{"id":14050,"date":"2016-04-06T11:43:49","date_gmt":"2016-04-06T14:43:49","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/2016\/04\/06\/resistencia-2\/"},"modified":"2017-05-08T14:34:18","modified_gmt":"2017-05-08T17:34:18","slug":"resistencia-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/resistencia-2\/","title":{"rendered":"Resist\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Meu Deus,<br \/>N\u00e3o tenho mais nada!<br \/>N\u00e3o tenho mais roupas.<br \/>N\u00e3o tenho mais sapatos.<br \/>N\u00e3o tenho mais bolsa, carteira, caneta.<br \/>N\u00e3o tenho mais nome. Carimbaram-me 35.282 e levarei um tri\u00e2ngulo vermelho na minha manga esquerda.<br \/>N\u00e3o tenho mais cabelos.<br \/>N\u00e3o tenho mais fotos de minha m\u00e3e e meus sobrinhos.<br \/>N\u00e3o tenho mais antologia, onde cada dia aprendia uma poesia nova, na minha cela de Fresnes. N\u00e3o tenho mais nada. Meu cr\u00e2nio, meu corpo, minhas m\u00e3os est\u00e3o nuas.<br \/>SS.<br \/>Reviste, pilhe, raspe, animalize minha silhueta! Arme minhas m\u00e3os de p\u00e1s, enxadas! Fa\u00e7a de mim uma lenhadora, trabalhadora, limpadora de excrementos, for\u00e7ada dos p\u00e2ntanos! Esculpa meu rosto, minhas rugas para que eu me assemelhe a milh\u00f5es e milh\u00f5es de prisioneiras! D\u00ea a meus olhos esta fixidez de son\u00e2mbulo que descubro horrorizada nos olhos de minhas companheiras! Ensurde\u00e7a meus ouvidos com seus urros, use o porrete, d\u00ea pontap\u00e9s, assassine, entupa dia e noite teus cremat\u00f3rios com nossos corpos esquel\u00e9ticos! Ponha aos nossos olhos o espet\u00e1culo daquelas que morrem como animais, em um canto qualquer!<br \/>Fuzile, fira, enforque, atire sem parar jamais! Que importa&#8230;<br \/>SS, desde minha inf\u00e2ncia, meu pa\u00eds que \u00e9 a Fran\u00e7a fez de mim algu\u00e9m que caminha ao vento, os cabelos e o esp\u00edrito livres. Educou meu cora\u00e7\u00e3o, civilizou meus instintos, harmonizou minha sensibilidade, encheu minha cabe\u00e7a de m\u00fasica, poemas, livros amados. Cerrou-me de doces\u00a0 sorrisos infantis. Meu pa\u00eds, que \u00e9 a Fran\u00e7a, estendeu sobre mim sua ternura, a serenidade do seu c\u00e9u. Colocou no meu cora\u00e7\u00e3o, SS odiado, criminoso, um amor t\u00e3o profundo, que aqui, prisioneira, desarmada, nua, sinto-me rica como uma rainha e levanto orgulhosamente a fronte, escreve Catherine\u00a0 Roux.<br \/>Depois da revista de entrada,<br \/>Ravensbr\u00fcck, 23 de abril de 1944.<\/p>\n<p>TRI\u00c2NGULO VERMELHO<br \/> Eis o livro da coragem. Prefaciado pela intelectual francesa\u00a0 Genevi\u00e8ve Anthonioz de Gaulle. N\u00e3o do medo, e sabe Deus que ao medo se destinaram estas mulheres encurraladas, acuadas, torturadas, atiradas \u00e0s pris\u00f5es, para transpor depois os umbrais do mundo \u201cconcentra\u00e7\u00e3o\u201d entre os golpes, os gritos e os latidos dos c\u00e3es&#8230; Algumas repudiaram o medo mesmo em sonhos. \u201cNua, espancada, pisada, chicoteada, sem cabelos&#8230;\u201d.<br \/> Em Ravensbr\u00fcck, Catherine\u00a0 Roux descobrir\u00e1 o pior: a ferocidade existente no cora\u00e7\u00e3o de certos homens, e ir\u00e1 reencontrar com pavor suas irm\u00e3s em campo de concentra\u00e7\u00e3o: olhos sem ver, l\u00e1bios sem sorrir, rostos desumanos. \u00c9 a hora da verdade, quando a coragem n\u00e3o enfrenta apenas o medo, mas o desespero tamb\u00e9m. N\u00e3o existe aquele que tendo que atravessar este fogo n\u00e3o conservou uma alma em cinzas. Mas que vit\u00f3ria quando a alma permanece livre e terna como a de Catherine! \u201cMeu pa\u00eds colocou no meu cora\u00e7\u00e3o tanto amor, que l\u00e1, prisioneira, indefesa, nua, sinto-me rica como uma rainha e levanto a fronte orgulhosamente.\u201d<br \/> H\u00e1 tamb\u00e9m ternura nos desenhos de Jeannette L\u2019Herminier que ilustram\u00a0 livro \u201cTri\u00e2ngulo Vermelho\u201d, (o tri\u00e2ngulo vermelho era usado pelas prisioneiras no campo de concentra\u00e7\u00e3o nazista). No nosso Block de 40 \u2013 fizemos parte da mesma leva de 27.000 \u2013 ela rascunhava nossas silhuetas com um pedacinho de l\u00e1pis e papel \u201crecuperado\u201d. A mesma vontade de Jeannette que em Catherine de n\u00e3o se deixar destruir e ajudar aos outros a n\u00e3o se deixarem destruir. Catherine Roux e Jannette L\u2019Herminier se reencontraram em Holleischen, Kommando de Ravensbr\u00fcck. Como suas companheiras, sabotaram a usina de muni\u00e7\u00f5es, cataram as can\u00e7\u00f5es de Lorraine, Sambre, Meuse ou os Partisans nas estradas do campo a fabrica, descontrolaram as m\u00e1quinas no 14 de Julho, resistiram por todos os meus meios, todas suas fracas for\u00e7as, \u00e0 submiss\u00e3o.<br \/> Para castigar as da \u201cresist\u00eancia\u201d, o comandante do campo criou um Kommando especial. Durante todo o inverno (que ir\u00e1 at\u00e9 \u2013 35\u00b0) uma equipe de prisioneiras armadas de p\u00e1 e enxada constr\u00f3i uma escada. Sem roupas quentes, sem alimenta\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria durante as doze horas de trabalho \u2013 em\u00a0 repres\u00e1lia elas comem fora ao meio-dia e em p\u00e9 \u2013 estas mulheres, e entre elas Catherine, n\u00e3o s\u00f3 suportam suas provoca\u00e7\u00f5es como as superam. A \u201cStrassenkolonne\u201d \u2013 como \u00e9 chamada \u2013 encabe\u00e7a todas as reclama\u00e7\u00f5es, as iniciativas mais ousadas! M\u00fasculos endurecidos, resist\u00eancia espantosamente desenvolvida, temeridade astuta&#8230; Temos agora que enfrentar deliberadamente os golpes, dir\u00e1 Catherine. Tanto melhor, as prisioneiras encontram na floresta toda uma sorte de alegrias, de sonhos e como que uma dimens\u00e3o de liberdade.<br \/> \u00c9 preciso admitir, h\u00e1 por momentos em \u201cTri\u00e2ngulo Vermelho\u201d um tom de regozijo que surpreender\u00e1 o leitor, como o espantar\u00e1 tamb\u00e9m a serenidade dos desenhos de Jeannette L\u2019Herminier. Elas, nem uma nem outra, sofreram o horror da \u201csolu\u00e7\u00e3o final\u201d nos campos de concentra\u00e7\u00e3o, mas viram e suportaram a condi\u00e7\u00e3o de prisioneiras nos campos de concentra\u00e7\u00e3o. Se elas a transcenderam, foi \u00e0 for\u00e7a de coragem, cada dia mais humanas neste universo feito para desumaniz\u00e1-las.<br \/> Mulheres como Catherine e Jeannette ou os SS, v\u00ea-se bem quem foram os vencedores&#8230;<br \/>Vale a pena resistir, lutar, coragem na tormenta, acreditar que \u00e9 poss\u00edvel alcan\u00e7ar gloriosamente a vit\u00f3ria! Ao encontro dos resistentes, diante da brutalidade humana, chega uma for\u00e7a sobrenatural para fincar na hist\u00f3ria os her\u00f3is, seus legados e os males derrotados! A gra\u00e7a imensur\u00e1vel da dignidade da pessoa humana e muito mais alta do que natureza ca\u00edda da criatura humana. O bem sempre vence&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Meu Deus,N\u00e3o tenho mais nada!N\u00e3o tenho mais roupas.N\u00e3o tenho mais sapatos.N\u00e3o tenho mais bolsa, carteira, caneta.N\u00e3o tenho mais nome. 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