{"id":1978,"date":"2012-08-21T14:03:45","date_gmt":"2012-08-21T17:03:45","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/a-ultima-flor\/"},"modified":"2017-03-21T14:06:51","modified_gmt":"2017-03-21T17:06:51","slug":"a-ultima-flor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/a-ultima-flor\/","title":{"rendered":"A \u00faltima Flor"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/catolicanet.com.br\/images\/stories\/wagnerpedro.jpg\" border=\"0\" align=\"left\" \/>Dias destes, algu\u00e9m que acompanha meus escritos h\u00e1 anos, teceu um coment\u00e1rio que deixou d\u00favidas sobre tratar-se de uma cr\u00edtica ou elogio. Segundo ele, quem domina, mesmo que superficialmente, alguns meandros da l\u00edngua portuguesa, \u00e9 membro de uma classe em extin\u00e7\u00e3o, ou seja: um dinossauro, um troglodita. Na verdade, o que mais me incomodou nessa afirmativa, foi seu fundo de verdade: nossa l\u00edngua \u0093inculta e bela\u0094 respira com dificuldades.<br \/>Qualquer leigo, por mais superficial que seja seu conhecimento liter\u00e1rio ou mesmo gramatical, \u00e9 capaz de diagnosticar os estertores de morte que assolam nosso linguajar e nossa arte da escrita. Se por um lado me considero um privilegiado, pela sorte de, na escola, travar contacto mesmo que superficial com declina\u00e7\u00f5es e m\u00e1ximas latinas, por outro a triste realidade do atual ensino brasileiro nos mostra que sequer os cl\u00e1ssicos da nossa pr\u00f3pria literatura s\u00e3o apresentados \u00e0s nossas crian\u00e7as.\u00a0 Tive a oportunidade, recentemente, de falar sobre o assunto a uma classe de alunos secund\u00e1rios da rede estadual de ensino. Qual a \u00faltima leitura daquelas crian\u00e7as? A moreninha? Meu p\u00e9 de Laranja Lima? O Tronco de Ip\u00ea? Dom Casmurro? O Guarani? Qual?<br \/>Com muita insist\u00eancia de minha parte, um aluno mais corajoso quebrou o sil\u00eancio. Havia lido A Turma da M\u00f4nica, um gibi. Esse \u00e9 nosso ensino, que deixa de lado maravilhas da literatura nacional ou mesmo universal, porque nossos alunos sequer dominam o abeced\u00e1rio e at\u00e9 mesmo muitos professores desconhecem qualquer desses cl\u00e1ssicos.<br \/>Por outro lado, a invas\u00e3o de termos estranhos \u00e0 l\u00edngua, por for\u00e7a de um mercado globalizado, p\u00f5e em risco a pureza da \u0093\u00faltima flor do L\u00e1cio\u0094, refer\u00eancia do poeta Olavo Bilac ao fato do portugu\u00eas ter sido a \u00faltima das l\u00ednguas latinas com origem na cidade de L\u00e1cio, cidade europ\u00e9ia na qual se falou o latim. N\u00e3o serei ing\u00eanuo a ponto de acreditar nessa pureza intoc\u00e1vel e perene, pois qualquer que seja o idioma respira, se nutre, se enriquece e admite mudan\u00e7as externas. Vive e morre. Ontem primava pelas conjuga\u00e7\u00f5es irretoc\u00e1veis, pelas rimas e m\u00e9tricas, \u0093arrolo da saudade e da ternura\u0094, cuja linguagem nativa e escravagista aceitou e encampou naturalmente. Hoje dan\u00e7a entre los hermanos do sul, oeste e norte e a for\u00e7a do anglicanismo mercantilista, a influenciar todos os povos com seus tent\u00e1culos de domina\u00e7\u00e3o made in USA.<br \/>Por essa e outras, um m\u00ednimo de amor pr\u00f3prio \u00e0 l\u00edngua que falamos \u00e9, antes, apego \u00e0 nossa identidade mais intr\u00ednseca, nossa origem. O mais precioso bem de um ser humano \u00e9 seu amor ao ber\u00e7o, orgulho pessoal que nos insere num mundo de interesses e conflitos d\u00edspares, mas deixa em cada indiv\u00edduo um ponto de refer\u00eancia, um norte, um rumo. Ou, como nos disse o poeta, o indiv\u00edduo e a linguagem s\u00e3o unos. \u0093\u00c9s, a um tempo, esplendor e sepultura\u0094. As id\u00e9ias permanecem, apesar da morte. \u0093Ouro nativo, que na ganga impura a bruta mina entre os cascalhos vela\u0094. O valor humano n\u00e3o \u00e9 sua produtividade, seu ganho sobre a impureza material. A riqueza maior brota do interior, da sua fala, da linguagem que domina com o cora\u00e7\u00e3o.<br \/> E o poeta maior, o verbo feito carne, deixaria escapar: \u0093O que purifica o homem n\u00e3o \u00e9 o que entra, mas o que sai de sua boca\u0094. Aqui caem por terra apegos em demasia ao vern\u00e1culo, \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es culturais ou religiosas, \u00e0s leis e aos limites demogr\u00e1ficos, para fazer valer uma \u00fanica promessa: N\u00e3o importa seu idioma, o que vale \u00e9 a mensagem de amor que ele possa oferecer ao mundo. Mas, para tanto, precisamos deixar nosso lado troglodita de interpreta\u00e7\u00f5es de texto, para ouvir com mais clareza a linguagem universal do Amor. Esse qualquer cora\u00e7\u00e3o \u00e9 capaz de entender.<\/p>\n<p>Local: Assis (SP)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dias destes, algu\u00e9m que acompanha meus escritos h\u00e1 anos, teceu um coment\u00e1rio que deixou d\u00favidas sobre tratar-se de uma cr\u00edtica ou elogio. Segundo ele, quem domina, mesmo que superficialmente, alguns meandros da l\u00edngua portuguesa, \u00e9 membro de uma classe em extin\u00e7\u00e3o, ou seja: um dinossauro, um troglodita. Na verdade, o que mais me incomodou nessa [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":17,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[],"class_list":["post-1978","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1978","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/users\/17"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1978"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1978\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7003,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1978\/revisions\/7003"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1978"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1978"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1978"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}