{"id":19918,"date":"2016-12-15T03:00:00","date_gmt":"2016-12-15T05:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/2016\/12\/15\/cardeal-simoni-um-exemplo-atual\/"},"modified":"2017-05-05T13:43:53","modified_gmt":"2017-05-05T16:43:53","slug":"cardeal-simoni-um-exemplo-atual","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/cardeal-simoni-um-exemplo-atual\/","title":{"rendered":"Cardeal Simoni: um exemplo atual"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">No consist\u00f3rio p\u00fablico nos dias 19 e 20 de novembro, tivemos a cria\u00e7\u00e3o dos novos cardeais. Foi o terceiro do Papa Francisco: ele criou 13 novos cardeais eleitores provenientes de 5 continentes, e mais quatro (2 arcebispos e 1 bispo em\u00e9ritos, e mais 1 sacerdote), que decidiu unir ao col\u00e9gio cardinal\u00edcio pelos servi\u00e7os pastorais prestados. Assim afirmou o Papa: \u201cEles representam muitos bispos e sacerdotes que em toda a Igreja edificam o povo de Deus, anunciando o amor misericordioso de Deus no cuidado cotidiano do rebanho do Senhor e na confiss\u00e3o de f\u00e9\u201d. Dentre os quatro unidos ao col\u00e9gio cardinal\u00edcio, est\u00e1 Padre Ernest Simoni, com 88 anos e 60 de sacerd\u00f3cio, nascido na Alb\u00e2nia e nomeado Cardeal Di\u00e1cono da Igreja de Santa Maria della Scala, em Roma.\u00a0 Mas o que o destacou na sua vida ministerial para que o Papa o escolhesse como membro do col\u00e9gio de cardeais, seus estreitos colaboradores? Esta com certeza \u00e9 uma resposta muito simples: sua vida e seu testemunho de fidelidade e amor a Cristo e a Igreja nos anos de seu sacerd\u00f3cio, em que esteve na pris\u00e3o pelo regime comunista.<br \/>Eu estive presente nesse consist\u00f3rio. Ap\u00f3s a recep\u00e7\u00e3o do barrete e do t\u00edtulo de uma igreja de Roma, eles passam entre n\u00f3s no cumprimento de irm\u00e3os. Foi com emo\u00e7\u00e3o que cumprimentei o sacerdote Ernest Simoni, agora Cardeal. Mesmo idoso e sofrido, ainda muito \u00e1gil e forte, passou entre n\u00f3s com seu forte cumprimento e nossa admira\u00e7\u00e3o. O seu exemplo de vida nos comoveu e, por isso, quis trazer para nossa reflex\u00e3o um pouco de sua vida. Muitas vezes somos enganados por tantas promessas e circunst\u00e2ncias, mas \u00e9 importante que escutemos um irm\u00e3o nosso, que ainda est\u00e1 vivo por gra\u00e7a de Deus, testemunhar a fortaleza na hora da prova\u00e7\u00e3o e persegui\u00e7\u00e3o, que ocorreu por ser crist\u00e3o. O Papa Francisco, ao criar cardeal o Padre Ernest Simoni, da Alb\u00e2nia, pa\u00eds do Leste Europeu, al\u00e9m de tantos outros de todas as partes do mundo, enviou uma mensagem \u00e0 sociedade intolerante de hoje e abriu os nossos olhos para perceber as realidades tremendas, ao nos fazer deparar com um padre que sofreu duramente sob as garras do comunismo ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial.<br \/>O agora Cardeal Simoni tem 88 anos, dentre os quais vinte e sete passados sob persegui\u00e7\u00e3o comunista, dezoito deles em pris\u00f5es sob torturas f\u00edsicas e psicol\u00f3gicas e trabalhos for\u00e7ados por n\u00e3o se curvar ao Estado totalit\u00e1rio e opressor que a todos queria quais marionetes de um sistema meramente materialista e, portanto, sem Deus.<br \/>Ernest Simoni nasceu em Troshan, em 18 de outubro de 1928; estudou em um col\u00e9gio franciscano de sua cidade natal; fez semin\u00e1rio e foi ordenado sacerdote no ano de 1956. Com pouco tempo de minist\u00e9rio sacerdotal, ou seja, em 24 de dezembro de 1963, ap\u00f3s a \u201cMissa do Galo\u201d, foi preso. Qualquer desculpa \u00e9 alega\u00e7\u00e3o de regimes totalit\u00e1rios para prender, condenar e matar. Isso acontece muito com as \u201cturbas\u201d enfurecidas, mas quando \u00e9 o \u201cestado\u201d que o faz \u00e9 ainda mais triste.<br \/>Imediatamente condenado \u00e0 pena de morte, essa pena foi trocada pela de vinte e cinco anos de trabalhos for\u00e7ados. No tempo de sua pris\u00e3o, muito sofreu com os longos interrogat\u00f3rios e tentativas de faz\u00ea-lo perder a f\u00e9, mas tudo em v\u00e3o. Longe de se entregar ao sanguin\u00e1rio regime, que deixou por volta de 100 milh\u00f5es de mortos na Hist\u00f3ria do s\u00e9culo XX, o Pe. Simoni foi um pai espiritual para os demais prisioneiros dos verdadeiros campos de concentra\u00e7\u00e3o comunista por onde passou.<br \/>Com dezoito anos de trabalhos for\u00e7ados, nosso mais novo Cardeal, em tempo de cardinalato, pode deixar a pris\u00e3o f\u00edsica, n\u00e3o, por\u00e9m, a psicol\u00f3gica, dado que era tido pelo Estado como \u201cinimigo do povo\u201d, e, por isso, n\u00e3o podia se aproximar dos demais cidad\u00e3os, muito menos exercer livremente o seu minist\u00e9rio sacerdotal. S\u00f3 com a queda do \u201cMuro da Vergonha\u201d ou da \u201cCortina de Ferro\u201d, em 1989, \u00e9 que o Pe. Simoni voltou a ajudar nas comunidades de periferias da Alb\u00e2nia com o mesmo empenho e entusiasmo de jovem sacerdote, enriquecido, por\u00e9m, com a experi\u00eancia dos anos de tantos e tantos sofrimentos.<br \/>No dia 21 de setembro de 2014, pode encontrar-se com o Papa Francisco por ocasi\u00e3o de sua visita pastoral \u00e0 Alb\u00e2nia, e narrar um pouco de sua heroica e triste hist\u00f3ria. Heroica pela fidelidade ao Evangelho e ao minist\u00e9rio sacerdotal, e triste pelos traumas e pelas torturas passadas nas m\u00e3os dos carrascos comunistas albaneses sem que o Ocidente soubesse de mais detalhes, nem grupos de Direitos Humanos por ele se interessassem. Comovido, o Santo Padre o abra\u00e7ou e chorou, de modo que a foto e a filmagem desse encontro correram o mundo pelos diversos meios de comunica\u00e7\u00e3o, convencionais ou n\u00e3o. Na realidade, esses epis\u00f3dios s\u00e3o pouco exibidos pela comunica\u00e7\u00e3o do Ocidente, comprometida com outro tipo de valores.<br \/>Vale a pena transcrever, na \u00edntegra, o depoimento do Cardeal Simoni ao Papa Francisco, na visita apost\u00f3lica na Alb\u00e2nia:<\/p>\n<p>\u201cEm dezembro de 1944, em Alb\u00e2nia, chegou o partido comunista ateu, que tinha como principio eliminar a f\u00e9 e o clero. Na realiza\u00e7\u00e3o deste programa iniciaram rapidamente as pris\u00f5es, torturas e os fuzilamentos de centenas de sacerdotes e leigos, por sete anos seguidos, derramando o sangue inocente dos fi\u00e9is. Alguns dos quais, antes de serem fuzilados, gritavam: Viva Cristo Rei!<br \/>Em 1952, o governo comunista, com uma mo\u00e7\u00e3o pol\u00edtica vinda de Moscou (Stalin), buscou de reunir os sacerdotes que estavam ainda vivos, para permitir de exercitar livremente a f\u00e9, com a condi\u00e7\u00e3o que a Igreja se separasse do Papa e do Vaticano. Esta proposta do governo nunca foi aceita pelo clero. Eu continuei os estudos no col\u00e9gio dos franciscanos por 10 anos: de 1938 a 1948. Os nossos superiores foram fuzilados pelos comunistas, e, por este motivo, fui for\u00e7ado a concluir clandestinamente os meus estudos de teologia. Depois de 4 anos fui preso pelo ex\u00e9rcito, com o objetivo de me fazer desaparecer. Passei dois anos naquele lugar. Foram os anos mais terr\u00edveis na pris\u00e3o, mas o Senhor me salvou, e em 7 de abril de 1956 fui ordenado sacerdote. No dia depois, domingo em Albis e festa da Divina Miseric\u00f3rdia, celebrei a primeira missa. Por 8 anos e meio desenvolvi o meu minist\u00e9rio sacerdotal, mas os comunistas decidiram que deveria estar fora do caminho. Por isso, no dia 24 de dezembro de 1963, apenas terminei de celebrar a Santa Missa da Vig\u00edlia de Natal na vila de Barbullush, perto de Scutari, chegaram 4 oficiais de seguran\u00e7a e me apresentaram o decreto de pris\u00e3o e de fuzilamento. Puseram-me as algemas, ligando os bra\u00e7os \u00e0s costas e me levaram no seu carro.<br \/>Da Igreja me levaram ao quarto de isolamento, onde me deixaram por 3 meses em condi\u00e7\u00f5es desumanas. Levaram-me ao interrogat\u00f3rio. O chefe me disse: \u2018voc\u00ea ser\u00e1 enforcado como inimigo porque disse ao povo que morreremos todos por Cristo se \u00e9 necess\u00e1rio\u2019. Sacudiu-me os ferros nos pulsos t\u00e3o forte que senti parar os batimentos do cora\u00e7\u00e3o e quase morri. Queriam que eu falasse mal da Igreja e da hierarquia da Igreja. Eu n\u00e3o aceitei. Das torturas ca\u00ed quase morto. Ao me verem assim, me liberaram. O Senhor desejava que eu continuasse a viver.<br \/>Entre as acusa\u00e7\u00f5es tinha tamb\u00e9m a celebra\u00e7\u00e3o de tr\u00eas missas pela alma do presidente americano John Kennedy, morto um m\u00eas antes da minha pris\u00e3o, missa que celebrei segundo a indica\u00e7\u00e3o de Paulo VI, dada a todos os sacerdotes do mundo. Eu era assinante da principal revista russa L\u2019Union Sovietique em l\u00edngua francesa. Isto, entanto que a Alb\u00e2nia tinha rompido os relacionamentos com a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Como prova material da acusa\u00e7\u00e3o apresentaram ao juiz a revista na qual se encontrava a foto do presidente americano. <br \/>A Divina Providencia quis que a minha condena\u00e7\u00e3o \u00e0 morte n\u00e3o fosse executada. No quarto de isolamento levaram um outro prisioneiro, um caro amigo, com a fun\u00e7\u00e3o de me vigiar. Ele come\u00e7ou a falar contra o partido, mas eu, por\u00e9m, lhe respondia que Cristo nos tinha ensinado a amar os inimigos e perdo\u00e1-los, e que n\u00f3s devemos empenhar-nos para o bem do povo. Estas palavras chegaram aos ouvidos do ditador, o qual, depois de 5 dias, me liberou da condena\u00e7\u00e3o da morte. Mas esta condena\u00e7\u00e3o foi substitu\u00edda por 18 anos de pris\u00e3o na mineradora de Spac. Depois de sair da pris\u00e3o, fui condenado novamente aos trabalhos for\u00e7ados \u2013 por 10 anos \u2013 at\u00e9 o final da queda do regime. Trabalhei no canal de \u00e1guas escuras.<br \/>Durante o per\u00edodo da pris\u00e3o, celebrei, de mem\u00f3ria, a missa em latim, assim como confessei e distribui a comunh\u00e3o escondido. Com a vinda da liberdade religiosa, o Senhor me ajudou a servir tantas vilas e a reconciliar muitas pessoas em estado de vingan\u00e7a com a Cruz de Cristo, afastando para longe o \u00f3dio e o Diabo dos cora\u00e7\u00f5es dos homens\u201d.<\/p>\n<p>Foram estes testemunhos que fizeram de Padre Ernest um gigante na f\u00e9, um homem que p\u00f4s a fidelidade a Deus e \u00e0 Igreja acima do medo e da incerteza. A Esperan\u00e7a e o zelo pelas almas o fizeram servir com ainda mais dedica\u00e7\u00e3o ao pr\u00f3ximo, compartilhando n\u00e3o somente os sofrimentos di\u00e1rios da pris\u00e3o e das minas, mas tamb\u00e9m a Esperan\u00e7a em um Deus que n\u00e3o abandona jamais. Padre Ernest, como o pr\u00f3prio Santo Padre costuma lembrar sempre, foi uma ponte para que a miseric\u00f3rdia de Deus fosse vivida diariamente nas periferias da vida humana, principalmente naquelas situa\u00e7\u00f5es sub-humanas. \u00c9 exatamente este o esp\u00edrito de quem recebe a p\u00farpura do cardinalato, como afirmou Papa Francisco na homilia do seu terceiro consist\u00f3rio: \u201cAmado irm\u00e3o neo-cardeal, o caminho para o c\u00e9u come\u00e7a na plan\u00edcie, no dia-a-dia da vida repartida e compartilhada, duma vida gasta e doada: na doa\u00e7\u00e3o di\u00e1ria e silenciosa do que somos. O nosso cume \u00e9 esta qualidade do amor; a nossa meta e aspira\u00e7\u00e3o \u00e9 procurar na plan\u00edcie da vida, juntamente com o povo de Deus, transformar-nos em pessoas capazes de perd\u00e3o e reconcilia\u00e7\u00e3o.\u2019 <br \/>Impressionado com t\u00e3o belo testemunho de um verdadeiro confessor da f\u00e9 (aquele que nos momentos mais incertos confessa e n\u00e3o renega a sua f\u00e9), o Papa Francisco, no \u00c2ngelus do dia 9 de outubro \u00faltimo, anunciou seu nome como Cardeal-di\u00e1cono da Santa Igreja Romana. \u00c9 o titular da igreja de Santa Maria da Scala. Sua veste, de agora em diante vermelha, lembra o sangue de tantos irm\u00e3os e tantas irm\u00e3s que, nos s\u00e9culos XX e XXI, foi derramado nos pa\u00edses em que a ideologia totalit\u00e1ria do comunismo se implantou, sufocando todas as liberdades individuais em nome de um Estado forte. <br \/>Em entrevista, com breves palavras, o Pe. Simoni falou sobre sua cria\u00e7\u00e3o como Cardeal, bem como de seus sofrimentos, mas atribui tudo o que de bom recebeu a Jesus e \u00e0 sua M\u00e3e Sant\u00edssima; nada requer para si mesmo, conforme se pode ver nas suas pr\u00f3prias palavras, exibidas pela Radio Vaticano em 10\/10\/16, online. <br \/>Ao ser perguntado como se sentia com a not\u00edcia, respondeu, humildemente: \u201cQuando vi o \u00c2ngelus pela televis\u00e3o, o qual costumo recitar com o Santo Padre, ouvi \u2018Pe. Ernest\u2019. Foi uma surpresa imensa para mim: jamais poderia pensar! Devo agradecer ao Senhor pela vida que me deu e pelas gra\u00e7as, as muitas gra\u00e7as que alcancei. \u00c9 obra e m\u00e9rito somente de Nosso Senhor Jesus Cristo e da Sant\u00edssima Virgem Maria. E assim, como um pobre mission\u00e1rio \u2013 um pequeno mission\u00e1rio de Jesus \u2013, todos os dias pe\u00e7o o amor de Jesus no cora\u00e7\u00e3o de todos os homens\u201d.<br \/>Assim como outros tantos cat\u00f3licos presos, torturados e assassinados pelo regime comunista nos v\u00e1rios pa\u00edses em que instalou sua ditadura sanguin\u00e1ria, o mais idoso dos cardeais rec\u00e9m-criados pelo Papa Francisco demonstra que tudo enfrentou por amor ao Evangelho, tendo por modelo maior o pr\u00f3prio Cristo sofredor. Ele nos ensinou o caminho ou foi o aluno por excel\u00eancia nessa escola da dor e da persegui\u00e7\u00e3o.<br \/>\u00c9 belo ouvir do pr\u00f3prio Simoni a resposta \u00e0 pergunta do entrevistador: se ele se sentiu tocado por se tornar Cardeal como um exemplo daqueles que s\u00e3o perseguidos por causa do Evangelho. Vejamos: \u201cCertamente! \u2018Como perseguiram a mim, perseguir\u00e3o tamb\u00e9m a v\u00f3s que me seguis\u2019. Mas Jesus sempre foi a imensa esperan\u00e7a que nos consola e nos ajuda, para amar. Encontrei o Santo Padre quando chegou \u00e0 Alb\u00e2nia: troquei duas palavras com ele. Tudo \u00e9 Jesus que me salvou; sofri muitas per\u00edcias: duas vezes fui condenado \u00e0 morte&#8230; Jesus fez tudo\u201d!<br \/>Aqui, talvez apare\u00e7a uma das marcas fortes do Cardeal Simoni, marcas que tamb\u00e9m foram de outros irm\u00e3os seus no sacerd\u00f3cio ou no episcopado, mas que parecem um tanto enfraquecidas ou pouco valorizadas em nossos dias: a da fidelidade. Ser fiel at\u00e9 o fim, como nos ensina o Evangelho, especialmente nas adversidades da vida. <br \/>Manter a fidelidade quando tudo vai bem e h\u00e1 sa\u00fade, dinheiro, liberdade ou prosperidade, como muito se apregoa hoje qual fonte de felicidade \u201cilimitada\u201d, \u00e9 f\u00e1cil. No entanto, a verdadeira fidelidade a Deus e ao pr\u00f3ximo se mede nos momentos mais dif\u00edceis ou mesmo onde, humanamente falando, tudo parece imposs\u00edvel. S\u00f3 se enxergam maldades, tramas diab\u00f3licas e mortes&#8230; Foi, no entanto, nesse ambiente que o Padre Simoni demonstrou a sua f\u00e9 cat\u00f3lica apost\u00f3lica romana com as consequ\u00eancias exigidas por ela.<br \/>Muito sofrido, mas, certamente, acostumado com os carinhos e as surpresas de Deus em sua vida, o rec\u00e9m-criado Cardeal fala pouco, por\u00e9m fala com firmeza e com consist\u00eancia, dando-nos uma pequena, mas profunda ideia do que foi o seu passado nas m\u00e3os dos carrascos que o oprimiam. Diz ele, por exemplo, sobre sua cria\u00e7\u00e3o como Cardeal: \u201cEsta \u00e9 uma enorme surpresa! Estive cinco vezes perto da morte; pegaram-me na pris\u00e3o para eliminar-me, mas Deus me salvou: Jesus me salvou. Somente Jesus, Jesus, amor infinito para conosco\u201d!<br \/>Realmente, pode-se dizer que nosso querido Cardeal Simoni, pois a todos n\u00f3s conquistou com seu exemplo de vida, recebeu uma grande gra\u00e7a do Senhor para viver e testemunhar ao mundo que a \u00faltima palavra, mesmo nos regimes mais sanguin\u00e1rios, \u00e9 a da vida e n\u00e3o da morte. \u00c9 a do Evangelho e n\u00e3o da ideologia perversa. <br \/>Por que dizemos isso? \u2013 Porque, de acordo com a revista Pergunte e Responderemos n. 456, maio de 2000, p. 198-200, o governo da Alb\u00e2nia, a partir de 1945, come\u00e7ou a desencadear violenta persegui\u00e7\u00e3o \u00e0s pessoas de f\u00e9 do pa\u00eds, especialmente aos cat\u00f3licos (124.000 fi\u00e9is num total de um milh\u00e3o de habitantes) e mu\u00e7ulmanos. Fruto dessa implac\u00e1vel persegui\u00e7\u00e3o, em 1948 s\u00f3 restava na Alb\u00e2nia um bispo cat\u00f3lico.<br \/>Mais: em 1951, o governo alban\u00eas assinou um acordo com Roma, por\u00e9m n\u00e3o o cumpriu (o texto publicado ao povo do pa\u00eds era diferente daquele firmado com a Santa S\u00e9). Ora, diante da mentira, sacerdotes e leigos cultos protestaram. A resposta do governo desleal n\u00e3o demorou a vir: pena de morte aos padres que exigiam a verdade. O regime era incontest\u00e1vel da parte de quem quer que fosse.<br \/>De 1952 a 1967 muitos sacerdote ou religiosas morreram nas condi\u00e7\u00f5es desumanas de alguma pris\u00e3o albanesa e, vez ou outra, um(a) religioso(a) era retirado(a) da cadeia e levado(a) pelas ruas a fim de a\u00ed sofrer humilha\u00e7\u00f5es e dar exemplo ao povo de que era preciso banir da na\u00e7\u00e3o tudo aquilo que o Estado considerava supersti\u00e7\u00e3o religiosa malfazeja ao povo. S\u00f3 o comunismo tinha a resposta para tudo e n\u00e3o Deus. Este devia ser banido da vida p\u00fablica e particular das pessoas.<br \/>Em 6 de fevereiro de 1967, o governo incitou os jovens a combaterem a religi\u00e3o. Eles responderam positivamente e passaram a saquear, profanar e incendiar igrejas, conventos, mesquitas dos mu\u00e7ulmanos, a fim de transformar esses lugares sagrados em lojas, dep\u00f3sitos, armaz\u00e9ns, enfim, qualquer coisa que fizesse o povo se esquecer de Deus. <br \/>Em oito meses, 2.169 lugares de culto foram extintos, os contratos dos v\u00e1rios segmentos religiosos com o Estado anulados, a pr\u00e1tica dos sacramentos proibida e os cl\u00e9rigos \u2013 sob v\u00e1rias alega\u00e7\u00f5es, inclusive a do Pe. Simoni \u2013 presos, espancados e intimados a deixar a f\u00e9.<br \/>No entanto, uma gra\u00e7a especial cobriu aquele pa\u00eds e nenhum cat\u00f3lico abandonou a sua f\u00e9, como queria o governo. Ao contr\u00e1rio, continuaram a ensinar o Catecismo a seus filhos, a lev\u00e1-los aos sacramentos onde sabiam existir um padre clandestino para a Primeira Eucaristia, Crisma ou mesmo o Batismo. <br \/>Nada, por\u00e9m, era f\u00e1cil. O Estado laicista chegou a condenar a 5 anos de pris\u00e3o a pessoa que, no recinto familiar, na hora das refei\u00e7\u00f5es dissesse: \u201cLouvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!\u201d, bem como a prender os pais que ensinassem os filhos a fazer o Sinal da Cruz. <br \/>Ainda mais: a R\u00e1dio Vaticano n\u00e3o podia ser retransmitida no pa\u00eds, os s\u00edmbolos religiosos foram retirados dos espa\u00e7os p\u00fablicos e at\u00e9 as casas eram fiscalizadas quanto a isso, al\u00e9m de n\u00e3o se permitirem nomes que lembrassem algo crist\u00e3o: Jo\u00e3o, Pedro, Paulo, Ant\u00f4nio, Francisco etc.<br \/>Como dito, nos anos de 1990, o regime comunista, ao menos oficialmente, mas n\u00e3o enquanto ideologia, ruiu e o povo voltou \u00e0 pr\u00e1tica da f\u00e9 de forma p\u00fablica, podendo colocar para fora aquele sentimento religioso inato, sufocado por longas d\u00e9cadas. Esse contexto \u00e9 importante para que se compreenda a \u00e9poca e circunst\u00e2ncia em que viveu o Pe. Simoni, merecidamente feito Cardeal pelo Papa Francisco. Hoje, a Alb\u00e2nia mudou, assim como muitos pa\u00edses da \u00f3rbita sovi\u00e9tica e chinesa que viveram esses anos tremendos de persegui\u00e7\u00e3o e mart\u00edrios. Esses pa\u00edses trazem marcar profundas do sofrimento que passaram por causa de uma ideologia que, al\u00e9m de n\u00e3o permitir a liberdade, perseguia os que tinham f\u00e9.<br \/>Possa o seu exemplo de vida, como confessor da f\u00e9, falar alto a cada um de n\u00f3s e, com a gra\u00e7a de Deus, nos fazer fortes, firmes e serenos ante as adversidades que a vida nos reserva, sempre certos de que a vit\u00f3ria do mal \u00e9 aparente, mas a de Cristo \u00e9 real e duradoura. <br \/>Deus seja louvado por t\u00e3o grande exemplo vivo entre n\u00f3s! Aprendamos com ele a melhor servir ao nosso povo como ele precisa ser servido, n\u00e3o obstante as oposi\u00e7\u00f5es e adversidades que cercam todos os verdadeiros disc\u00edpulos de Cristo, Nosso Senhor, ao longo da Hist\u00f3ria. \u00c9 \u00e0 Cruz que jamais devemos renunciar, mas, sim, com ela aprender a ser mais humano, justo, fiel e fraternal. <br \/>Obrigado, Vener\u00e1vel irm\u00e3o Cardeal Simoni, pelo seu bel\u00edssimo testemunho e por vir, com alegria e humildade, enriquecer o Col\u00e9gio cardinal\u00edcio!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No consist\u00f3rio p\u00fablico nos dias 19 e 20 de novembro, tivemos a cria\u00e7\u00e3o dos novos cardeais. Foi o terceiro do Papa Francisco: ele criou 13 novos cardeais eleitores provenientes de 5 continentes, e mais quatro (2 arcebispos e 1 bispo em\u00e9ritos, e mais 1 sacerdote), que decidiu unir ao col\u00e9gio cardinal\u00edcio pelos servi\u00e7os pastorais prestados. 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