{"id":20616,"date":"2017-02-17T03:00:00","date_gmt":"2017-02-17T05:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/2017\/02\/17\/luzes-e-sombras-sobre-a-familia\/"},"modified":"2017-05-05T09:50:23","modified_gmt":"2017-05-05T12:50:23","slug":"luzes-e-sombras-sobre-a-familia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/luzes-e-sombras-sobre-a-familia\/","title":{"rendered":"Luzes e sombras sobre a fam\u00edlia"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">A Igreja, iluminada pelo Evangelho, sempre lembrou uma verdade b\u00e1sica: \u201cA Fam\u00edlia \u00e9 a c\u00e9lula m\u00e3e da Sociedade\u201d e, com S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II, repete que \u201co futuro da Humanidade passa pela Fam\u00edlia\u201d. Nestes tempos de tantas controv\u00e9rsias \u00e9 muito importante refletirmos sobre a base fundamental ou alicer\u00e7adora da vida social. Al\u00e9m das luzes e sombras que hoje existem sobre a fam\u00edlia, encontraremos tamb\u00e9m na Hist\u00f3ria v\u00e1rias situa\u00e7\u00f5es cr\u00edticas sobre a mesma. \u00c9 claro que temos muitas correntes e vis\u00f5es na Hist\u00f3ria, por\u00e9m seria interessante confrontarmos dois lados da moeda.<br \/>A fam\u00edlia monog\u00e2mica e est\u00e1vel \u00e9 uma decorr\u00eancia da pr\u00f3pria Lei Natural Moral impressa por Deus no ser humano. Da\u00ed entendermos porque todos os povos em diferentes \u00e9pocas t\u00eam, apesar de algumas contesta\u00e7\u00f5es minorit\u00e1rias, a fam\u00edlia como base de todas as demais institui\u00e7\u00f5es sociais.<br \/>Por\u00e9m, a fam\u00edlia, enquanto institui\u00e7\u00e3o, sofreu \u2013 como sofre hoje nos planos te\u00f3rico e pr\u00e1tico \u2013 contesta\u00e7\u00f5es ao longo dos tempos. Dentre os que a atacaram est\u00e3o Plat\u00e3o, fil\u00f3sofo falecido em 347 a.C., Thomas Morus, fil\u00f3sofo dos tempos modernos, Thomas de Campanella, no s\u00e9culo XVII, al\u00e9m de outros pensadores mais recentes at\u00e9 chegar \u00e0 verdadeira guerra antifam\u00edlia que temos nos dias de hoje, conforme tem denunciado, com certa reitera\u00e7\u00e3o, o Papa Francisco.<br \/>Plat\u00e3o, ao descrever uma \u201csociedade ideal\u201d, prega a total comunh\u00e3o de bens a seu modo. Contudo, nela n\u00e3o s\u00f3 casas, animais e outros utens\u00edlios estariam a servi\u00e7o de todos, mas tamb\u00e9m a partilha das mulheres e das crian\u00e7as, por ele desprezados como seres de segunda categoria, estavam previstas nesse Estado onipotente. S\u00e3o suas palavras: \u201cNem o pai conhece o seu filho, nem o filho sabe quem \u00e9 seu pai\u201d, portanto, logo depois do parto as crian\u00e7as todas s\u00e3o levadas a um lugar comum, tipo de orfanato, mas chamado de lact\u00e1rio (lugar do leite), e as m\u00e3es a\u00ed poderiam amament\u00e1-las, mas apenas por alguns dias. O restante dos cuidados seria dado por terceiros, e as parteiras teriam entre outras atribui\u00e7\u00f5es a de jamais permitir a uma m\u00e3e reconhecer o seu pr\u00f3prio filho naquele amontoado de beb\u00eas. (Cf. Rep\u00fablica 457 d. 464 d. apud E. Bettencourt. Curso de Doutrina Social da Igreja. Rio de Janeiro: Mater Ecclesiae, s\/d, p. 121).<br \/>De algum outro modo, contesta\u00e7\u00f5es semelhantes foram repetidas ao longo do tempo: Thomas Morus, em sua obra Utopia, no s\u00e9culo XVI, por exemplo, concebeu uma sociedade sem classes. Nela a fam\u00edlia seria abolida por completo. Um s\u00e9culo depois, Thomas de Campanella, em sua obra Civitas Solis (Cidade do Sol, 1623), retomou as teses de Plat\u00e3o, dando um passo al\u00e9m: na sociedade que ele inventaria, homens e mulheres viveriam em casernas com dormit\u00f3rios separados e \u2013 segundo crit\u00e9rios da Medicina e da Astrologia \u2013 separariam como se fossem animais os pares aptos \u00e0 procria\u00e7\u00e3o. As crian\u00e7as nascidas desse cons\u00f3rcio arbitr\u00e1rio seriam imediatamente entregues ao Estado e este lhes daria toda a educa\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para a vida. Pais e filhos jamais se conheceriam e a comunh\u00e3o de bens inclu\u00eda a partilha das mulheres entre os homens.<br \/>Todos esses pensamentos foram retomados no s\u00e9culo XIX por outros pensadores que afirmavam, sem base cient\u00edfica ou hist\u00f3rica, o seguinte: em suas origens, o homem e a mulher viviam na promiscuidade sexual, de modo que qualquer homem teria acesso a qualquer mulher que desejasse, pois predominava a \u201ccomunh\u00e3o de bens\u201d, e a mulher era um ser humano inferior. Depois, teria havido o matriarcado (as mulheres mandavam) e, por fim, a monogamia. Esta s\u00f3 veio ap\u00f3s as experi\u00eancias anteriores, de forma que a fam\u00edlia de acordo com a Lei Natural Moral nunca existiu, segundo tais pensadores. Com base em todos esses pensamentos, Friederich Engels, um dos grandes l\u00edderes marxistas, prop\u00f4s, no s\u00e9culo XIX, a extin\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia, pois esse modelo seria, de acordo com ele, o exemplo vivo da opress\u00e3o da mulher pelo homem, assim como era a opress\u00e3o dos patr\u00f5es aos empregados nas f\u00e1bricas. Mais: n\u00e3o haveria nenhuma distin\u00e7\u00e3o entre homem e mulher, e os filhos de um casal deveriam ser educados pelo Estado, n\u00e3o pela fam\u00edlia.<br \/>No s\u00e9culo XX, o psic\u00f3logo Ernest Boernemann retomou algumas ideias de Plat\u00e3o e de Marx, a fim de reimplant\u00e1-las e se poss\u00edvel ultrapass\u00e1-las. Em resumo, ele defendeu o fim da monogamia e da propriedade particular. A gera\u00e7\u00e3o humana n\u00e3o deve ser feita dentro do matrim\u00f4nio \u2013 que, segundo Boernemann, precisaria ser extinto \u2013 mas pelas tecnologias (fecunda\u00e7\u00e3o in vitro, que seria heter\u00f3loga, ou seja, entre um homem e uma mulher estranhos ou, ao menos n\u00e3o casados, dado que o matrim\u00f4nio seria extinto) e as diferen\u00e7as entre homem e mulher deveriam ser reduzidas ao m\u00ednimo. Afinal, segundo o psic\u00f3logo em foco, a sociedade sem classes, pregada pelo comunismo, deve levar \u00e0 sociedade sem distin\u00e7\u00f5es naturais, como se v\u00ea no homem e na mulher.<br \/>Podemos ver por a\u00ed a teoria do livro \u201cAdmir\u00e1vel mundo novo\u201d, muito difundido no s\u00e9culo passado, e tamb\u00e9m a atual teoria da n\u00e3o-exist\u00eancia de uma lei natural e sim, apenas, de uma lei positiva para determinar todos os comportamentos humanos.<br \/>Todas essas teses foram preparando terreno, a fim de que surgisse a ideologia de g\u00eanero \u2013 outro sistema ideol\u00f3gico denunciado pelo Papa Francisco \u2013 cujos primeiros passos j\u00e1 eram dados no s\u00e9culo XX com Simone de Beauvoir, que pregava o seguinte: \u201cNingu\u00e9m vem ao mundo mulher, fazem-te mulher\u201d e o consequente tamb\u00e9m seria verdadeiro \u201cNingu\u00e9m vem ao mundo homem, fazem-te homem\u201d. Essa extin\u00e7\u00e3o da diferen\u00e7a entre homem e mulher seria levada \u00e0 educa\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as, \u00e0s escolas e aos demais espa\u00e7os profissionais. Ter\u00edamos \u2013 e agora a ideologia de g\u00eanero prop\u00f5e isso \u2013 um ser humano neutro e n\u00e3o de acordo com a sua sexualidade biol\u00f3gica.<br \/>Colocados esses problemas todos, voltemo-nos aos antrop\u00f3logos e etn\u00f3logos da sociedade Anthropos, de Viena (\u00c1ustria), que respondem \u00e0s teorias acima por meio do estudo de povos que, ainda no s\u00e9culo XX, viviam como nos prim\u00f3rdios da Hist\u00f3ria (ou da Pr\u00e9-Hist\u00f3ria?) de modo a poder oferecer um retrato fiel da humanidade primitiva: os pigmeus, na \u00c1frica central, os ind\u00edgenas, nas Am\u00e9ricas, os esquim\u00f3s, na Oceania, etc. <br \/>Os membros do grupo de estudos \u2013 Schimidt, Gusinde, Koppers e Schebesta \u2013 agiram por etapas, ou seja, primeiro aprenderam a l\u00edngua dos nativos, depois conquistaram a sua confian\u00e7a e, por fim, passaram a viver entre eles e ouvir seus relatos para poderem formular o resultado de suas importantes pesquisas, reunidas em seis grossos volumes, que leva o t\u00edtulo Der Ursprung der Gottesidee. Tais pesquisas, contudo, n\u00e3o tiveram grande difus\u00e3o nas Universidades, pois n\u00e3o confirmavam, mas, antes, confrontavam-se com o pensamento marxista predominante na chamada \u201cclasse intelectual\u201d do s\u00e9culo XX. Esse \u00e9 um m\u00e9todo que utilizam \u2013 n\u00e3o aceitar contesta\u00e7\u00f5es bem fundamentadas para que a pr\u00f3pria mentira propalada seja difundida.<br \/>Como quer que seja, o resultado desse \u00e1rduo trabalho chegou at\u00e9 n\u00f3s com dados importantes, que os referidos autores dividem por partes, ou seja, v\u00e3o desde o que chamam de cultura origin\u00e1ria at\u00e9 a alta cultura, passando pela cultura m\u00e9dia ou prim\u00e1ria e mista. Vejamos o que nos apresentam esses ricos resultados. <br \/>H\u00e1 600.000 anos, per\u00edodo paleol\u00edtico antigo, houve o surgimento do homem, que vivia do que colhia dos produtos da terra, pois n\u00e3o sabia cultiv\u00e1-la de modo sistem\u00e1tico nem ca\u00e7ar animais, por isso eram chamados de ca\u00e7adores e coletores primitivos; os homens trabalhavam fora e as mulheres em casa ou pr\u00f3ximo dela. <br \/>O matrim\u00f4nio era monog\u00e2mico com a primazia do homem, mas o respeito \u00e0s mulheres era garantido. A uni\u00e3o conjugal era est\u00e1vel, sendo o div\u00f3rcio coisa rara ou grande exce\u00e7\u00e3o. Reconhecia-se a propriedade particular, n\u00e3o existia aristocracia nem escravid\u00e3o do ser humano e a religi\u00e3o era monote\u00edsta, com o culto a um Deus que \u00e9 Pai e Remunerador do que os homens fizeram de bom ou de ruim. Essa pesquisa, como dito, respondeu \u00e0s teorias marxistas e, por essa raz\u00e3o, foi segregada de n\u00e3o poucas institui\u00e7\u00f5es de ensino do nosso tempo.<br \/>Esses mesmos benem\u00e9ritos estudiosos nos deixaram ainda outros dados: na cultura m\u00e9dia ou prim\u00e1ria, h\u00e1 100.000 anos, aparecem os ca\u00e7adores superiores, cultivadores e pastores. O ser humano realizou progressos na ind\u00fastria, confeccionando instrumentos simples, mas \u00fateis \u00e0 ca\u00e7a aos animais de modo cont\u00ednuo. Da domestica\u00e7\u00e3o dos animais vem o regime pastoril (dos pastores). Isso muito distingue esse homem daquele da cultura paleol\u00edtica, que ca\u00e7ava apenas para sobreviver. Tamb\u00e9m o solo passa a ser cultivado de forma met\u00f3dica e eficiente, mas tudo isso \u00e9 acompanhado, infelizmente, da decad\u00eancia moral e religiosa.<br \/>Sim, h\u00e1 o predom\u00ednio do homem sobre a mulher, surgindo, assim, o patriarcado, al\u00e9m de ser o matrim\u00f4nio n\u00e3o mais monog\u00e2mico, mas, agora, polig\u00e2mico (um homem poderia ter v\u00e1rias mulheres, por\u00e9m uma mulher n\u00e3o tinha v\u00e1rios homens), aparece aqui tamb\u00e9m o direito de primogenitura, ou seja, o filho mais velho tinha direito \u00e0 maior parte na heran\u00e7a do pai. No campo religioso, passa-se a cultuar os astros, especialmente o Sol como s\u00edmbolo do homem forte e subjugador. Admitem-se v\u00e1rios deuses (polite\u00edsmo) e surge tamb\u00e9m a magia (o ser humano tenta dominar Deus por meio de ritos espec\u00edficos). Ao lado dessa tend\u00eancia, aparece, especialmente entre os cultivadores da terra, quase em contrapartida, o regime de matriarcado (a mulher tem maior destaque que os homens) e a deusa maior \u00e9 a M\u00e3e Terra, s\u00edmbolo da for\u00e7a feminina geradora da vida e forte nos momentos dif\u00edceis. Os homens se re\u00fanem em sociedades secretas e prestam culto aos mortos e a seres naturais, como as plantas. Da\u00ed o animismo.<br \/>Na cultura mista, ainda segundo os mesmos etn\u00f3logos austr\u00edacos, nos anos 5000 e 3000 a.C. as figuras do pastor e do agricultor se unem, dando origem aos homens do campo ou camponeses. A vida familiar volta a se solidificar e o trabalho harmonioso entre marido e mulher ajuda a reequilibrar a vida social. A consci\u00eancia religiosa \u00e9 ainda obscura, com o culto aos astros, aos seres naturais (plantas, terra, \u00e1gua etc.), desenvolve-se a magia a ponto de deixar de lado o culto ao Ser Supremo, que \u00e9 Deus, o Criador de tudo.<br \/>Chega-se, por fim, \u00e0 alta cultura, per\u00edodo datado de 3000 a.C. mais ou menos, e sobre o qual j\u00e1 h\u00e1 diversos documentos hist\u00f3ricos. T\u00eam-se aqui os grandes imp\u00e9rios como o Egito, a Ass\u00edria, a Babil\u00f4nia entre outros, de modo que as classes sociais v\u00e3o se diversificando, o poder desp\u00f3tico aparece com a diviniza\u00e7\u00e3o do monarca. O polite\u00edsmo tem seu auge com muitos deuses e semideuses (deuses de segunda classe) e a decad\u00eancia moral tem tamb\u00e9m sua preponder\u00e2ncia na vida social. O erro ganha status de verdade e vice-versa. \u00c9 o Cristianismo quem vai salvar os povos dessa verdadeira barb\u00e1rie a valorizar a Lei Natural Moral e promover a revolu\u00e7\u00e3o do Evangelho, cujas normas s\u00e3o exigentes, mas acess\u00edveis a todos pela gra\u00e7a de Deus.<br \/>A digress\u00e3o feita nos campos da Hist\u00f3ria, da Antropologia e da Etnologia pode parecer cansativa, mas \u00e9 uma grande forma de demonstrar os erros que se semeiam nos dias de hoje ao se falar da cultura humana origin\u00e1ria.<br \/>Seria para se sentir vergonha de retomar tal pensamento em pleno s\u00e9culo XXI, no qual tanto se fala na dignidade humana, especialmente na das mulheres e das crian\u00e7as. Nesse ponto, os estudos atr\u00e1s expostos dissipam as teses err\u00f4neas que o desconhecimento alimenta.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Igreja, iluminada pelo Evangelho, sempre lembrou uma verdade b\u00e1sica: \u201cA Fam\u00edlia \u00e9 a c\u00e9lula m\u00e3e da Sociedade\u201d e, com S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II, repete que \u201co futuro da Humanidade passa pela Fam\u00edlia\u201d. Nestes tempos de tantas controv\u00e9rsias \u00e9 muito importante refletirmos sobre a base fundamental ou alicer\u00e7adora da vida social. 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