{"id":17197,"date":"2016-08-19T03:00:00","date_gmt":"2016-08-19T06:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/2016\/08\/19\/sao-bernardo-de-claraval-e-as-vocacoes\/"},"modified":"2017-05-08T09:33:15","modified_gmt":"2017-05-08T12:33:15","slug":"sao-bernardo-de-claraval-e-as-vocacoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/sao-bernardo-de-claraval-e-as-vocacoes\/","title":{"rendered":"S\u00e3o Bernardo de Claraval e as voca\u00e7\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Celebramos neste dia 20 de agosto a mem\u00f3ria de S\u00e3o Bernardo de Claraval, que nos inspira considerar alguns aspectos de sua vida, especialmente no que diz respeito \u00e0 sua voca\u00e7\u00e3o e seu trabalho com outros jovens por ele atra\u00eddos \u00e0 vida mon\u00e1stica desde os in\u00edcios, pois muito pode nos transmitir em pleno s\u00e9culo XXI. (Este artigo \u00e9 inspirado no livro Monges e monjas cistercienses: pequena introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 vida mon\u00e1stica [Ixtlan, 2015], do qual escrevi o Pref\u00e1cio). Ser\u00e1 interessante, neste m\u00eas vocacional, aprofundarmos um pouco a vida e miss\u00e3o desse abade cisterciense que tanto cativou jovens vocacionados para a vida mon\u00e1stica, tornando-se um mito no seu tempo.<br \/>Bernardo nasceu em 1090, no castelo de Fontaine-les-Dijon, em uma fam\u00edlia de sete filhos (uma menina e seis meninos), incluindo ele. Crian\u00e7a t\u00edmida, mas piedosa e aut\u00eantica, recebeu sua educa\u00e7\u00e3o escolar dos c\u00f4negos de S\u00e3o Vorle, em Ch\u00e2tillon, respeitados intelectuais de ent\u00e3o. Ali conheceu a Sagrada Escritura e autores cl\u00e1ssicos como Virg\u00edlio, C\u00edcero e Hor\u00e1cio, aprendendo, ao mesmo tempo, a ler e a escrever em Latim, de forma elegante e com um pensamento muito bem estruturado, tornando-se, desse modo, um dos maiores intelectuais da Idade M\u00e9dia.<br \/>Terminada a fase de estudos em Ch\u00e2tillon, Bernardo levantou uma d\u00favida muito sadia quanto ao seu futuro: ser cavaleiro, rodeado ou n\u00e3o de mo\u00e7as, como a maioria de seus amigos, ou se fazer religioso em um dos tantos conventos ou mosteiros de ent\u00e3o? \u2013 O escritor franc\u00eas Charles Rich\u00e9 demonstra um pouco de quem era o inquieto Bernardo desse tempo: \u201cQuando, aos 16 anos, retorna ao castelo da fam\u00edlia, Bernardo \u00e9 um rapag\u00e3o robusto e espigado, perfeitamente talhado para exercer o of\u00edcio de cavaleiro. Reencontra seus amigos cobertos com longos mantos, fac\u00e3o em punho, prontos para partir para a ca\u00e7a ou envergando a coura\u00e7a guerreira. Acontece, por\u00e9m, que Bernardo se sente chamado para outra exist\u00eancia. Sua m\u00e3e acaba de morrer. Pois bem, dela recebeu ele o gosto pelo estudo e pela medita\u00e7\u00e3o. Durante certo tempo, hesita, sentindo-se sujeito a algumas tenta\u00e7\u00f5es, pois as jovens buscam a companhia do garboso adolescente\u201d.<br \/>A primeira proposta que veio \u00e0 mente de Bernardo foi a de estudar na Alemanha. Chegou a partir, mas, no caminho, lembrou-se de sua m\u00e3e, rec\u00e9m-falecida, entrou em uma igreja e ali rezou. N\u00e3o s\u00f3 a aus\u00eancia daquela que o trouxe ao mundo lhe preocupava, mas tamb\u00e9m a situa\u00e7\u00e3o em que se encontrava a face humana de sua m\u00e3e espiritual, a Igreja que o gerou para a vida divina pelo Santo Batismo. Ele via a Igreja \u201cmuito comprometida com os assuntos do mundo secular, demasiados discursos, exageros de novidades e de dinheiro; era preciso buscar de novo o sil\u00eancio para encontrar a Deus\u201d.<br \/>Aquele jovem que aspirava a vida aut\u00eantica mudou, ent\u00e3o, de rumo e foi para Borgonha, regi\u00e3o cheia de mosteiros beneditinos, dentre os quais est\u00e1 Cluny, tido como \u201cum imp\u00e9rio temporal e tamb\u00e9m espiritual\u201d. No entanto, n\u00e3o \u00e9 essa gl\u00f3ria que deixava Bernardo extasiado. O que ele queria era apenas a gl\u00f3ria de Deus para sua vida. Importava-lhe amar e servir ao Senhor como Ele deseja ser amado e servido. Nem mais, nem menos.<br \/>Com esse nobre intento, Bernardo procurou o assim chamado \u201cnovo mosteiro\u201d \u2013 fundado por Roberto de Molesmes, asceta apaixonado pela solid\u00e3o, e por alguns companheiros \u2013, que tem o nome de Cit\u00eaaux e localizava-se em uma regi\u00e3o de brejo e junco, prop\u00edcia ao cultivo dos pr\u00f3prios alimentos dos monges. Ali os religiosos viviam (e vivem) \u201ca pobreza, o sil\u00eancio e a ora\u00e7\u00e3o\u201d, se vestiam com simples h\u00e1bitos de l\u00e3 sem estampas, dormiam em colch\u00f5es de palhas, alimentavam-se do que colhiam em suas f\u00e9rteis terras e \u2013 o mais importante para o esp\u00edrito \u2013 rezavam (e rezam) sete vezes ao dia o Of\u00edcio Divino.<br \/>Todavia, Bernardo, bastante ponderado, n\u00e3o entrou logo para o mosteiro. Queria e, talvez, precisaria aprender a viver a vida comunit\u00e1ria pobre e desprendida de Cit\u00eaaux, ou fazer uma experi\u00eancia para ver se conseguiria sustent\u00e1-la at\u00e9 o fim. Veio-lhe uma ideia brilhante: reunir cerca de 30 pessoas, incluindo familiares e amigos, que tinham o mesmo desejo que ele para morarem juntos, em uma casa em Ch\u00e2tillon-sur-Seine, antes de pedir admiss\u00e3o \u00e0 vida mon\u00e1stica.<br \/>No ano de 1113, j\u00e1 bem amadurecido, Bernardo pediu e foi acolhido junto com seus familiares e amigos homens no mosteiro de Cit\u00eaaux, mas, apesar da experi\u00eancia familiar anterior em comum, a vida ali n\u00e3o lhe seria f\u00e1cil. A natureza, por\u00e9m, muito o ajudava na contempla\u00e7\u00e3o, como ele mesmo confessa ao escrever: \u201cTu encontrar\u00e1s mais coisas nas florestas do que nos livros; as \u00e1rvores e as pedras te ensinar\u00e3o mais do que qualquer mestre te poder\u00e1 dizer\u201d. O esp\u00edrito contemplativo de Bernardo o fazia passar todo o per\u00edodo de noviciado absorto em Deus, de modo que nem prestava aten\u00e7\u00e3o ao que \u00e0 sua volta pudesse distra\u00ed-lo da meta almejada: buscar ao Senhor na simplicidade, no sil\u00eancio e, sobretudo, na ora\u00e7\u00e3o do Of\u00edcio e na medita\u00e7\u00e3o da Sagrada Escritura pela Lectio Divina, aspectos centrais da vida mon\u00e1stica cisterciense.<br \/>No ano de 1115, Bernardo foi ordenado sacerdote e mandado por Santo Est\u00eav\u00e3o Harding, na \u00e9poca o novo superior do mosteiro, com outros doze monges, seus parentes e amigos que com ele entraram em Cit\u00eaaux, para fundarem o mosteiro de Claraval (Clairvaux), o Vale Luminoso.<br \/>Essa nova fase da vida do santo \u00e9 bem retratada por Godofredo d\u2019Auxerre, seu bi\u00f3grafo, apenas 38 anos depois da funda\u00e7\u00e3o da nova Abadia. Mas por que a escolha do local? \u2013 Porque um vale isolado e percorrido por um c\u00f3rrego facilitava a ascese, a penit\u00eancia, a ora\u00e7\u00e3o e o trabalho de cultivo do campo para o pr\u00f3prio sustento. Nas palavras de Rich\u00e9, \u201cdizem que era \u2018um lugar de horror e de vastas solid\u00f5es\u2019, isolado do mundo por colinas cobertas de bosques. Providencia-se a constru\u00e7\u00e3o de alguns casebres de madeira, a cela do abade e uma capela de alvenaria. Bernardo se instala numa cela ex\u00edgua. J\u00e1 Plinio Solimeo registra: \u201cA nova abadia ficava num lugar inculto e agreste, sendo por isso chamada de Vale do absinto\u201d. \u201cS\u00e3o Bernardo transform\u00e1-la-ia em Vale Claro ou Claraval, espalhando sua fama por toda a Fran\u00e7a e, depois, pela Europa\u201d. (S\u00e3o Bernardo de Claraval, Catolicismo online, agosto de 2001, acessado em 16\/08\/16).<br \/>Ele tinha o desejo de acolher bem a todos os que ali chegavam para uma experi\u00eancia mon\u00e1stica. N\u00e3o importa se traziam ou n\u00e3o uma carta de recomenda\u00e7\u00e3o de seus respectivos Abades. Para ele o que mais importa era a pessoa que chegou, \u00e1vida de melhor servir a Deus na liberdade de sua consci\u00eancia, sinais importantes na \u00e9poca, embora hoje tenhamos outros crit\u00e9rios a acrescentar.<br \/>O mosteiro de Claraval se enchia de voca\u00e7\u00f5es, seja porque muitos procuravam Bernardo, seja porque eram por ele procurados. No primeiro quadro, estava \u201cum senhor de nome Felipe, que se dirige em peregrina\u00e7\u00e3o a Jerusal\u00e9m, n\u00e3o continua mais sua viagem e permanece definitivamente em Claraval\u201d; e Bernardo escreve ent\u00e3o ao bispo de Lincoln: \u2018Quando se dirigia a Jerusal\u00e9m, vosso Felipe encontrou um encurtamento do caminho e chegou mais cedo do que pensava. Em muito pouco tempo atravessou este imenso mar e, depois de uma feliz viagem, finalmente chegou \u00e0 costa t\u00e3o desejada\u2019.<br \/>No segundo exemplo, l\u00ea-se que, ao sair de viagem, Bernardo fazia prega\u00e7\u00f5es e sempre atra\u00eda muitos jovens ou adultos para o glorioso mosteiro, de modo que seu bi\u00f3grafo \u201cencontrou oitocentas e noventa cartas de promessas de monges que tinham vindo a Claraval, sem contar os irm\u00e3os, leigos e conversos, esses camponeses nas granjas que ajudavam os monges de coro a trabalhar os campos\u201d.<br \/> \u201cA atra\u00e7\u00e3o mais estrondosa foi a de Henrique de Fran\u00e7a, irm\u00e3o do Rei Lu\u00eds VII. Esse pr\u00edncipe foi a Claraval tratar de um importante assunto com S\u00e3o Bernardo. Quando ia sair, pediu para ver todos os monges, a fim de se recomendar \u00e0s suas ora\u00e7\u00f5es. Bernardo disse-lhe que logo experimentaria a efic\u00e1cia dessas ora\u00e7\u00f5es. No mesmo dia, Henrique sentiu-se t\u00e3o tocado pela gra\u00e7a que, esquecendo-se de que era ent\u00e3o o sucessor da coroa, quis ficar em Claraval. Mais tarde foi Bispo de Beauvais, e depois Arcebispo de Reims\u201d.<br \/>Diz-se, inclusive, que, ao saberem que o santo iria passar por uma regi\u00e3o, as mulheres cuidavam de trancar em casa seus filhos e maridos, com medo que abandonassem tudo e seguissem Bernardo, tamanho era seu poder de persuas\u00e3o ao falar do Reino de Deus e da vida mon\u00e1stica.<br \/>\u00c9, no entanto, no mosteiro, escola de servi\u00e7o do Senhor, como ensina a Santa Regra de S\u00e3o Bento, que o monge deve aprender a mortificar seus sentidos e a desconfiar do diabo, grande inimigo dos amigos de Deus, pois o maligno inspira murmura\u00e7\u00f5es contra a pr\u00f3pria Ordem religiosa, queixas contra os irm\u00e3os, desleixo para com os compromissos di\u00e1rios, doen\u00e7as imagin\u00e1rias, satisfa\u00e7\u00e3o dos pr\u00f3prios desejos, t\u00e9dio, des\u00e2nimo etc.<br \/>Certo \u00e9 que o mundo v\u00ea os monges com admira\u00e7\u00e3o, mas nem sempre os consegue compreender bem. Isso para Bernardo pouco importa: deve o monge buscar o autoconhecimento, a fim de reconhecer as suas mis\u00e9rias e n\u00e3o ter vergonha delas, nem do seu modo pessoal de ser e agir naturalmente, como ele pr\u00f3prio agia, por exemplo, ao se emocionar e chorar, no meio de um Cap\u00edtulo, por Geraldo, seu irm\u00e3o rec\u00e9m-falecido, e explicar aos demais monges que n\u00e3o tem \u201ca dureza de uma rocha e seu cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 de bronze\u201d.<br \/>\u00c9 esse lado humano, mas invadido pela gra\u00e7a de Deus, que faz dos mosteiros cistercienses verdadeiras escolas de caridade, no sentido do \u00e1gape, o amor fraterno, servi\u00e7al, desinteressado, capaz de ajudar o homem a chegar aos mais altos degraus da santidade em uma vida s\u00f3bria e escondida em Cristo e que, por isso, ainda, em pleno s\u00e9culo XXI, continua a atrair n\u00e3o s\u00f3 visitantes, mas tamb\u00e9m voca\u00e7\u00f5es, ou seja, homens e mulheres que se sentem chamados(as) \u00e0 doa\u00e7\u00e3o \u00e0 causa do Reino em uma vida orante e silenciosa.<br \/>No fim de sua vida terrena, declarou: \u201cSubi \u00e0 parte superior de mim mesmo e ainda mais alto reina o Verbo Explorador curioso que sou, desci ao fundo de mim mesmo e o encontrei ainda mais baixo. Olhei para fora e o percebi no al\u00e9m de tudo. Olhei para dentro, e pareceu-me muito mais \u00edntimo do que eu mesmo. Quando ele entra em mim, o Verbo n\u00e3o trai sua presen\u00e7a por nenhuma sensa\u00e7\u00e3o. \u00c9 somente o secreto estremecimento do meu cora\u00e7\u00e3o que o patenteia. Meus v\u00edcios fogem, minhas afei\u00e7\u00f5es carnais s\u00e3o dominadas, minha alma se transforma, o homem interior se renova, e em mim est\u00e1 como que a sombra de seu Esplendor\u201d.<br \/>S\u00e3o Bernardo, \u201cno dia 20 de agosto, em sua querida Claraval, cercado de seus monges, entregou sua alma a Deus. Sua reputa\u00e7\u00e3o de santidade e taumaturgo, difundida entre seus contempor\u00e2neos e atestada por seus bi\u00f3grafos, levaram a um r\u00e1pido processo de canoniza\u00e7\u00e3o. J\u00e1 em 1174, decorridos apenas vinte anos de sua morte, o papa Alexandre III o proclamou santo\u201d. (Pe. Luiz Alberto Ruas Santos, O. Cist. Um monge que se imp\u00f4s a seu tempo: pequena introdu\u00e7\u00e3o com antologia \u00e0 vida e obra de S\u00e3o Bernardo, 2001, p. 58).<br \/>Possa o belo exemplo de S\u00e3o Bernardo de Claraval inspirar muitas e santas voca\u00e7\u00f5es \u00e0 Igreja de nossos dias, n\u00e3o s\u00f3 \u00e0 vida mon\u00e1stica, mas a outros g\u00eaneros de vida consagrada, cujo testemunho o mundo muito necessita. Que tenhamos a autenticidade e o entusiasmo de Bernardo de Claraval a propor aos jovens de hoje a alegria da entrega a Deus no servi\u00e7o aos irm\u00e3os e irm\u00e3s.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Celebramos neste dia 20 de agosto a mem\u00f3ria de S\u00e3o Bernardo de Claraval, que nos inspira considerar alguns aspectos de sua vida, especialmente no que diz respeito \u00e0 sua voca\u00e7\u00e3o e seu trabalho com outros jovens por ele atra\u00eddos \u00e0 vida mon\u00e1stica desde os in\u00edcios, pois muito pode nos transmitir em pleno s\u00e9culo XXI. 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