{"id":16655,"date":"2016-07-29T18:37:50","date_gmt":"2016-07-29T21:37:50","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/2016\/07\/29\/o-caminho-a-verdade-e-a-vida\/"},"modified":"2017-05-31T09:54:48","modified_gmt":"2017-05-31T12:54:48","slug":"o-caminho-a-verdade-e-a-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/o-caminho-a-verdade-e-a-vida\/","title":{"rendered":"O Caminho, a Verdade e a Vida"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.catolicanet.com.br\/images\/stories\/noticias\/vt5cqknpgeit7qw1mc.jpg\" border=\"0\" align=\"left\" \/>Cristianismo e Presen\u00e7a<\/p>\n<p>R\u00f4mulo Cyr\u00edaco<\/p>\n<p>Breve pr\u00f3logo<\/p>\n<p>Deus, Criador transcendente, revelou-se corporeamente na realidade sens\u00edvel do homem, como Jesus Cristo, seu Filho Unig\u00eanito. Deus, que sempre estivera Presente, fez-se presente. Construiu, abriu e cruzou uma ponte (alian\u00e7a) nova e eterna entre as dimens\u00f5es divina e terrena, para salvar a humanidade. A ponte foi cruzada \u2014 a partir do Pai, pela presen\u00e7a do Filho \u2014 na unidade do Esp\u00edrito Santo.<\/p>\n<p>O Esp\u00edrito Santo que concebeu o Filho na terra, no ventre da Virgem Maria, leva-nos tamb\u00e9m em sua unidade de volta ao Pai, atrav\u00e9s da revela\u00e7\u00e3o do Filho, que \u00e9 o Caminho. O Esp\u00edrito Santo, que concretizou a presen\u00e7a de Deus ao nosso lado, concretiza tamb\u00e9m a nossa presen\u00e7a ao lado de Deus.<\/p>\n<p>Deus fez-se presente, sensivelmente, mas isso n\u00e3o quer dizer que os humanos j\u00e1 o estivessem, como poder\u00edamos pensar: no pecado, est\u00e1vamos e estamos adoecidos e ausentes. \u00c9 como se estiv\u00e9ssemos aqui, mas n\u00e3o tanto quanto poder\u00edamos. Nem para n\u00f3s mesmos, nem para nosso pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>Em Cristo, presen\u00e7a sens\u00edvel de Deus, recuperamos nossa pr\u00f3pria realidade, espiritual e corp\u00f3rea, amea\u00e7ada pelo pecado.<\/p>\n<p>Cristo resgata nossa integridade e nosso vigor vital.<\/p>\n<p>Convers\u00e3o<\/p>\n<p>Com o cristianismo aprendi, e continuo aprendendo, que o \u00fanico meio poss\u00edvel e verdadeiro de se realizar como pessoa \u2014 de se realizar, isto \u00e9, de se tornar real \u2014 \u00e9 a doa\u00e7\u00e3o aos outros.<\/p>\n<p>A doa\u00e7\u00e3o de n\u00f3s mesmos aos outros \u00e9 o que nos realiza. \u00c9 o que nos torna, mesmo, pessoas: antes disso, somos apenas indiv\u00edduos. \u00c9 isso o que o cristianismo ensina, ou, mais do que ensina: revela.<\/p>\n<p>Deus, que, pleno de poder e realidade, vive a se doar, como Amor, Raz\u00e3o e Gra\u00e7a, cujo poder est\u00e1 n\u00e3o em quanto tem e ret\u00e9m, mas em quanto d\u00e1 e entrega do que \u00c9, fonte inesgot\u00e1vel e inabal\u00e1vel, pede a n\u00f3s suas criaturas que fa\u00e7amos o mesmo: que saiamos da nossa contra\u00e7\u00e3o e constri\u00e7\u00e3o e encontremos nossa realidade mais \u00edntima e profunda fora de n\u00f3s mesmos; nossa vida real, no cuidado e na aten\u00e7\u00e3o ao pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>Este \u00e9 o sentido mesmo de nossa exist\u00eancia, a mensagem \u2014 inscrita em n\u00f3s na alian\u00e7a que Deus faz conosco ao nos criar \u2014 que somos chamados a entregar em vida. A vida \u00e9 uma poderosa mensagem que nos \u00e9 dada para entregarmos uns aos outros, cujo conte\u00fado essencial s\u00f3 se revela propriamente no ato da entrega: de nada adianta mant\u00ea-la no bolso, com apego, pois desse modo n\u00e3o ser\u00e1 conhecida. N\u00e3o podemos guardar essa mensagem: ela \u00e9 a eterna Boa Nova, que n\u00e3o se pode conhecer sozinho, que exige a partilha, pois nunca pertenceu somente a n\u00f3s mesmos, dada por Deus a todos n\u00f3s.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de se tratar de um entendimento racional, isto \u00e9 tamb\u00e9m algo que se comprova na experi\u00eancia, com a gra\u00e7a da convers\u00e3o: a doa\u00e7\u00e3o de n\u00f3s mesmos ao pr\u00f3ximo nos realiza. E essa comprova\u00e7\u00e3o do entendimento na experi\u00eancia evidencia a racionalidade da f\u00e9 crist\u00e3.<\/p>\n<p>Realiza\u00e7\u00e3o pessoal<\/p>\n<p>As mais recentes gera\u00e7\u00f5es humanas cada vez mais buscam a realiza\u00e7\u00e3o \u201cpessoal\u201d: \u00e9 o que buscam com mais sede e fome. A pr\u00f3pria sociedade, e seus discursos mais tendenciais, empurra a todos n\u00f3s nessa dire\u00e7\u00e3o: realizem-se! \u2014 este \u00e9 o maior e \u00fanico objetivo; portanto, pede-se, nunca aceitem e parem nas escolhas e nos v\u00ednculos que ainda n\u00e3o levem a voc\u00eas a completa \u201crealiza\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>No entanto, justamente por essa mentalidade comprometer a capacidade humana de fazer escolhas e v\u00ednculos, banc\u00e1-los, apostar neles e responder a eles \u2014 em todas as \u201c\u00e1reas\u201d da vida, \u00e1reas cada vez mais compartimentadas \u2014 a sede e a fome s\u00f3 aumentam, e precipitam a esp\u00e9cie em um not\u00e1vel e disseminado estado de mis\u00e9ria espiritual e social.<\/p>\n<p>Assim acontece porque tal busca \u00e9 estimulada e se desloca no sentido mais equivocado poss\u00edvel: os indiv\u00edduos buscam a realiza\u00e7\u00e3o pessoal apenas em suas pr\u00f3prias pessoas, em si mesmos, na considera\u00e7\u00e3o incessante e absoluta dos seus desejos, crit\u00e9rios e interesses mais individuais como \u00fanicos valores e par\u00e2metros para suas a\u00e7\u00f5es, rea\u00e7\u00f5es e escolhas. Buscam a realiza\u00e7\u00e3o pessoal na aguda defesa solit\u00e1ria de seus desejos \u00edntimos e apenas desses \u2014 n\u00e3o permitem mesmo que nada nem ningu\u00e9m se coloque no caminho de \u201csua\u201d realiza\u00e7\u00e3o. A realiza\u00e7\u00e3o \u00e9 minha e no caminho dela ningu\u00e9m se colocar\u00e1! \u2014 tal \u00e9 a postura que predomina.<\/p>\n<p>Quanto mais se busca a realiza\u00e7\u00e3o dessa maneira, mais esta se distancia da pessoa, e o que surge no lugar e toma o indiv\u00edduo, esvaziando-o, \u00e9 uma crescente frustra\u00e7\u00e3o \u2014 a sensa\u00e7\u00e3o inc\u00f4moda de uma profundamente tr\u00e1gica irrealiza\u00e7\u00e3o de si. Um tornar-se irreal, que provoca um senso perturbador de desconex\u00e3o do indiv\u00edduo com o mundo, com os lugares, com as coisas, com as pessoas e, logo, consigo mesmo. O indiv\u00edduo busca a si mesmo nas coisas e nas rela\u00e7\u00f5es e, portanto, apenas encontra a si mesmo, por\u00e9m vazio. Como n\u00e3o busca reconhecer e acolher o outro tal como \u00e9 e se apresenta, n\u00e3o pode viver um ser-com o outro, muito menos ainda um ser-para o outro \u2014 n\u00e3o se vincula, e sem a vincula\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode se preencher.<\/p>\n<p>Mesmo em sua religiosidade, muitos indiv\u00edduos mant\u00eam postura semelhante, que confirma em outra \u00e1rea de sua a vida a mentalidade mundana dominante: a religi\u00e3o ou a \u201cespiritualidade\u201d come\u00e7am a aparecer como um outro meio de buscar a si mesmo, de conseguir respostas para seus objetivos pessoais, ou mesmo de receber, magicamente, a pr\u00f3pria realiza\u00e7\u00e3o destes objetivos. N\u00e3o se quer encontrar e amar a Deus, pois Deus, mesmo que nos d\u00ea o livre arb\u00edtrio, tem a Sua vontade sobre n\u00f3s, que talvez n\u00e3o se iguale \u00e0 nossa \u201cpr\u00f3pria\u201d. Isto \u00e9, h\u00e1 uma \u201cespiritualidade\u201d propagada socialmente que est\u00e1 em total desacordo com o \u00fanico verdadeiro e Santo Esp\u00edrito, que j\u00e1 revelou e vem revelando suas leis a uma humanidade cega e surda.<\/p>\n<p>Essas caracter\u00edsticas mencionadas certamente n\u00e3o s\u00e3o exclusivas das gera\u00e7\u00f5es atuais e do que chamamos \u201cmundo moderno\u201d, mas marcam a hist\u00f3ria humana desde o Pecado Original, e talvez, apenas, ganhem formas sofisticadas em nossa sociedade contempor\u00e2nea. Atrav\u00e9s dos tempos, a esp\u00e9cie humana se organiza e reorganiza socialmente para continuar evitando a realiza\u00e7\u00e3o da Verdade de formas mais \u201ceficazes\u201d e logo mais desastrosas. A sociedade tem sido, em nossa hist\u00f3ria, a reg\u00eancia global da n\u00e3o-vida; pois somente no reconhecimento do Criador, no dom rec\u00edproco e na comunh\u00e3o das pessoas \u2014 evitados pelas estruturas e ideologias humanas mais diversas e at\u00e9 contr\u00e1rias \u2014 pode a nossa vida se concretizar como vida verdadeira.<\/p>\n<p>Como uma vida poderia ser verdadeira enquanto n\u00e3o olha para a Verdade de onde toda vida prov\u00e9m? Muitos homens discutem, distorcem e duvidam da realidade da exist\u00eancia de Deus, enquanto Deus \u00e9 e permanece sendo a Rocha, Aquele que \u00c9. Nenhum homem jamais ser\u00e1 t\u00e3o Real quanto Deus. Deveriam discutir e duvidar da realidade de sua pr\u00f3pria exist\u00eancia, os que resistem a Deus, o dono de toda Realidade.<\/p>\n<p>A originalidade crist\u00e3<\/p>\n<p>A\u00ed se encontra a espiritualidade crist\u00e3: esta que pelo Esp\u00edrito Santo nos concretiza como seres verdadeiramente vivos, pois nos faz reencontrar, dentro e fora, a nossa realidade mais profunda e alerta, religando o nosso \u00e2mago \u00e0 nossa presen\u00e7a; a nossa intimidade mais essencial \u00e0 nossa \u201ccom-viv\u00eancia\u201d concreta com os irm\u00e3os em Deus.<\/p>\n<p>A espiritualidade crist\u00e3 faz o Esp\u00edrito irrigar novamente nosso corpo, e ent\u00e3o torna esse corpo mais presente, ancorado e enraizado \u2014 isto \u00e9, real, realizado \u2014 do que nunca antes pudera estar. E essa realiza\u00e7\u00e3o do corpo vivo, atrav\u00e9s do Esp\u00edrito, concretiza-se somente na doa\u00e7\u00e3o de n\u00f3s mesmos ao outro. A doa\u00e7\u00e3o \u00e9 o movimento essencial da Verdade, o movimento no qual a Verdade, que \u00e9 o Amor de Deus, \u00e9 encontrada face a face.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 a originalidade crist\u00e3: n\u00e3o \u00e9 uma espiritualiza\u00e7\u00e3o que tornaria et\u00e9rea a pessoa, elevada para uma dimens\u00e3o n\u00e3o-corp\u00f3rea do puro esp\u00edrito, que negaria ou desfaria o corpo para uma experi\u00eancia individual alheia ao encontro, desfocada da vida presente para focar no al\u00e9m. No cristianismo, o que \u00e9 al\u00e9m (Deus, o Absoluto) fez-se, faz-se e est\u00e1 presente, aqui mesmo, e nos leva a fazer o mesmo ao reconhec\u00ea-Lo.<\/p>\n<p>No ato mesmo da convers\u00e3o, morremos para o mundo da arrog\u00e2ncia humana \u2014 distra\u00eddo para as necessidades originais e primordiais da vida \u2014 para ressuscitarmos em uma vida nova, tal como criada e alimentada por Deus para ser sempre nova. Ressuscitamos como criaturas que come\u00e7am a aprender, pela gra\u00e7a, a dividir com o Criador a responsabilidade pela vida que nos d\u00e1, em uma nova postura de Amor.<\/p>\n<p>A originalidade crist\u00e3 est\u00e1 em que a pr\u00f3pria convers\u00e3o \u00e9 um movimento de doar-se, de sair de si para reconhecer um Outro: reconhe\u00e7o-me criatura do Deus perfeito que se revelou corp\u00f3rea e espiritualmente a mim. E, doando-me a Ele, pois sem Ele eu nada seria, reencontro a mim, e a tudo e a todos. Pela comunh\u00e3o com seu Corpo, e pela presen\u00e7a do seu Esp\u00edrito, acho-me presente no verdadeiro mundo \u2014 que eu antes desconhecia. Mundo criado e revelado somente por Ele, fonte de toda exist\u00eancia.<\/p>\n<p>A convers\u00e3o ao cristianismo nos reintroduz na presen\u00e7a que hav\u00edamos perdido h\u00e1 tanto. Sa\u00edmos do mundo irreal em que a presen\u00e7a se tornou escassa, em que impera a aus\u00eancia, para reencontrarmos mais frequentemente a verdadeira vida, conforme as grada\u00e7\u00f5es de nossa abertura ao Esp\u00edrito, que pode nos realizar objetivamente e nos colocar diante do outro, no encontro pleno.<\/p>\n<p>Quando os que se encontrarem estiverem presentes e vivos pela gra\u00e7a do Esp\u00edrito, a doa\u00e7\u00e3o rec\u00edproca ser\u00e1 igualmente m\u00fatuo acolhimento. E portanto ser\u00e1 uma doa\u00e7\u00e3o-acolhimento ancorada na Verdade \u2014 em que, como fundamento, estar\u00e1 a doa\u00e7\u00e3o de si ao Deus Criador, e o acolhimento \u00edntimo e pessoal da Verdade revelada e inscrita essencialmente em cada um de n\u00f3s. Original doa\u00e7\u00e3o-acolhimento reconhecida como imagem dos encontros humanos e, ent\u00e3o, jamais comprometida em prol de uma conviv\u00eancia artificial ou patol\u00f3gica, em que as emo\u00e7\u00f5es se escondem, ou se imp\u00f5em violentamente, para resguardar qualquer apar\u00eancia. A conviv\u00eancia humana se corrige e se concretiza na Verdade.<\/p>\n<p>Nesse caminho \u2014 o caminho estreito que leva \u00e0 vida \u2014 o movimento de se doar n\u00e3o ser\u00e1 aquele hesitante, que aguarda primeiro o acolhimento humano para s\u00f3 ent\u00e3o se iniciar, fazendo-se parcialmente, esperando tamb\u00e9m o reconhecimento do outro para se completar. O humano n\u00e3o est\u00e1 pronto para acolher e reconhecer, portanto, se h\u00e1 essa espera, a real disposi\u00e7\u00e3o de doa\u00e7\u00e3o nunca se concretizar\u00e1. Ficaremos nos entreolhando, desconfiados, aguardando aquele momento seguro que, pelos padr\u00f5es relacionais distorcidos da sociedade \u2014 o caminho amplo que leva \u00e0 morte \u2014 nunca chega.<\/p>\n<p>Melhor ser\u00e1 confiar que a disposi\u00e7\u00e3o de doa\u00e7\u00e3o gerar\u00e1 a firmeza e a seguran\u00e7a de que precisamos, pois assim \u00e9 com Deus, que ama e d\u00e1 a vida sem cessar, mesmo quando rejeitado por sua criatura, e permanece sendo a Rocha. Fomos acolhidos e reconhecidos por Deus no ato mesmo da cria\u00e7\u00e3o; se estamos enraizados na do\u00e7ura do Esp\u00edrito e na firmeza da Rocha, podemos nos doar \u00e0 vida, \u00e0 vontade.<\/p>\n<p>A verdadeira Filosofia<\/p>\n<p>Em nossa doa\u00e7\u00e3o \u00e0 vida e ao outro, n\u00e3o nos perdemos. N\u00e3o desfazemos a nossa subjetividade para nos tornarmos um com o outro a quem nos doamos: ao contr\u00e1rio, encontramos a nossa verdadeira e mais completa subjetividade na objetividade da doa\u00e7\u00e3o amorosa ao pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>Este dom de si ao outro, apenas ele, pode revelar a n\u00f3s mesmos nosso pr\u00f3prio rosto. Na partilha direta do amor perene que vem de Deus, que \u00e9 a Lei de Deus, encontramos nossa imagem na semelhan\u00e7a com Ele, e encontramos essa imagem e semelhan\u00e7a tamb\u00e9m em nossos irm\u00e3os e irm\u00e3s acolhidos.<\/p>\n<p>Da mesma maneira, na pr\u00f3pria convers\u00e3o \u00e0 f\u00e9 crist\u00e3, a pessoa n\u00e3o desfaz a sua subjetividade para se tornar um com o seu Deus. Quando cr\u00ea, a pessoa se encontra finalmente em sua m\u00e1xima pessoalidade \u2014 como subjetividade plena em presen\u00e7a, ao se reconhecer objetivamente criatura, ajoelhada diante da Presen\u00e7a do Criador, a Santa Pessoa, que, ao revelar-se, revela tamb\u00e9m a n\u00f3s mesmos em nossa irrepet\u00edvel originalidade.<\/p>\n<p>Portanto, na convers\u00e3o, Deus nos d\u00e1 a descobrir que a \u00fanica forma poss\u00edvel e verdadeira de nos realizarmos como pessoas \u00e9 a doa\u00e7\u00e3o, primeiramente ao nosso Criador, e logo tamb\u00e9m aos nossos irm\u00e3os e irm\u00e3s em Deus.<\/p>\n<p>Isto n\u00e3o \u00e9 uma filosofia. N\u00e3o \u00e9 um ponto de vista, uma concep\u00e7\u00e3o de mundo, um sistema de pensamento entre outros. Se pudermos nomear isto uma filosofia, ser\u00e1 porque se trata de um Saber, justamente. Mas n\u00e3o um saber acad\u00eamico, formulado por homens com seus pr\u00f3prios par\u00e2metros. \u00c9 o Saber por excel\u00eancia, que vem do Outro, a n\u00f3s revelado de fora por Aquele que Sabe, o \u00danico que Sabe. O cristianismo, como sabia S\u00e3o Justino M\u00e1rtir, \u00e9 a verdadeira Filosofia.<\/p>\n<p>Jesus Cristo \u00e9 o Logos de Deus. O cristianismo \u00e9 ent\u00e3o esse Saber que n\u00e3o nos \u00e9 imposto de fora, por uma institui\u00e7\u00e3o qualquer \u2014 mas nos \u00e9 Revelado de fora para ser imediatamente redescoberto de dentro. Quantas convers\u00f5es se d\u00e3o porque esse Saber come\u00e7a a ser intu\u00eddo e sentido de dentro, e ent\u00e3o vem a se conectar poderosamente com a express\u00e3o Externa do mesmo Saber nas Leis que nos foram dadas t\u00e3o claramente (e historicamente) por nosso pr\u00f3prio Deus!<\/p>\n<p>Encontramos a n\u00f3s mesmos, finalmente, nesse Saber que nos foi dado de fora como Lei por Deus, porque essas s\u00e3o as Leis divinas inscritas essencialmente em nosso mais profundo ser, em nosso n\u00facleo vivo e espiritual, no sentido mesmo da nossa exist\u00eancia, tal como criada por Deus.<\/p>\n<p>Aquele que d\u00e1 a serem escritas as Leis, na revela\u00e7\u00e3o mosaica e na revela\u00e7\u00e3o crist\u00e3, havia inscrito estas mesmas Leis \u2014 as Leis do Amor \u2014 no \u00e2mago de toda a sua cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>As surpresas que nos aguardam<\/p>\n<p>A verdade contida no n\u00facleo desse Saber que \u00e9 o da pr\u00f3pria Vida \u00e9 esta: \u2014 Vida \u00e9 doa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Assim, uma vida que n\u00e3o se doa n\u00e3o encontra a si mesma e sobrevive, portanto, com uma sensa\u00e7\u00e3o reverberante de mortifica\u00e7\u00e3o e perda.<\/p>\n<p>Da\u00ed que buscar apenas ter, tomar para si, levar a vantagem \u2014 ganhar, receber, acumular \u2014 jamais poder\u00e1 resultar na realiza\u00e7\u00e3o de uma vida, de uma pessoa, mas apenas na perda crescente da vida e da pessoa.<\/p>\n<p>Assim como n\u00e3o poder\u00e1 preencher um ser humano de vida a considera\u00e7\u00e3o apenas dos pr\u00f3prios par\u00e2metros para a satisfa\u00e7\u00e3o incessante, unida \u00e0 incapacidade de lidar com as falhas e trope\u00e7os, e de afirmar a riqueza dos v\u00ednculos mesmo nas frustra\u00e7\u00f5es. Se n\u00e3o soubermos acolher e aceitar a completa pessoalidade do outro em sua dignidade integral, que inclui os acertos e as falhas, as virtudes e os pecados,\u00a0 a frustra\u00e7\u00e3o s\u00f3 poder\u00e1 aumentar. A verdadeira realiza\u00e7\u00e3o inclui a capacidade de acolher os outros nos v\u00ednculos mesmo na incompletude, e isso \u00e9 o que completa os v\u00ednculos, e a satisfa\u00e7\u00e3o provinda deles. Onde o outro falha, a ele eu darei \u2014 \u00e9 a disposi\u00e7\u00e3o que podemos assumir. Sem essa disposi\u00e7\u00e3o, o indiv\u00edduo, n\u00e3o percebendo o erro que origina o vazio de suas experi\u00eancias, pergunta a si mesmo: por que quanto mais eu busco, mais eu perco?<\/p>\n<p>Na convers\u00e3o \u00e0 f\u00e9 crist\u00e3, s\u00e3o dadas por Deus \u00e0 pessoa \u2014 como a mim foram dadas, recentemente, inspirando a escrita destas palavras \u2014\u00a0 oportunidades concretas para descobrir que quando doamos nossa presen\u00e7a aos outros, realizamo-nos; e os outros tamb\u00e9m se realizam, no acolhimento. Quanto mais doamos de n\u00f3s mesmos, mais recebemos, n\u00e3o no sentido material, como \u00e0s vezes se entende a no\u00e7\u00e3o de \u201c\u00e9 dando que se recebe\u201d, mas num sentido vital profundo e imediato. Ao darmos, estamos recebendo, pois ao doarmos presen\u00e7a viva conhecemos a perenidade da fonte. Ent\u00e3o, nos sentimos\u00a0 \u2014 podemos nos sentir, finalmente\u2014\u00a0 reais.<\/p>\n<p>Tornamo-nos pessoas na doa\u00e7\u00e3o de nossas pessoas. N\u00e3o perdemos peda\u00e7os, mas justamente nos completamos, ganhamos na doa\u00e7\u00e3o de n\u00f3s mesmos ao outro os peda\u00e7os que nos faltavam e sa\u00edmos mais \u00edntegros, mais realizados.<\/p>\n<p>A pessoa se realiza na doa\u00e7\u00e3o de si: que doce surpresa, h\u00e1 tanto escondida de n\u00f3s!<\/p>\n<p>S\u00e3o doces e poderosos os mist\u00e9rios de Cristo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fon<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cristianismo e Presen\u00e7a R\u00f4mulo Cyr\u00edaco Breve pr\u00f3logo Deus, Criador transcendente, revelou-se corporeamente na realidade sens\u00edvel do homem, como Jesus Cristo, seu Filho Unig\u00eanito. Deus, que sempre estivera Presente, fez-se presente. Construiu, abriu e cruzou uma ponte (alian\u00e7a) nova e eterna entre as dimens\u00f5es divina e terrena, para salvar a humanidade. A ponte foi cruzada \u2014 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":16654,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-16655","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cotidiano"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16655","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16655"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16655\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":25504,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16655\/revisions\/25504"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/media\/16654"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16655"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16655"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16655"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}