{"id":17055,"date":"2016-08-14T03:00:00","date_gmt":"2016-08-14T06:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/2016\/08\/14\/as-flechas-de-egil\/"},"modified":"2017-05-08T09:41:18","modified_gmt":"2017-05-08T12:41:18","slug":"as-flechas-de-egil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/as-flechas-de-egil\/","title":{"rendered":"As flechas de Egil"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Dentre as maravilhas dos contos populares figura \u201cas tr\u00eas flechas de Egil\u201d. Esse conto escandinavo nos faz pensar at\u00e9 onde v\u00e3o a destreza e a coragem humana. O arqueiro era famoso por sua habilidade com o arco e a flecha, dono de uma pontaria extraordin\u00e1ria e sem rivais \u00e0 altura. At\u00e9 que seu rei lhe fez um desafio inusitado. \u201cSe \u00e9 coisa que um homem possa fazer, hei de faz\u00ea-lo\u201d, disse ao rei. Mas n\u00e3o contava com tamanha maldade num simples desafio.<br \/> Tratava-se de acertar uma ma\u00e7\u00e3, a uma dist\u00e2ncia razo\u00e1vel, posta sobre a cabe\u00e7a de seu pr\u00f3prio filho. Dada a palavra, Egil n\u00e3o poderia voltar atr\u00e1s. Ficou profundamente preocupado e emocionado, mas escolheu seu melhor arco e tr\u00eas de suas melhores e mais certeiras flechas, pois n\u00e3o ignorava o qu\u00e3o dif\u00edcil seria atingir aquele alvo especial. Temia que a emo\u00e7\u00e3o tomasse conta no momento preciso, que um defeito dos aparelhos, um vento imprevisto, um grito, um incidente qualquer lhe tirasse a concentra\u00e7\u00e3o. N\u00e3o podia, de maneira alguma, errar o alvo, cujo pedestal era seu pr\u00f3prio filho.<br \/> No dia combinado, a corte real se fez presente com grande expectativa e alarido. O menino foi amarrado a uma \u00e1rvore e o pai se posicionou no local indicado. Distendeu a arma, tirou uma das flechas da aljava, mirou, disparou&#8230; Sil\u00eancio total. A ma\u00e7\u00e3 cravejada caiu como um p\u00e1ssaro ferido, como um cora\u00e7\u00e3o traspassado e inerte, aos p\u00e9s do filho im\u00f3vel, cujos l\u00e1bios esbo\u00e7avam um imenso sorriso. Ao cumprimentar aquele valoroso pai, cuja fronte derramava suor e l\u00e1grimas, o rei fez um \u00fanico coment\u00e1rio: \u201cPor que tr\u00eas flechas, quando uma s\u00f3 lhe bastava?\u201d E a resposta veio ir\u00f4nica: \u201cSe matasse meu filho, as outras duas seriam para V. Majestade: uma no seu cora\u00e7\u00e3o de pedra e outra na sua cabe\u00e7a insana\u201d. <br \/> Um conto \u00e9 sempre atual. Quase n\u00e3o temos mais reis, mas h\u00e1 muitos governantes por a\u00ed com o mesmo cora\u00e7\u00e3o de pedra e cabe\u00e7a insana quanto ao rei dessa hist\u00f3ria. Pior, se acham soberanos! Reinam sobre a podrid\u00e3o de uma autoridade nem sempre leg\u00edtima ou quase sempre corro\u00edda pelo fasc\u00ednio do poder, da imunidade, do autoritarismo. Desafiam os melhores dentre seus s\u00faditos a lhe proporcionarem espet\u00e1culos, exibirem suas capacidades, destreza no que fazem, como se os m\u00e9ritos que v\u00eam do povo nunca pudessem ultrapassar a mal\u00edcia e pseudo sabedoria de quem os governa. P\u00f5em d\u00favidas sobre a capacidade dum simples cidad\u00e3o. Colocam riscos \u00e0 integridade familiar, \u00e0 vida de muitos, apenas com o intuito de verem reconhecidas suas id\u00e9ias, sua voz de comando, seu poder sobre o povo.<br \/> Tamb\u00e9m acontece no campo das rela\u00e7\u00f5es pessoais, da luta di\u00e1ria pela sobreviv\u00eancia, da eterna guerra surda entre classes sociais, colegas de trabalho, profiss\u00f5es, competi\u00e7\u00f5es esportivas. Quantos se acham maiorais, donos do peda\u00e7o, astutos a ponto de por em risco a vida de inocentes, jogar com o oficio ou a capacidade mais que especial daqueles que cruzam seus caminhos, fazem sombras \u00e0 sua pessoa. <br \/> A ironia na resposta de Egil, no entanto, estampa nossa fragilidade humana, a sede de vingan\u00e7a. N\u00e3o combina com a filosofia crist\u00e3. A n\u00f3s, uma \u00fanica flecha nos basta, pois a m\u00e3o que nos guia \u00e9 a mais justa e certeira do universo, a m\u00e3o de Deus. Ser\u00e1 sempre o Pai o dono de nossas capacidades, nossos tiros certeiros diante de um desafio profano, uma prova \u00e0 nossa f\u00e9. Ou seja, se o mundo nos p\u00f5e \u00e0 prova, \u201cnenhum atleta ser\u00e1 coroado, se n\u00e3o tiver lutado segundo as regras\u201d (II Tim 2, 5). E as regras de Deus nos capacitam: \u201cTornou minha boca semelhante a uma espada afiada, cobriu-me com a sombra de sua m\u00e3o. Fez de mim uma flecha penetrante, guardou-me na sua aljava\u201d (Is 49,2). E toda flecha precisa ser reta, certeira, fiel ao objetivo do arqueiro, nosso Pai. \u201cPois, como as flechas nas m\u00e3os dos guerreiros, assim ser\u00e3o os filhos&#8230; Feliz o homem que assim encheu sua aljava\u201d (Sal 126, 4-5).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dentre as maravilhas dos contos populares figura \u201cas tr\u00eas flechas de Egil\u201d. Esse conto escandinavo nos faz pensar at\u00e9 onde v\u00e3o a destreza e a coragem humana. O arqueiro era famoso por sua habilidade com o arco e a flecha, dono de uma pontaria extraordin\u00e1ria e sem rivais \u00e0 altura. 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