{"id":17198,"date":"2016-08-20T03:00:00","date_gmt":"2016-08-20T06:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/2016\/08\/20\/as-olimpiadas-e-o-nosso-tempo\/"},"modified":"2017-05-08T09:30:50","modified_gmt":"2017-05-08T12:30:50","slug":"as-olimpiadas-e-o-nosso-tempo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/as-olimpiadas-e-o-nosso-tempo\/","title":{"rendered":"As Olimp\u00edadas e o nosso tempo"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Neste domingo concluem-se aqui no Rio de Janeiro os Jogos Ol\u00edmpicos. Daqui a alguns dias iniciaremos os Jogos Paral\u00edmpicos. As Olimp\u00edadas s\u00e3o disputas esportivas de v\u00e1rias modalidades, que acontecem a cada quatro anos em determinado pa\u00eds que tem uma cidade escolhida como sede desses jogos. <br \/>\u00c9 importante meditarmos sobre esse acontecimento por dois principais pontos: sua origem, na Gr\u00e9cia antiga, tem um forte substrato religioso, e as disputas atl\u00e9ticas ensinam o crist\u00e3o a praticar a ascese, a fim de melhor se purificar do pecado e chegar, com a gra\u00e7a de Deus, \u00e0 santidade.<br \/>\u00c9 preciso entender que os gregos eram, em sua religi\u00e3o, polite\u00edstas \u2013 tinham v\u00e1rios deuses ou divindades. Contudo, essa religi\u00e3o era antropom\u00f3rfica (anthropos = homem \/ morph\u00e8 = forma), de modo que os deuses tinham as mesmas virtudes ou fraquezas dos seres humanos e, embora fossem imortais, n\u00e3o podiam fugir do destino fatal a atingir os deuses e os seres humanos. A maioria desses deuses habitava no mais alto ponto do monte Olimpo, salvo Poseidon, habitante do mar, e Hades, o deus do inferno, a reinar no centro da terra. (A. Souto Maior. Hist\u00f3ria Geral. 15\u00aa ed. S\u00e3o Paulo: Companhia Editora Nacional, 1972, p. 97-99).<br \/>Ora, nesse contexto de muitos deuses particulares, cada ser humano se sentia chamado a desenvolver, de forma individual, alguma qualidade capaz de lev\u00e1-lo a distinguir-se dos demais. Eis os jogos que, realizados ou n\u00e3o em equipe, eram capazes de revelar, dir\u00edamos hoje, talentos pessoais, \u00e0s vezes um tanto individualistas. <br \/>Pois bem, para tentar suprir aquilo de mau ou de \u201cmenos bom\u201d que o ego inflado de cada um poderia trazer \u00e0 sociedade da \u00e9poca se recorria a princ\u00edpios religiosos. Sim, os concorrentes ofereciam seus esfor\u00e7os de treinos e de disputa \u00e0 divindade, de modo que ser vencedor parecia n\u00e3o se dever apenas ao esfor\u00e7o pr\u00f3prio, mas \u00e0 oferta desse mesmo esfor\u00e7o a um deus. A oferta teria sido bem aceita, caso se vencesse. Outro ponto era o aspecto moral, dado que quem fraudasse a competi\u00e7\u00e3o e fosse descoberto seria expulso, ficando fora da competi\u00e7\u00e3o junto aos sacr\u00edlegos e assassinos.<br \/>Era sob esse pano de fundo que se entendia o pr\u00eamio: uma coroa de folhas, que por si mesma n\u00e3o tinha valor financeiro algum, mas trazia um sentido \u00e9tico muito forte: atestava que o competidor conseguira a vit\u00f3ria. Tinha como provar ter sido vencedor por duas raz\u00f5es: recebera ajuda da divindade a quem oferecera a disputa, e coroara seu pr\u00f3prio esfor\u00e7o de treinos exaustivos a fim de conseguir o pr\u00eamio esperado.<br \/>H\u00e1 ainda o aspecto da cidade ou da valoriza\u00e7\u00e3o do cidad\u00e3o \u2013 mesmo que entre os gregos antigos esse conceito n\u00e3o seja o mesmo de hoje \u2013 como membro de um povo, de uma cidade. Consequentemente, sua vit\u00f3ria exaltava o nome daquela terra onde ele nasceu e foi criado, e isso era uma gl\u00f3ria ao seu povo: ter um filho ilustre a se destacar nas competi\u00e7\u00f5es esportivas nada f\u00e1ceis.<br \/>Esse modelo de competi\u00e7\u00e3o, tendo sempre por base a religi\u00e3o, se espalhou, de modo que as mais antigas e famosas s\u00e3o as de Ol\u00edmpia, realizadas de quatro em quatro anos, no Vale do Peloponeso, em honra a Zeus Ol\u00edmpico, divindade grega. Teriam sido institu\u00eddas em 776 a. C. e foram se espalhando pela Gr\u00e9cia e \u00c1sia e, por fim, a todo Ocidente. Ao lado da crescente difus\u00e3o dos locais, aparecem tamb\u00e9m as modalidades variadas de provas: corridas a p\u00e9, mais tarde de carros, tendo como centro algum dos santu\u00e1rios dedicados a um dos deuses gregos. Destacam-se como muito concorridas as disputas em honra de Poseidon no \u00edstimo de Corinto; o de Zeus de Nem\u00e9ia, entre Corinto e Argos, e de Apolo em Delfos, nestes foram adicionadas provas musicais \u00e0s competi\u00e7\u00f5es, al\u00e9m de outras disputas particulares pela Gr\u00e9cia.<br \/>Tais competi\u00e7\u00f5es esportivas envolviam muitas pessoas e deixavam uma esp\u00e9cie de legado social, se n\u00e3o no plano material, no aspecto moral, de forma que havia uma \u201ctr\u00e9gua sagrada\u201d e todo grego, exceto os escravos, tinham direito a participar dos eventos. Era uma forma de demonstrar a superioridade, unidade e igualdade hel\u00eanica em rela\u00e7\u00e3o a outros povos, especialmente os considerados b\u00e1rbaros, que nunca conseguiam semelhante feito. (cf. Andr\u00e9 Aymard e Jeannine Auboyer. O Oriente e a Gr\u00e9cia antiga. 3\u00aa ed. 2\u00ba volume. Tomo I. S\u00e3o Paulo: DEL, 1962, p. 75-76. Col. Hist\u00f3ria Geral das Civiliza\u00e7\u00f5es).<br \/>At\u00e9 hoje se conservou a ideia de valorizar o legado das disputas: o moral, que seria a acolhida e a uni\u00e3o de povos t\u00e3o diversos em grande harmonia, e o social, a ser deixado para a cidade-sede. De um modo especial, espera-se \u2013 n\u00e3o obstante not\u00edcias de d\u00e9ficit dos benef\u00edcios que as Olimp\u00edadas deixar\u00e3o (cf. Santu\u00e1rio, agosto, 2016, p. 5) \u2013, um legado material muito favorecedor aos mais necessitados de sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, habita\u00e7\u00e3o, seguran\u00e7a, saneamento b\u00e1sico, transportes p\u00fablicos etc. Os dias p\u00f3s-ol\u00edmpicos nos permitir\u00e3o medir o alcance desse t\u00e3o falado legado material.<br \/>Ao crist\u00e3o, no entanto, \u00e9 motivo de reflex\u00e3o teol\u00f3gica n\u00e3o, talvez, o evento em si tamb\u00e9m revestido de grande beleza, mas, sim, a prepara\u00e7\u00e3o dos atletas, pois lhe recorda o firme compromisso de estar sempre preparado para o encontro com o Senhor Jesus, seja no arremate final da Hist\u00f3ria, seja no momento de sua passagem para a eternidade. O pr\u00f3prio Cristo nos alerta a essa vigil\u00e2ncia (cf. Mc 13,33).<br \/>Da\u00ed, caber aqui o que diz S\u00e3o Paulo, o grande Ap\u00f3stolo dos povos, ao comparar os atletas ol\u00edmpicos aos crist\u00e3os: \u201cOs atletas se abst\u00eam de tudo; eles, para ganharem uma coroa perec\u00edvel; n\u00f3s, por\u00e9m, para ganharmos uma coroa imperec\u00edvel. Quanto a mim, \u00e9 assim que corro, n\u00e3o ao incerto; \u00e9 assim que pratico o pugilato, mas n\u00e3o como quem fere o ar. Trato duramente meu corpo e reduzo-o \u00e0 servid\u00e3o, a fim de que n\u00e3o aconte\u00e7a que, tendo proclamado a mensagem aos outros, venha eu mesmo a ser reprovado\u201d (1Cor 9,25-27).<br \/>O contexto de Paulo \u00e9 clar\u00edssimo. Ele, usando vocabul\u00e1rio esportivo de ent\u00e3o, mas v\u00e1lido tamb\u00e9m hoje, demonstra o esfor\u00e7o dos atletas (dietas alimentares, viagens, treinos pesados, exames m\u00e9dicos rigorosos etc.) a fim de ganharem uma coroa&#8230; Coroa muito bela, mas que, al\u00e9m de n\u00e3o ter valor \u00e0 \u00e9poca \u2013 hoje, as medalhas, al\u00e9m do simb\u00f3lico, tamb\u00e9m t\u00eam valor monet\u00e1rio \u2013, \u00e9 perec\u00edvel. <br \/>Em outras palavras: s\u00e3o objetos que a ferrugem corr\u00f3i (cf. Mt 6,19-21), mas os crist\u00e3os devem batalhar pela coroa imperec\u00edvel, que \u00e9 a da vida eterna. Paulo mesmo faz isso, luta contra suas m\u00e1s tend\u00eancias a fim de ser um homem bom e santo a servi\u00e7o de Deus e dos irm\u00e3os e irm\u00e3s. E mais: diz que se n\u00e3o nos esfor\u00e7armos como os atletas, corremos o risco de pregar a Palavra de Deus aos outros e de ficarmos deserdados, por nosso pr\u00f3prio comodismo, da bem-aventuran\u00e7a celeste.<br \/>Certo \u00e9 que, em um mundo voltado para o bem-estar material facilmente prometido como prosperidade a ser alcan\u00e7ada, essa mensagem pode parecer muito forte ou fora de contexto, mas, ao contr\u00e1rio, ela \u00e9 real e v\u00e1lida sempre. N\u00e3o pode haver Cristo sem Cruz, nem h\u00e1 cristianismo sem Cruz&#8230; Ficar apenas na gl\u00f3ria do Tabor \u00e9 um engano muito grande (cf. Mt 17,4), pois o Senhor Jesus nunca esconde a Seus seguidores que \u00e9 dever de cada um tomar a Cruz de cada dia e segui-Lo (cf. Mc 8,34).<br \/>Na conclus\u00e3o desta fase das Olimp\u00edadas aqui no Rio de Janeiro, somos convidados a v\u00e1rias reflex\u00f5es, entre as quais essa para n\u00f3s crist\u00e3os. Sejamos coerentes com o nome de crist\u00e3os e ven\u00e7amos nossas barreiras a fim de alcan\u00e7armos a coroa imperec\u00edvel, pois, em Cristo, j\u00e1 somos mais que vencedores (cf. Rm 8,37).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste domingo concluem-se aqui no Rio de Janeiro os Jogos Ol\u00edmpicos. Daqui a alguns dias iniciaremos os Jogos Paral\u00edmpicos. 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