{"id":13833,"date":"2016-03-17T03:00:00","date_gmt":"2016-03-17T06:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/2016\/03\/17\/francisco-humildade-firmeza-e-misericordia\/"},"modified":"2017-05-08T15:08:38","modified_gmt":"2017-05-08T18:08:38","slug":"francisco-humildade-firmeza-e-misericordia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/catolicanet.net\/wp-cnet\/francisco-humildade-firmeza-e-misericordia\/","title":{"rendered":"Francisco: humildade, firmeza e miseric\u00f3rdia"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 tr\u00eas anos, o mundo, ainda um tanto surpreso com a ren\u00fancia do Papa Bento XVI, esperava a elei\u00e7\u00e3o do novo Sumo Pont\u00edfice. Nestes dias estamos comemorando a sua elei\u00e7\u00e3o (13) e o anivers\u00e1rio do in\u00edcio do minist\u00e9rio como Pastor Universal da Igreja (19). <br \/>Lembramos das especula\u00e7\u00f5es de nomes que na \u00e9poca se faziam e, como sempre, \u00e0s v\u00e9speras do conclave (reuni\u00e3o para a escolha de um Papa), a imprensa dera sua lista e os vaticanistas pontificavam em suas prefer\u00eancias.<br \/>A Igreja \u00e9 conduzida pelo Esp\u00edrito Santo e Deus tem seus des\u00edgnios para com a humanidade: os Cardeais escolheram um que estava fora da lista dos \u201cpapabile\u201d. No dia 13 de mar\u00e7o de 2013, depois da fuma\u00e7a branca sa\u00edda da chamin\u00e9 no alto da Capela Sistina, o Cardeal franc\u00eas Jean Louis Tauran, protodi\u00e1cono do Sacro Col\u00e9gio de Cardeais, anunciou, em latim, no balc\u00e3o da Pra\u00e7a de S\u00e3o Pedro, o novo Papa: Jorge Mario, Cardeal Bergoglio, que escolheu o nome de Francisco.<br \/>\u00c9 sempre uma efem\u00e9ride esse momento, tanto para os que est\u00e3o em Roma, que acorrem para a Pra\u00e7a de S\u00e3o Pedro, como para os que se encontram ligados nos meios de comunica\u00e7\u00e3o pelo mundo afora. Aos poucos come\u00e7aram a conhecer o novo sucessor de Pedro, sua hist\u00f3ria, suas ideias, seus projetos! Sabemos que nestes tempos de tantas tend\u00eancias, as interpreta\u00e7\u00f5es da hist\u00f3ria dependem da ideologia dos que comentam. O Papa Francisco aos poucos foi inovando o modo de agir como Papa, chegando mais pr\u00f3ximo das pessoas e concedendo entrevistas e respondendo cartas pessoalmente. Ele demonstra com clareza a defini\u00e7\u00e3o de sua miss\u00e3o: Servo dos Servos de Deus, como os Papas se autointitularam a partir do pontificado de S\u00e3o Greg\u00f3rio Magno, no fim do s\u00e9culo VI e in\u00edcio do VII.<br \/>Existe um clima de abertura e admira\u00e7\u00e3o, pois o Papa \u00e9 guardi\u00e3o do chamado Depositum Fidei (Dep\u00f3sito da F\u00e9). Por\u00e9m, o grande trabalho do Papa Francisco tem sido em como transmitir a Boa Nova de tal forma que contagie as pessoas e as leve ao encontro com o Senhor. Al\u00e9m disso, a preocupa\u00e7\u00e3o com as periferias existenciais que sofrem de diversas maneiras as dores dos tempos atuais. Sobre isso dizia Bento XVI na Missa de sua entroniza\u00e7\u00e3o: \u201cO poder conferido por Cristo a Pedro e aos seus sucessores \u00e9, em sentido absoluto, um mandato para servir. O poder de ensinar, na Igreja, obriga a um compromisso ao servi\u00e7o da obedi\u00eancia \u00e0 f\u00e9\u201d. (Homilia de 7 de maio de 2005).<br \/>O Papa Francisco tem desempenhado sua miss\u00e3o procurando, ao mesmo tempo em que \u00e9 guardi\u00e3o do deposito da f\u00e9, transmitir uma not\u00edcia nova que renove o mundo de hoje. <br \/>Com este pano de fundo entendemos que o riqu\u00edssimo pontificado do Papa Francisco est\u00e1 dentro de um kair\u00f3s que, ao iniciar com o Papa S\u00e3o Jo\u00e3o XXIII, chega at\u00e9 os dias de hoje com o grande Jubileu extraordin\u00e1rio da Miseric\u00f3rdia. Por isso, o atual pont\u00edfice traz consigo um pouco de todo esse tempo do conc\u00edlio e p\u00f3s-conc\u00edlio. Ele tem algo de S\u00e3o Jo\u00e3o XXIII, do Beato Paulo VI, de Jo\u00e3o Paulo I, de S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II e de Bento XVI que, por sua vez, trazem consigo a Tradi\u00e7\u00e3o bimilenar da Igreja \u00e0 qual foram obedientes, embora tenham feito, a seu modo, reformas (disciplinares ou pastorais) na Igreja, conservando o dep\u00f3sito da f\u00e9. (Cf. Dom Est\u00eav\u00e3o Bettencourt, OSB. Inicia\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica. Rio de Janeiro: Mater Ecclesiae, 2013, p. 181-182).<br \/>De S\u00e3o Jo\u00e3o XXIII, Francisco tem em comum n\u00e3o s\u00f3 a idade muito pr\u00f3xima, pois foi eleito Papa com 76 anos, um ano a menos que o Papa do Conc\u00edlio, e escolheu o nome de Francisco em honra a S\u00e3o Francisco de Assis, ao passo que S\u00e3o Jo\u00e3o XXIII tamb\u00e9m era profundamente franciscano como membro da Ordem Franciscana Secular (OFS), naquele tempo chamada de Ordem Terceira. As semelhan\u00e7as n\u00e3o param a\u00ed. Ambos querem uma Igreja mais simples, na liberdade de o Papa ter contato com o Povo de Deus, inclusive nas ruas, e que seja visto, realmente, como um servidor e anunciador do Evangelho, e n\u00e3o apenas como um chefe de Estado a visitar outros pa\u00edses. As reformas de S\u00e3o Jo\u00e3o XXIII foram abrangentes nas v\u00e1rias \u00e1reas da Igreja; as de Francisco s\u00e3o mais modestas, por\u00e9m n\u00e3o menos decisivas, haja vista a celebra\u00e7\u00e3o do S\u00ednodo da Fam\u00edlia, da reforma na condu\u00e7\u00e3o dos processos de nulidade matrimonial, da C\u00faria Romana e tantos outros atos importantes.<br \/>Como o Beato Paulo VI, Francisco valoriza o di\u00e1logo ecum\u00eanico, a simplicidade no modo de escrever, sem necessariamente produzir um texto muito carregado de cita\u00e7\u00f5es ou de termos teol\u00f3gicos elevados. Tamb\u00e9m, inegavelmente, partilha com o Papa Montini da via do sofrimento e da incompreens\u00e3o por alguns gestos que realiza ou atitudes que toma \u00e0 frente da Igreja.<br \/>\u00c0 moda de Paulo VI, Francisco quer ouvir todos aqueles que dele se aproximam pessoalmente ou por cartas, respondidas, \u00e0s vezes, com um surpreendente telefonema papal. N\u00e3o parece ter medo do contradit\u00f3rio. N\u00e3o se fecha, pois \u00e9 homem de f\u00e9 madura, aprendida na escola de Santo In\u00e1cio de Loyola. Ningu\u00e9m deve se cansar de dialogar nunca a fim de conquistar o outro, n\u00e3o para subjug\u00e1-lo, mas para demonstrar o seu valor como ser humano criado \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a de Deus.<br \/>De Jo\u00e3o Paulo I, Francisco nos traz o sorriso alegre, verdadeiro e contagiante, bem como a inten\u00e7\u00e3o de repetir, sem nunca se cansar, de que Deus \u00e9 ternura e, por isso, miseric\u00f3rdia. Sim, o \u201cPapa sorriso\u201d dizia em seu curt\u00edssimo pontificado que Deus \u00e9 Pai e M\u00e3e! Ora, quem pode se mostrar mais pr\u00f3ximo de n\u00f3s do que uma verdadeira m\u00e3e a dar a vida pelos seus filhos? S\u00f3 Deus! Isso j\u00e1 diz a Escritura ao opor a falta de amor materno de uma desleixada ao amor misericordioso de Deus: a m\u00e3e displicente at\u00e9 pode se esquecer do filho que gerou, mas Deus n\u00e3o (cf. Is 49,15). Ele \u00e9, portanto, em linguagem antropom\u00f3rfica, Pai e M\u00e3e!<br \/>Ora, Francisco convoca o Ano Extraordin\u00e1rio da Miseric\u00f3rdia num momento muito crucial da humanidade, a fim de dizer aos homens que, n\u00e3o obstante os nossos pecados, o Senhor nos espera de bra\u00e7os abertos, pois Ele olha o que somos em nossa pureza original e n\u00e3o o que nos tornamos pela fei\u00fara do pecado. Ensina-nos a Teologia e isso nos \u00e9 recordado agora pelo Papa que miseric\u00f3rdia n\u00e3o \u00e9 apenas um atributo de Deus, mas \u00e9 a sua \u201cidentidade\u201d, como nos fala no livro-entrevista O nome de Deus \u00e9 miseric\u00f3rdia (S\u00e3o Paulo: Planeta, 2016, p. 37), que vale a pena ser lido e meditado. Deus \u00e9 a Justi\u00e7a!; Deus \u00e9 a pr\u00f3pria miseric\u00f3rdia!<br \/>Escreve, a prop\u00f3sito, o saudoso te\u00f3logo Pe. Paschoal Rangel, SDN: \u201cA \u2018miseric\u00f3rdia\u2019 de Cristo n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma quest\u00e3o de ser bondoso, de ter pena ou sentimentos de amor delicado. H\u00e1, no caso do Cora\u00e7\u00e3o de Jesus (ou de Jesus simplesmente), um sentido teol\u00f3gico forte, muito radical, fundado no pr\u00f3prio des\u00edgnio de Deus em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Encarna\u00e7\u00e3o. Por eterna vontade do Pai, o Verbo se encarnou \u2018por causa de n\u00f3s homens e para nossa salva\u00e7\u00e3o\u2019 (S\u00edmbolo Niceno-Constantinopolitano). A Encarna\u00e7\u00e3o tende, por decreto divino, para o perd\u00e3o do pecado do homem. O Filho teria de ser aquele que \u2018tira o pecado do mundo\u2019 (Jo 1,29). Tudo nele \u00e9 feito para o perd\u00e3o, a miseric\u00f3rdia. Ele \u00e9 mais do que aquele que perdoa: Ele \u00e9 Perd\u00e3o, o Perd\u00e3o. Ele \u00e9 Amor. Por isso, a Miseric\u00f3rdia. N\u00e3o apenas tem miseric\u00f3rdia. Ele \u00e9 Miseric\u00f3rdia, porque \u00e9 Jesus (Yeshu\u00e1h, isto \u00e9, salva\u00e7\u00e3o). Salvador, em Jesus, n\u00e3o \u00e9 adjetivo. \u00c9 a sua subst\u00e2ncia. Seu Ser inteiro\u201d.<br \/>\u201cQuando tivermos compreendido isto, teremos compreendido tamb\u00e9m o exerc\u00edcio da miseric\u00f3rdia nele. Sua miseric\u00f3rdia vaza, por assim dizer, de sua subst\u00e2ncia interior, do ser de Salva\u00e7\u00e3o que Ele \u00e9. O Deus-Homem s\u00f3 existe assim, para isso: para ser Miseric\u00f3rdia\u201d. (Sagrado Cora\u00e7\u00e3o do homem, p. 82).<br \/>Com S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II, a quem o Povo de Deus, por meio do senso da f\u00e9, aclamou \u201cSanto s\u00fabito!\u201d (\u201cSanto j\u00e1!\u201d), por ocasi\u00e3o das suas ex\u00e9quias, nosso Papa Francisco traz o carisma de acolher, de envolver, de falar de improviso, de quebrar protocolos, de agradar aos jovens e \u00e0s crian\u00e7as, de aben\u00e7oar, de viajar pelo mundo anunciando o Evangelho (sua primeira viagem apost\u00f3lica foi ao Rio de Janeiro para a JMJ), de receber e visitar chefes de Estados com a determina\u00e7\u00e3o s\u00e9ria de pedir-lhes a paz e o bem \u2013 lema franciscano \u2013 ao seu povo.<br \/>Francisco se esfor\u00e7a, com ardor, pelo di\u00e1logo interreligioso previsto na Nostra Aetate, do Conc\u00edlio Vaticano II, a ser realizado com todas as religi\u00f5es em favor de pontos comuns para a humanidade. Ora, Jo\u00e3o Paulo II foi a Assis, em 1986, para se encontrar com l\u00edderes religiosos mundiais e era, assim como Francisco, amigo de judeus e mu\u00e7ulmanos. No pontificado de Francisco, saiu o reconhecimento oficial do Estado da Palestina, tema que muitas pot\u00eancias mundiais temem tocar. Ambos podem ser chamados de art\u00edfices da paz, a mediar, por meio dos organismos da Santa S\u00e9, conflitos internacionais. Veja, agora, a aproxima\u00e7\u00e3o Cuba-Estados Unidos.<br \/>Com Bento XVI, Francisco guarda a firmeza no dizer o que tem de ser dito em defesa da vida, da fam\u00edlia, da doutrina. Sim, no livro-entrevista que fizemos refer\u00eancia acima, nosso Papa fala com todas as letras que a Igreja \u00e9 M\u00e3e misericordiosa, mas isso n\u00e3o a faz negar o pecado. Diz ele: \u201cA Igreja condena o pecado, porque deve dizer a verdade: isto \u00e9 um pecado. Mas, ao mesmo tempo, abra\u00e7a um pecador que se reconhece como tal, o aproxima e fala com ele sobre a miseric\u00f3rdia infinita de Deus. Jesus at\u00e9 perdoou aqueles que O puseram na cruz e O desprezaram. Temos de voltar ao Evangelho\u201d (p. 84).<br \/>Sobre o aborto, o Papa foi enf\u00e1tico: \u201cN\u00e3o parece fact\u00edvel um caminho educativo para acolher os seres fr\u00e1geis que nos rodeiam, que de repente nos atrapalham e s\u00e3o inoportunos, se n\u00e3o protegemos um embri\u00e3o humano, embora sua chegada nos ocasione desconfortos e dificuldades\u201d, indicou o Santo Padre. Mais: \u201cEm vez de resolver os problemas dos pobres e de pensar num mundo diferente, algumas pessoas prop\u00f5em a redu\u00e7\u00e3o da natalidade\u201d, lamentou o Pont\u00edfice. (Cf. ACI, 19\/06\/15, online).<br \/>O Papa defendeu a postura da Igreja ante a cultura do descart\u00e1vel n\u00e3o s\u00f3 para com os seres humanos n\u00e3o nascidos, mas tamb\u00e9m para com os idosos, v\u00edtimas em potencial da eutan\u00e1sia. Disse ele que existe uma \u201cfalsa compaix\u00e3o\u201d por detr\u00e1s da promo\u00e7\u00e3o da eutan\u00e1sia e do aborto, e assegurou que quem promove estas pr\u00e1ticas tem o comportamento dos mafiosos. Os promotores do aborto e da eutan\u00e1sia, observou, pensam desta maneira: \u201cexiste um problema, eliminemo-lo\u201d, mas \u201ca fidelidade ao Evangelho da vida, \u00e0s vezes, requer escolhas corajosas e contra a corrente que, em certas circunst\u00e2ncias, podem chegar \u00e0 obje\u00e7\u00e3o de consci\u00eancia\u201d. (ACI, 27\/07\/15, online).<br \/>Disse, em N\u00e1poles, que a \u201ccorrup\u00e7\u00e3o fede\u201d e \u201cquem voluntariamente pega a estrada do mal rouba um peda\u00e7o de esperan\u00e7a, ganha um pouco de alguma coisa, mas rouba esperan\u00e7a a si mesmo, aos outros, \u00e0 sociedade. A estrada do mal \u00e9 uma estrada que sempre rouba a esperan\u00e7a e tamb\u00e9m a rouba \u00e0 gente honesta e trabalhadora, e tamb\u00e9m ao bom nome da cidade, \u00e0 sua economia\u201d. Grande li\u00e7\u00e3o para os nossos dias!<br \/>Isso \u00e9 um pouco do muito que se poderia dizer do belo e prof\u00edcuo pontificado de Francisco cujo terceiro ano comemoramos nestes dias. Mais: sem sombra de d\u00favida o Pontificado do Papa Francisco \u00e9 profundamente marcado pela semana que passou em nosso meio, aqui no Rio de Janeiro, na aben\u00e7oada e inesquec\u00edvel JMJ. Por tudo isso, pelo seu exemplo de uma \u201cIgreja em sa\u00edda\u201d, ao encontro dos que dela, como M\u00e3e e Mestra, precisam, queremos louvar e agradecer a Deus, confiando \u00e0 poderosa intercess\u00e3o do justo S\u00e3o Jos\u00e9, o seu Pontificado, e que nunca lhe falte a gra\u00e7a divina a nos levar para o encontro de Cristo!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 tr\u00eas anos, o mundo, ainda um tanto surpreso com a ren\u00fancia do Papa Bento XVI, esperava a elei\u00e7\u00e3o do novo Sumo Pont\u00edfice. Nestes dias estamos comemorando a sua elei\u00e7\u00e3o (13) e o anivers\u00e1rio do in\u00edcio do minist\u00e9rio como Pastor Universal da Igreja (19). 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