edtero e bispo teria significado pr\u00f3prio, que n\u00e3o pode ser confundido com a miss\u00e3o dos demais fi\u00e9is, conforme o argumento proposto no pr\u00f3ximo t\u00f3pico.<br \/>2) \u00c9 Cristo quem confere, pelo Sacramento da Ordem, o minist\u00e9rio ordenado a algu\u00e9m, e n\u00e3o uma comunidade carente de sacerdotes. Tal sacramento faz com que o ordenado participe no sacerd\u00f3cio de Nosso Senhor que se diferencia de modo essencial, e n\u00e3o apenas de grau, do sacerd\u00f3cio comum dos fi\u00e9is decorrente do pr\u00f3prio Batismo, de acordo com a Lumen Gentium. <br \/>Com efeito, l\u00ea-se no citado documento o que segue: \u201cO sacerd\u00f3cio comum dos fi\u00e9is e o sacerd\u00f3cio ministerial ou hier\u00e1rquico, embora se diferenciem essencialmente e n\u00e3o apenas em grau, ordenam-se mutuamente um ao outro; pois um e outro participam, a seu modo, do \u00fanico sacerd\u00f3cio de Cristo. Com efeito, o sacerdote ministerial, pelo seu poder sagrado, forma e conduz o povo sacerdotal, realiza o sacrif\u00edcio eucar\u00edstico fazendo as vezes de Cristo e oferece-o a Deus em nome de todo o povo; os fi\u00e9is, por sua parte, concorrem para a obla\u00e7\u00e3o da Eucaristia em virtude do seu sacerd\u00f3cio real, que eles exercem na recep\u00e7\u00e3o dos sacramentos, na ora\u00e7\u00e3o e a\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as, no testemunho da santidade de vida, na abnega\u00e7\u00e3o e na caridade operosa\u201d. (n. 10)<br \/>Mais: ao falar dos v\u00e1rios tipos de voca\u00e7\u00f5es na Igreja, diz a Lumen Gentium que \u201caqueles dentre os fi\u00e9is que s\u00e3o assinalados com a sagrada Ordem, ficam constitu\u00eddos em nome de Cristo para apascentar a Igreja com a palavra e gra\u00e7a de Deus\u201d. (n. 11)<br \/>3) Do que foi dito, fica claro que a estrutura da Igreja \u00e9 sacramental, de forma a ser ela um sinal sens\u00edvel que significa e comunica a gra\u00e7a de Deus. A humanidade de Cristo \u00e9 o sacramento primordial do qual decorre o sacramento da Igreja, Corpo de Cristo prolongado na Hist\u00f3ria, que, por sua vez, ministra os sete sacramentos da vida crist\u00e3: Batismo, Crisma, Eucaristia, Reconcilia\u00e7\u00e3o, Un\u00e7\u00e3o dos Enfermos, Ordem e Matrim\u00f4nio.<br \/>4) Disso decorre que o ser humano em geral \u2013 incluindo obviamente a\u00ed o Papa e os Bispos \u2013 \u00e9 administrador e n\u00e3o dono daquilo que Cristo, e s\u00f3 Ele, nos concede. Da\u00ed n\u00e3o se poder dar a nenhum leigo, em virtude do seu Batismo, a faculdade de celebrar a Santa Missa, posto que tal faculdade sup\u00f5e o Sacramento da Ordem a inserir o crist\u00e3o ordenado no sacerd\u00f3cio \u00fanico e verdadeiro de Cristo. Este sacramento garante \u00e0 Igreja a sucess\u00e3o apost\u00f3lica ininterrupta. Quem fugisse dele apenas para ter padres estaria, com certeza, promovendo n\u00e3o um bem, mas uma fratura no corpo m\u00edstico de Cristo.<br \/>5) A Constitui\u00e7\u00e3o Sacrossanctum Concilium, sobre a Liturgia, em seu n. 7, assim se expressa sobre as cinco formas de presen\u00e7a de Cristo na Igreja: \u201cCristo est\u00e1 sempre presente na sua Igreja, especialmente nas a\u00e7\u00f5es lit\u00fargicas. Est\u00e1 presente no sacrif\u00edcio da Missa, quer na pessoa do ministro \u2013 \u2018O que se oferece agora pelo minist\u00e9rio sacerdotal \u00e9 o mesmo que se ofereceu na Cruz\u2019 \u2013 quer e, sobretudo, sob as esp\u00e9cies eucar\u00edsticas. Est\u00e1 presente com o seu dinamismo nos Sacramentos, de modo que, quando algu\u00e9m batiza, \u00e9 o pr\u00f3prio Cristo que batiza. Est\u00e1 presente na sua palavra, pois \u00e9 Ele que fala ao ser lida na Igreja a Sagrada Escritura. Est\u00e1 presente, enfim, quando a Igreja reza e canta, Ele que prometeu: \u2018Onde estiverem dois ou tr\u00eas reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles (Mt 18,20)\u201d.<br \/>\u00c9 importante a men\u00e7\u00e3o a Mt 18,20, pois quem defende a consagra\u00e7\u00e3o do p\u00e3o e do vinho por parte de leigos evoca essa passagem. Sim, ela \u00e9 citada como fundamento para afirmar que todos os membros da Igreja possuem, sem nenhuma diferen\u00e7a, o mesmo grau de participa\u00e7\u00e3o no sacerd\u00f3cio de Cristo, o que n\u00e3o \u00e9 verdade, pois o texto conciliar real\u00e7a a diversidade de participa\u00e7\u00e3o no \u00fanico sacerd\u00f3cio de Nosso Senhor ao fazer refer\u00eancia espec\u00edfica ao ministro ordenado da celebra\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica.<br \/>7) A falta de padres n\u00e3o \u00e9 argumento dirimente para se dar a leigos a faculdade de consagrar o p\u00e3o e o vinho. A Igreja pede aos fi\u00e9is, sem a possibilidade de Missa por muito tempo, que se unam espiritualmente \u00e0s Missas celebradas em outras partes do mundo a fim de, com proveito, se beneficiarem delas, e aos Bispos convoca a que usem da Celebra\u00e7\u00e3o da Palavra conduzida por um(a) leigo(a), na qual a Eucaristia pode ser distribu\u00edda pelo Ministro Extraordin\u00e1rio da Comunh\u00e3o Eucar\u00edstica, bem como, de um modo cada vez mais intenso, reze e promova ora\u00e7\u00f5es para que surjam, em suas dioceses, s\u00e9rias\u00a0 voca\u00e7\u00f5es sacerdotais a servi\u00e7o do Povo de Deus.<br \/>Com tudo o que foi dito, a Igreja n\u00e3o exclui, mas, ao contr\u00e1rio, muito valoriza o Ministro Extraordin\u00e1rio da Comunh\u00e3o Eucar\u00edstica, que pode ser um homem ou uma mulher, conforme o C\u00f3digo de Direito Can\u00f4nico, c\u00e2nones 910 e 230, que t\u00eam o seguinte teor normativo: c\u00e2non 910 \u00a7 1\u00ba \u201cMinistro ordin\u00e1rio da Sagrada Comunh\u00e3o \u00e9 o Bispo, o presb\u00edtero e o di\u00e1cono\u201d; \u00a7 2\u00ba \u201cMinistro extraordin\u00e1rio da Sagrada Comunh\u00e3o \u00e9 o ac\u00f3lito ou outro fiel designado de acordo com o c\u00e2non 230 \u00a7 3\u201d.<br \/>Diz o c\u00e2non 230 \u00a7 3: \u201cOnde a necessidade da Igreja o aconselha, podem tamb\u00e9m os leigos, na falta de ministros, mesmo n\u00e3o sendo leitores ou ac\u00f3litos, suprir alguns de seus of\u00edcios, a saber: exercer o minist\u00e9rio da palavra, presidir as ora\u00e7\u00f5es lit\u00fargicas, administrar o batismo e distribuir a Sagrada Comunh\u00e3o, de acordo com as prescri\u00e7\u00f5es do Direito\u201d.<br \/>Eis, ainda, as consoladoras palavras da SM, n. 4: \u201cA cada um dos fi\u00e9is ou \u00e0s comunidades que por motivo de persegui\u00e7\u00e3o ou por falta de Sacerdotes se vejam privadas da celebra\u00e7\u00e3o da Sagrada Eucaristia, durante breve tempo ou mesmo durante um per\u00edodo longo, n\u00e3o faltar\u00e1, de alguma maneira, a gra\u00e7a do Redentor. Se estiverem animados intimamente pelo voto do Sacramento e unidos na ora\u00e7\u00e3o com toda a Igreja, invocarem o Senhor e elevarem para Ele os pr\u00f3prios cora\u00e7\u00f5es, tais fi\u00e9is e comunidades vivem, por virtude do Esp\u00edrito Santo, em comunh\u00e3o com a Igreja, corpo vivo de Cristo, e com o mesmo Senhor. Mediante o voto do Sacramento, em uni\u00e3o com a Igreja, ainda que estejam muito afastados externamente, est\u00e3o unidos a ela \u00edntima e realmente e, por isso, recebem os frutos do Sacramento; ao passo que aqueles que procuram atribuir-se indevidamente o direito de realizar o Mist\u00e9rio Eucar\u00edstico acabam por fechar em si mesma a pr\u00f3pria comunidade\u201d.<br \/>8) O direito \u00e0 Eucaristia, a que todo fiel preparado tem, n\u00e3o pode ser solucionado de modo arbitr\u00e1rio, mas de acordo com o que expusemos no item anterior. S\u00f3 o ministro v\u00e1lida e licitamente ordenado pode celebr\u00e1-la, conforme o Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica, n. 1369 afirma com ricas cita\u00e7\u00f5es: \u201c\u2018Seja tida como leg\u00edtima somente aquela Eucaristia que \u00e9 presidida pelo bispo ou por quem ele encarregou\u2019 (Santo In\u00e1cio de Antioquia, Smyrn. 8,1)\u201d.<br \/>\u201c\u00c9 pelo minist\u00e9rio dos presb\u00edteros que o sacrif\u00edcio espiritual dos fi\u00e9is se consuma em uni\u00e3o com o sacrif\u00edcio de Cristo. Mediador \u00fanico, que \u00e9 oferecido na Eucaristia de modo incruento e sacramental, pelas m\u00e3os deles, em nome de toda a Igreja, at\u00e9 quando o mesmo Senhor voltar (Presbyterorum Ordinis, 2)\u201d.<br \/>9) Por fim, notamos que ensina a Igreja a seguinte verdade de f\u00e9: \u201cO sacrif\u00edcio de Cristo e o sacrif\u00edcio da Eucaristia s\u00e3o um \u00fanico sacrif\u00edcio: \u2018\u00c9 uma s\u00f3 e mesma v\u00edtima e Aquele que agora Se oferece pelo minist\u00e9rio dos sacerdotes \u00e9 o mesmo que outrora Se ofereceu a Si mesmo na cruz; s\u00f3 a maneira de oferecer \u00e9 que \u00e9 diferente\u2019. E porque \u2018neste divino sacrif\u00edcio, que se realiza na missa, aquele mesmo Cristo, que a Si mesmo Se ofereceu outrora de modo cruento sobre o altar da cruz, agora est\u00e1 contido e \u00e9 imolado de modo incruento [&#8230;], este sacrif\u00edcio \u00e9 verdadeiramente propiciat\u00f3rio\u2019\u201d. (Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica n. 1367).<br \/>Eis como se pode argumentar \u2013 com a Igreja \u2013 sobre a proposta que andou circulando pelos notici\u00e1rios, de leigos celebrarem Missas onde faltam padres.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tem voltado \u00e0 tona alguns debates sobre a quest\u00e3o do sacerd\u00f3cio ministerial. Falou-se sobre a possibilidade de haver a consagra\u00e7\u00e3o do p\u00e3o e do vinho por parte de leigos, especialmente onde faltam sacerdotes v\u00e1lida e licitamente ordenados. 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