{"id":18529,"date":"2016-10-05T17:29:47","date_gmt":"2016-10-05T20:29:47","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/2016\/10\/05\/misterio-de-fe-numa-terra-dilacerada\/"},"modified":"2017-05-30T16:36:14","modified_gmt":"2017-05-30T19:36:14","slug":"misterio-de-fe-numa-terra-dilacerada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/misterio-de-fe-numa-terra-dilacerada\/","title":{"rendered":"Mist\u00e9rio de f\u00e9 numa terra dilacerada"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.catolicanet.com.br\/images\/stories\/noticias\/7d13cc638b031f8ce1bae1b0204ae77c_xl.jpg\" border=\"0\" align=\"left\" \/>Filhas da Ressurrei\u00e7\u00e3o celebrando os 50 anos da congrega\u00e7\u00e3o com o povo. Filhas da Ressurrei\u00e7\u00e3o celebrando os 50 anos da congrega\u00e7\u00e3o com o povo.<\/p>\n<p>Uma delega\u00e7\u00e3o da Funda\u00e7\u00e3o Pontif\u00edcia ACN (Ajuda \u00e0 Igreja que Sofre) viajou \u00e0 Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo em agosto com o objetivo de levantar as necessidades mais urgentes de Kivu, no leste do pa\u00eds, uma das regi\u00f5es priorit\u00e1rias para a ACN.<br \/>Como se apresenta a situa\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo hoje?<br \/>Regina Lynch \u2013 diretora do departamento de projetos da ACN: Nos \u00faltimos 20 anos, o pa\u00eds tem sido local de guerra. De acordo com a Cruz Vermelha Internacional cerca de 5,4 milh\u00f5es de pessoas morreram, direta ou indiretamente, pela guerra. O problema \u00e9 que poucas pessoas est\u00e3o atentas ao que est\u00e1 acontecendo l\u00e1, ningu\u00e9m realmente fala sobre esse assunto. N\u00e3o existe desenvolvimento na regi\u00e3o ou quase nada. Na verdade em alguns lugares a situa\u00e7\u00e3o piorou. Em 2012, o menor IDH das Na\u00e7\u00f5es Unidas era o do Congo.<\/p>\n<p>Das suas experi\u00eancias nessa viagem ao Congo, quais mais lhes entristeceram?<br \/>Pe. Martin Barta \u2013 assistente eclesi\u00e1stico internacional da ACN: A sensa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a \u00e9 muito grande, as pessoas t\u00eam medo de ir ao interior do pa\u00eds, n\u00e3o se pode simplesmente sair e dirigir ap\u00f3s \u00e0s 18h porque h\u00e1 o risco de ser atacado ou raptado por v\u00e1rios grupos armados. At\u00e9 mesmo na cidade, h\u00e1 sempre o perigo de ser roubado ou simplesmente levar um tiro, como n\u00f3s ouvimos das pessoas que vivem l\u00e1.<\/p>\n<p>Regina Lynch: Em raz\u00e3o dos raptos, na regi\u00e3o de Goma, n\u00f3s fomos aconselhados a n\u00e3o sair da cidade. Especialmente porque somos estrangeiros, somos considerados alvos em potencial. Nos \u00faltimos 9 anos, 7 padres foram assassinados. A viol\u00eancia e inseguran\u00e7a dominam as conversas. Ainda em Goma, n\u00f3s visitamos as Irm\u00e3s Franciscanas Mission\u00e1rias de Maria. Uma delas, a irm\u00e3 Georgette, est\u00e1 l\u00e1 h\u00e1 tr\u00eas anos. Ela come\u00e7ou trabalhando com jovens m\u00e3es solteiras. Na regi\u00e3o h\u00e1 muitos desabrigados. Acontece que as mulheres v\u00e3o \u00e0 floresta cortar lenha para cozinhar, e ali s\u00e3o atacadas e estupradas. Ap\u00f3s isso, n\u00e3o s\u00e3o mais aceitas por suas fam\u00edlias. Ent\u00e3o a irm\u00e3 Georgette acolhe as m\u00e3es com os seus beb\u00eas e as mant\u00e9m com ela por cerca de um ano, ensinando algum of\u00edcio. A irm\u00e3 tamb\u00e9m tenta ajud\u00e1-las a lidar com o trauma por meio da Lectio Divina. No meio desse processo, ela acabou ficando com 80 orf\u00e3os que foram rejeitados por suas fam\u00edlias ou achados nas ruas pelas irm\u00e3s. Elas fazem o seu melhor para ajudar. Atualmente, elas est\u00e3o numa casa alugada, mas precisam ter seu pr\u00f3prio im\u00f3vel. Se a Igreja n\u00e3o estivesse l\u00e1, eu n\u00e3o sei quem cuidaria dessas m\u00e3es e crian\u00e7as&#8230;<br \/>Quais experi\u00eancias da viagem foram as mais bonitas?<br \/>Regina Lynch: Uma das experi\u00eancias mais bonitas para mim foi a celebra\u00e7\u00e3o de jubileu de ouro das Irm\u00e3s Filhas da Ressurrei\u00e7\u00e3o em Bukavu. O que elas t\u00eam feito nesses 50 anos \u00e9 refletido na popula\u00e7\u00e3o local e na gratid\u00e3o destes. As irm\u00e3s s\u00e3o muito pr\u00f3ximas dos mais pobres entre os pobres. Ao mesmo tempo que s\u00e3o muito ativas pastoralmente, s\u00e3o muito boas no servi\u00e7o de catequese. \u00c9 bom ver como um grupo de simples garotas cresceu e se tornou uma congrega\u00e7\u00e3o de 216 irm\u00e3s que, apesar dos momentos dif\u00edceis em que passaram e da viol\u00eancia que enfrentam, n\u00e3o perdem a motiva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Pe. Martin Barta: Para mim isso \u00e9 mist\u00e9rio da f\u00e9. Ver o perigo que as mission\u00e1rias e tamb\u00e9m as pessoas enfrentam, e como elas superam essas dificuldades sem se desesperarem. As pessoas ali lidam com circunst\u00e2ncias, nas quais o povo do mundo ocidental estaria completamente quebrado, n\u00e3o suportaria&#8230; As pessoas l\u00e1 tendem a falar das suas dores e sofrimentos com compostura, n\u00f3s n\u00e3o vimos ningu\u00e9m chorar. Mas observ\u00e1-los rezando e dan\u00e7ando durante a missa&#8230; era como se eles colocassem suas maiores afli\u00e7\u00f5es ali&#8230; Essa express\u00e3o de f\u00e9, que supera as condi\u00e7\u00f5es subumanas em que vivem, foi muito forte para mim. Outra situa\u00e7\u00e3o incr\u00edvel ocorreu em Goma. L\u00e1 h\u00e1 uma pris\u00e3o que foi fundada no tempo da coloniza\u00e7\u00e3o belga. Ela tem cerca de 70 anos e foi constru\u00edda para suportar 150 presos. Agora ali se encontram mais de 2000. A irm\u00e3 Kathrin do Instituto Germ\u00e2nico de S\u00e3o Bonif\u00e1cio, que visita a pris\u00e3o duas vezes por semana, nos levou l\u00e1 com ela. N\u00f3s n\u00e3o imagin\u00e1vamos o que encontrar\u00edamos. Os guardas nos deixaram entrar e de repente nos demos conta que est\u00e1vamos dentro da pris\u00e3o. N\u00e3o havia celas, barreiras; n\u00f3s est\u00e1vamos literalmente no meio da pris\u00e3o. E a irm\u00e3 estava caminhando como uma inocente ovelha no meio dos prisioneiros, sem nenhuma aparente preocupa\u00e7\u00e3o com o perigo da situa\u00e7\u00e3o. A maneira como a irm\u00e3 tratava os prisioneiros e sua natural autoridade me impressionou muito. A dedica\u00e7\u00e3o dessa irm\u00e3 tinha muita influ\u00eancia sobre esses homens que a respeitavam muito. Ela foi uma enfermeira cuidando dos seus ferimentos e levou comida para os prisioneiros. A irm\u00e3 Kathrin ainta est\u00e1 tentando tirar da pris\u00e3o aqueles que cumprem a pena sem a culpa do crime.<br \/>H\u00e1 algo dos parceiros de projeto disseram que gostariam de partilhar?<br \/>Pe. Martin Barta: N\u00f3s visitamos as Irm\u00e3s Trapistas em Murhesa, pr\u00f3ximo a Bukavu. Elas s\u00e3o de uma ordem contemplativa, e \u00e9 incr\u00edvel ver esse modo de vida no meio dessa \u00e1rea violenta. As irm\u00e3s est\u00e3o em constante perigo. Uma delas foi morta em 2009; levou um tiro na porta de entrada do monast\u00e9rio. Mas elas continuam l\u00e1 orando por toda a regi\u00e3o e clamando pela paz. H\u00e1 entre elas uma irm\u00e3 francesa de 90 anos de idade \u2013 somente duas irm\u00e3s s\u00e3o estrangeiras, as demais s\u00e3o congolesas. N\u00f3s a perguntamos qual \u00e9 o seu carisma e ela respondeu: \u201cBuscar a Deus na simplicidade e no amor, a todo momento\u201d.<\/p>\n<p>Regina Lynch: N\u00f3s tamb\u00e9m perguntamos a um padre em Goma, Pe. Juvenal, quem est\u00e1 trabalhando na chamada zona vermelha, uma das mais perigosas, porque as pessoas permanecem l\u00e1? E ele disse: &#8220;As pessoas falam: &#8216;n\u00f3s ficamos porque os padres ainda est\u00e3o aqui'&#8221;. Isso provavelmente \u00e9 uma realidade de toda a regi\u00e3o. E n\u00e3o se refere s\u00f3 aos padres, mas tamb\u00e9m \u00e0s irm\u00e3s. Na verdade, as pessoas ali permanecem enquanto a Igreja tamb\u00e9m permanece. A Igreja leva Deus a eles, e onde Deus est\u00e1, h\u00e1 esperan\u00e7a e luz no meio da escurid\u00e3o.<br \/>Quais projetos a ACN apoia na Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo atualmente?<br \/>Regina Lynch: Na parte leste do Congo n\u00f3s ajudamos, entre outras coisas, na constru\u00e7\u00e3o de casas para padres e igrejas e na forma\u00e7\u00e3o do clero. Na regi\u00e3o de Bukavu, temos um certo n\u00famero de projetos para reconstru\u00e7\u00e3o de instala\u00e7\u00f5es em raz\u00e3o dos terremotos de 2005 e 2008. N\u00f3s tamb\u00e9m fornecemos ajuda \u00e0 subsist\u00eancia para religiosas, em particular para as Filhas da Ressurrei\u00e7\u00e3o. Essas irm\u00e3s estavam no caminho para serem autossuficientes, mas ent\u00e3o foram for\u00e7adas a fecharem 7 das suas casas; algumas irm\u00e3s foram mortas. Outro importante projeto \u00e9 o apoio aos retiros anuais dos padres, porque a press\u00e3o psicol\u00f3gica sobre eles \u00e9 muito alta. Tamb\u00e9m h\u00e1 inten\u00e7\u00f5es de missa e ajudamos o apostolado nas fam\u00edlias que \u00e9 muito forte l\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: Aleteia<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Filhas da Ressurrei\u00e7\u00e3o celebrando os 50 anos da congrega\u00e7\u00e3o com o povo. Filhas da Ressurrei\u00e7\u00e3o celebrando os 50 anos da congrega\u00e7\u00e3o com o povo. 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