{"id":15629,"date":"2016-06-27T13:10:26","date_gmt":"2016-06-27T16:10:26","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/2016\/06\/27\/a-galinha-do-vizinho\/"},"modified":"2017-05-08T11:08:25","modified_gmt":"2017-05-08T14:08:25","slug":"a-galinha-do-vizinho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/a-galinha-do-vizinho\/","title":{"rendered":"A galinha do vizinho"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">A can\u00e7\u00e3o infantil nos diz que ela bota ovo amarelinho. Uma pepita de ouro por dia! Envolta na mais pura clara, qual n\u00e9ctar dos deuses, sua gema n\u00e3o geme, mas brilha tanto quanto o ouro mais puro das minas de Salom\u00e3o. Parece conto infantil, mas \u00e9 pura realidade. Num mundo globalizado, onde tudo o que acontece no quintal alheio chega ao conhecimento de todos, at\u00e9 os ovos da pobre galin\u00e1cea que cisca seus entulhos \u00e9 capaz de nos despertar a cobi\u00e7a. Porque os melhores ovos est\u00e3o no quintal vizinho e n\u00e3o no nosso?<br \/> Vivemos tempos de gan\u00e2ncia e cobi\u00e7a extremas. Se o t\u00eanis do amigo tem uma estrela a mais, um mil\u00edmetro de sofistica\u00e7\u00e3o e tecnologia lhe altera o valor, o meu tem que ser melhor. Se a grife que o outro usa \u00e9 mercadologicamente melhor, hei de encontrar outra mais rara, mais cara. Se o perfume lhe marca a presen\u00e7a pela exclusividade do aroma, o meu h\u00e1 de ser t\u00e3o ou mais personificado que anunciar\u00e1 minha presen\u00e7a antes mesmo de estar presente. Se o carro que me veste (sim, carro hoje \u00e9 indument\u00e1ria) n\u00e3o despertar maiores exclama\u00e7\u00f5es estar\u00e1 chegada a hora de substitu\u00ed-lo por outro mais moderno. Nossos referenciais ultrapassaram a beleza da simplicidade que veste os cora\u00e7\u00f5es mais puros. J\u00e1 n\u00e3o sou eu quem vive, \u00e9 o mundo que vive em mim. Ser e ter est\u00e3o na ess\u00eancia da moda e do consumo que nos alimenta. Nada seremos sem o peso dessas medidas de sucesso.<br \/> Paradoxalmente, n\u00e3o \u00e9 essa a ess\u00eancia da vida. H\u00e1 mais riquezas onde a sofistica\u00e7\u00e3o escasseia. O excesso tecnol\u00f3gico dos dias atuais, muitas vezes, nos faz recordar com lirismo dias passados. Quem nunca aspirou pela simplicidade. Pela objetividade da comunica\u00e7\u00e3o via correio \u2013 tinha at\u00e9 os \u201celegantes\u201d que torpedeavam cora\u00e7\u00f5es apaixonados \u2013 do simples bot\u00e3o dial de nossos velhos aparelhos eletr\u00f4nicos, do velho coador de pano que simplesmente coava, sem apitos, sem desperd\u00edcios, do feij\u00e3o sem infla\u00e7\u00e3o, do \u201camarelinho\u201d da carij\u00f3, direto do produtor ao consumidor. Mas saudade n\u00e3o p\u00f5e a mesa. Todavia, inveja ainda mata Abel.<br \/> Sinto claramente a intensifica\u00e7\u00e3o desse crime fraticida. O excesso de conforto est\u00e1 matando o respeito ao que \u00e9 do outro. A inveja tornou-se grande aliada da ambi\u00e7\u00e3o pessoal. At\u00e9 no campo sentimental, cobi\u00e7a ao que n\u00e3o nos pertence torna-se um desafio que bem alimenta o orgulho pessoal, esse que s\u00f3 sabe desrespeitar vit\u00f3rias e conquistas que n\u00e3o sejam pr\u00f3prias. Mata-se n\u00e3o s\u00f3 fisicamente, mas moral, espiritual e at\u00e9 sentimentalmente o outro, porque aquilo que desejamos s\u00f3 se conquista com a derrota, a usurpa\u00e7\u00e3o, a elimina\u00e7\u00e3o do outro que trilha um mesmo caminho nosso. A competitividade toma conta. A esportividade j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 esporte, mas guerra! Nesse jogo, que ven\u00e7a o melhor, que brilhe o mais esperto, que o p\u00f3dio seja do mais poderoso, aquele que \u00e9 forte porque pode, mas por dentro \u00e9 t\u00e3o fraco quanto banana podre, vazio como ovo choco, gorado. Belo por fora, f\u00e9tido por dentro!<br \/> Em tempos de competi\u00e7\u00f5es ol\u00edmpicas, que se reavaliem nossos jogos de vida. Ou de morte. As conquistas do vizinho s\u00e3o dele. As nossas talvez lhes despertem admira\u00e7\u00f5es tanto quanto admiramos e aplaudimos as dele. Essa reciprocidade \u00e9 a alegria que nos falta numa sociedade estritamente materialista e consumista. N\u00e3o se deixe instrumentalizar pela ambi\u00e7\u00e3o sem medidas. Somos mais que meros competidores. Somos iguais, mas distintamente diferentes nos sonhos, na ambi\u00e7\u00e3o, no instinto de reconhecer nossos m\u00e9ritos e respeitar os m\u00e9ritos do outro. \u201cDe fato, os desejos dos instintos ego\u00edstas est\u00e3o em revolta contra Deus, porque n\u00e3o se submetem \u00e0 lei de Deus\u201d (Rom 8,7).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A can\u00e7\u00e3o infantil nos diz que ela bota ovo amarelinho. Uma pepita de ouro por dia! 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