{"id":16028,"date":"2016-07-09T03:00:00","date_gmt":"2016-07-09T06:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/2016\/07\/09\/leigos-em-novos-caminhos\/"},"modified":"2017-05-08T10:33:49","modified_gmt":"2017-05-08T13:33:49","slug":"leigos-em-novos-caminhos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/leigos-em-novos-caminhos\/","title":{"rendered":"Leigos em novos caminhos"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Entre os dias 16 e 18 de junho teve lugar, no Pontif\u00edcio Col\u00e9gio Internacional Mater Ecclesiae, em Roma, a 28\u00aa Assembleia Plen\u00e1ria do Pontif\u00edcio Conselho para os Leigos, atualmente presidido pelo Cardeal Stanislaw Rylko, com o tema \u201cUm dicast\u00e9rio para os leigos: entre a hist\u00f3ria e o futuro\u201d. Tive a oportunidade de participar junto com outros cardeais, arcebispo, bispos, padres e leigos (consagrados, casados, solteiros). <br \/>A Assembleia ocorreu em um momento de mudan\u00e7as, pois, no dia 4 de junho, o Papa Francisco aprovou ad experimentum um novo \u00f3rg\u00e3o da Santa S\u00e9, que \u00e9 o Dicast\u00e9rio para os Leigos, a Fam\u00edlia e a Vida. Ele, conforme o artigo 1 do Estatuto, \u201c\u00e9 competente em mat\u00e9rias que s\u00e3o de pertin\u00eancia da S\u00e9 Apost\u00f3lica para a promo\u00e7\u00e3o da vida e do apostolado dos fi\u00e9is leigos, para o cuidado pastoral da fam\u00edlia e sua miss\u00e3o, segundo o des\u00edgnio de Deus e para a tutela e o apoio da vida humana\u201d.<br \/>Com essa medida, a partir de 1\u00ba de setembro de 2016, os atuais Pontif\u00edcios Conselho para os Leigos e para a Fam\u00edlia deixar\u00e3o de existir, fundindo-se em um \u00fanico organismo na Igreja. Certo \u00e9 que o Pontif\u00edcio Conselho para os Leigos \u00e9 antigo, nasceu de uma ideia do Conc\u00edlio Ecum\u00eanico Vaticano II (1962-1965) a fim de atender a voca\u00e7\u00e3o e a miss\u00e3o do laicato no mundo todo h\u00e1 cinquenta anos, e agora, com a reforma desejada pelo Papa Francisco, os leigos ter\u00e3o um dicast\u00e9rio especial junto com outros temas afins.<br \/>Na Assembl\u00e9ia, falaram o Presidente do Pontif\u00edcio Conselho para os Leigos, Cardeal Stanislaw Rylko, sobre o tema \u201cH\u00e1 50 anos caminhando com os fi\u00e9is leigos\u201d; o Bispo de Fr\u00e9jus-Toulon (Fran\u00e7a), Dom Dominique Rey, falou sobre o tema \u201cVoca\u00e7\u00e3o e miss\u00e3o dos leigos \u00e0 luz do Conc\u00edlio Vaticano II\u201d. Na parte da tarde do primeiro dia, a professora Pilar R\u00edo, docente na Pontif\u00edcia Universidade Santa Cruz, fez uma palestra intitulada \u201cOs leigos cat\u00f3licos h\u00e1 cinquenta anos do Conc\u00edlio Vaticano II\u201d. Na sexta-feira, 17 de junho, o professor Fabrice Hadjadj, diretor do Instituto Europeu de Estudos Antropol\u00f3gicos \u2018Philanthropos\u2019 de Friburgo, Su\u00ed\u00e7a, apresentou suas reflex\u00f5es sobre o tema \u201cSer luz no mundo e sal da terra. Os leigos diante dos desafios de nossos tempos\u201d.<br \/>Depois da palestra, todos os participantes da assembleia do Pontif\u00edcio Conselho para os Leigos foram recebidos em audi\u00eancia pelo Papa Francisco, no Vaticano. Ainda, na parte da tarde, o Prefeito da Congrega\u00e7\u00e3o para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, Cardeal Robert Sarah, falou sobre o tema \u201cA forma\u00e7\u00e3o dos fi\u00e9is leigos: desde a inicia\u00e7\u00e3o \u00e0 maturidade crist\u00e3\u201d. <br \/>S\u00e1bado, 18, \u00faltimo dia da Assembleia, contou com a presen\u00e7a do Bispo de Albano, Dom Marcello Semeraro, Secret\u00e1rio do grupo de cardeais chamados a auxiliar o Papa no processo de reforma da C\u00faria Romana, chamado C9, que na palestra intitulada \u201cO Pontif\u00edcio Conselho para os Leigos no limiar de uma nova etapa de sua hist\u00f3ria\u201d, deu alguns esclarecimentos sobre o desenvolvimento futuro do organismo, al\u00e9m dos debates e apartes concedidos todos os dias do evento, conforme noticiou a R\u00e1dio Vaticano no dia 8 de junho \u00faltimo.<br \/>A tem\u00e1tica desperta reflex\u00e3o sobre tr\u00eas pontos que aparecem, em evid\u00eancia, no nome e, portanto, nas atribui\u00e7\u00f5es do novo Dicast\u00e9rio: Leigos, Fam\u00edlia e Vida. Olhando mais de perto, em linhas gerais, cada um deles, a fim de tamb\u00e9m ajudar o leitor a melhor entender esse novo momento de reforma da C\u00faria Romana, reforma que nada tem a ver com pontos de f\u00e9 ou de moral, mas \u00e9 meramente organizativo da C\u00faria Romana.<br \/>Notemos que o termo leigo, no seu sentido na Teologia da Igreja, designa um povo especial que pertence a Deus porque Ele mesmo assim o quis. Isso o expressa, por exemplo, a \u201cLumen Gentium\u201d n. 9, Constitui\u00e7\u00e3o sobre a Igreja do Conc\u00edlio Vaticano II, ao escrever: \u201cAprouve a Deus santificar e salvar os homens n\u00e3o singularmente, sem nenhuma conex\u00e3o uns com os outros, mas constitu\u00ed-los num povo que O conhecesse na verdade e santamente lhe servisse\u201d.<br \/>Ora, aqui \u00e9 preciso lembrar que para designar povo, a Sagrada Escritura usa sempre, no Novo Testamento, o termo la\u00f3s, ocorrente 140 vezes, e embora nem sempre se refira \u00e0 Igreja, mostra a oposi\u00e7\u00e3o ao voc\u00e1bulo povo em sentido meramente profano ou sociopol\u00edtico (demos). Todo fiel batizado \u00e9 leigo, depois, com o passar do tempo, ir\u00e1 escolher, livremente, a sua voca\u00e7\u00e3o: pode permanecer leigo na consagra\u00e7\u00e3o ou no matrim\u00f4nio ou ainda tornar-se religioso (a) ou sacerdote.<br \/>Todavia, como lembrou o Papa Francisco, antes de qualquer outra miss\u00e3o na Igreja, somos leigos batizados e isso guarda uma unidade fundamental no Povo de Deus, conforme ensinava, j\u00e1 no s\u00e9culo V, Santo Agostinho, Bispo de Hipona, ao escrever aos seus diocesanos: \u201cAtemoriza-me o que sou para v\u00f3s; consola-me o que sou convosco. Pois para v\u00f3s sou bispo, convosco sou crist\u00e3o. Aquilo \u00e9 um dever, isto \u00e9 uma gra\u00e7a. O primeiro \u00e9 um perigo, o segundo, salva\u00e7\u00e3o\u201d. (Serm\u00e3o 340,1).<br \/>Ora, como bem lembra o Documento 105 da CNBB, intitulado Crist\u00e3os leigos e leigas na Igreja e na sociedade, sal da terra e luz do mundo (Mt 5,13-14), o Conc\u00edlio Vaticano II, cujos cinquenta anos h\u00e1 pouco celebramos, foi um divisor hist\u00f3rico ao tratar do leigo em seus documentos e colocar esse maior segmento num\u00e9rico do povo de Deus na vida da Igreja antes da hierarquia. \u00c9 do laicato, voca\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria de todo batizado, que nascem tamb\u00e9m as demais voca\u00e7\u00f5es como dons \u00e0 Igreja. Foi depois do Conc\u00edlio, ent\u00e3o, que surgiu o Pontif\u00edcio Conselho para os Leigos a prestar relevantes servi\u00e7os \u00e0 Igreja. Atuou muito e agora ser\u00e1 criado um novo Dicast\u00e9rio, que une ao dos leigos tamb\u00e9m o trabalho com a Fam\u00edlia e a prote\u00e7\u00e3o da vida em toda a sua esfera.<br \/>Sim, \u00e9 a fam\u00edlia a c\u00e9lula m\u00e3e da sociedade. Sem esse n\u00facleo b\u00e1sico bem alicer\u00e7ado, n\u00e3o h\u00e1 sociedade sadia. Se a fam\u00edlia vai bem, o mundo tamb\u00e9m vai; se vai mal, todo o restante descamba nos maiores precip\u00edcios do crime, da pornografia, da deseduca\u00e7\u00e3o, da falta de valores \u00e9ticos etc. Desse modo, sempre que algo n\u00e3o for bem, \u00e9 preciso que perguntemos: A fam\u00edlia, como vai? Que temos n\u00f3s, leigos e pastores, feito por ela? Qual aplica\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica estamos dando \u00e0 Exorta\u00e7\u00e3o p\u00f3s-sinodal \u201cAmoris Laetitia\u201d do Papa Francisco, rec\u00e9m-publicada? Que aten\u00e7\u00e3o temos dado \u00e0s fam\u00edlias em situa\u00e7\u00e3o especial nas nossas comunidades ou vizinhan\u00e7as: ajudamos ou queremos crucific\u00e1-las?<br \/>Devemos indagar ainda o Poder P\u00fablico, especialmente os representantes que elegemos para as diversas esferas com o nosso voto, sobre como est\u00e3o trabalhando para defender e salvaguardar a fam\u00edlia ou, ent\u00e3o, vigiar, com incans\u00e1vel zelo, as leis e medidas que tentam aprovar, \u00e0s vezes nem sempre de modo claro, contra a fam\u00edlia a fim de enfraquec\u00ea-la cada vez mais e, assim, levar, ainda que inconscientemente, a um maior caos social. Neste ponto, \u00e9 louv\u00e1vel toda iniciativa, dentro da lei e da ordem, a fim de vigiar os passos dos governos e das casas legislativas na defesa da fam\u00edlia e da vida. Ali\u00e1s, a defesa da vida \u00e9 outro ponto unido ao Dicast\u00e9rio dos leigos nesta reforma da C\u00faria Romana.<br \/>Ao falarmos em defesa da vida, temos de ter em mente o que ensina a Igreja. Ela defende o ser humano desde a sua concep\u00e7\u00e3o at\u00e9 o seu fim natural, conforme ficou bem clara e did\u00e1tica no discurso de chegada do Papa Bento XVI ao Brasil, em 2007. Isso significa que h\u00e1 vida desde o instante zero da concep\u00e7\u00e3o, conforme atestam os bi\u00f3logos e genetecistas de nossos dias a partir de Jerome Lejoune, cientista franc\u00eas, descobridor da S\u00edndrome de Down, mas muito perseguido por dizer, com base em dados cient\u00edficos, que a vida come\u00e7a na concep\u00e7\u00e3o. Se n\u00e3o come\u00e7asse a\u00ed, nunca mais come\u00e7aria.<br \/>Sua conclus\u00e3o \u00e9 muito l\u00f3gica: se dos gametas masculino e feminino n\u00e3o vierem todas as informa\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas \u00e0 nova vida, de onde mais viriam? Ele pergunta, ali\u00e1s, em tom desafiador tudo isso e afirma que o beb\u00ea de proveta provou que h\u00e1 vida desde a concep\u00e7\u00e3o.<br \/>No entanto, sabemos o quanto essa vida fr\u00e1gil e indefesa, mas vida aut\u00eantica, \u00e9 de tantas maneiras menosprezada e at\u00e9 condenada \u00e0 lata do lixo da Hist\u00f3ria por meio do aborto consentido ou do descarte de embri\u00f5es congelados, mas rejeitados para implantes: os chamados embri\u00f5es excedentes descartados, como se fossem meros amontoados de c\u00e9lulas. Essa \u201ccultura do descarte\u201d tem sido criticada, com raz\u00e3o, pelo Papa Francisco. O ser humano, criado \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a de Deus, torna-se joguete nas m\u00e3os de seus irm\u00e3os como se fossem pe\u00e7as de reposi\u00e7\u00e3o: este merece viver, aquele n\u00e3o; este tem as caracter\u00edsticas gen\u00e9ticas que preferimos, aquele n\u00e3o etc. \u00c9 uma sele\u00e7\u00e3o que leva \u00e0 eugenia disfar\u00e7ada em pleno s\u00e9culo XXI.<br \/>E n\u00e3o para a\u00ed. Tamb\u00e9m nossos idosos em n\u00e3o poucos pa\u00edses s\u00e3o amea\u00e7ados pela lei da eutan\u00e1sia. Quem n\u00e3o produz mais, em vez de ser cuidado com carinho n\u00e3o s\u00f3 por gratid\u00e3o pelo que j\u00e1 fez, mas pela dignidade intr\u00ednseca de ser filho de Deus, \u00e9 rejeitado pela fam\u00edlia e pela sociedade, \u00e0s vezes at\u00e9 pelos \u00f3rg\u00e3os estatais que deveriam cuidar dele. \u00c9 condenado \u00e0 morte como um estorvo na vida social&#8230;<br \/>Ora, irm\u00e3os e irm\u00e3s, n\u00e3o podemos nos esquecer da bela Carta aos Anci\u00e3os que o Papa S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II escreveu, nem das constantes mensagens do Papa Francisco aos av\u00f3s, pedindo que eles sejam valorizados na fam\u00edlia e na sociedade. Ali\u00e1s, ele mesmo se referiu ao Papa em\u00e9rito e idoso Bento XVI como um \u201cnono s\u00e1bio\u201d, aquele que tem algo a nos ensinar pelos seus anos de vida, experi\u00eancias acumuladas. N\u00e3o podem ser descartados, mas, sim, integrados ou reintegrados \u00e0 vida social, mesmo com suas for\u00e7as ex\u00edguas no corpo e na mente. Jamais perdem a sua dignidade.<br \/>Patrocinar o fim da fam\u00edlia como Deus quis, o fim da vida indefesa e inocente no ventre materno ou o assassinato de idosos ou pessoas com doen\u00e7as incur\u00e1veis \u00e9 demonstrar que a humanidade regrediu \u00e0 barb\u00e1rie pr\u00e9-crist\u00e3 atestada por escritores que se debru\u00e7aram sobre o assunto. O cristianismo \u00e9 vida a derrotar a morte.<br \/>Terminemos com a constata\u00e7\u00e3o dessa verdadeira revolu\u00e7\u00e3o moral oferecida pelo Cristianismo. Escreve o fil\u00f3sofo S\u00eaneca, considerando comuns os crimes que se cometia na Roma n\u00e3o crist\u00e3: \u201cQuando matamos c\u00e3es furiosos&#8230; e submergimos as crian\u00e7as fracas ou monstruosas, n\u00e3o o fazemos movidos pela c\u00f3lera, mas pela raz\u00e3o\u201d (Sobre a Ira I, 1.5). Ora, o Cristianismo reformulou esse pensamento, ensinando a dignidade de cada homem e mulher da Terra desde o ventre materno at\u00e9 o seu fim natural, conforme diz um renomado historiador.<br \/>\u201cO pai pag\u00e3o que incita a ama a lan\u00e7ar o filho rec\u00e9m-nascido ao lixo da rua&#8230; O m\u00e1rtir crist\u00e3o Le\u00f4nidas, que descobre o peito de seu filhinho Or\u00edgenes adormecido e o beija com venera\u00e7\u00e3o como sendo templo do Esp\u00edrito Santo; eis concretizados dois mundos, duas filosofias\u201d (Alla ricerca della fede. Assissi, 1969, p. 276).<br \/>Por essas raz\u00f5es, fazemos votos de que a reforma proposta para a C\u00faria Romana produza frutos entre o povo de Deus na promo\u00e7\u00e3o do laicato, na defesa da fam\u00edlia, santu\u00e1rio da vida, e da pr\u00f3pria vida em si, especialmente a mais amea\u00e7ada pela cultura do descarte de nossos tempos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entre os dias 16 e 18 de junho teve lugar, no Pontif\u00edcio Col\u00e9gio Internacional Mater Ecclesiae, em Roma, a 28\u00aa Assembleia Plen\u00e1ria do Pontif\u00edcio Conselho para os Leigos, atualmente presidido pelo Cardeal Stanislaw Rylko, com o tema \u201cUm dicast\u00e9rio para os leigos: entre a hist\u00f3ria e o futuro\u201d. 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