{"id":14910,"date":"2016-06-02T11:54:10","date_gmt":"2016-06-02T14:54:10","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/2016\/06\/02\/misericordia-e-misericordiosos\/"},"modified":"2017-05-08T11:58:27","modified_gmt":"2017-05-08T14:58:27","slug":"misericordia-e-misericordiosos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/misericordia-e-misericordiosos\/","title":{"rendered":"Miseric\u00f3rdia e misericordiosos"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">No dia festivo do Cora\u00e7\u00e3o de Jesus, n\u00f3s celebramos tamb\u00e9m o Dia Mundial de Ora\u00e7\u00f5es pela Santifica\u00e7\u00e3o do Clero. Todas as par\u00f3quias s\u00e3o convidadas a inserir essa inten\u00e7\u00e3o em suas ora\u00e7\u00f5es nessa sexta-feira do Cora\u00e7\u00e3o de Jesus. Por\u00e9m, com os sacerdotes, n\u00f3s fazemos a comemora\u00e7\u00e3o no dia anterior, na quinta-feira. Por isso, nesse dia celebramos na Igreja da Divina Miseric\u00f3rdia, em Vila Valqueire, um dia especial em nossa Arquidiocese de S\u00e3o Sebasti\u00e3o do Rio de Janeiro: o dia de ora\u00e7\u00f5es pela santifica\u00e7\u00e3o do clero com o pr\u00f3prio clero, e o ano do Jubileu da Divina Miseric\u00f3rdia no Santu\u00e1rio Arquidiocesano pr\u00f3prio. Somos chamados a fazer experi\u00eancia da miseric\u00f3rdia e ser, de um modo muito particular, misericordiosos para com o nosso povo sofrido, onde quer que atuem. <br \/>Nesse sentido, vamos buscar luzes na Par\u00e1bola do Bom Samaritano (Lc 10,25-37), cuja riqueza de ensinamentos \u00e9 imensa, e tenho certeza de que muita inspira\u00e7\u00e3o nos vir\u00e1 pela Palavra acolhida. Existem na hist\u00f3ria da Igreja muitos santos e santas que trataram desse assunto. Uma Santa ligada \u00e0 vida mon\u00e1stica nos ajudar\u00e1 nessa reflex\u00e3o. Aqui nos valemos do livro: Recorramos a Santa Gertrudes de Helfta! M\u00edstica, mensageira da Divina Miseric\u00f3rdia e amiga \u00edntima do Sagrado Cora\u00e7\u00e3o de Jesus. S\u00e3o Paulo\/SP. Ed. Ixtlan, 2016.<br \/>O contexto que d\u00e1 ensejo a essa par\u00e1bola \u00e9 o seguinte: Jesus est\u00e1 em Jeric\u00f3 (ao Norte do Mar Morto), ensinando em uma sinagoga, quando um doutor da Lei lhe dirige uma pergunta embara\u00e7osa, o que, ali\u00e1s, j\u00e1 era comum (cf. Mt 22,15-22. 23-33. 34-40; 21,23-27 etc.). O especialista em legisla\u00e7\u00e3o quer saber o que deve fazer para ganhar a vida eterna ou a salva\u00e7\u00e3o (quest\u00e3o central a todo ser humano).<br \/>Talvez o s\u00e1bio esperasse uma resposta que lhe elencasse as leis, como fizera Jesus ao jovem rico (cf. Mc 10,19). A isso, o legista responderia que j\u00e1 as observava desde pequeno; ou, ent\u00e3o, ele esperava que o Senhor lhe desse uma senten\u00e7a moral, fundamentada em alguma escola rab\u00ednica. O doutor da Lei ofereceria semelhante interpreta\u00e7\u00e3o de outra escola de rabinos. Estaria armado alto debate teol\u00f3gico-jur\u00eddico.<br \/>No entanto, o Senhor Jesus foge das alternativas comuns e prop\u00f5e ao interlocutor uma quest\u00e3o com base na pr\u00f3pria Lei de Mois\u00e9s, que todo judeu defendia com ardor: \u201cQue est\u00e1 escrito na Lei? Como se l\u00ea?\u201d \u2013 O s\u00e1bio judeu respondeu de um modo inteligente: para ter a vida eterna \u00e9 necess\u00e1rio amar a Deus (preceito do chamado Shem\u00e1 ou do Ouve Israel), contido em Dt 6,4-9. Contudo, foi al\u00e9m, acrescentando outra norma que n\u00e3o est\u00e1 no Shem\u00e1, mas, sim, em Lv 19,17s. Ela ordena amar tamb\u00e9m o pr\u00f3ximo (cf. Lc 10,27). Queria o legista, desse modo, se enquadrar na mesma vis\u00e3o da Lei que Jesus passava, ou seja: ame a Deus e ao pr\u00f3ximo!<br \/>Ora, o Senhor Jesus ficou contente e disse ao jurista: \u201cFaze isto e viver\u00e1s!\u201d. Isso levou o pr\u00f3prio indagante a responder sua quest\u00e3o (cf. Mt 22,18-22) e reafirmou que a plenitude da Lei \u00e9 a Caridade (cf. Gl 5,14).<br \/>No entanto, o estudioso n\u00e3o se deu por satisfeito e armou mais uma quest\u00e3o para o Senhor: \u201cE quem \u00e9 o meu pr\u00f3ximo\u201d? Se Jesus respondesse ser qualquer um, o expert em Direito diria que a Lei restringia o conceito de pr\u00f3ximo (re\u2019a) e mudaria o foco do debate, mas o Senhor contorna outra vez a quest\u00e3o e conta-lhe uma par\u00e1bola usando o pr\u00f3prio contexto onde eles est\u00e3o: Jeric\u00f3.<br \/>Sim, diz Jesus que um homem (judeu) descia de Jerusal\u00e9m a Jeric\u00f3 e a\u00ed foi assaltado, espancado e abandonado semimorto. Passaram por ele dois homens religiosos, o sacerdote (ministro superior do culto) e o levita (ministro inferior do culto), portanto homens que deviam ensinar e praticar a caridade, mas nada fizeram em prol do infeliz. Eram mais complacentes com um asno ca\u00eddo ao qual a lei ordenava erguer (cf. \u00cax 23,50) do que com um ser humano na mesma condi\u00e7\u00e3o.<br \/>H\u00e1 questionamentos sobre as raz\u00f5es pelas quais o assaltado n\u00e3o foi ajudado: julgavam-no morto e se tocassem nele ficariam impuros? (cf. Nm 6,9; 19,11-13; 31,19; Lv 21,1s.11; Ag 2,13). Imaginaram que era um pag\u00e3o (estrangeiro)? Ou, ainda, tiveram medo de tamb\u00e9m se tornarem as novas v\u00edtimas dos bandidos? \u2013 Como quer que seja, n\u00e3o houve ajuda.<br \/>No entanto, passou por ali tamb\u00e9m um samaritano (da\u00ed o nome da par\u00e1bola), que era odiado pelos judeus e tamb\u00e9m os odiava (cf. Eclo 50,25s; Jo 4,9), e este, ao contr\u00e1rio do levita e do sacerdote, cheio de compaix\u00e3o (= sofrer com), se p\u00f5e a ajudar o assaltado. Derrama em suas feridas \u00f3leo e vinho, medica\u00e7\u00e3o caseira no Oriente (cf. Is 1,6), e, depois dos primeiros socorros, leva o ferido a um albergue, comum na regi\u00e3o.<br \/>L\u00e1 pernoitou cuidando do ferido e, no dia seguinte, antes de partir, deixou ao dono da hospedaria dois den\u00e1rios, valor correspondente ao pagamento pelo trabalho de dois dias (cf. Mt 20,2). Isso seria suficiente para o momento, por\u00e9m, o samaritano deixou recomenda\u00e7\u00f5es para que o homem ferido fosse bem cuidado, prometendo pagar na volta os poss\u00edveis gastos adicionais. Era dif\u00edcil um viajante n\u00e3o voltar para casa pelo mesmo caminho (cf. Mt 2,12).<br \/>Depois de contar o ocorrido com tanta riqueza de detalhes, Nosso Senhor se volta para o doutor da Lei e pergunta: \u201cQual dos tr\u00eas, em sua opini\u00e3o, foi o pr\u00f3ximo do homem que caiu nas m\u00e3os dos assaltantes\u201d? (v. 36). Aqui h\u00e1 um fato muito marcante: o pr\u00f3prio questionador de antes \u00e9 agora questionado. Todavia, o legista viu-se embara\u00e7ado. N\u00e3o podia responder \u201co samaritano\u201d, dado que este era um termo impronunci\u00e1vel aos judeus. Disse apenas que fora pr\u00f3ximo do assaltado \u201caquele que usou de miseric\u00f3rdia para com ele\u201d (v. 37). Jesus ent\u00e3o concluiu: \u201cVai, e tamb\u00e9m tu faze o mesmo\u201d.<br \/>Da par\u00e1bola do Bom Samaritano podemos assinalar as seguintes li\u00e7\u00f5es, breves, mas importantes:<br \/>a) o pr\u00f3ximo a ser amado \u00e9 todo ser humano, sem distin\u00e7\u00e3o alguma. (diferente do que a Tor\u00e1 colocava como limite);<br \/>b) se todo indiv\u00edduo \u00e9 merecedor da caridade, ent\u00e3o o problema n\u00e3o est\u00e1, de modo algum, no necessitado, mas, sim, em n\u00f3s que escolhemos, n\u00e3o raras vezes, a quem fazer e a quem n\u00e3o fazer o bem. Pensamos mais ou menos assim: se ele n\u00e3o fosse um dependente qu\u00edmico, eu o ajudaria; ou, se ela n\u00e3o estivesse na prostitui\u00e7\u00e3o, eu teria pena dela, ou ainda: caso fosse um ser humano bom, eu at\u00e9 estenderia minha m\u00e3o etc. Somos seletistas. Precisamos de convers\u00e3o!<br \/>c) o samaritano n\u00e3o pensou que o judeu ca\u00eddo era seu inimigo, mas, por amor de Deus, foi compassivo para com ele, salvando-lhe a vida em sua obra de miseric\u00f3rdia. Deu exemplo de caridade. Exemplo que o mundo, cansado de tantas teorias filos\u00f3fico-religiosas, quer ver e, quem sabe, imitar no seu dia a dia.<br \/>Daqui vemos que a par\u00e1bola nos provoca em tr\u00eas pontos importantes: o Sacramento da Penit\u00eancia, a acolhida dos que nos procuram e a caridade material em nosso meio.<br \/>1) O Sacramento da Penit\u00eancia \u00e9, com justa raz\u00e3o, chamado por alguns autores de Espiritualidade ou Teologia Sacramental de \u201ctribunal da miseric\u00f3rdia divina\u201d, pois ali \u00e9 o \u00fanico tribunal no mundo, ontem e hoje, que o r\u00e9u sai, invariavelmente, perdoado. Mais: ele s\u00f3 n\u00e3o recebe o perd\u00e3o se n\u00e3o quiser, ou seja, caso deseje permanecer no pecado e n\u00e3o mudar de vida. Do contr\u00e1rio, ouvir\u00e1 do confessor a consoladora senten\u00e7a: \u201cEu te absolvo dos teus pecados em nome do Pai, do Filho e do Esp\u00edrito Santo\u201d. Em nome de Deus Uno e Trino, o padre, por ordem divina (cf. Jo 20,23), o perdoa e ele volta para a sua faina di\u00e1ria sadio e restabelecido na gra\u00e7a divina, caso estivesse em pecado grave.<br \/>O sacerdote \u00e9 chamado a ser n\u00e3o um julgador frio que contabiliza as penas do pecador, mas um pai misericordioso que n\u00e3o barganha a doutrina da f\u00e9 no mercado, como recentemente lembrou o Papa Francisco, mas que sabe, sem abrir m\u00e3o do patrim\u00f4nio da f\u00e9 e da moral da Igreja, entender as falhas humanas, come\u00e7ando pelas suas pr\u00f3prias. Afinal, quem de n\u00f3s n\u00e3o temos nossos defeitos, pecados, reca\u00eddas na vida da gra\u00e7a, em demanda da p\u00e1tria definitiva e n\u00e3o necessitamos do poderoso e misericordioso aux\u00edlio divino?<br \/>O Papa Francisco nos d\u00e1, uma vez mais, o grande exemplo. Sim, o jornalista lhe pergunta: \u201cCom que frequ\u00eancia se confessa\u201d? e o Papa responde: \u201cA cada 15 ou 20 dias. Confesso-me a um padre franciscano, o padre Blanco, que tem a bondade de vir c\u00e1 confessar-me\u201d (L\u2019Osservatore Romano, 17\/09\/15, p. 18). Desnecess\u00e1rio \u00e9 explicar aqui que s\u00f3 temos a obriga\u00e7\u00e3o moral de confessar os pecados graves, mas \u00e9 muito salutar que confessemos tamb\u00e9m os pecados leves, a fim de mais e mais progredirmos na gra\u00e7a divina e, assim, tornarmos nossa vida e nosso minist\u00e9rio mais conformes \u00e0 vontade de Deus.<br \/>2) A acolhida \u00e9 um grande ato de miseric\u00f3rdia. De alguns anos para c\u00e1 muito se tem falado e at\u00e9 escrito sobre isso. Instituiu-se em alguns locais a Pastoral da Acolhida, ou seja, um grupo de pessoas que, nas entradas das igrejas, entregam o folhetinho da Missa e tamb\u00e9m cumprimentam os demais fi\u00e9is. Nessa hora, alguns tiram d\u00favidas do tipo \u201cQue horas posso falar com o padre\u201d? \u201cComo fazer para batizar meu netinho\u201d? \u201cSer\u00e1 que o padre vai visitar meu tio acamado\u201d?&#8230; Tamb\u00e9m em alguns locais o pr\u00f3prio sacerdote acolhe na porta principal da Igreja. Isso \u00e9 muito louv\u00e1vel, no entanto \u00e9 preciso mais: acolher misericordiosamente como Cristo acolheria nos momentos em que a pessoa mais precisa: luto, desaven\u00e7as, necessidades materiais etc. Como temos recebido aqueles e aquelas que v\u00eam at\u00e9 n\u00f3s em nossas par\u00f3quias e comunidades? Temos tempo ou nunca o temos para essas pessoas realmente necessitadas? Muitas vezes nossas secretarias s\u00e3o mais um guich\u00ea de departamento do que um local de evangeliza\u00e7\u00e3o na acolhida das pessoas.<br \/>3) A caridade material \u00e9 deveras importante, pois n\u00e3o se cuida s\u00f3 da alma de algu\u00e9m, mas tamb\u00e9m do corpo. O ser humano \u00e9 psicossom\u00e1tico (alma e corpo), de modo que precisa viver em harmonia: se uma das partes n\u00e3o est\u00e1 bem, a pessoa sofre muito no seu todo. Aqui se entende que as obras de miseric\u00f3rdia corporais elencadas no Evangelho de Mateus 25 se aplicam a todos. A antiga pr\u00e1tica de se recolher alimentos ou d\u00e1divas naturais no momento das ofertas da Missa, a fim de serem distribu\u00eddos aos mais necessitados, deve ocorrer, embora de modo diferente ainda nos nossos dias e sempre.<br \/>Sim, deve a par\u00f3quia ser um porto seguro ou, como gosta de dizer nosso querido Papa Francisco, um \u201chospital de campanha\u201d pronto a acudir os mais necessitados n\u00e3o s\u00f3 espiritual, mas tamb\u00e9m materialmente. As campanhas do quilo para montagem de cestas b\u00e1sicas, de rem\u00e9dios, de roupas (pensemos no inverno) ou outros bens s\u00e3o importantes. O padre, junto com grupos de leigos atuantes, atender\u00e1 a essas necessidades, formando uma comum unidade n\u00e3o s\u00f3 na f\u00e9, mas tamb\u00e9m na partilha. \u00c9 preciso que as pessoas voltem a dizer \u2013 n\u00e3o para aparecermos, mas para bem vivermos a ess\u00eancia da nossa f\u00e9 \u2013 a frase marcante dos primeiros crist\u00e3os: \u201cVede como eles se amam\u201d.<br \/>Amamo-nos em Cristo Jesus, a Pedra Angular da nossa f\u00e9, e por Ele amamos o pr\u00f3ximo praticando para com ele a caridade do samaritano&#8230;, caridade que n\u00e3o tem limites porque nos faz vivenciar a miseric\u00f3rdia do pr\u00f3prio Deus para conosco. Ele se compadece das nossas necessidades espirituais e temporais e vem em nosso aux\u00edlio e em aux\u00edlio daqueles a n\u00f3s confiados.<br \/>Se as pessoas n\u00e3o encontrarem as portas da igreja e&#8230; mais que isso, do nosso cora\u00e7\u00e3o abertas nos momentos mais dif\u00edceis de suas vidas, que sentido ter\u00e1 o jubileu em nossas vidas? Que uso teremos feito das gra\u00e7as que Deus nos deu neste Ano Santo? O que mudamos? O que ainda devemos mudar em nossa caminhada para sermos um pouco mais imagem do Filho de Deus ao mundo? A lei m\u00e1xima da Igreja, segundo o C\u00f3digo de Direito Can\u00f4nico, \u00e9 a salva\u00e7\u00e3o das almas. A resposta a essas quest\u00f5es \u00e9 pessoal e, \u00e0 luz da Par\u00e1bola meditada, teremos as respostas, com a gra\u00e7a de Deus que a ningu\u00e9m falta&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No dia festivo do Cora\u00e7\u00e3o de Jesus, n\u00f3s celebramos tamb\u00e9m o Dia Mundial de Ora\u00e7\u00f5es pela Santifica\u00e7\u00e3o do Clero. Todas as par\u00f3quias s\u00e3o convidadas a inserir essa inten\u00e7\u00e3o em suas ora\u00e7\u00f5es nessa sexta-feira do Cora\u00e7\u00e3o de Jesus. Por\u00e9m, com os sacerdotes, n\u00f3s fazemos a comemora\u00e7\u00e3o no dia anterior, na quinta-feira. 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