{"id":17788,"date":"2016-09-09T18:50:57","date_gmt":"2016-09-09T21:50:57","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/2016\/09\/09\/como-e-viver-a-fe-crista-sob-o-regime-jihadista\/"},"modified":"2017-05-31T08:50:52","modified_gmt":"2017-05-31T11:50:52","slug":"como-e-viver-a-fe-crista-sob-o-regime-jihadista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/como-e-viver-a-fe-crista-sob-o-regime-jihadista\/","title":{"rendered":"Como \u00e9 viver a f\u00e9 crist\u00e3 sob o regime jihadista"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.catolicanet.com.br\/images\/stories\/noticias\/21290lpr_4bd3517f8ec6982.jpg\" border=\"0\" align=\"left\" \/>Um ano depois, o monge descreve as liturgias celebradas nas terras sob o dom\u00ednio dos jihadistas. E acrescenta que hoje \u201ca R\u00fassia poderia acolher os deslocados e os pr\u00f3prios refugiados que fogem da S\u00edria, para demonstrar seu amor pelo povo s\u00edrio\u201d.<\/p>\n<p>Agora, o padre Jacques Mourad encontra-se em Sulymaniaya, no Curdist\u00e3oiraquiano. Como sacerdote, presta seus servi\u00e7os tamb\u00e9m a milhares de deslocados crist\u00e3os que chegam de Qaraqosh, na Plan\u00edcie de N\u00ednive, e que fugiram diante do avan\u00e7o dos jihadistas do chamado Estado Isl\u00e2mico. Os mesmos que em maio deste ano o sequestraram no mosteiro de Mar Eli\u00e1n e o segregaram durante meses para depois lev\u00e1-lo novamente \u00e0 sua cidade de Quaryatayn, ap\u00f3s sua conquista, em companhia de outras centenas de crist\u00e3os que, assim como ele, tinham assinado com o Estado Isl\u00e2mico o \u201ccontrato de prote\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>O caso pessoal do padre Jacques, membro da comunidade mon\u00e1stica fundada pelo padre Paolo Dall\u2019Oglio, voltou a chamar a aten\u00e7\u00e3o em outubro do ano passado, quando o monge siro-cat\u00f3lico conseguiu afastar-se dos territ\u00f3rios que estavam sob o controle dos jihadistas. Ap\u00f3s alguns meses em Roma, onde recebeu cuidados m\u00e9dicos, Mourad quis voltar ao Oriente M\u00e9dio.<\/p>\n<p>Normalmente, em seu novo lugar de ora\u00e7\u00e3o e de trabalho ainda pode apreciar uma conviv\u00eancia harmoniosa de povos diferentes, \u201csob prova apenas devido a motivos que t\u00eam a ver com a religi\u00e3o e a pol\u00edtica\u201d. Ele ensina o catecismo \u00e0s crian\u00e7as, prepara-as para a Primeira Comunh\u00e3o, com toda a simplicidade do mundo. E recordou, nesta conversa com o Vatican Insider, que h\u00e1 um ano, nestes mesmos dias, celebrou sua primeira missa em estado de semi-pris\u00e3o, nas terras ocupadas pelo Califado.<\/p>\n<p>Como celebravam a missa sob o regime jihadista?<\/p>\n<p>Em Quaryatayn, conseguimos celebrar a primeira missa no dia 05 de setembro. Os jihadistas do Estado Isl\u00e2mico nos levaram novamente \u00e0 nossa cidade (\u00e9ramos mais de 250 crist\u00e3os), depois de nos terem mantido como ref\u00e9ns em diversos lugares. Encontramos um lugar debaixo da terra, em um edif\u00edcio, em que tempos atr\u00e1s havia um bairro onde viviam os crist\u00e3os. E enquanto celebr\u00e1vamos a missa juntos (siro-cat\u00f3licos e siro-ortodoxos) fomos surpreendidos com o milagre que est\u00e1vamos vivendo.<\/p>\n<p>Todos?<\/p>\n<p>Sim. Mas, sobretudo, eu. Depois de quatro meses e 15 domingos de cativeiro, era a primeira missa que eu celebrava. No princ\u00edpio, o clima era de medo: \u201cE se os jihadistas chegarem? Como v\u00e3o reagir?\u201d Depois, senti que prevalecia em mima a gratid\u00e3o, e dava gra\u00e7as \u00c0quele que me havia sustentado em todas essas prova\u00e7\u00f5es. Tamb\u00e9m quando me diziam que me degolariam caso n\u00e3o me convertesse. Voltei a pensar muito nessa missa depois que recebi a not\u00edcia do mart\u00edrio do padre Jacques Hamel, assassinado diante do altar em sua par\u00f3quia na Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>Na pris\u00e3o, quando n\u00e3o podia celebrar, o que fazia?<\/p>\n<p>Toda vez, na aurora, cantava a missa inteira recordando-me do coro da minha par\u00f3quia, e depois das missas celebradas no mosteiro de Mar Musa\u2026 Durante algum tempo tamb\u00e9m estive preso em Raqqa, cidade em que desapareceu o padre Paolo Dall\u2019Oglio. Quando estive ali, o imaginava em uma situa\u00e7\u00e3o semelhante \u00e0 minha, na mesma cidade, talvez a pouca dist\u00e2ncia, e o sentia pr\u00f3ximo. Pr\u00f3ximo como no in\u00edcio do nosso caminho mon\u00e1stico comum em Mar Musa, o mosteiro do deserto. Esse quarto onde me mantinham preso tinha uma robusta porta de ferro que me lembrava a porta da minha cela, no mosteiro. Tive uma paradoxal rela\u00e7\u00e3o de amizade com essa pris\u00e3o. N\u00e3o era uma situa\u00e7\u00e3o c\u00f4moda, sobretudo por minha fr\u00e1gil sa\u00fade. Mas, n\u00e3o senti ang\u00fastia. Senti a gra\u00e7a vivida por S\u00e3o Paulo, quando ouviu que o Senhor lhe dizia: \u201cBasta-te a minha gra\u00e7a\u201d. Mesmo no mais profundo da minha fraqueza, era Ele quem revelava a sua for\u00e7a.<\/p>\n<p>Qual \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o espiritual que prevalece entre os crist\u00e3os que se viram envolvidos no conflito s\u00edrio?<\/p>\n<p>Eles se perguntavam como tudo isso foi poss\u00edvel. Mas, depois d\u00e3o gra\u00e7as a Deus, e se colocam em suas m\u00e3os. N\u00e3o vi pessoas que se revoltassem contra Deus.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos meses intensificaram-se as interven\u00e7\u00f5es militares contra o Estado Isl\u00e2mico. O que lhe parece, segundo sua experi\u00eancia?<\/p>\n<p>Lembro quando os emiss\u00e1rios do califado al Baghdaldi chegaram a Mossul, vindos de Quariyatayn, para nos anunciar o que seria de n\u00f3s, de acordo com o decreto do Estado Isl\u00e2mico. Era o dia 31 de agosto. Lembro que diziam: \u201cN\u00f3s queremos estender o medo no mundo, porque os \u2018cruzados\u2019 est\u00e3o bombardeando a terra do Isl\u00e3. S\u00e3o eles que atacam, matam crian\u00e7as e destroem casas. N\u00f3s apenas defendemos os nossos territ\u00f3rios e o Isl\u00e3 dos agressores\u2026\u201d. Atualmente, tenho que repetir: os bombardeios servem para aumentar e refor\u00e7ar este sentimento entre muitos, e nem todos s\u00e3o jihadistas.<\/p>\n<p>Como um crist\u00e3o pode ver tudo o que acontece ali?<\/p>\n<p>Pode ver o que acontece tendo sempre no olhar a imagem de Cristo cumprindo a nossa salva\u00e7\u00e3o, participando do nosso sofrimento. S\u00f3 desta maneira se pode ver, como crist\u00e3os, a trag\u00e9dia de um pa\u00eds que est\u00e1 morrendo, onde todos s\u00e3o atormentados. Como os milh\u00f5es de refugiados que perderam tudo e vivem no desespero. E as palavras dos crist\u00e3os que sofrem pela guerra podem converter-se nas mesmas de Cristo: \u201cPai, perdoa-lhes, porque n\u00e3o sabem o que fazem\u201d.<\/p>\n<p>Na Europa, as comunidades mu\u00e7ulmanas s\u00e3o pressionadas para que manifestem claramente sua postura de condena\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia justificada pela religi\u00e3o\u2026<\/p>\n<p>O medo \u00e9 um fator que paralisa tamb\u00e9m a eles. E seu sil\u00eancio \u00e9 visto como um sintoma de cumplicidade com os que espalham o terror e os massacres. Necessita-se de coragem para enfrentar momentos t\u00e3o dif\u00edceis e acabar tamb\u00e9m com este equ\u00edvoco.<\/p>\n<p>O Papa Francisco disse que n\u00e3o se trata de uma guerra de religi\u00e3o. O que pensa a respeito?<br \/>Cada vez fica mais evidente que as raz\u00f5es das guerras s\u00e3o de ordem econ\u00f4mica. Uma mania feroz e insaci\u00e1vel de acumular, que \u00e9, em si mesma, sinal de morte e destrui\u00e7\u00e3o. O que queremos, al\u00e9m da riqueza, al\u00e9m do poder, al\u00e9m do desenvolvimento moderno? O que mais queremos? O chamado prof\u00e9tico do Papa Francisco, que justamente neste momento proclamou o Ano Santo da Miseric\u00f3rdia, move-se neste n\u00edvel vertiginoso. Necessitamos da paz que vem de Deus.<\/p>\n<p>Na Europa aumenta o desprezo e a rejei\u00e7\u00e3o para com os migrantes\u2026<\/p>\n<p>Todos se p\u00f5em a acusar os migrantes, a colocar neles a culpa por tudo, como fez Ad\u00e3ocom Eva no Para\u00edso. Reconhecemos e estamos comovidos com o que fizeram os volunt\u00e1rios das organiza\u00e7\u00f5es europeias e internacionais a favor dos povos atingidos pelas guerras. E vemos que muitos acolhem com esp\u00edrito fraterno os migrantes. As rea\u00e7\u00f5es desconsideradas de alguns n\u00e3o representam, claramente, os outros. Ao mesmo tempo, a busca das responsabilidades por tudo o que acontece, e tamb\u00e9m pelos sofrimentos provocados a povos inteiros, obrigados a fugir de suas casas, leva \u00e0s decis\u00f5es pol\u00edticas europeias e estadunidenses.<\/p>\n<p>Mas, pode-se salvar algo nas interven\u00e7\u00f5es que colocaram em marcha a comunidade internacional?<\/p>\n<p>Agora, nenhum povo pode livrar-se destas guerras. Vemos isso na S\u00edria, no Iraque, no I\u00eamen. Vemos isso em todas as partes. H\u00e1 outras pot\u00eancias e outras for\u00e7as que alimentam guerras longe das pr\u00f3prias fronteiras. Hoje, nada escapa aos verdadeiros analistas. Muitos veem o que acontece por baixo das mesas dos governos e das institui\u00e7\u00f5es internacionais. E desde que as pot\u00eancias econ\u00f4micas e militares se envolveram nas guerras em nome da defesa dos povos e da democracia, os motivos e as ocasi\u00f5es para novos conflitos se multiplicaram. Evita-se cuidadosamente tomar iniciativas que poderiam ser dadas como certas se as decis\u00f5es pol\u00edticas e estrat\u00e9gicas fossem verdadeiramente coerentes com as declara\u00e7\u00f5es de princ\u00edpio. Por exemplo, a R\u00fassia, para demonstrar seu amor pelo povo s\u00edrio, poderia abrir suas portas para os deslocados e para os refugiados que fugiram da S\u00edria. E isto permitiria tamb\u00e9m a diminui\u00e7\u00e3o das tens\u00f5es na Europa em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 emerg\u00eancia da migra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Esta hist\u00f3ria \u00e9 taggeada em:<\/p>\n<p> cristaos perseguidos<br \/> extremismo<br \/> iraque<br \/> jihadismo<br \/> perseguicao<br \/> radicais<br \/> siria<br \/> terrorismo<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: Aleteia<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um ano depois, o monge descreve as liturgias celebradas nas terras sob o dom\u00ednio dos jihadistas. E acrescenta que hoje \u201ca R\u00fassia poderia acolher os deslocados e os pr\u00f3prios refugiados que fogem da S\u00edria, para demonstrar seu amor pelo povo s\u00edrio\u201d. Agora, o padre Jacques Mourad encontra-se em Sulymaniaya, no Curdist\u00e3oiraquiano. 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