{"id":17794,"date":"2016-09-12T12:33:31","date_gmt":"2016-09-12T15:33:31","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/2016\/09\/12\/saudade-nao-tem-idade\/"},"modified":"2017-05-05T16:47:27","modified_gmt":"2017-05-05T19:47:27","slug":"saudade-nao-tem-idade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/saudade-nao-tem-idade\/","title":{"rendered":"Saudade n\u00e3o tem idade"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Durante as Olimp\u00edadas Rio 2016, uma palavra provocou verdadeiro reboli\u00e7o entre jornalistas estrangeiros: saudade. Quando a viram em destaque no gramado do Maracan\u00e3, tentaram traduzi-la, mas n\u00e3o encontraram um sin\u00f4nimo correspondente em suas respectivas l\u00ednguas. O mais pr\u00f3ximo que conseguiram foi \u201csentimento nost\u00e1lgico de algo ou algu\u00e9m ausente\u201d. Isso porque saudade \u00e9 uma exclusividade do nosso idioma. <br \/> Mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 desse privil\u00e9gio que me ocupo agora. H\u00e1 ainda a quest\u00e3o da exist\u00eancia ou n\u00e3o do plural nesta palavra, j\u00e1 que para alguns autores em se tratando de um sentimento n\u00e3o lhe cabe plural. Outros o aceitam com naturalidade, pois que saudades temos muitas. Cabe aqui a opini\u00e3o do prof. Pasquale. Singular ou plural, a verdade \u00e9 que esta sempre nos incomoda, pois recorda-nos algo que um dia passou em nossas vidas. Se esta nos remete \u00e0 aus\u00eancia de uma pessoa, ent\u00e3o sim, chega a doer e \u00e0s vezes nos provoca l\u00e1grimas. Com ou sem plural. Pois a dor e o amor caminham juntos, especialmente quando o vazio de uma aus\u00eancia cava e aprofunda as valas de uma separa\u00e7\u00e3o. <br \/> Pe. Zezinho bem define esse sentimento, em uma de suas can\u00e7\u00f5es: \u201cEssa fome de felicidade \u00e9 saudade do Infinito, \u00e9 saudade que a gente tem\u201d. Se tenho dentro de mim a dor de uma aus\u00eancia, tenho tamb\u00e9m amor. Sentir saudade de algu\u00e9m \u00e9 descobrir o amor, pois s\u00f3 sente saudades quem est\u00e1 amando. O amor \u00e9 infinito. N\u00e3o escolhe pessoas, apenas quer estar com elas, viver com elas, apossar-se delas, t\u00ea-las sempre presente. Basta a dist\u00e2ncia ou a separa\u00e7\u00e3o brusca com a qual a vida sempre nos surpreende, para descobrirmos a saudade, o amor. Assim, saudade n\u00e3o tem idade, n\u00e3o escolhe pessoas, nem privilegia situa\u00e7\u00f5es. O povo de Deus, uma vez liberto da escravid\u00e3o do Egito, sentiu saudades de suas cebolas. Atravessando um deserto de car\u00eancias e prova\u00e7\u00f5es, trocariam o desconforto de uma caminhada incerta pela seguran\u00e7a do estomago saciado e um leito para seus sonhos. <br \/> Assim ainda teimamos. Os mimos do passado nos impedem de enxergar dias melhores no futuro. Quem vive apenas de recorda\u00e7\u00f5es, estaciona, n\u00e3o cresce num relacionamento afetivo ou mesmo humano. Um escritor brasileiro, Rubem Alves, contou-nos um belo ap\u00f3logo, escrito para sua filha de quatro anos, que chorava antecipadamente de saudades, diante da perspectiva de uma viagem prolongada que o pai faria. <br \/>Disse-lhe: \u201cUma menina amava um p\u00e1ssaro encantado que sempre lhe contava hist\u00f3rias. Ao final, dizia: \u2018Tenho que ir\u2019. Mas a menina n\u00e3o o deixava partir. Ent\u00e3o o p\u00e1ssaro lhe disse: \u2018Menina, aprenda que s\u00f3 sou encantado por causa da aus\u00eancia. \u00c9 na aus\u00eancia que a saudade vive. Tenho que partir para que a saudade exista\u2019. Ardilosa e possessiva, a menina resolveu prender o p\u00e1ssaro numa gaiola. Ent\u00e3o esse emudeceu-se, n\u00e3o mais cantou, nem lhe contou hist\u00f3rias. O p\u00e1ssaro que ela amava era um p\u00e1ssaro que deveria voar livre e voltar quando quisesse. Ent\u00e3o ela soltou o p\u00e1ssaro, que voou para longe\u201d.<br \/>Saudade d\u00f3i \u00e0s vezes, mas n\u00e3o aprisiona, nem impede novos voos, mesmo que estes busquem a eternidade. Quem ama, recorda, revive, mas n\u00e3o deixa que a saudade seja uma gaiola dourada, onde fenecem os voos de muitos p\u00e1ssaros encantados. Se a viagem que nos separa foi selada com a morte, lembre-se: Vivem os mortos na saudade dos vivos. A aus\u00eancia \u00e9 tamb\u00e9m uma morte, na qual s\u00f3 h\u00e1 supera\u00e7\u00e3o se acreditarmos num reencontro. Jesus, ao se despedir dos seus, deu-lhes o sacramento da saudade, a Eucaristia, dizendo que o recordassem sempre, que repetissem os gestos daquela partilha de amor, em sua mem\u00f3ria. Tristeza e saudade caminhavam juntas. Jesus a suprimiu com uma promessa: continuarei convosco! E partiu.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Durante as Olimp\u00edadas Rio 2016, uma palavra provocou verdadeiro reboli\u00e7o entre jornalistas estrangeiros: saudade. Quando a viram em destaque no gramado do Maracan\u00e3, tentaram traduzi-la, mas n\u00e3o encontraram um sin\u00f4nimo correspondente em suas respectivas l\u00ednguas. O mais pr\u00f3ximo que conseguiram foi \u201csentimento nost\u00e1lgico de algo ou algu\u00e9m ausente\u201d. 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