{"id":20405,"date":"2017-02-03T16:58:00","date_gmt":"2017-02-03T18:58:00","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/2017\/02\/03\/qo-sao-pauloq-e-a-questao-penitenciaria\/"},"modified":"2017-05-30T16:18:51","modified_gmt":"2017-05-30T19:18:51","slug":"qo-sao-pauloq-e-a-questao-penitenciaria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/qo-sao-pauloq-e-a-questao-penitenciaria\/","title":{"rendered":"&#8220;O S\u00e3o Paulo&#8221; e a quest\u00e3o penitenci\u00e1ria"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Por que eles e n\u00e3o eu?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Editorial do jornal O S\u00e3o Paulo, ed. 3133, de 11 a 17 de janeiro de 2017.<br \/>Concordem ou n\u00e3o com suas posi\u00e7\u00f5es, quase todos reconhecem o Papa Francisco como a maior autoridade moral da atualidade. Mas \u00e9 justamente ele que, diante de criminosos presos, faz repetidas vezes essa pergunta desconcertante: \u201cpor que eles e n\u00e3o eu?\u201d.<br \/>Apesar de toda a sua estatura e coer\u00eancia moral (ou justamente por causa delas), Bergoglio sabe que n\u00e3o deixou de ir para a cadeia simplesmente por ser mais honesto do que os outros, mas sim porque uma s\u00e9rie de acontecimentos fizeram com que suas decis\u00f5es boas fossem mais determinantes que as m\u00e1s (s\u00e3o conclus\u00f5es dele, olhando retrospectivamente para sua vida, n\u00e3o nossas).<br \/>Diante de mais uma chacina em pres\u00eddios brasileiros, n\u00e3o podemos deixar de pensar nessa li\u00e7\u00e3o \u2013 t\u00e3o singela quanto forte \u2013 do Papa Francisco.<br \/>Se observamos com aten\u00e7\u00e3o, encontraremos v\u00e1rias situa\u00e7\u00f5es, que ocorreram com parentes, amigos ou com n\u00f3s mesmos, que poderiam ter levado a erros terr\u00edveis, mas que terminaram bem porque houve apoio material e orienta\u00e7\u00e3o adequada. Solidariedade n\u00e3o \u00e9 coniv\u00eancia com o mal, mas a falta de solidariedade leva a males sempre maiores. Ser solid\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 transformar o criminoso em v\u00edtima, mas construir o bem comum.<br \/>Temos frequentemente uma vis\u00e3o distorcida da realidade prisional brasileira. Pensamos numa minoria de l\u00edderes criminosos que continuam mandando e desmandando de dentro das cadeias, cercados at\u00e9 de um relativo conforto. Mas a imensa maioria n\u00e3o tem sua dignidade humana reconhecida, lhes falta desde as m\u00ednimas condi\u00e7\u00f5es de higiene at\u00e9 a assist\u00eancia jur\u00eddica adequada. Para esses, o crime organizado se tornou um espa\u00e7o de solidariedade e uma condi\u00e7\u00e3o para sobreviver. Com isso, nossos pres\u00eddios se tornam cada vez mais \u201cescolas do crime\u201d.<br \/>Sem d\u00favida, s\u00e3o necess\u00e1rias verbas para a seguran\u00e7a p\u00fablica. Mas n\u00e3o haver\u00e1 dinheiro que chegue se a seguran\u00e7a tiver que preencher as falhas da educa\u00e7\u00e3o, da inclus\u00e3o social, dos programas de gera\u00e7\u00e3o de emprego e renda. O buraco \u00e9 mais embaixo, e temos que ter consci\u00eancia disso para enfrentar adequadamente a situa\u00e7\u00e3o.<br \/>O Estado tem que assumir sua responsabilidade. Os problemas dos pres\u00eddios mostram n\u00e3o s\u00f3 falta de recursos, mas inefici\u00eancia e at\u00e9 rejei\u00e7\u00e3o a pol\u00edticas e metodologias sabidamente eficazes. Pior: uma sombra de corrup\u00e7\u00e3o e malversa\u00e7\u00e3o de dinheiro p\u00fablico paira sobre todo o sistema.<br \/>O desafio do Estado \u00e9 a efici\u00eancia. O desafio da sociedade \u00e9 a solidariedade. Todos temos, em casa, no trabalho, na igreja, com os amigos, a miss\u00e3o de mostrar que a solidariedade \u00e9 diferente da coniv\u00eancia, de dar nossa contribui\u00e7\u00e3o para que o sistema prisional seja espa\u00e7o de ressocializa\u00e7\u00e3o e n\u00e3o de exclus\u00e3o.<\/p>\n<p>Criminoso bom N\u00c3O \u00e9 criminoso morto<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Editorial do jornal O S\u00e3o Paulo, ed. 3134, de 18 a 24 de janeiro de 2017.<br \/>Com as recentes chacinas em pres\u00eddios brasileiros, parte da m\u00eddia e at\u00e9 membros do governo voltaram ao slogan \u201cbandido bom \u00e9 bandido morto\u201d, agora na variante \u201c\u00e9 bom que eles se matem\u201d. Mas dados cient\u00edficos rigorosos n\u00e3o mostram correla\u00e7\u00e3o entre morte e sofrimento nos pres\u00eddios com redu\u00e7\u00e3o da criminalidade. Pelo contr\u00e1rio, mostram que a criminalidade \u00e9 detida por um conjunto de medidas sociais, que ajudam a prevenir a delinqu\u00eancia e a reintegrar o delinquente, e de seguran\u00e7a p\u00fablica, que aumentam a probabilidade do criminoso ser capturado e n\u00e3o o tamanho de sua condena\u00e7\u00e3o.<br \/>No Brasil, em situa\u00e7\u00f5es cr\u00edticas, a resposta pol\u00edtica costuma ser a de endurecer as leis (pois \u201co papel tudo aceita\u201d) e n\u00e3o a de criar mecanismos efetivos para supera\u00e7\u00e3o dos problemas. Mas a solu\u00e7\u00e3o dos problemas de seguran\u00e7a passa por (1) medidas eficientes para impedir o crime e\/ou capturar o criminoso, (2) solidariedade e inclus\u00e3o social, para que os jovens n\u00e3o sejam desencaminhados para o crime e os que presidi\u00e1rios sejam reintegrados \u00e0 vida social \u2013 ao inv\u00e9s de cooptados por fac\u00e7\u00f5es criminosas.<br \/>O discurso do \u201ccriminoso bom \u00e9 criminoso morto\u201d n\u00e3o nasce da justi\u00e7a, mas da vingan\u00e7a e do ressentimento. S\u00e3o sentimentos com os quais n\u00e3o podemos concordar, mas que crescem numa popula\u00e7\u00e3o espezinhada por m\u00e1s condi\u00e7\u00f5es de vida, que n\u00e3o v\u00ea a dignidade de seu trabalho e de seu esfor\u00e7o reconhecida, que se escandaliza com as mordomias e a impunidade de corruptos, corruptores e at\u00e9 de criminosos importantes.<br \/>Personalidades da m\u00eddia e da pol\u00edtica que difundem um discurso raivoso e cada vez mais violento em nome da seguran\u00e7a p\u00fablica est\u00e3o, na verdade, fazendo um desfavor \u00e0 popula\u00e7\u00e3o. Apontam para falsas solu\u00e7\u00f5es, que acabar\u00e3o aumentando ainda mais a inseguran\u00e7a nas periferias e entre os mais pobres, v\u00edtimas de balas perdidas, trucul\u00eancia policial, erros judiciais, falta de perspectivas na vida.<br \/>A vingan\u00e7a tamb\u00e9m n\u00e3o ajuda os enlutados, v\u00edtimas de crimes hediondos ou que sofrem com a perda dos entes queridos assassinados.\u00a0 \u00c0 primeira vista, parece um consolo, mas n\u00e3o preenche o vazio nem cicatriza as feridas. N\u00e3o ajuda a encontrar um sentido na vida capaz de superar o sofrimento e a dor. O perd\u00e3o, o amor e a dedica\u00e7\u00e3o ao pr\u00f3ximo s\u00e3o muito mais eficientes para superar o luto \u2013 e isso n\u00e3o \u00e9 um discurso apenas da Igreja, mas de especialistas que atendem a pessoas enlutadas e v\u00edtimas da viol\u00eancia.<br \/>Mas tudo isso n\u00e3o ser\u00e1 compreendido apenas com discursos e an\u00e1lises. S\u00f3 uma comunidade capaz de acolher e amar tanto a v\u00edtima quanto o criminoso podem nos ajudar a ver a for\u00e7a social da justi\u00e7a combinada \u00e0 solidariedade ao amor \u2013 e assim defender realmente o que constr\u00f3i o bem comum. Esse \u00e9 o nosso desafio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: N\u00facleo F\u00e9 e Cultura<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por que eles e n\u00e3o eu? Editorial do jornal O S\u00e3o Paulo, ed. 3133, de 11 a 17 de janeiro de 2017.Concordem ou n\u00e3o com suas posi\u00e7\u00f5es, quase todos reconhecem o Papa Francisco como a maior autoridade moral da atualidade. 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