{"id":15359,"date":"2016-06-17T13:50:41","date_gmt":"2016-06-17T16:50:41","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/2016\/06\/17\/a-coisa-mulher-a-coisa-homem-a-coisa-estupro-e-a-pessoa\/"},"modified":"2017-05-31T10:22:29","modified_gmt":"2017-05-31T13:22:29","slug":"a-coisa-mulher-a-coisa-homem-a-coisa-estupro-e-a-pessoa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/a-coisa-mulher-a-coisa-homem-a-coisa-estupro-e-a-pessoa\/","title":{"rendered":"A coisa-mulher, a coisa-homem, a coisa-estupro\u2026 E a pessoa?"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.catolicanet.com.br\/images\/stories\/noticias\/eyes.jpg\" border=\"0\" align=\"left\" \/>A \u201ccoisa\u201d n\u00e3o vai melhorar at\u00e9 aprendermos certas \u201ccoisas\u201d sobre \u201cn\u00e3o ser coisas\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os estupros, inclusive os \u201ccoletivos\u201d, fazem parte quase \u201ccorriqueira\u201d, h\u00e1 v\u00e1rios anos, das not\u00edcias internacionais sobre pa\u00edses como a \u00cdndia e dezenas de na\u00e7\u00f5es da \u00c1frica. Nos \u00faltimos meses, a realidade e extens\u00e3o deste horror tem sido desmascarada tamb\u00e9m no Brasil, pa\u00eds com ac\u00famulo de casos clamorosos e bastante mais numerosos do que at\u00e9 agora se supunha.<\/p>\n<p>O fen\u00f4meno pavoroso do estupro tamb\u00e9m grassa em pa\u00edses considerados desenvolvidos: nos Estados Unidos, por exemplo, gerou intensa como\u00e7\u00e3o nacional o recente julgamento do jovem Brock Turner, que estuprou uma jovem estudante inconsciente no campus da Universidade de Stanford.<\/p>\n<p>Vamos come\u00e7ar por este caso e por uma constata\u00e7\u00e3o \u00f3bvia.<\/p>\n<p>O que Brock Turner fez, mesmo para quem n\u00e3o acredita em Deus nem aceita a no\u00e7\u00e3o de pecado, pode ser entendido com relativa facilidade como um ato de pecado: ele tratou um ser humano como coisa.<\/p>\n<p>Por meio do personagem Granny Weatherwax, do seu romance \u201cCarpe Jugulum\u201d, o escritor Terry Pratchett reflete:<\/p>\n<p>\u2013 E o pecado, meu jovem, \u00e9 quando voc\u00ea trata pessoas como coisas. Incluindo a si mesmo. Isto \u00e9 o pecado.<br \/>\u2013 \u00c9 muito mais complicado que isso\u2026<br \/>\u2013 N\u00e3o. N\u00e3o \u00e9. Quando as pessoas dizem que as coisas s\u00e3o muito mais complicadas, \u00e9 sinal de que elas est\u00e3o preocupadas com o risco de n\u00e3o gostarem da verdade. Pessoas reduzidas a coisas: \u00e9 a\u00ed que tudo come\u00e7a.<br \/>\u2013 Ah, mas eu tenho certeza de que existem crimes piores.<br \/>\u2013 Mas eles sempre come\u00e7am quando se pensa nas pessoas como coisas.<\/p>\n<p>Terry Pratchett \u00e9 ateu declarado. Mesmo assim, ele aceitou a no\u00e7\u00e3o de pecado e identificou um dos seus aspectos mais precisos.<\/p>\n<p>O jovem Brock Turner apresentou a si mesmo como \u201cv\u00edtima da cultura da festa em Stanford\u201d, cultura essa que o teria levado a ver uma pessoa como coisa e a us\u00e1-la de forma criminosa.<\/p>\n<p>O pai de Brock, Dan A. Turner, real\u00e7ou a raiz desse pecado ao revelar que ele tamb\u00e9m via n\u00e3o s\u00f3 a v\u00edtima como coisa, mas ainda ao pr\u00f3prio filho como coisa; uma coisa que pertencia a ele e que, portanto, devia ser tratada com cuidado apesar daquele \u201cato de 20 minutos\u201d \u2013 ele se referia a nada menos que o estupro.<\/p>\n<p>\u201cA vida dele (do filho) nunca mais vai ser a que ele sonhou e trabalhou t\u00e3o duro para conseguir\u201d, escreveu Dan Turner, argumentando que o rapaz deveria receber liberdade condicional. \u201c(A pris\u00e3o) \u00e9 um pre\u00e7o alto demais por um ato de 20 minutos em seus 20 anos de vida\u201d.<\/p>\n<p>Uma das raz\u00f5es que levou o caso a chamar a aten\u00e7\u00e3o mundial foi que, depois de um j\u00fari condenar Brock Turner por seus crimes, o juiz Aaron Persky, citando a idade do rapaz e a sua falta de antecedentes criminais, concedeu-lhe uma senten\u00e7a considerada branda, de seis meses na cadeia local, porque \u201ca pena de pris\u00e3o teria um impacto severo sobre ele (\u2026) Eu acho que ele n\u00e3o vai ser um perigo para os outros\u201d.<\/p>\n<p>Acontece que Brock Turner j\u00e1 foi, claramente, um perigo para uma pessoa. Uma pessoa n\u00e3o \u00e9 suficiente?<\/p>\n<p>O juiz Aaron Persky tamb\u00e9m pecou. Ele n\u00e3o viu uma jovem mulher vitimada de maneira tremendamente indigna pelas m\u00e3os de Brock Turner. Ele viu um n\u00famero. Ele viu um dado de vitimiza\u00e7\u00e3o criminal. Sua senten\u00e7a n\u00e3o esteve em sintonia com uma pessoa, mas com uma coisa.<\/p>\n<p>H\u00e1 nesta hist\u00f3ria muitas manifesta\u00e7\u00f5es do fen\u00f4meno que nos leva a ver pessoas como coisas, mas isto n\u00e3o deve surpreender-nos: \u00e9 a tend\u00eancia social. As faculdades veem os potenciais alunos como coisas, como n\u00fameros que v\u00e3o satisfazer as suas v\u00e1rias cotas de necessidades: as coisas-atletas, as coisas-f\u00eameas, as coisas-minorias. A sociedade incentiva as mesmas polariza\u00e7\u00f5es: n\u00e3o incentiva que as pessoas vejam o pr\u00f3ximo como um ser humano com dignidade intr\u00ednseca, e sim como uma coisa-g\u00eanero, uma coisa-mortadela, uma coisa-coxinha, uma coisa-n\u00famero. As pessoas s\u00e3o vistas, largamente, como categorias \u00e0s quais devemos opor-nos ou apoiar; como objetos a serem esmagados ou explorados. As crian\u00e7as s\u00e3o induzidas a se tornarem coisas de sucesso mediante um sem-fim de atividades e treinamentos que as fa\u00e7am ser aceitas nas melhores escolas, c\u00edrculos e empresas; que as transformem em coisas capazes de dar orgulho aos seus pais.<\/p>\n<p>\u201cQuerido, querida, voc\u00ea pode ser qualquer coisa e conseguir tudo\u201d: a esta narrativa, patentemente falsa, \u00e9 preciso opor a efic\u00e1cia do \u201cn\u00e3o\u201d: \u201cN\u00e3o, querido, n\u00e3o, querida, voc\u00ea n\u00e3o pode ser \u2018qualquer coisa\u2019 nem pode conseguir tudo. Mas pode conseguir a sua pr\u00f3pria parcela de meios que ajudem voc\u00ea a ser a melhor pessoa que voc\u00ea pode e deve ser\u201d \u2013 em rela\u00e7\u00e3o ao seu pr\u00f3prio potencial e grandeza, n\u00e3o em compara\u00e7\u00e3o com a aparente grandeza e potencial dos outros.<\/p>\n<p>A coisifica\u00e7\u00e3o do outro \u00e9 o exemplo mais gritante daquilo que nunca se pode \u201cconseguir\u201d como meio pr\u00f3prio. At\u00e9 aprendermos isto de verdade, como sociedade, as \u201ccoisas\u201d n\u00e3o tender\u00e3o a melhorar.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 algo ainda mais b\u00e1sico a corrigirmos: a coisifica\u00e7\u00e3o de n\u00f3s mesmos. Se continuarmos alimentando o h\u00e1bito de pensar em n\u00f3s como meras coisas (e na humanidade como uma \u201ccoisa odiosa gen\u00e9rica\u201d em vez de uma fam\u00edlia de pessoas que precisam ser ajudadas na sua realiza\u00e7\u00e3o pessoal plena), a mudan\u00e7a ser\u00e1 muito mais dif\u00edcil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: Aleteia<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u201ccoisa\u201d n\u00e3o vai melhorar at\u00e9 aprendermos certas \u201ccoisas\u201d sobre \u201cn\u00e3o ser coisas\u201d Os estupros, inclusive os \u201ccoletivos\u201d, fazem parte quase \u201ccorriqueira\u201d, h\u00e1 v\u00e1rios anos, das not\u00edcias internacionais sobre pa\u00edses como a \u00cdndia e dezenas de na\u00e7\u00f5es da \u00c1frica. 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