{"id":17556,"date":"2016-09-01T18:35:00","date_gmt":"2016-09-01T21:35:00","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/2016\/09\/01\/cantalamessa-ecologia-sem-glorificacao-a-deus-torna-o-universo-opaco\/"},"modified":"2017-06-02T09:56:13","modified_gmt":"2017-06-02T12:56:13","slug":"cantalamessa-ecologia-sem-glorificacao-a-deus-torna-o-universo-opaco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/cantalamessa-ecologia-sem-glorificacao-a-deus-torna-o-universo-opaco\/","title":{"rendered":"Cantalamessa: Ecologia sem glorifica\u00e7\u00e3o a Deus torna o universo opaco"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.catolicanet.com.br\/images\/stories\/papas\/ap3640272_articolo.jpg\" border=\"0\" align=\"left\" \/>Cidade do Vaticano (RV) \u2013\u00a0 O Papa Francisco, na tarde desta quinta-feira, 1\u00ba de setembro, presidiu na Bas\u00edlica de S\u00e3o Pedro \u00e0s Solenes V\u00e9speras pelo Dia Mundial de Ora\u00e7\u00e3o pelo Cuidado da Cria\u00e7\u00e3o. A data foi institu\u00edda pelo Santo Padre em 2015, unindo assim a Igreja Cat\u00f3lica a uma iniciativa que j\u00e1 era realizada pelas Igrejas Ortodoxas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/media02.radiovaticana.va\/audio\/audio2\/mp3\/00546271.mp3\">Clique aqui para ouvir.<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p>\u201c\u00d3 homem, por que tens de ti um conceito t\u00e3o baixo, quando \u00e9s t\u00e3o precioso para Deus?\u201d. Com esta frase &#8211; extra\u00edda dos Discursos de S\u00e3o Pedro Cris\u00f3logo, s\u00e9culo V &#8211; o Pregador da Casa Pontif\u00edcia, Frei Raniero Cantalamessa, iniciou sua longa e articulada reflex\u00e3o, intitulada \u201cRezar pela Cria\u00e7\u00e3o ou rezar com a Cria\u00e7\u00e3o?\u201d.<\/p>\n<p>Desde o s\u00e9culo V \u2013 explicou Frei Raniero \u2013 \u201cmudou o motivo pelo qual o homem despreza a si mesmo, mas n\u00e3o mudou o fato\u201d. \u201cHoje o motivo do desprezo \u00e9 que o homem \u00e9 menos que nada na imensid\u00e3o\u00a0 ilimitada do universo\u201d.<\/p>\n<p>O homem diante do universo<\/p>\n<p>Para contrastar a afirma\u00e7\u00e3o de muitos cientistas ateus, que defendem a total marginalidade e insignific\u00e2ncia do homem no universo, Frei Raniero prop\u00f5e um enunciado de Dion\u00edsio, o Aeropagita, do s\u00e9culo VI que diz, que \u201cn\u00e3o se deve refutar as opini\u00f5es dos outros, nem se deve escrever contra uma opini\u00e3o ou uma religi\u00e3o que n\u00e3o parece boa. Se deve escrever somente a favor da verdade e n\u00e3o contra os outros\u201d. \u201cN\u00e3o se deve absolutizar este princ\u00edpios \u2013 reiterou &#8211;\u00a0 porque \u00e0s vezes pode ser necess\u00e1rio refutar doutrinas falsas e perigosas; mas \u00e9 certo que a exposi\u00e7\u00e3o positiva da verdade \u00e9 mais eficaz do que n\u00e3o a rejei\u00e7\u00e3o do erro contr\u00e1rio\u201d.<\/p>\n<p>Soberania do homem<\/p>\n<p>Referindo-se novamente ao discurso de Cris\u00f3logo, o Pregador da Casa Pontif\u00edcia diz que o autor reafirma \u201ca ideia b\u00edblica da soberania do homem sobre o cosmos\u201d, vis\u00e3o completada por S\u00e3o Paulo que indica o lugar que Cristo ocupa nele:<\/p>\n<p>\u201cEstamos diante de um \u201cecologismo humano\u201d ou \u201chuman\u00edstico\u201d: um ecologismo, isto \u00e9, que n\u00e3o \u00e9 um fim por si s\u00f3, mas em fun\u00e7\u00e3o do homem, n\u00e3o s\u00f3, naturalmente, do homem de hoje, mas tamb\u00e9m daquele futuro\u201d.<\/p>\n<p>Criado \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a de Deus<\/p>\n<p>O pensamento crist\u00e3o nunca deixou de interrogar-se sobre o porque desta transcend\u00eancia do homem em rela\u00e7\u00e3o ao resto da cria\u00e7\u00e3o, encontrando sempre a resposta na afirma\u00e7\u00e3o b\u00edblica de que \u201co homem foi criado \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a de Deus\u201d.<\/p>\n<p>O renovado di\u00e1logo com o pensamento ortodoxo, tornou poss\u00edvel \u00e0 teologia dar uma explica\u00e7\u00e3o realmente satisfat\u00f3ria para a quest\u00e3o, que \u201c\u00e9 saber em que consiste ser a imagem de Deus\u201d:<\/p>\n<p>\u201cTudo se alicer\u00e7a na revela\u00e7\u00e3o da Trindade operada por Cristo. O homem \u00e9 criado \u00e0 imagem de Deus, no sentido que participa da \u00edntima ess\u00eancia de Deus, que \u00e9 de ser em rela\u00e7\u00e3o\u00a0 de amor entre Pai, Filho e Esp\u00edrito Santo\u201d. \u201cEles n\u00e3o t\u00eam uma rela\u00e7\u00e3o entre si, mas s\u00e3o a rela\u00e7\u00e3o\u201d, como define Santo Agostinho.<\/p>\n<p>Liberdade do homem<\/p>\n<p>Somente o homem &#8211; enquanto pessoa capaz de rela\u00e7\u00f5es livres e conscientes \u2013 participa desta dimens\u00e3o pessoal e relacional de Deus. \u201cSendo a Trindade uma comunh\u00e3o de amor, criou o homem como um \u201cser em rela\u00e7\u00e3o\u201d. \u00c9 neste sentido que o homem \u00e9 \u201ca imagem de Deus\u201d\u201d.<\/p>\n<p>O abismo entre Deus e a criatura humana \u201c\u00e9 preenchido pela gra\u00e7a\u201d, tornando-se \u201cmenos profundo do que aquele existente entre o homem e o resto da cria\u00e7\u00e3o\u201d. Com a reden\u00e7\u00e3o operada por Cristo, o homem tornou-se \u201cpart\u00edcipe da natureza divina\u201d.<\/p>\n<p>Triunfalismo racial?<\/p>\n<p>Esta vis\u00e3o poderia levantar obje\u00e7\u00f5es, n\u00e3o somente por parte dos n\u00e3o-crentes: \u201cTudo isto n\u00e3o \u00e9 triunfalismo racial?\u201d, levando a um dom\u00ednio indiscriminado do homem sobre o resto da cria\u00e7\u00e3o, com as consequ\u00eancias facilmente imagin\u00e1veis e, infelizmente j\u00e1 em curso?:<\/p>\n<p>\u201cA resposta \u00e9: n\u00e3o, se o homem se comporta realmente como imagem de Deus. Se a pessoa humana \u00e9 imagem de Deus enquanto \u00e9 \u201cum ser em comunh\u00e3o\u201d, isto quer dizer que menos se \u00e9 ego\u00edsta, fechados em si mesmos e esquecidos dos outros, mais se \u00e9 pessoa realmente humana\u201d.<\/p>\n<p>Neste sentido, \u201ca soberania do homem sobre o cosmos n\u00e3o \u00e9 um triunfalismo de esp\u00e9cie, mas assun\u00e7\u00e3o de responsabilidade pelos mais fracos, os pobres, os indefesos. O \u00fanico t\u00edtulo que eles t\u00eam para serem respeitados, na aus\u00eancia de outros privil\u00e9gios e recursos, \u00e9 o de ser pessoa humana\u201d.<\/p>\n<p>Deus que ouve o grito dos pobres<\/p>\n<p>\u201cO Deus da B\u00edblia \u2013 mas tamb\u00e9m de outras religi\u00f5es \u2013 \u00e9 um Deus \u201cque ouve o grito dos pobres\u201d, que \u201ctem piedade dos fracos e do pobre\u201d, que \u201cdefende a causa dos miser\u00e1veis\u201d, que \u201cfaz justi\u00e7a aos opressores\u201d, que \u201cnada despreza daquilo que criou\u201d.<\/p>\n<p>A encarna\u00e7\u00e3o do Verbo trouxe uma raz\u00e3o a mais para \u201cpara assumir o cuidado dos fracos e do pobre, independente da ra\u00e7a ou da religi\u00e3o a que perten\u00e7a. Com a encarna\u00e7\u00e3o, o homem escolheu ser \u201cn\u00e3o rico e poderoso, mas pobre, fraco e indefeso\u201d.<\/p>\n<p>S\u00e3o Francisco<\/p>\n<p>Este foi o passo em frente que Francisco de Assis permitiu que a teologia desse, explicou o Pregador da Casa Pontif\u00edcia, \u201csuperando o dogma necess\u00e1rio para contrastar a heresia\u201d da \u00e9poca, e que n\u00e3o podia permanecer nisto.<\/p>\n<p>O que comoveu Francisco at\u00e9 as l\u00e1grimas no Natal, foi a humildade a pobreza do Filho de Deus:<\/p>\n<p>\u201cNele, o amor pela pobreza e o amor pela cria\u00e7\u00e3o andavam lado a lado e tinham uma raiz comum na sua radical ren\u00fancia em querer possuir. Francisco pertence a esta categoria de pessoa do qual S\u00e3o Paulo nos diz que \u201cn\u00e3o tendo nada, possu\u00edam tudo\u201d\u201d.<\/p>\n<p>Papa Francisco<\/p>\n<p>O Papa Francisco \u2013 afirma o Frei Raniero \u2013 acolhe esta mensagem quando faz \u201cda \u00edntima rela\u00e7\u00e3o entre os pobres e a fragilidade do planeta\u201d um das \u201cpedras angulares\u201d da sua Enc\u00edclica sobre o ambiente\u201d:<\/p>\n<p>\u201cO que de fato produz, ao mesmo tempo, os piores danos ao ambiente e a mis\u00e9ria de imensas massas humanas, se n\u00e3o o insaci\u00e1vel desejo de alguns de fazer aumentar sem medidas as pr\u00f3prias posses e lucros? \u00c0 terra se deve aplicar aquilo que os antigos diziam da vida: a ningu\u00e9m \u00e9 dada em propriedade, a todos em uso\u201d.<\/p>\n<p>Terremoto<\/p>\n<p>A verdade de que n\u00e3o somos os donos da terra nos \u00e9 recordada por acontecimentos como \u201co terr\u00edvel terremoto da semana passada\u201d e que nos leva a perguntar: \u201cOnde estava Deus?\u201d, questionamento para o qual n\u00e3o temos uma pronta resposta:<\/p>\n<p>\u201cAlgo, por\u00e9m, a f\u00e9 nos permite dizer. Deus n\u00e3o projetou a cria\u00e7\u00e3o como se fosse uma m\u00e1quina ou um computador, onde tudo \u00e9 programado desde o in\u00edcio em cada detalhe, salvo a operar periodicamente atualiza\u00e7\u00f5es. Por analogia com o homem, podemos falar de um tipo de \u201cliberdade\u201d que Deus deu \u00e0 mat\u00e9ria de desenvolver-se segundo leis pr\u00f3prias. Neste sentido ( mas somente neste), podemos at\u00e9 mesmo compartilhar o ponto de vista dos cientistas n\u00e3o-crentes que falam de \u201cacaso e necessidade\u201d. Na evolu\u00e7\u00e3o tudo ocorre \u201cpor acaso\u201d, mas o pr\u00f3prio acaso \u00e9 previsto pelo Criador e n\u00e3o \u00e9 \u201cpor acaso\u201d\u201d.<\/p>\n<p>Assim, \u00e0 pergunta \u201cOnde estava Deus na noite de 23 de setembro, o fiel n\u00e3o hesita em responder com toda a humildade: \u201cEle estava ali sofrendo com as suas criatura, acolhendo na sua paz as v\u00edtimas que batiam \u00e1 porta de seu Para\u00edso\u201d.<\/p>\n<p>Ecologia sem doxologia<\/p>\n<p>O Frei capuchinho recorda que existem muitas tarefas do homem em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 cria\u00e7\u00e3o, \u201calgumas mais urgentes que outras, como a \u00e1gua, o ar, o clima, a energia, a defesa das esp\u00e9cies em risco. Disto se fala em todos os ambientes e encontros que se ocupam de ecologia. Mas faz uma ressalva:<\/p>\n<p>\u201cExiste por\u00e9m, um dever pela cria\u00e7\u00e3o do qual n\u00e3o se pode falar se n\u00e3o em um encontro entre fieis e \u00e9 justamente por isto que foi colocado ao centro deste encontro de ora\u00e7\u00e3o. Tal dever \u00e9 a doxologia, a glorifica\u00e7\u00e3o de Deus pela cria\u00e7\u00e3o. Uma ecologia sem doxologia torna o universo opaco, como um imenso mapa-m\u00fandi de vidro, privado da luz que deveria ilumin\u00e1-lo por dentro\u201d.<\/p>\n<p>Glorifica\u00e7\u00e3o de Deus<\/p>\n<p>A tarefa primordial das criaturas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 cria\u00e7\u00e3o \u00e9 de emprestar a ela a sua voz. Foram necess\u00e1rios milhares de anos para que o universo chegasse \u201c\u00e0 luz da consci\u00eancia\u201d, alcan\u00e7ada quando apareceu aquela que Teilhard de Chardin chama de \u201cfen\u00f4meno humano\u201d. \u201cMas agora que o universo chegou \u00e0 sua linha de chegada, exige que o homem cumpra o seu dever, que assuma, por assim dizer, a dire\u00e7\u00e3o do coro e entoe em nome de toda a cria\u00e7\u00e3o: \u201cGl\u00f3ria a Deus no alto dos c\u00e9us!\u201d\u201d.<\/p>\n<p>\u201cN\u00f3s, crentes, devemos ser a voz n\u00e3o somente das criaturas inanimadas, mas tamb\u00e9m dos nossos irm\u00e3os que n\u00e3o t\u00eam a gra\u00e7a da f\u00e9. N\u00e3o esque\u00e7amos, em particular, de glorificar a Deus pelas brilhantes realiza\u00e7\u00f5es da t\u00e9cnica. S\u00e3o obras do homem, \u00e9 verdade, mas o homem, de quem \u00e9 obra? Quem o fez?\u201d.<\/p>\n<p>A glorifica\u00e7\u00e3o \u2013 sublinha Frei Raniero \u2013 n\u00e3o serve naturalmente a Deus, mas a n\u00f3s:<\/p>\n<p>\u201cCom ela, se redime a cria\u00e7\u00e3o da senilidade e da vaidade, isto \u00e9, do n\u00e3o-senso, em que a arrastou o pecado dos homens e a arrasta hoje a incredulidade do mundo\u201d.<\/p>\n<p>Rezar &#8220;com&#8221; a cria\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>S\u00e3o Francisco de Assis \u2013 conclui o Pregador da Casa Pontif\u00edcia \u2013 tem algo a dizer ainda hoje a prop\u00f3sito do ecologismo:<\/p>\n<p>\u201cEle n\u00e3o reza \u201cpela\u201d cria\u00e7\u00e3o, pelo seu cuidado (no tempo dele n\u00e3o havia ainda necessidade), reza \u201ccom a cria\u00e7\u00e3o\u201d, ou \u201cpela causa da cria\u00e7\u00e3o\u201d, ou ainda \u201cpor motivo da cria\u00e7\u00e3o\u201d. S\u00e3o todas nuances presentes na preposi\u00e7\u00e3o \u201cpelo\u201d por ele usada: \u201cLaudato Si, meu Senhor, pelo irm\u00e3o sol, pela irm\u00e3 lua, pela irm\u00e3 m\u00e3e terra\u201d. O seu canto \u00e9 uma doxologia e um hino de a\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as. Mas precisamente disto deriva o respeito extraordin\u00e1rio por cada criatura pelo qual queria que at\u00e9 \u00e0s ervas selvagens fosse deixado um espa\u00e7o para crescer\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: R\u00e1dio Vaticano<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cidade do Vaticano (RV) \u2013\u00a0 O Papa Francisco, na tarde desta quinta-feira, 1\u00ba de setembro, presidiu na Bas\u00edlica de S\u00e3o Pedro \u00e0s Solenes V\u00e9speras pelo Dia Mundial de Ora\u00e7\u00e3o pelo Cuidado da Cria\u00e7\u00e3o. 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